Into Your Arms

26 Capítulo 25


Essa noite tive um sonho. Era sempre o mesmo sonho, mas desta vez foi diferente. Na verdade era uma lembrança embaçada e esquecida em minha mente.

Meus pais discutiam sobre algo qualquer. Minha música preferida tocava em meu fone. O vento em meus cabelos. O lago. A freada do nosso carro. O acidente. O carro submerso pela água. A morte sem controvérsias.

O homem se aproximando do carro. Seus olhos verdes. O cabelo loiro. Andrew.

Por um momento ele apenas me observou, parecendo um pouco surpreso. Suas mãos arrancaram a porta ao meu lado, enquanto minha visão ficava cada vez mais turva. Ele tocou meu braço e mesmo embaixo da água sua mão era quente, e me puxou para fora do carro. Para longe de meus pais.



A cena mudou inesperadamente.

Meus olhos estavam fechados, mas eu podia escutar tudo ao meu redor. O bipedos aparelhos médicos e as vozes calmas.

– Como ela está? – me surpreendi por agora reconhecer a voz. Aveludada e rouca.

– Cada dia melhor, garanto que logo irá acordar. – disse uma voz fina, provavelmente da enfermeira.

– Tem certeza? Ela já está há muito tempo assim. – ele pareceu preocupado.

– Ela sofreu um traumatismo craniano forte, talvez não fosse normal ter ficado esses dois meses desacordada, mas cada pessoa tem um tipo de recuperação. Em breve ela voltará.

Nessa mesma noite acordei com uma dor no peito, como se algo gelado e profundo tivesse o atravessado. Eu respirei fundo e apoiei a cabeça no travesseiro novamente. Eu já sabia a verdade, mas revivê-la foi muito pior do que eu poderia imaginar. Apenas agora minha mente estava realmente se habituando ao que havia acontecido, e tudo aquilo ainda era uma ferida aberta que demoraria a cicatrizar.

Eu não conseguiria dormir novamente, então às 05h30min me levantei e tomei um banho. Aproveitei o pouco mormaço que havia dentro do banheiro, antes de encarar o ar gelado. Enrolei-me na toalha e corri até meu closet. Hoje eu vestiria meu antigo uniforme, aquele com o cheiro de amaciante que me lembrava das roupas de minha mãe.

Tateei pelas prateleiras o procurando, mas antes de poder encontrá-lo, uma jaqueta de couro num dos cabides, me chamou atenção. Era preta, diferente das outras cores de vestidos e blusas que havia ali pendurados. Puxei-a, desprendendo-a do cabide. Fitei a jaqueta de Andrew por alguns segundos. Eu ainda podia sentir o cheiro inebriante de sua pele, podia sentir o toque quente, como se Andrew estivesse ali mesmo com seus dedos pressionando meu rosto ou quando me abraçou com ela. Me lembro de todas as coisas que disse. Ele as deixou rodando em minha cabeça. Lembro do que vestiu em nosso primeiro encontro e de quando entrou em minha vida. As promessas que me fez. Ele sabia que tudo aquilo me deixava sem ar. E agora fui deixada sem nada. Lembro-me do olhar em seu rosto, através da escuridão. O seu jeito de revirar os olhos, ou como quando estava preocupado. Seu sabor. As palavras que sussurrou em meu quarto. Ele disse que me amava. Ele sempre está presente, está em toda parte, mas agora eu gostaria que ele estivesse aqui.

Tentei me afastar daqueles pensamentos, apesar de não conseguir realmente. As lembranças eram a única prova de que aquilo não foi um sonho, e ao mesmo tempo em que lutava para esquecê-las, eu precisava lembrá-las.

Encontrei meu uniforme em uma pilha de roupas que não usava mais. Vesti-o e desci para tomar meu café. Tia Rose estava com o olhar cansado e parecia também não ter dormido muito bem naquela noite. Comemos em silêncio e depois ela me desejou um bom dia, saindo para o trabalho. Tranquei a porta e caminhei até a escola.

