Mesmo sentindo o corpo todo rígido assim que recobrou a consciência uma inquietação tomou sua mente. Sentindo o peito contra o chão, num impulso, espalmou as mãos no assoalho e levantou-se alerta. Sangue viscoso escorria da boca, sem firmeza; a cabeça latejava; suas costelas do lado esquerdo gritavam de dor; ele avançou, mas o corpo trêmulo ainda vacilava. Faltavam-lhe sentidos. Dera dois passos e o chão deslocou-se sob seus pés, as paredes rodaram uma duas três vezes, e as coisas escureceram, ele cambaleou à procura de apoio até a vertigem passar. Foi quando a visão retornou que caiu em si, a memória o atacou, a dor quase se escondeu completamente diante da adrenalina. Seu corpo vibrou. Quente. As imagens alternaram aleatoriamente em sua cabeça, uma sobre as outras sem tempo de assimilar, teve um rápido relance do caminho até ali, terra dura sob os pés, o sol quente queimando o topo de suas cabeças. Um homem barrigudo sendo arrastado para um beco por outros dois, ia até eles, mas foi interrompido, lembrou-se do quarto, uma silhueta feminina vindo até ele e curvando-se, os braços o envolvendo. Um estrondo, uma reação, pânico. Abandonou os devaneios.

O quarto revirado estendia-se a poucos metros a sua esquerda, logo à frente a porta, as marcas da invasão impregnavam o espaço e ele não pareceu ver nada, apenas caminhou para fora do quarto assim que se livrou da porta apenas encostada, empurrando-a sem muito esforço. Deparou-se com o extenso corredor, o fundo, parecia falso, se afastando a cada movimento seu. Era onírico de tão irreal. A visão do corredor desviara seus pensamentos, a brisa lhe causara arrepios por todo o corpo, o sol iluminava através das janelas estouradas oferecendo certo conforto e ele teve vontade de vomitar, os olhos cerrados e quase negros — pupilas exageradamente dilatadas — davam um ar quase romântico embora a visão o enganasse. Enquanto andava não notou a inconsistência da parede e do chão, que pareciam se mover sozinhos, antes da escada ao fim do corredor. Ele apertou o passo. Os cacos de vidro se esfarelando em baixo de seus pés, um estalar uniforme atrás da orelha fazendo-o olhar para trás à procura do barulho mais de uma vez e esquecê-lo no segundo seguinte. No fim do corredor as escadas levavam ao nada, escuridão total, então hesitou, se virou para o corredor e respirou fundo. A dor estalara na costela e ele levou a mão ao ferimento enfaixado pela primeira vez, sentindo um pouco de sangue vazar em sua mão, a exaustão pesava em seus ombros e ele largou-se contra a parede quase se rendendo. O silêncio o incomodava, insinuando uma inocência que aquele momento não possuía. O sol intensificou-se esquentando o corredor e o atingindo e ele ao observar o corredor, finalmente reconheceu o que estava acontecendo, estava só, havia perdido a todos, mortos ou não. A angústia desabrochou em seu peito, lenta e impactante. E quando as paredes e o chão se tornaram inquietos e o barulho não cessou ao pé do ouvido, ele se deixou ali por mais um tempo.

