Into Your Arms
24 Capítulo 23
Não consigo dormir agora. Não como eu costumava. Não consigo inspirar e expirar o tanto que preciso. Meu coração não bate como deveria bater. As cores se tornaram todas opacas e os sons que escuto são apenas sussurros. Não há lugar que eu possa ir. Não há um sonho onde eu possa me esconder. Não há distração que me salve ou remédio que me cure.
Apenas me encosto no meu armário do colégio e o observo, pelo canto do olho, passar como qualquer um. Seu nome ecoa tão alto em minha mente que por um momento tenho certeza que todos podem escutar. Eu amava o jeito como ele andava com as mãos nos bolsos. O cabelo continuava desarrumado. As passadas longas. O meu ciúme. Como ele me beijou quando eu estava dizendo algo. Não há um dia que eu não sinta falta daquelas rudes interrupções. Ele me fitou por um segundo, mas é o suficiente para fazer o mundo congelar ao meu redor. Depois sua cabeça abaixa e ele se mistura as outras pessoas no corredor. Eu aposto que ele pensa que eu segui em frente ou que o odeio. Embora haja distância e silêncio, suas palavras nunca me deixaram. Elas são a oração que eu faço toda noite e a falta dele me parte em dois.
– Ei, Terra chamando.
– O que? – disse.
Virei-me para Sarah, seu olhar me julgando.
– Você escutou o que eu disse? – ela perguntou.
– Não, desculpa, estava distraída.
– Uhum. – ela cruzou os braços, apertando-os ao corpo.
– O que queria que eu ouvisse?
– Kate voltou do hospital.
– Eu não me importaria se ela ficasse mais um ano lá. – Ashley disse se aproximando de nós. Ela abriu seu armário e jogou os cadernos preso em seus braços dentro dele.
– Onde ela está? – perguntei.
– Na secretaria. A mãe dela veio falar sobre as faltas, algo assim. – respondeu Sarah.
– Preciso vê-la. – sussurrei.
Saio dos armários, com as vozes de Sarah e Ashley atrás de mim. Caminhei até a secretaria apressada e encontrei Kate sentada em uma das cadeiras e sua mãe conversando com a coordenadora. Seus olhos me encontraram e eu a chamei num gesto.
– Você está bem? – perguntei.
– Você realmente se importa? – suas sobrancelhas se arquearam.
– Sim.
– Estou melhor. – ela hesitou. – Então, o que quer?
– Só saber como estava.
– Agora já sabe, pode correr de volta para seus vampirinhos. – Kate fez uma careta de desgosto.
– Você que se meteu com Hunter. Não diga isso como se fosse culpa minha.
– Senão fosse você com essas aberrações – seu tom de voz aumentou e algumas pessoas nos encararam — eu nunca precisaria ter ficado trancada num quarto de hospital com médicos e policiais atrás de mim.
– Foi você quem decidiu acreditar nele e a se tornar uma dessas aberrações que você tanto odeia.
Ela ficou em silêncio e seus olhos me fitaram com raiva. Kate parecia avançar em mim a qualquer momento, como uma cobra preparada para o bote.
– Afinal porque está falando assim comigo? Graças a mim você ainda está viva. – disse.
– Isso não muda nada.
Kate deu as costas para mim e atravessou a porta de vidro, entrando novamente na sala da secretaria com sua mãe.
O dia seguinte foi melhor e pior.
Melhor, pois apesar de os olhares entrecortados continuarem, eles diminuíram de frequência e já não eram tão carregados de palavras não ditas ou faladas demais. Mantemos a distância segura, e o silêncio pesado não era mais tão desconfortável.
Foi pior, pois parecia que o tempo estava passando e apagando ele suavemente.
