Intocável

1 Intocável


Ela sempre esteve ali. Sob o mesmo teto. No mesmo corredor. Dividíamos a mesma mesa. O mesmo ar. Mas nunca o mesmo olhar...

Porque sempre foi tão difícil... Tão amedrontante sentir que o coração estava vivo novamente.

E naquele momento ela estava ali. Inconsciente. Eu confiava na Capitã Unohana e sabia que logo ela estaria recuperada. Mas ainda doía... Doía duas vezes. Ter que olhá-la, aquele rosto de anjo adormecido... E ferido.

Flashback

Nós mal nos falávamos, mas nossos quartos eram bem próximos. Eu ainda podia ouvir esporadicamente alguns sons que vinham daquela outra parede quando passava pelo corredor. Era um modo talvez de conhecê-la.

Tudo que eu tinha sobre ela eram aqueles olhos azuis enormes que brilhavam tanto que me impediam que eu os pudesse olhar constantemente. Eram tão especiais que eu não podia. E aquele rosto... O modo como ele era profundamente melancólico e ao mesmo tempo inspirador. Mas eu não podia... Eu não devia... Algumas vezes, passeávamos juntos e ela assistia a alguns treinos meus. Mas eu ainda não podia assisti-la.

Com algum tempo morando juntos, ela se adaptou facilmente aos costumes nobres, como se apenas tivesse sofrido um lapso de memória e houvesse esquecido momentaneamente deles. Delicada. Dedicada. Esforçada. Brilhante... Não precisava fitá-la para saber.

Secretamente eu a admirava. E decididamente a protegeria. Não importava como. Mesmo que naquela cabeça nunca nem se imaginasse. Mesmo que a minha mente quisesse tanto se fechar. Era a voz do meu coração. E por experiência, sabia como ela podia ser tão mais forte que todo o resto do corpo.

Era uma noite e deveria ser como outra qualquer. Mas já passava das onze e eu não conseguia dormir. O silêncio naquela casa tão grande e vazia era tanto que eu podia ouvir a brisa lá fora, qualquer movimento, menor que este fosse. E foi sem aviso que ouvi o leve ruído agudo de uma porta abrindo. O movimento suave... Era ela. Por algum motivo, meu coração sobressaltou-se naquela calmaria toda. Mas permaneci apenas em espera. Passaram alguns segundos e a luz do corredor ainda estava apagada. Em minha mente, ela estava apenas com sono demais para lembrar-se de acendê-la.

Virei-me para o outro lado na cama, ainda incapaz de fechar os olhos. Sentia o frio da noite e ainda seu silêncio confortador e ao mesmo tempo solitário. O mundo parecia tão devagar e vazio... Mas essa sensação não durou muito tempo. Porque o mundo devagar de repente deixou de existir com o palpitar frenético do meu coração e agora eu tinha certeza de que ele não estava vazio e eu não estava sozinho. Aquele estrondo... Aquele barulho dolorido...

Levantei-me o mais depressa que me lembrava de ter levantado e corri para o corredor escuro. Acendi a luz sem hesitar com as mãos o mesmo que estava tremendo por dentro. Corri até a beirada da grande escadaria que dava para o andar de baixo e confirmei minhas suspeitas. Ela estava ali, alguns degraus abaixo. Não sabia o que tinha acontecido, mas ela provavelmente havia caído ou tropeçado no escuro. Ainda não estava acostumada o suficiente com a casa. Seu rosto parecia hesitar em virar-se na direção da luz. As pernas afastadas em direções opostas faziam a camisola subir até dar vista ao sangue que saía de seu joelho e o vermelho que ficara em sua perna. Parecia querer levantar, mas estava tão lenta. Ainda pude ouvi-la gemer de dor. Mesmo assim, determinadamente jogou seu peso nos pulsos para levantar.

Eu não ia deixar. Aquela visão... Rukia... Era como um anjo ferido. E meu coração rejeitava ter que ignorar aquela cena com todas as suas forças.

- Rukia... – eu proferi sem nem me dar conta.

Então, antes que se levantasse, talvez por ouvir minha voz, talvez por ter sentido também que os pulsos estavam fracos ou doloridos, ela virou lentamente seu rosto iluminado para mim.

A pele alva agora tinha um toque de rubor. E os olhos grandes e expressivos eram líquidos. Não acredito que fossem lágrimas. Mas talvez fosse a surpresa... Talvez fosse o movimento do seu brilho.