Eu não aguentava mais aqueles corredores, as provas e os professores. Meu corpo gritava e implorava pelas férias. Menos de uma semana. Esse era o tempo que precisava esperar até lá. O que eram cinco dias, perto de todo o ano que já havia passado?

No corredor do colégio, a caminho do refeitório, Kate veio ao meu lado. A saia três vezes mais curta que a minha, o olhar cínico e o sorriso torto.

– Uau, não é que todos estão comentando sobre Lissa Hathaway? De volta ao treinamento das líderes, achando que pode tomar seu lugar de novo.

– Na verdade, ele nunca foi me tirado. – retruquei.

Ela riu.

– Então, acho que agora posso conversar com seu ex-namoradinho, não é? Talvez eu o convide para sair. E não estou falando de Matt.

Parei abruptamente em sua frente, interrompendo seu passo. Ergui as sobrancelhas.

– Andrew nunca sairia com alguém como você.

– Se ele aceitou sair com você, por que não comigo?

Minha respiração saiu pesada pela boca, e contei até dez mentalmente.

– Afinal, garanto que o próximo da sua lista será Dave. – ela riu.

– Você não sabe o que está dizendo.

Virei-me, continuando meu caminho, mas ainda pude escutar sua voz, como uma mosca zumbindo em meu ouvido.

– Ah, Lissa, tenho uma pergunta pra você. – ela se aproximou mais, e colocou a boca perto de minha orelha. – O que seus pais achariam sobre você andar com vampiros?

Apertei meus olhos, a raiva crescendo e queimando minhas veias rapidamente, como fogo em mato seco. Eu acabaria me arrependendo daquilo depois, mas não pensei quando minha mão voou para o rosto de Kate.

Seus olhos se arregalaram, e seus dedos encostaram-se a vermelhidão em sua bochecha. Foi então que tudo tomou grandes proporções. Sua mão agarrou meus ombros e minhas costas bateram nos armários. Todos olharam.

– Quem você pensa que é para me bater? – ela gritou.

– Quem você pensa que é para falar de meus pais?

Minha voz também ecoou no corredor, enquanto os alunos se aproximavam, apenas observando.

– Eles estão mortos. – Kate murmurou.

Minhas mãos agarraram seu cabelo preto, solto e a joguei no chão. Mais um tapa estralou em seu rosto, e a única coisa que sentia era o peso dentro de mim se dissipando. Porém minha alegria durou por pouco tempo. Alguém me puxou de cima de Kate e segurou meus braços, enquanto eu ainda tentava ir para cima dela.

– Nunca ouse mais tocar no nome deles! Senão farei você estar na mesma situação que eles! – gritei.

Tyler a levantou devagar, um pequeno sorriso ainda curvava seus lábios. Aquilo fez mais uma labareda se acender dentro de mim. Tentei puxar meus braços, mas apenas escutei a voz autoritária e calma em meu ouvido.

– Lissa, já chega. – era Andrew.

Enquanto todos seguiam para suas aulas, caminhamos até o final do corredor. Apenas o deixei me levar, sua mão ainda presa em meu pulso. Sentei em dos bancos almofadados, como se tivesse corrido quilômetros até chegar ali. Coloquei a cabeça entre as mãos e senti os olhos de Andrew me observando, em silêncio. Até que o banco abaixou ao meu outro lado. Levantei o rosto e vi Dave, com um sorriso bobo em seu rosto.

– Por que você está sorrindo? – perguntei séria.

– Você não deveria ficar triste, acertou um belo soco em Kate.

Eu ri.

– Foi merecido.

– Espero vê-la com um olho roxo amanhã.

– Não tanto, mas as marcas de meus dedos ainda estão bem visíveis no rosto dela.

Dave ergueu a palma da mão em minha direção, e bati nela. Andrew levantou-se do banco e olhei para ele.