Sarah me disse para seguir em frente. Porém dizer era fácil demais, eu poderia falar aquilo nesse exato momento enquanto a aula de biologia se passava arrastando. Por outro lado, ela tinha completa razão. Eu não poderia passar o resto dos meus dias me lamentando por algo que já havia feito. Posso pensar que o passado tem algo a dizer, algo para ser entendido, decifrado ou concertado. Mas não. Ele apenas me empurrará para baixo. Preciso correr para longe dele.
A temporada dos jogos estava acabando. Nosso colégio conseguira entrar para as finais. Isso significava que além dos jogares andarem com os casacos do time, como faziam nos 220 dias escolares, as líderes de torcida também estavam com seus uniforme. E pior ainda, isso me trazia uma nostalgia que eu ainda estava tentando decifrar se era boa ou ruim.
Enquanto andava com Ashley e Sarah – vestidas em seus uniformes de líderes – parei subitamente quando tive uma ideia. Acho que foi no mesmo momento em que decidi que a nostalgia era algo que me trazia lembranças boas.
– Quero voltar para as líderes. – murmurei.
A reação de Ashley e Sarah foi completamente diferente uma da outra. Sarah me olhou espantada, como se tivesse levado um choque. Ashley abriu um sorriso antes mesmo de eu terminar a frase.
– Você tem certeza? – perguntou Sarah.
– Isso é maravilhoso! – Ashley quase gritou no corredor. – Não acredito que você disse isso. Precisamos encontrar a treinadora agora! Mas tenho certeza que ela aceitará sua entrada novamente, sem nem precisar de testes.
Ela arrastou eu e Sarah em direção à sala da treinadora Weather,tagarelando sem parar um minuto. Se eu quisesse pensar duas vezes, não conseguiria, pois Ashley já estava falando da nova proposta para a treinadora.
– Lissa, isso é incrível. Você sempre foi uma das melhores, terei muito orgulho em recebê-la de volta.
– Obrigada treinadora.
– Quando irá começar? – ela me perguntou.
– Hoje mesmo, posso?
– Mas é claro!
A sra. Weather entregou o uniforme para mim. Apesar de saber que o meu estava muito bem guardado em meu guarda roupas, aceitei com um sorriso.
– Sarah e Ashley a ajudarão com os treinamentos.
– Pode deixar treinadora. – disse Ashley.
Saímos da sala e partimos para o vestiário praticamente correndo. Sarah continuou quieta o trajeto inteiro, mas não consegui me concentrar nela com Ashley surtando ao meu lado.
No banheiro, tirei minha roupa e as coloquei na bolsa. Vesti o uniforme – saia de pregas vermelha com pequenos detalhes preto e branco e a blusa justa também vermelha com as inicias do time estampadas na frente – e prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto.
Olhei-me no pequeno espelho e por um momento vi a menina de um ano atrás. O cabelo loiro um pouco mais comprido. Os olhos verdes gritando de tão vivos. Popular, com o namorado nos seus calcanhares. Divertida. Com os pais por perto para lhe guiarem. Sonhando um pouco alto demais com seu futuro. Escolhas certas. Vida perfeita. Apesar de parecem vidas de pessoas diferentes, não mudara tanto em minha aparência, mas agora havia um traço de preocupação em minha testa que antes não existia, e meus olhos não brilhavam da mesma maneira.
Saí do banheiro um pouco desconfortável, mas quando Ashley me viu se jogou com os braços abertos em minha direção.
– Eu achei que não tinha como você ficar mais linda. Está ainda melhor que antes.
Eu ri.
– Essa saia parece curta demais. – sussurrei.
Ela me soltou de seu aperto.
– Deixa de ser careta, Lissa, você sempre a usou assim.
Olhei para Sarah, colocando as mãos na cintura e girando.
– Então, não vai me dizer o que você achou? – perguntei.
– Você tem certeza disso? – ela repetiu.
Coloquei as mãos em seus ombros e a fitei por um momento.
– Sarah, você se lembra de quando, depois do acidente, eu disse que iria voltar a ser quem eu era?
– Sim.