A explosão atingira até duas ou mais quadras acima da rua da casa de repouso, pequena e imprevisível, suficiente para destruir parte da vila. O impacto arrastou-se até ali, o pânico foi imediato e o medo, real. A vila dos Carvalhos era das mais despretensiosas e acolhedoras da região, um buraco sem fundo ou um baú de tesouros, mesmo sem recursos, a vila sobrevivia e enriquecia de oportunidades infelizes. Não era incomum bater de frente com fugitivos com a cabeça a prêmio, mercenários aposentados e caçadores de recompensas carrascos. Acostumados com o conflito, os moradores não se alarmavam facilmente, estranhos eram comuns e hostilidades muitas vezes relevadas, era normal deixar de existir quando se estava na vila. Dessa vez ela mesma deixara de existir. Quando a floresta densa começou a ficar pra trás e o sol começou a sobressair entre as árvores eles souberam que estava perto. Não havia placa alguma para indicar que já estavam na vila, mas um bando de meninos maltrapilhos brigando na lateral da estrada parecia um bom sinal. Um deles tinha uma garrafa em uma das mãos enquanto a outra gesticulava violentamente para os outros três garotos, nenhum deles usava sapatos. Mais a frente uma placa anunciava com uma letra torta grosseira: Desaparecido. Um a esquecido quase subindo em cima do r para consertar a palavra, logo abaixo, um retrato falado muito bem detalhado de um homem barbudo e rechonchudo. Mais um tempo aguentando o chacoalhar da carruagem e eles fizeram a primeira parada, uma casa de repouso velha e vazia. A mais barata. Rainer e Caim seguiram pela Rua Principal, a mais larga e a única com postes de iluminação, o movimento estava tranquilo naquele dia, eles pararam em uma construção mediana. As paredes beges e a madeira do chão marrom-acinzentada não combinavam, do lado esquerdo um balcão verde-musgo se estendia até o fundo e do outro lado uma fileira de cadeiras vermelhas, um velho ocupava uma delas com os olhos fixos em um livro, embora quase vazia, a sala fedia a fumo barato e suor. Caim, que já conhecia o lugar, foi na frente, Rainer percorreu os olhos pela sala procurando detalhes que revelasse o que aquilo devia ser.

— Tem certeza que esse é o lugar? — Perguntou Rainer.

— Não dá para confundir.

Quando uma mulher atravessou as cortinas do portal no fundo da sala, de forma falsamente ensaiada, Rainer entendeu o que o lugar era. A loira era alta mas naquele dia decidira usar saltos especiais, a saia era um fino pano que não chegava ao meio das coxas, o decote da blusa ia até um pouco acima do umbigo, seus olhos vagaram discretamente pelos dois antes dela se debruçar no balcão, empinada, agarrar umas chaves e dar meia volta deixando um cheiro de aloe vera e álcool no ar.

— Jose Quintella — Caim gritou para ela. O homem em uma das cadeiras permaneceu imóvel, nada acontecia a não ser em seu livro. A loura deu uma rodadinha, os olhos pararam em Caim, e ele arqueou as sobrancelhas indicando que esperava resposta. Ela foi até eles, aloe vera e álcool flutuando pela sala, o homem do livro coçou o nariz, e Rainer esperou que ela não se aproximasse muito. Ela parou de frente pra eles. Gotas de suor escorregavam entre os seios e ela tinha uma leve vermelhidão na bochecha direita, a maquiagem preta ao redor dos olhos estava derretendo. Ela os estudou, jogou as mechas loiras pra trás, pensou, mordeu os lábios e sorriu.

— Vou chamá-lo.

Jose Quintella era o dono da maior casa de acompanhantes da vila, falava como se fosse grande coisa, mas não era, porque a vila era pequena e a casa não era grande coisa. Rainer preferia a palavra prostíbulo.

— Confia nele? — perguntou em baixo tom, verificando se o velho realmente lia.

— Não. Só para assegurar que ninguém arranque nossas cabeças esta noite — ele disse, debochando.

— Ele pode tentar algo? — Rainer se curvou para olhá-lo nos olhos, Caim estava de cabeça baixa, o olhar vagando pelo chão.

— Não com nós. Tivemos um bom começo.

Já fazia um tempo que se espalhava pela vila, uma história de que um homem bem vestido rondava a região capturando cabeças. Era bizarro, por isso todos acreditavam. Uma história para trazer um pouco de emoção às noites pacatas, mesmo que de horror. A ideia inicial era de que o senhor bem vestido ganhava a vida enganando oficiais com as cabeças, analisava o perfil do bandido procurado e saia na escuridão da noite roubando cabeças de pessoas semelhantes, alterando um pouco do cabelo aqui e ali, socando o rosto para fingir uma luta, e entregando aos oficiais em troca de dinheiro. A vila era de fato perigosa à noite, mas nada fora do normal — como cabeças sendo arrancadas — isso afetava o código de coexistência da vila. Saqueamentos, sequestros, eram comuns e às vezes a coisa ficava mais séria, mas só às vezes. Depois de uns meses que a história do homem das cabeças já havia esfriado, e ninguém mais temia o personagem, alguém inventou que ele na verdade não era um homem, mas um demônio. Logo o mito voltara a todo vapor. Jose Quintella era famoso por conseguir manter a vila inteira, o código simples e estúpido em pé, para evitar que os mais selvagens e os forasteiros não a destruíssem por completo, ainda havia pessoas inocentes afinal.

