Into the heart
1 único
O ensino médio às vezes me deixava de pelos em pé, principalmente nesses momentos em que eu parava na detenção e ficava horas numa carteira sem fazer nada.
Eu podia mexer no celular como uma garota ruiva ao meu lado fazia, mas não tinha o costume de ter redes sociais e, quem era do meu interesse para começar uma conversa, estava na sala de aula naquele momento.
Havia alguns delinquentes que colocavam até música alta pra tocar, eu os odiava e foi por ter brigado com um que parei ali.
Mas o que mais incomodava — apesar do tempo se arrastar e me obrigar a debruçar-me sobre a carteira com o fim de dormir — era o discurso do professor responsável pela detenção dizendo que não seríamos ninguém se não voltássemos atrás.
Eu levantava uma sobrancelha, a garota ruiva continuava a digitar sem parar no seu aparelho, os delinquentes estavam em grupo no fundo da sala com os alto falantes ativos.
Por que voltar atrás? Eu pensei que estivesse nessa porra para ter futuro, não?
Mas aquele ranço de todos ali presos no cubículo — ter na mente que dividia a respiração só com um deles me enojava — e o tempo que se arrastava; fazia-me concluir que a escola foi feita para juntar um monte de imbecis, porque soltos iríamos definitivamente acabar com o mundo.
Imaginem todos os adolescentes tendo tempo para fazer o que quiserem. Adolescentes alcoólatras que fazem bebês sem parar e cheiram pó.
Pensando melhor, não seria muito ruim, acredito que a taxa de natalidade e mortalidade ficariam equilibradas, não?
O que eu estou pensando? Quando fiquei tão escroto?
Foquei em dormir.
Itadori quis me acompanhar aquele início da noite, quando voltávamos da escola. Já que fiquei na detenção por um bom tempo, tive que pegar o caderno dele emprestado para anotar as matérias que não pude copiar. Mas ele quis me acompanhar.
Acredito que Itadori sentiu que não estava bem e assim que me sentei na minha cama disse a ele: — Tô precisando.
Ele deu um sorrisinho e se aproximou de mim para me abraçar. Eu o apertei tão forte que senti o cheiro do seu desodorante. Ele deslizava uma de suas mãos nas minhas costas e eu me afastei.
Agarrei o seu rosto para beijá-lo.
Não fazíamos isso com frequência, porque não queria ter algo sério com um idiota. Mas me envolver com esse idiota fazia eu voltar atrás e não cometer uma merda, não bater num merda, não respirar um ar de merda, não ouvir um adulto merda falando merda.
Itadori tirou a camisa e depois a minha, querendo ou não, eu o admirava. Nunca vi uma pessoa que não reclamasse de nada e eu era um reclamão.
Sobre o meu corpo devia ter uma aura formada com todas as minhas queixas e eu sentia o peso dela em meus ombros. Era muito pesada.
Mas Itadori era tão leve, esquecia facilmente algo que lhe atingiu e seu tempo passava para curar.
Fale com o autor