– Você terá que ir á diretoria. – disse.

– O que? Não posso ir. Minha tia me matará. O que eu faço?

Olhei de Andrew para Dave. De Dave para Andrew, e depois para Dave de novo.

– Temos que fugir. – ele sussurrou.

– Você está louco?

Dave deu de ombros.

– É o único jeito de você não acabar na diretoria.

Levantei-me de prontidão.

– Vamos!

Deixei Andrew para trás antes que ele pudesse protestar – pois sabia que o faria – e parti com Dave para fora do colégio.

– Por onde vamos sair? Não podemos usar a porta da frente, irão nos pegar. – murmurei.

– Teremos que ir por trás, para depois conseguir chegar ao estacionamento.

Contornamos a lateral da escola correndo e seguimos para o campo de futebol. Havia um zelador fazendo uma pequena ronda por ali e tivemos que nos esconder embaixo das arquibancas, espremidos abaixo delas. Os passos do homem se tornaram cada vez mais nítidos e tremi com o nervosismo.

– O que vamos fazer? – perguntei.

Dave colocou seu dedo sobre meus lábios, me silenciando. Seus olhos azul cobalto me fitaram. Seu dedo escorregou por meus lábios e ele se aproximou dois centímetros até que os passos se perderam no vento.

– Acho que já podemos ir. – sussurrei.

Dave pareceu sair de seu torpor e me puxou para o bosque, cortando caminho até o carro. Árvores nos cercavam, folhas e arbustos roçavam meu rosto e pernas. O cheiro forte de flores me dava náuseas e me lembrava de velórios. Apertei a mão de Dave e o segui, andando mais rápido. Até que finalmente chegamos ao estacionamento. Saímos do bosque e entramos no sol escaldante novamente, como uma cortina sendo aberta para nós.

Joguei-me no banco do passageiro e Dave deu a partida em seu carro. Ele abriu os vidros e liguei o rádio, deixando a música alta encher o carro. Não sabia para onde estávamos indo, apenas observei as paisagens ao meu lado irem se desfazendo rapidamente.

– Você acha que um dia irei superar Andrew? – perguntei subitamente.

– Acho que você precisa de um tempo de tudo aquilo que estiver te incomodando. Viva um pouco.

– Você tem razão.

– Claro que tenho. – ele disse, olhando rapidamente para mim.

– Vou me permitir ter esse tempo para mim, — prometi a mim mesma – preciso de uma pausa e quero começar isso com uma festa!

– Então é seu dia de sorte. Estamos programando de ir ao Zouk Lounge Bar na sexta.

Abri um sorriso.

– É disso que estou falando! — murmurei.

Seguimos estrada por mais ou menos duas horas até chegarmos a uma pequena cidade. St. Charles era menor e mais tranquila que St. Louis. As construções eram simples e vitorianas. Hospitaleira e pouco movimentada, acabou tornando tudo ainda melhor. Andávamos na rua como se fossemos únicos, sem se importar com os olhares que pairavam sobre eu e Dave. As pequenas barracas de comida espalhadas pelas ruas foram pouco para nós. Dave me fazia sorrir a cada minuto. Ao passarmos por uma loja de eletrodomésticos uma musica alta que tocava nos rádios super potentes, ecoou pela rua. Dave olhou para mim com um sorriso despreocupado no rosto e puxou minha mão.

– Você não vai fazer isso comigo. – falei rindo.

– Ah, vou sim.

Seus braços envolveram minha cintura e minhas mãos descansaram em seus ombros. Algumas pessoas pararam e nos encararam, ou sorrindo, ou em duvida.

– Isso é um mico. — falei em seu ouvido. — Todos estão olhando.

– Se você se preocupar com tudo que pensam, não terá histórias para contar para seus netos.

Com aquelas suas últimas palavras, deixei ele me guiar em uma dança pouco ritmada, com risadas e olhos tortos sobre nós. Dave era meu ponto de conforto, apesar de ser totalmente desconfortável.