– Estou fazendo isso. Estou voltando a ser quem eu era antes.
Abri um sorriso, mas ela continuou séria.
– Esteja feliz por mim. Eu nunca estive tão certa em toda a minha vida.
Sarah me estudou por alguns segundos.
– Se é isso que você quer...
Ela abriu um sorriso vibrante e me abraçou.
– Estou orgulhosa de você. – ela sussurrou em meu ouvido. – Sua mãe também estaria.
Eu a apertei mais em meus braços e Ashley se juntou a nós.
– Seremos nós três novamente. Juntas. – falei.
Com um sorriso no rosto nos afastamos.
– Vamos, temos que mostrar a todos a nova Lissa. Quer dizer, a velha mesma Lissa de sempre. – disse Ashley.
Todas nós rimos e saímos em direção ao corredor. Meu coração martelava forte no peito, mas eu não sabia por quê. Não havia motivos para nervosismo. Porém ao atravessar a porta do refeitório, tudo mudou.
Por um momento deixei ser eu mesma novamente. Lissa. Lissa Hathaway. Não havia mais incertezas ou até mesmo preocupações e dor. Todos os olhos se viraram para mim, mas não me senti intimidada, porque não eram olhos que me julgavam por perder os pais como no começo do ano. Não eram olhos que demonstrava pena, e sim olhos que viam uma garota segura e desejavam ser como ela. Eu podia jurar que meus pais estavam vivos, pois era tudo exatamente como um ano atrás. Talvez o verde de meus olhos tivesse voltado, pois pude senti-los nesses poucos segundos.
Sentei-me na mesma mesa de antes, no centro do refeitório. Todos sorriram.
– Olha quem está de volta. – disse Anna.
– É bom ver vocês. – falei apenas.
Ashley se virou para mim.
– Está vendo, você ainda arrasa nesse colégio. Não importa quantas Kates existam aqui.
– Ninguém é páreo para Lissa Hathaway. – sussurrei.
Ashley riu e jogou uma piscadela para mim. Abaixei a cabeça rindo ainda. Todos estavam comentando sobre alguns preparativos para o baile. Faltavam meses ainda, mas já corriam para encontrar a melhor banda e decoração. Uma cadeira arrastou ao meu lado e Dave se sentou. Ele observou meu uniforme atentamente, se demorando um pouco na saia curta.
– Você está bonita. – um sorriso torto brincou em seus lábios.
– Olhe para cima, O’Connor. – disse.
Dave voltou-se para meu rosto, ainda sorrindo.
– Estou olhando para seu rosto.
– É bom manter seus olhos aqui então. – o alertei, rindo.
Peguei o refrigerante que ele havia buscado e tomei um gole.
– Não sabia que havia voltado para as líderes. — ele comentou.
– Voltei hoje, na verdade.
– E o que te fez voltar?
– Queria que as coisas ficassem mais parecidas a como eram antes do acidente...
– Espero que não esteja na sua lista parar de falar comigo de novo.
– Não. – falei e abri um sorriso. – Eu era idiota por isso.
– Concordo.
Chutei sua perna por baixo da mesa e ele quase cuspiu o refrigerante. Tapei a boca, reprimindo uma gargalhada.
– Me faça lembrar de comprar um babador para a próxima vez. – falei rindo.
– Não haverá próxima vez, engraçadinha. — Dave vez uma falsa cara séria, mas depois riu também.
Tudo parecia normal demais, para ser verdade. Eu não sabia o que aquilo significava. Mas depois da descoberta sobre quem havia me salvado, era como se não houvesse mais dúvidas. Apesar das consequências que a verdade havia trazido junto com ela, as coisas estavam voltando ao seu eixo. Por um momento eu sabia o que acontecia ao meu redor, sabia dos perigos e não havia mais mentiras. Eu queria viver minha vida. Minha voz de repente soprou dentro de minha mente. Estou voltando a ser quem eu era antes.
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