Acordei cansada, havia dormido tarde naquela noite. Ontem, depois de nossa caminhada na praça, Andrew me deixou em casa, foi até a porta e me deu um leve beijo na bochecha demorando um segundo a mais do que devia. Ele era tão imprevisível. Andrew parecia poder compreender tudo que eu sentia, mas eu nem desconfiava o que se passava dentro dele. Era como um vidro espelhado onde você só conseguia enxergar de um lado.

Esse não era o único motivo para eu estar cansada. Após eu fechar a porta e ir correndo pro meu quarto, fiquei pensando em cada momento que estive com ele. Eu com certeza não esperava por aquilo. Havia acontecido tantas coisas em apenas um dia. Os sentimentos borbulhavam dentro de mim, me deixando mais confusa do que nunca. Tudo que ele havia falado e... Seus olhos. Eu não conseguia esquecer aqueles olhos escuros, que agora me assustavam. Eram tão intensos e misteriosos. Eu não conseguia entender o que havia acontecimento. Assim como ele dizer que não era aquilo que eu pensava. Todos os fatos giravam em minha cabeça sem fazer nenhum sentido.

Fiquei rolando na cama por mais alguns minutos até minha tia aparecer na porta.

– Vamos? Você vai se atrasar.

Dito e feito. Cheguei ao colégio e disparei pelo corredor em direção de minha primeira aula. Entrei na sala de literatura e ao sentar um bilhete voou em minha mesa.

“Conte-nos tudo!”

Olhei para o lado e vi Sarah e Ashley sorrindo.

“Mais tarde ok?” Devolvi. Mas desta vez elas fizeram cara de tédio.

Eu estava sentada na fileira do canto, ao lado da janela. No fim da aula, terminando meus exercícios percebi um movimento em direção ao extremo norte do jardim onde havia um grande emaranhado de árvores.

Havia um homem.

As sombras das árvores cobriam grande parte de seu corpo, mas a claridade me permitia ver que ele usava jeans escuro e um casaco preto com capuz. E era alto, muito alto. Seus olhos me observavam atentamente e um pequeno sorriso malicioso se formou em seus lábios quando ele percebeu que eu havia o avistado.

O sinal tocou me fazendo pular em minha cadeira. Observei a sala e todos já estavam saindo. Olhei novamente para as árvores, mas ele havia sumido.



– Você está branca. Por acaso viu um fantasma? – Perguntou Sarah quando estávamos a caminho do refeitório.

– É, acho que sim. – Sussurrei.

– Que?

– Ah nada.

Seguimos em direção a nossa típica mesa, apenas levando um copo de suco e iogurte. Observei o refeitório tentando achar algo suspeito. Por que eu ainda estava na defensiva? Acalme-se Lissa, pensei. Nos sentamos e Ashley falou:

– Ok. Agora nos conte tudo.

– Sobre? – Perguntei.

– Não se faça de boba!

– Fizemos trabalho. – Disse olhando pra elas.

– Isso a gente sabe Lissa. – Sarah murmurou séria.

– Nós comemos pizza, com minha tia nos interrogando...

– O que? Ele jantou na sua casa? Com sua tia? Isso não está ficando sério demais? – Perguntou Sarah surpresa, mas também com um brilho nos olhos.

– Nós apenas comemos pizza! O que há de mal nisso? – Perguntei sorrindo, mesmo que a audácia delas havia me incomodado um pouco.

Sem nenhuma resposta, continuei, tímida:

– E ele me levou pra dar uma volta.

Elas me olharam e Sarah foi a primeira a quebrar o silêncio.

– A onde?

– Ele te beijou? – Perguntou Ashley ao mesmo tempo. Ao contrário de Sarah ela não parecia nada feliz com aquilo. Olhei para ela e abri um pequeno sorriso como se pedisse desculpa.

– Ah meu deus. Vocês se beijaram! – Exclamou Sarah.

– Aquilo não pode ser considerado um beijo.