- Nii-Nii-sama... – ela gaguejou com a voz tímida – Eu... – o rubor tornou-se mais evidente quando ela abaixou os olhos azuis. – Eu tropecei. – disse bem baixinho.

Eu continuava olhando para as pernas dela. O sangue... O avermelhado... Quando eu via aquelas marcas, não podia desviar os olhos, por mais que eu tivesse a consciência de que não devia continuar. Ela encolheu-se e fechou as pernas, puxando delicadamente a camisola para baixo num gesto infantil e decidido. Apoiou-se para levantar novamente, mas outro gemido denunciou que tinha mesmo machucado os pulsos.

Não esperei mais. Aproximei-me o mais rápido que podia.

“Eu vou te levar para o quarto”, era o que eu ia dizer em seguida. Mas como deve ser, apenas adverti:

- Não ande pela escada no escuro. – esse era o meu lugar.

Mas mesmo que não tenha soltado as palavras, sabia do que ela estava precisando. E nesse momento... Nesse momento, eu só tinha que protegê-la.

Passei então os braços por baixo de suas pernas e levantei-a do chão no momento em que me levantei também. O gesto e a proximidade fizeram com que o rosto dela parecesse ainda mais corado. Ela tentou mais uma vez puxar a camisola, envergonhada. Hesitou por alguns instantes com os olhos enormes piscando em minha direção até que pousasse suas mãozinhas inaceitavelmente feridas no meu peito. Sua pele era quente, eu senti. E tão macia quanto sua voz.

Subi as escadas tentando não pensar mais e levei-a até o quarto. Fomos em silêncio... Se é que aquele olhar ora em mim, ora fugindo para baixo estava mesmo tão quieto. Se é que meu peito o estava.

Abri a porta do seu quarto e pousei-a suavemente na cama. Tomei a liberdade de sentar-me junto a ela. O que fez aqueles olhos crescerem um pouco mais. Mas ela não estava me rejeitando. Naquele momento... Só estava protegendo-a.

- Sente muita dor? – perguntei pegando a sua mão dolorida e vermelha.

- Não. – ela disse com força demais para negar. O modo como comprimiu levemente os lábios quando apertei em torno do seu pulso contrariou totalmente sua palavra.

- Você se apoiou com os pulsos quando caiu. – deduzi.

Ela fez que sim timidamente com a cabeça.

Sem hesitações levei a mão à perna machucada dela. Toquei-lhe o joelho e num ato reflexo, ela encolheu-se e tremeu. Mas não se retirou de perto de mim ou afastou minha mão. Depois do susto, continuou ali, receosa, mas de alguma maneira, confiante nas minhas ações. Subi então a mão para perna dela. Afastei um pouco a ponta da camisola, o que a deixou novamente e puerilmente sobressaltada. Além de ainda mais corada.

Toquei com delicadeza o avermelhado de sua coxa. Mesmo assim parecia bem dolorido, pelo seu semicerrar de olhos.

- Nii-sama... – ela disse de repente. – Não precisa... Se preocupar comigo. Estou bem. – pôs a mão em cima da minha. Mas logo a retirou assustada com sua própria ousadia. Achava que eu fosse pensar assim. Mas ela só queria ser forte, eu sabia.

- Deixe-me cuidar de você... – eu disse com a mão teimosa no mesmo lugar. E como continuava a sentir os olhos dela sobre mim, levantei o meu olhar para encontrá-los. – Essa também é minha função.

Sua feição tremeu. Por um instante não sabia como interpretá-la. Os lábios... Pareciam querer formar um pequeníssimo sorriso. Mas pararam. E seu rosto ficou apenas afável, num misto de emoção e agradecimento. A humildade dela está nesses pequenos gestos... Nesses tantos gestos... Privados aos meus olhos.

Invoquei um kidou de cura e voltei a pegar aquelas mãozinhas delicadas. Enquanto as segurava, olhava seriamente para a luz ao redor. Ela acompanhava meu olhar.

- Sente-se melhor? – perguntei subindo os olhos para ela.

Ela fez que sim com a cabeça com o sorriso quase saindo.

Agora era hora de cuidar dos joelhos. Ainda sangravam. Só estavam ralados, mas sangravam. E as coxas ainda estavam vermelhas pela pancada. Ela era mesmo nobre... Sensível... Mas sem deixar de ser forte. Uma nobreza de alma.

Direcionei o kidou para seus joelhos então. O sangue foi sumindo lentamente, fazendo com que sua pele voltasse a ser imaculada do jeito que devia ser. Terminei o serviço curando as manchas em suas coxas. Agora podia sentir que ela olhava para meu rosto.

