Intocável
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Seu rosto era sereno enquanto ela dormia, os cabelos esparramados pelo travesseiro da última cama da fileira na enfermaria. Ela respirava calma e serena, como se estivesse dormindo por dormir, e não porque desmaiou.
Ao carregá-la nos braços até ali, Snape pode reparar nos detalhes de seu rosto, em algumas veias finas que apareciam em suas bochechas, no traço fino e delicado que sua boca possuía, e nos cilíos tão claros que quase pareciam inexistentes, pôde sentir sua respiração fraca e baixa, e apertou o passo enquanto subia as escadas na direção da enfermaria. Os corredores estavam vazios, com exceção de alguns alunos aqui e ali, e desses, um ou outro viram Snape carregando a aluna, e todos tiveram a mesma reação mesclada de curiosidade e estranheza, e nenhum perguntou nada.
Assim que seus olhos abriram e a luz os invadiu, sua cabeça latejou por alguns segundos. Piscou com força e abriu os olhos novamente, olhou ao redor e viu três pessoas: Severus Snape, Minerva McGonagall e Madame Pomfrey, conversando entre si, até que uma das duas mulheres olhou em sua direção e deu um pequeno salto ao vê-la acordada.
– Oh! Achei que fosse dormir até amanhã, fraca do jeito que está. Deixe-me checar a temperatura. — e Madame Pomfrey, a enfermeira, colou as costas de sua mão na testa de Rowan para depois constatar que estava não havia febre.
Pomfrey se levantou para pegar uma jarra que estava ao lado da cama, e encheu um copo com o conteúdo líquido, parecia suco de abóbora, e quando Rowan bebeu, por ordem da enfermeira, percebeu que de fato era.
– Obrigada. — Rowan disse assim que bebeu o primeiro gole.
– Ora, não há de quê. Você está fraca, sabia disso? Quanto tempo faz que a senhorita não come? Certamente bastante, vou buscar algo para você se alimentar, passará a noite aqui, nem pense em sair. — a senhora falava apressada — Você me ouviu, mocinha? Não se mova. Eu estarei de volta logo.
E dizendo isso, a enfermeira saiu andando apressadamente, deixando Rowan com um copo de suco de abóbora e dois professores que a encaravam. McGonagall foi a primeira a dizer algo.
– Como se sente?
– Eu estou bem, de verdade. Mas não me lembro de como cheguei até... — apontou para toda a enfermaria — aqui.
– Certamente que não se lembra! Estava desmaiada, o Professor Snape a trouxe.
Ele ainda não tinha dito nenhuma palavra, permanecia exatamente onde estava quando ela abriu os olhos, e a encarava desde então. Lembrou-se de estar falando com ele, depois lembrou-se de cair no chão. Mas ainda que ele tivesse sido a última pessoa com quem falou, ainda estava surpresa que o mesmo a tivesse levado até ali, sinceramente ela acreditaria mais se lhe dissessem que um dragão apareceu e a carregou até ali enquanto Snape largava-a no chão.
– Oh...obrigada. — disse à ele, que não respondeu.
– Bem, eu entendo que a senhorita passou por um grande...trauma. — era meio cômico como Minerva tentava amenizar a situação usando eufemismos e pensando cuidadosamente em cada palavra — Entendo que está sendo díficil, mas não pode se deixar adoecer, Becrux, mostrou grande responsabilidade ao decidir fazer todas as suas atividades escolares normalmente, mas como espera conseguir continuar com isso se esquece de se alimentar? — um pequeno sorriso surgiu no rosto da professora. — Fico feliz em saber que está bem, agora, descanse. Até mais, senhorita Becrux.
E pelo mesmo caminho por onde Madame Pomfrey saira minutos atrás, Minerva McGonagall saía agora. Deixando-a com um copo, agora vazio, e com Snape.
– Até mais, professora.
Rowan arrastou-se para trás, encostando-se na cabeceira não muito confortável da cama, seu braço esquerdo doía um pouco, talvez tenha caído em cima dele ao desmaiar. Colocou o copo no pequeno criado-mudo ao lado da cama, para que pudesse ajeitar os travesseiros na vertical e apoiar-se neles. Fez tudo isso enquando Snape a encarava, imóvel.
– Céus, diga alguma coisa. — sua voz soou um pouco fraca, mas fez Snape acordar de seus próprios pensamentos.
– Seu pergaminho está ao lado da cama. — e no mesmo criado mudo onde estava agora seu copo vazio, também estava o pergaminho que ela carregava quando foi falar com Snape mais cedo.
– Obrigada. Quase me esqueci que estava carregando-o.
Silêncio. Silêncio demais. Nenhum som a não ser o do ponteiro de algum relógio. Mais silêncio.
Se ele não vai dizer nada então porque ainda está aqui?
– Bem...obrigada de novo por...me trazer até aqui, sabe, se eu não estivesse falando com o senhor na hora do desmaio, acho que estaria desmaiada embaixo duma árvore nesse exato momento. — era impossível saber se a tentativa de comentário engraçacinho para quebrar o gelo funcionou, uma vez que Severus Snape não parecia ser capaz de mudar sua expressão carrancuda.
– Só não espere que eu esteja presente todas as vezes que desmaiar.
Rowan limitou-se a dar um pequeno sorriso carregado de ironia, e responder:
– Ah, isso eu não espero mesmo.