– Que merda. – Sussurrou Ashley. Encarei-a, tentando compreende-la. – O que você pensa que está fazendo? Você está se apaixonando por alguém que não participa nem do clube de xadrez! Você é bonita e popular, e ele... Ele não é nada!

– Não estou apaixonada por ele! E por que você liga tanto pra popularidade? – Olhei para ela, e continuei. – Você nem o conhece! Ele é legal, gentil e me entende! Diferente de você.

Ashley saiu irritada, fazendo o barulho da cadeira ecoar. Alguns pares de olhos nos encaravam desconfiados. Olhei pra frente e avistei Andrew. Ele estava encostado na parede mais afastada nos observando, com uma expressão séria no rosto. Será que ele havia escutado nossa conversa?

Vamos sair daqui. – Falou Sarah percebendo onde os meus olhos estavam focados. Devia ter se perguntado o mesmo que eu.

Passamos o resto do nosso intervalo conversando sobre assuntos pacatos, apenas andando sem direção pelo colégio.

– Não fique magoada com Ashley.

– Mas olhe o que ela disse sobre Andrew, ela nem o conhece! – Protestei.

– Você se aproximou bastante dele não é? – Disse Sarah com um sorriso gentil nos lábios.

– É. Nós somos amigos. – Falei retribuindo o sorriso.

– Fico feliz. Você estava meio sozinha. Quer dizer, falava comigo e... Ashley, mas não tinha mais os mesmo amigos. A propósito, qual foi a ultima vez que conversou com Emily?

– Acho que não é mais o tipo de pessoa que me atrai. Agora ela me parece ser tão fútil.

– Ela é fútil. – Disse Sarah rindo.

O sinal tocou e fomos pra aula, infelizmente, diferentes. Segui pelo corredor até a sala de biologia e vi Matt esperando perto de minha mesa.

– Oi Lissa. – Cumprimentou ele abrindo um sorriso.

Sentei em minha cadeira notando que Andrew não havia chegado ainda. Fato que achei um tanto estranho.

– Oi!

– É o seguinte, Brian irá fazer uma festa na casa dele semana que vem, e eu vim convidar você.

– Hmm...

– Então, o que você me diz?

– Eu não sei, não vou muito com a cara dele...

– Vá, todo mundo da escola vai estar lá.

Nesse momento Andrew entrou na sala, passou por mim sem dizer uma palavra e sentou-se na cadeira ao meu lado cruzando os braços em cima da mesa. Observei-o por um breve momento e voltei minha atenção em Matt.

–Tudo bem, vou pensar.

Matt abriu um sorriso de orelha a orelha e foi para seu lugar no mesmo momento que o Sr. Banner entrou na sala, sem me dar chance de falar com Andrew.

A aula se seguiu silenciosamente. Andrew encarava o nada em sua frente e eu tentava prestar atenção na aula. Por que ele estava agindo daquele jeito? Eu havia feito algo errado ontem à noite? Ou era por causa de Ashley?

O sinal tocou novamente e Andrew já estava na porta.

– Andrew! – Não sabia por que havia o chamado, mas precisava falar com ele. – Andrew!

Ele saiu da sala e ficou me esperando.

– Oi. – Falei timidamente. – Tudo bem?

– Tudo. – Ele respondeu secamente.

– Eu vou ser breve. Só vim convidá-lo para uma festa.

– Que festa?

– Na casa de Brian na semana que vem.

– Acho que não vou ser bem vindo nessa festa, muitas pessoas não gostam de mim. – Senti a indireta em relação à Ashley. – E acho que não fui convidado.

– Eu gosto de você e eu estou te convidando.

Ele sorrio me deixando mais tranquila.

– Você vai? – Perguntou.

– Acho que sim.

– Então eu vou.

Andrew ainda sorrindo, virou e saiu pelo corredor. A ideia de ir a uma festa estava começando a me agradar.