O velho Quintella surgira das cortinas de repente, com uma magrela risonha fazendo charme ao seu lado, o braço em volta dela passeando nas costas até mais em baixo. Ele apertou os olhos com um sorriso afiado assim que viu os dois à sua espera, a morena ao seu lado — que era pelo menos quarenta anos mais nova — constantemente sussurrando ao pé do ouvido, alternando o olhar entre os dois e o velho. Provocativa. Caim estendeu a mão primeiro e eles se cumprimentaram.

— Olá — a menina arriscou. Um cheiro doce saindo da boca, e o perfume se misturando ao da loira de antes. Jose apertou-a com o braço e disse algo em seu ouvido, a menina sorriu sem graça e partiu.

— Já faz um tempo meu homem — Jose disse a Caim, com tapinhas no ombro, um sorriso simpático — o que desejam? Tenho trabalhado duro para aprimorar essa espelunca, estou quase conseguindo abrir outra casa na entrada da vila. Imaginem só...

— Um ótimo meio de desejar boas-vindas.

— O melhor. — Jose gesticulava com as mãos, o velho ficara animado ao falar sobre o novo prostíbulo — E mais, consegui umas meninas que vieram do oeste... — ele piscou para os dois — Coisas novas estão aparecendo aqui.

— Não estamos aqui para isso — Rainer acabou com o assunto — estamos viajando, um imprevisto nos fez parar aqui.

Jose aparentemente se desanimou.

— Só ficaremos esta noite. — Caim continuou — Queremos escolta até sairmos da vila amanhã, estamos com uma... bagagem — ele parou pra pensar — especial.

Rainer torceu os olhos para ele pela escolha das palavras. Depois de uns minutos de espera, Jose Quintella apresentara para eles quatro homens dizendo ser os melhores, mas nada demais. Rainer foi para um canto com Quintella para lhe pagar o serviço e logo eles partiram de volta para a casa de repouso, onde o resto do grupo e a bagagem especial esperavam. Dois dos homens ficaram para guardar a casa, os outros o quarto, Rainer dera várias batidas na porta antes de começar a ficar nervoso. Chamaram, e nada, Caim desceu ao primeiro andar e a recepcionista não havia visto nada “ouvi apenas uma discussão, depois se calaram” disse, quando questionada por não ter feito nada a mulher mandou ele cuidar dos próprios problemas sozinho. Quando ele subiu ao quarto Rainer havia arrombado a porta, as malas estavam ali, mas eles não, como se tivessem evaporado.

Algo parecia diferente assim que despertou. Tentou armar-se, sem muito sucesso, a casa estava limpa não como o esperado. No andar de baixo achara uma faca, cega. O sangramento só parara no terceiro nó que dera com lençóis em volta do corpo e agora sem a brisa que sentira mais cedo, podia sustentar-se com mais confiança.

Assim que passou pelo arco da porta da casa, não sabia mais onde estava.