Observou Snape ajeitar sua longa capa preta enquanto ignorava, ou fingia que ignorava o comentário dela. Os cabelos medianos de aparência oleosa caíram-lhe sobre o rosto, encobrindo parte dele, de modo que apenas a ponta de seu nariz ficasse visível. Suas mãos, ela reparou enquanto ele batia em alguma poeira nas mangas da roupa, eram surpreendemente delicadas. Imaginou que na verdade, não fosse tão surpreendente assim, ele ensinava poções, mexia com ingredientes, tinha que ter precisão, era como cozinhar, talvez o estranho fosse se ele tivesse mãos brutas, afinal.
Parece que algumas coisas simplesmente não condizem com a impressão passada.
– Muito bem! Hora de comer! — falando alto, como se estivesse anunciando a Copa Mundial de Quadribol, Madame Pomfrey entrou na enfermaria, trazendo uma bandeja onde provavavelmente se encontrava seu almoço, ou seria jantar?
Que horas são?
– Aqui está, querida, coma tudo. Não ouse deixar um pedaço de torta sequer, ou um gole de suco. Bom apetite. — e assim a enfermeira colocou delicadamente a bandeja no colo de Rowan e destampou-a.
Madame Pomfrey era uma figura peculiar, ao mesmo tempo que se assemelhava à uma diretora rígida, também se parecia com uma figura materna. Rowan sentiu falta de sua mãe naquele momento, sentiu muita falta, uma pontada lhe atingiu no peito, como se pudesse sentir sua mãe sendo levada para longe de si.
Começou a comer e só então percebeu que estava com fome, o gosto da torta parecia dez vezes melhor do que todas as outras vezes que já comera. Às vezes só se percebe que precisa de algo quando esse algo é colocado na sua frente, aquela torta era exatamente o que ela precisava (não exatamente...mas certamente estava na lista).
– Está com fome, hein?! — ouviu uma voz conhecida dizer, e olhou para a direção onde antes encontrava-se Snape, que agora parecia ter aparatado para longe e dado lugar aos cabelos ruivos e sardas de Bill Weasley.
Ficou feliz em vê-lo, sorriu largamente.
– Que susto, Rowan! — seu tom de voz agora, diferente de dez segundos atrás, era sério e preocupado — Eu não consegui encontrá-la hoje o dia todo, achei que queria ficar sozinha, encontrei McGonagall por acaso no corredor, e ela me disse que estava aqui, eu vim correndo.
– Bill...eu...
– Não. Sem desculpas, sem explicações. — ele sentou-se ao lado dela e suspirou, ela soube o que estava por vir, era o que ela vinha evitando ultimamente. Bill suspirou, e começou a falar. — Rowan, o que aconteceu com você, eu não desejaria isso à ninguém, não é justo, é cruel. Mas você não está sozinha, sabe disso, não sabe? Não precisa estar sozinha. Entendi que a princípio você preferisse se isolar, e respeitei isso...na verdade, eu não fazia ideia de como te consolar, ainda não faço, na verdade.
Pretendeu dizer que estava bem, que tudo estava bem, que ele não precisava fazer um discurso, não agora. Não disse. Ele não deixou.
– Pare de tentar fugir desse assunto, pare de querer fingir que está tudo absolutamente normal. Fazer todos os trabalhos que você perdeu? Se preocupar com suas aulas? Não tente me dizer que está simplesmente sendo uma boa aluna, você está fugindo.
Rowan sabia que era verdade, tudo o que ele disse, todo o discurso, ela sabia que cada parte dele era verdade. Assim como sabia, agora com mais clareza do que jamais teve, que Bill era seu amigo, seu único amigo, sem exagero, sem clichê, sem drama, ele era de fato o único amigo que Rowan tinha, e no momento, o único que ela acreditava que realmente se importava.
– Bill...obrigada. — não disse mais nada, nunca fora mesmo de muitas palavras, mas ele sabia disso, e a abraçou, quase derrubando a bandeja de seu colo.
– Não precisa me agradecer por nada, só precisa saber que eu estou aqui. — olhou-a e sorriu. — Agora, coma, coma muito, de preferência, fique bem gorda, inclusive!
Ela pode rir, de leve. Ele possuía o dom que aparentemente todos os Weasleys possuíam, fazer os outros se sentirem melhores e reconfortados.
– Ahn, por acaso você viu pra onde o Professor Snape foi? Ele estava aqui agora a pouco e...sumiu.
– Sugado pelas sombras que o envolvem, uma fumaça negra girou ao redor dele e ele sumiu em questão de segundos, sempre suspeitei que ele fosse uma espécie de criatura noturna! — Weasley brincou, gesticulando com as mãos enquanto fazia contava sua historinha. — Na verdade, ele saiu assim que entrei.
– As sombras seriam mais interessantes. — Rowan comentou, e ambos riram.
E Bill riu mais ainda depois, quando Rowan contou-o que fora Snape que a havia levado até ali, duvidou e disse que perguntaria à Carlinhos sobre a hipótese de um dragão tê-la levado ao invés do Mestre das Poções.
Mais tarde, quando estava sozinha na enfermaria, sem sono, concluiu que depois de uma série de eventos em coincidência que a fizeram topar no caminho de Severus Snape nos últimos dias, finalmente as coincidências acabaram, logo depois que ele saiu sem que ela nem ao menos percebesse. Não cruzaria mais com ele, com exceção das aulas.
Não podia estar mais enganada.
Assim como Severus Snape, em seu quarto, naquela mesma noite, no mesmo horário, sentado em sua cama, não podia estar mais enganado ao pensar que os cabelos loiros que apareceram de relance em seus sonhos alguns minutos antes, não pertenciam à sua aluna.
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