Voltando da escola decidi dar uma volta, não sabia exatamente para onde ir, mas não queria ficar em casa. Queria um lugar calmo onde eu pudesse pensa, sobre minha vida, sobre meus pais...

Sem rumo, me surpreendi pelo caminho que estava tomando. Estava indo em direção ao lugar onde o acidente havia acontecido. Se não fosse pelas minhas amargas lembranças eu teria achado aquele espaço lindo. Me lembrava tanto meus pais. Era a coisa que eu mais sentia falta em minha vida. Estar ali de novo era como uma forma de me despedir.

Sentei bem próxima a beira do abismo que logo se encontrava com o lago. As águas eram de azul cristalino e o cheiro das flores dominava o ar. Uma leve brisa passou fazendo meu corpo arrepiar.

O acidente havia acontecido tão rápido, era difícil lembrar. Tudo havia se passado de forma tão instantânea, quase como se nem houvesse ocorrido. De qualquer forma aquelas imagens ainda rondavam minha cabeça, fazendo parte dos meus piores pesadelos. E junto com elas o homem. O qual eu nem me lembrava seu rosto. Mas de que forma eu poderia descobrir quem era? Por onde devia começar?

A viatura da polícia passou pelo local me fazendo despertar de meus pensamentos. E ao mesmo tempo em que observava ela passar tive uma ideia. O homem que havia me salvado devia ter ligado para a polícia avisando do acidente. E até onde eu sabia, as delegacias de polícia tinham todas as ligações registradas nos seus arquivos.

Sem pensar duas vezes me levantei e segui em direção a delegacia.

– Srta. Hathaway. – Cumprimentou o delegado surpreso. – O que a trás aqui?

– Eu vim falar sobre... O acidente.

– Você quer saber sobre algum detalhe em específico? – Disse ele sério.

– Eu queria saber quem me salvou. – Falei sem rodeios.

– Desculpa, mas não temos essa informação.

– Eu sei. Mas a pessoa que me salvou provavelmente ligou para cá avisando do acidente, não é? – Ele assentiu. – E era um homem. – Afirmei.

– Sim, mas então o que você quer? – Perguntou gentilmente.

– Quero descobrir quem é essa pessoa. Ele não falou o nome?

– Não, a ligação foi anônima. Mas temos a gravação.

– Era disso que eu estava falando.

Ele me levou até uma pequena sala com computadores e se sentou na frente de um começando a abrir alguns arquivos.

– É esse. Mas devo assegurar que não vai ser apenas por meio dessa gravação que você irá descobrir. Muitas vozes mudam em telefonemas, e se a pessoa não queria ser descoberta, poderá se tornar até irreconhecível.

Eu não tinha pensado naquilo, mas do mesmo modo estava ansiosa para ouvir. Excitação e calafrios passaram por mim. O delegado apertou play, e uma voz masculina ecoou pela sala.

“Aconteceu um acidente no cruzamento da interestadual 277. O carro caiu no lago. Há dois mortos e uma jovem sobrevivente.”

Aquela voz, eu já havia escutado aquela voz. Em um sonho talvez? A verdade se escondia no meu subconsciente. Até o momento em que uma lembrança me veio à mente.

– Como ela está? – Perguntou uma voz masculina.

– Está cada dia melhor, garanto que logo, logo ela irá acordar. – Respondeu uma voz doce.

– Você tem certeza? Ela já está a muito tempo desacordada. – Disse o homem preocupado.

–Ela sofreu um traumatismo craniano forte, talvez não fosse normal ter ficado esses dois meses desacordada, mas cada pessoa tem um tipo de recuperação. E garanto que em breve ela voltará.

A voz. Não eram idênticas, mas tinham claramente o mesmo tom de agonia.

Seria o homem que me visitava misteriosamente no hospital, o que também havia me salvado?

Notas finais
Sei que o capitulo não está muito grande, mas queria mostrar um pouco mais de mistério na história hahaha E não me matem por Andrew ter aparecido brevemente :// Espero que tenham gostado, e não esqueçam de comentar!