A penumbra era fraca, o vento levantava a poeira fina criando uma névoa até por cima de sua cabeça, dali, não podia enxergar mais que a luz do sol se pondo, essa que denunciava certas partículas da poeira reluzentes. Sabia que antes, no ponto em que estava, não conseguiria ver o sol escondendo-se atrás da terra, talvez apenas o nascer, mas agora as construções que antes tampavam a visão do horizonte haviam sido destruídas. Da noite para o dia. Decidira esgueirar-se entre os becos, não se atentara aos sinais de movimento senão antes de um vulto passar por cima de sua cabeça, de um telhado a outro, recostou-se contra a parede fitando o céu e então, seguira a sombra pelo chão. A dor gritava no tronco enquanto corria mas ele suportava, mesmo a situação não o permitindo lembranças, ainda assim recordou-se com clareza de quando seu Velho o ensinou sobre a dor. Ela nunca é maior que si mesmo até quando é tão intensa que o impede de se levantar. O Velho sabia, a dor devia ser tomada e então transformada em parte de si mesmo, como um terceiro membro o qual pudesse usar mais tarde. Algo a mais que, mesmo se suas origens fossem esquecidas ela continuaria ali, impedindo-o de regressar.

Não podia escalar. Ficaria muito exposto na altura das construções, a poeira dissipava-se àquela altura e embora ainda estivesse com a visão deturpada, pelo menos agora, podia sentir-se inteiro e não como um relance de um velho sonho. Não era só poeira, um cheiro de sangue marcava toda a vila. As ruas estavam mais vazias, mas entre um beco e outro havia alguém sem vida. Imagens que ainda lhe causavam intensa repulsa. Adiante, duas sombras se destacaram e conforme se aproximavam ele pôde ver o contorno das silhuetas destacarem-se através da nuvem poeirenta, portanto apenas o porte de ambos se revelou, os rostos permaneceram inidentificáveis, cobertos. Os mantos contornavam a cabeça e pendiam sobre os ombros, ambas vestimentas iguais, pretas e carregadas. Seus olhos lacrimejaram de irritação e seu ferimento ardia. Quando a distância se tornou mínima, a imagem dos homens não se tornou nítida e a fumaça intensificou-se. Eles o viram, ele correu, virou uma das ruas e lançou-se contra a janela de uma casa, se livrando da densa fumaça que se alastrava tão rápido quanto seu efeito.

Os homens adentraram na casa em formação, o que Rainer ouvia — por causa da fumaça — já não parecia mais correto, passos não foram ouvidos, no fundo da casa o som do sino tilintando docemente prevaleceu e ele teve vontade de descer e quebrá-lo. Eles revistaram a cozinha à direita da entrada, e do andar de cima, ele pôde contar três homens no total, depois foram às escadas. Sra. Meredith, idosa, dona de uma charmosa — mas agora explodida — casa esotérica mais ao centro da vila estava estirada com a barriga para baixo na escada, morta. Fora arrastada pelo menor deles para abrir caminho, a cabeça quicou nos degraus até chegar no chão e depois seu corpo foi virado, sob o manto negro o homem estremeceu involuntariamente diante do rosto de Meredith, além das veias saltantes os olhos estavam vermelhos, esbugalhados e penosos, a testa funda, como se tivessem apertado sua cabeça. Ele a virou novamente. No andar de cima dois quartos tinham as portas derrubadas, num deles havia o corpo do filho de Meredith deitado na cama, era novo, olhos fechados mãos na barriga e um leve sorriso, como se dormisse, diferente da mãe.

— Vamos embora. Ele não vai sobreviver por mais. — gritara o outro do andar de baixo, ao lado de Meredith. O mais gordo deles avançou para o banheiro ao ouvir algo, devagarinho já com o mosquete na mão direita posicionado, o cano da arma tocou a porta que se abriu um pouco. Entre um tilintar e outro do sino no andar de baixo, Rainer pulou de trás da porta fechando-a e o primeiro tiro foi disparado, atrasado, atingindo apenas a porta. O homem recuou, mas não antes de dele agarrar o cano do mosquete e afastá-lo do corpo e logo em seguida enterrar a faca no pulso do homem fazendo-o largar a arma. Os outros dois chegaram ao andar de cima depois do tiro à queima roupa que Rainer disparara no peito do homem.