– Aonde vamos agora? — perguntei.

– Na verdade, a gente não foi à lugar nenhum ainda.

Abri um pequeno sorriso.

– Então aonde vamos primeiro?

– O primeiro e último lugar que vamos. Fox Hill Park.

Franzi o cenho.

– Nunca ouvi falar.

– Claro que não. Poucos conhecem esse lugar.

– Ok. Vamos lá então.

Dave pegou seu carro e partimos. Atravessamos o centro da cidade, entrando em uma área ainda mais deserta. Chegamos à uma rua sem saída e Dave estacionou o carro no acostamento.

– A partir de agora teremos que seguir a pé.

Dave me guiou pelo caminho aberto, sem nenhuma árvore, apenas a grama verde e baixa. Depois de uma subida — que me fez cansar o suficiente — chegamos a um pequeno terreno, e assim como antes, era coberto pela grama verde e viva, porém a pequena montanha havia nos proporcionado uma vista que, ao contrario do terreno que estávamos, era cercado de árvores altas. As copas recheadas por folhas não deixavam o chão terroso aparecer nem por um centímetro. Uma mancha em tons de azul se destacava entre as árvores. O Missouri River levava suas águas calmamente.

– Isso é... Perfeito. — Sussurrei fitando maravilhada para a paisagem a minha frente.

– Isso que ainda não começou o pôr do sol.

Virei-me para Dave como uma criança acabando de ganhar um brinquedo.

– Vamos ficar para vê-lo?

Seus lábios se curvaram em um sorriso torto.

– Se você quiser.

Abri um sorriso para Dave e sentamos no gramado, enquanto o sol começava a dizer adeus.

– Como você conhece esse lugar? — murmurei.

– É do meu avô. Ele me trouxe aqui a primeira vez quando eu era criança, depois disso vinha todos os finais de semana. É meio que o meu lugar no mundo.

O encarei.

– Por que você me trouxe aqui?

– Porque eu confio em você.

Meus lábios se abriram e os olhos cobalto se iluminaram.

– Obrigada por tudo isso Dave.

– Não venha com lengalenga. Você é importante para mim, não precisa ficar agradecendo.

Soltei uma risada. Dave nunca foi de falar sobre sentimentos ou até mesmo demonstrá-los. Deitei minha cabeça em seu ombro e seu braço enroscou-se em mim, enquanto o céu se confundia em tons de laranja, amarelo e rosa. O crepúsculo. Era o último dia em que o sol sairia totalmente de trás das nuvens e eu queria aproveitar cada segundo da vitamina D entrando em minha pele. O próximo mês se resumiria em frio e dias cinzas sem vida.

– Vou sentir falta disso. – sussurrei.

Percebi os olhos de Dave em minha direção, fitando meu rosto.

– Eu também...

Os minutos se passaram devagar com poucas palavras ditas. Observamos os últimos raios de sol desaparecem no horizonte e o fim de mais um dia chegar.

Meu celular tocou em minha bolsa me tirando de meu torpor. O nome de tia Rose na pequena tela me fez voltar à realidade.

– Droga.

Atendi o telefone.

– Oi, tia Rose!

– Lissa, aonde você está? A escola me ligou, venha pra casa agora!

– Está bem, eu...

Ela desligou o telefone sem me dar chances de responder.

– O que aconteceu? — a voz de Dave soou rouca.

– A escola ligou para tia Rose. Ela sabe de tudo e eu estou ferrada.

Apoiei a cabeça nas mãos.

– Você quer que eu fale com ela?

Balancei a cabeça negativamente.

– Só preciso que me leve pra casa.

Notas finais
Mais um capítulo pra vocês, um pouco atrasado, mas confesso que estou enrolando um pouquinho já que a cada capítulo que posto fico mais próxima do final D: Espero que tenham gostado, posto o próximo no final de semana, beijos!