- Rukia... – disse assim que a luz do kidou se apagou. Olhava para ela a certa distância. A frieza da voz fazia essa barreira. – Você já devia estar dormindo a essa hora da noite.

Ela abaixou mais uma vez o olhar timidamente.

- Eu... – não esperei que fosse falar algo. – Eu tive um pesadelo e... E queria beber um pouco de água... – explicou-se sem me olhar.

Senti uma pequena pontada. O que será que a afligia? Eu não podia usar um kidou para curar seu coração e nem sua mente. Mas também não podia assistir sua ferida, mesmo que eu não pudesse de fato vê-la. Eu sabia que ela estava ali e isso era o que não podia suportar.

Olhei para ela e seu rosto ainda estava abaixado e avermelhado. Suas sobrancelhas estavam apertadas agora, ela mordia levemente os lábios, como se tivesse se arrependido de ter aberto a boca.

- Um pesadelo... – eu disse meio que pensativamente, talvez quebrando a barreira para que ela se sentisse mais à vontade. Ela olhou para o meu rosto vago que fitava algo no ar. – Com o que você anda preocupada?

Ela juntou as mãozinhas.

- N-não... Nada. Quero dizer... Tudo... Está tudo bem. Eu tenho uma casa nova, eu tenho tudo o que eu quero e...

- Rukia... – olhei firmemente para ela, tentando enxergar sua ferida. – O que está te atormentando?

Ela ficou muda e parada. Mas eu insisti com meu olhar, aquele tão raro. E então ela desviou lentamente os olhos azuis. E eles começaram a encher-se. Seus lábios se comprimiram tentando evitar que aquele jorro continuasse... Mas se ela estava machucada, eu ia protegê-la.

- Solidão. – ela disse enfim, espremidamente, como quem faz um grande esforço.

Confesso que meus olhos se arregalaram de surpresa nesse momento. E talvez de uma dor dividida.

Solidão... Eu podia curá-la de arranhões e pancadas, mas a solidão... A solidão a vinha maltratando sem que eu percebesse... Gradativamente.

- Eu não devia estar assim... – ela disse envergonhada e secou com força os olhos. – Foi só... Foi só um sonho...

Não esperei mais. Peguei sua mão e puxei-a. Envolvi-a com os braços. Sim... Eu a estava tocando com o corpo, a estava abraçando. Meu orgulho ferido.

- Nii-Nii-sama... – ela estava paralisada de incredulidade.

Mas não demorou muito para que se deixasse relaxar. Ela também queria que aquela ferida fosse curada.

Pareceu ficar mais próximo seu pequeno corpo do meu. Sentia seu cheiro doce e puro como de uma brisa vinda do céu azul da manhã. Sua pele intocada encostando por sobre minha roupa... Não esquecerei nenhum detalhe.

- Nii-sama... – a voz dela soprou no meu ouvido.

Ela aconchegou-se como uma criança no meu peito. Fechou seus grandes olhos úmidos. Deixou que uma última lágrima lavasse a dor.

Ficamos assim por minutos indeterminados. Eu deixei que minhas mãos sentissem os fios de cabelo dela e suas costas por cima do leve tecido de sua camisola num ritmo lento e suave. Enquanto ouvia seu pequeno coração se acalmar... Enquanto decorava o movimento de sua respiração tão próxima.

Separamo-nos. Ela olhou por alguns segundos bem perto do meu rosto. E sorriu. Tão pequena e tão singelamente. Mas o sorriso que eu mais precisava.

Levantei-me então da cama. Fui andando até a porta. Meu dever estava cumprido. Ela já estava bem. Meu orgulho estava curado.

- Obrigada... – ainda pude ouvir seu sussurro.

Olhei para ela uma última vez naquela noite. E fechei a porta.

Fim do Flashback

Ela agora estava curada novamente. Seus olhos foram abrindo devagar. Afastei-me. Virei-me de costas.

- Nii-sama... – ouvi sua voz. – O senhor está ferido.

- Apenas descanse Rukia. Recupere-se para o que há por vir. – eu disse virando apenas meu rosto para trás.

Saí andando. Meu anjo estava bem novamente.

Enquanto ferido, estaria debaixo dos meus olhos. Enquanto estivesse bem, estaria em paz...

Não ousem tocá-la. Não ouso olhá-la. Não ousarei feri-la.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!