— Não se mexam! — gritou. Os homens paralisaram. Apontou a pistola ao que estava mais perto, a fumaça subindo para fora do cano entre os olhos de Rainer e os do homem, cobertos. Seus olhos já haviam voltado ao normal e o azul podia ser visto agora. Apertou os olhos e ousou se aproximar, daquela distância podia enxergar pouco mais dos olhos do homem, cobertos por uma rede escura. Ele se dera conta do estrondo que o mosquete fazia, e entendeu a escolha da pistola apesar da mira falha, o som do tiro ia longe e avisava, nem todos carregavam armas de fogo, ele imaginou metade dos invasores indo até a casa por causa do barulho. Nenhum dos dois homens se mexera antes de Rainer atirar em cada um e deixar a casa o mais rápido possível pela mesma janela que entrara.

Movimentava-se com cautela, verificando se ninguém o seguia, depois de avançar três ruas evitando a Principal, já podia enxergar a saída da vila. Mais longe do que parecia quando chegaram. Tinha o mosquete preso na cintura, pegara a blusa de um dos homens — o do que não havia atirado no peito — e o manto de outro, para se proteger da fumaça que diminuía conforme se afastava do centro.

Não conseguira se aproximar o suficiente para ver se a saída estava livre, parou e recuou quando viu um homem de preto andando em sua direção, tinha uma corrente enrolada no braço direito pendendo abaixo da mão. Rainer pousou a mão na pistola e depois pensando melhor, retirou-a. A fumaça já não o afetava como antes, não conseguia imaginar o que era e como era espalhado, mas tinha de admitir, a tática era letal para os lerdos. O homem não se apressou e nem diminuiu o passo, Rainer sabia que ele já podia enxergá-lo, então permaneceu ali parado, assistindo-o se aproximar. Quando ele, curiosamente, levou a mão à cabeça outras duas silhuetas se revelaram na névoa entre os dois, o homem por um breve instante não se mexeu, e então começou a correr enquanto os outros dois avançaram para cima de Rainer. Ele ameaçou pegar o mosquete e o primeiro deles não hesitou, direcionou um soco em sua direção, ele se abaixou, desviando. A corrente voou cortando o ar logo atrás do homem, o metal colidindo violentamente contra seu crânio pareceu cantar, seus braços e pernas distenderam-se e depois relaxaram enquanto ele ia ao chão, inconsciente. Sem pensar muito, Rainer atingiu o outro — que parecia perplexo com o ocorrido — com um soco certeiro e então outro, sendo interrompido pelo homem de preto com a corrente, ele se afastou instintivamente livrando seu braço da mão do homem. O mesmo desenrolou parte da corrente do braço e jogou a no ombro do homem, que permaneceu ajoelhado no chão. Naquele momento prestando atenção aos detalhes, eles pareciam menos preparados. As mãos do homem estavam apoiadas nas pernas, trêmulas, agarrando o tecido com força. O estranho enrolou a corrente em volta de seu pescoço e ele curvou-se, reagindo com o peso delas. Rainer o observou fazendo o serviço com uma curiosidade nervosa, o olhar alternando entre os dois, e em volta para certificar-se de que não havia mais ninguém. Num relance de pele nua no pulso — enquanto seu braço se movimentava ao redor da cabeça do homem ajoelhado — Rainer enxergou uma marca muito familiar, a cicatriz que lhe veio à mente estendia-se do pulso até metade do antebraço, mas só pôde enxergar dois dedos da cicatriz no pulso do homem. Teve vontade de pegar em seu braço e afastar a manga da blusa, mas não se permitiu. E nem sabia o que pensar, evitou qualquer movimento, esperou até ele terminar o serviço que fazia com uma calma quase ritualística.

— Você faz ou eu? — Ele perguntou ao terminar.

A mente de Rainer clareou-se, ele estremeceu. O homem levantou as mãos ao alto, e depois num movimento rápido se livrou do manto. Um meio sorriso sem graça e involuntário surgiu em seu rosto enquanto observava o rosto perplexo do amigo a sua frente. Rainer soltou um riso, confuso entre a felicidade e a surpresa.

O homem estava morto. O baque na cabeça havia sido violento e o hematoma deixado, nítido, mas mesmo assim, Aaron abaixou-se ao lado do corpo e verificou mais de uma vez a pulsação, como para evitar uma surpresa mais tarde. Eles levaram os dois para um bar detonado da vila, comprimido entre mais uma casa de repouso e uma construção interrompida. Aaron se livrou da vestimenta preta, e eles evitaram os esclarecimentos até terminarem o serviço com o homem acorrentado deixado atrás do balcão, sem o manto, o rosto à mostra.

— As vilas pequenas sempre só atendem as necessidades de um tipo de alcoólatra — começou Aaron — mas esse em especial, — foi e voltou mais de uma vez, de uma porta a outra e em cada janela, checando as prateleiras e decepcionando-se com o que o bar costumava oferecer. — é uma vergonha.

— Sempre achei esse tipo de lugar a sua cara.

Ele forçou um sorriso. Depois de checar os fundos e observar o movimento das ruas Rainer foi até Aaron, uma tempestade de perguntas sem respostas e peças soltas vindo à tona em sua cabeça ao mesmo tempo.

— O que aconteceu? — ele perguntou a Aaron, encarando-o, a íris azul brilhando acima das olheiras profundas, estava exausto.

— Ela fugiu. — Rainer revirou os olhos involuntariamente — Começou com uma história de que precisava de mais tempo, depois disse que não, que deveríamos ir embora naquele momento...

Apoiando a mão na mesa, ele arranhou a mesa com força sem perceber, raspas de madeira entrando em baixo da unha, em algum momento entre um pensamento e outro a dor se tornara real de novo.

— Mais tempo para quê?

— Não sei. Ela estava nervosa, tipo muito. — Aaron viu a mão de Rainer sobre o ferimento e se apressou até o homem acorrentado — É melhor ele ter algo pra nós.

O sujeito tinha pouca altura, o rosto inchado, vermelho, e Aaron ficou se perguntando se estava apertado demais ou se ele estava nervoso; tinha um hematoma logo abaixo dos olhos, aparente na pele escura; e durante longos minutos de perguntas ele finalmente reagira, cuspiu para os dois. O cuspe voando da boca e atingindo o chão entre suas pernas curtas, quase cômico. Aaron deu outra volta pelo balcão, ansioso, enquanto Rainer fitava o chão devaneando sobre algo, ele ergueu os olhos para o amigo quase pressentindo o que estava prestes a fazer. De tantos lugares na vila, eles tinham de ir parar justamente num bar. Aaron não o fez, e como para se conter, foi até o homem e lhe acertou um soco na cara. Já passava de uma hora que estavam ali.

— Eles estão se movimentando, tinha de ver a quantidade deles mais cedo. Foi insano. Me admira que esteja inteiro — vivo não, inteiro — Não dá pra saber de onde vieram, e pra onde vão.

— Quando se separou deles?

— Assim que a coisa explodiu, eles sumiram, só sumiram — algo semelhante ao que sentira quando derrubou a porta, pensou Rainer, ela evoluíra de fugir para sumir — eles estavam matando todo mundo. Merda, eles mataram todo mundo.

Aaron esfregou as mãos no cabelo, agoniado. Olhou para o homem depois para as garrafas, pensou um pouco, foi até o bar e pegou uma toalha velha. Rainer se adiantou escolhendo uma garrafa aleatoriamente.

Aaron enfiou a ponta da faca na testa do homem, que apertara os olhos pra ele, um filete de sangue escorrendo no rosto. Depois a ponta da faca foi descendo lentamente pelo rosto até chegar ao ombro, a lâmina sendo pressionada na pele e a partindo por onde passava. Num movimento rápido Aaron enfiou a faca no ombro do homem, sua boca se escancarou e ele soltou um grito gutural, interrompido pela toalha que foi enfiada em sua boca. A faca ficou ali, até os urros se transformarem em murmúrios desesperados.

— Agora vai dizer?

Ele fez que sim com a cabeça e Aaron retirou o pano.

— Mantenha isso interessante, seu merda.

Notas finais
Me diga o que achou nos comentários.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.