Intimidade
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"Os elos mais fortes, são os que firmamos com o coração”
– Que coisa linda! O maior trabalhador da história da Inglaterra.
A mão de Damon desceu com força no ombro direito de Alaric e ele deu um pulo devido ao susto. Estava tão concentrado estudando as novas plantas do Hotel Royal Mikaelson II que não viu o amigo chegar.
– Porra Damon! Que susto!
Damon gargalhou jogando-se na cadeira ao lado, esticando as pernas e suspendendo-as na mesa.
– Ei! Ei! Devagar ai! Não posso perder estes dados.
Alaric soltou os papeis que estavam sobre a outra escrivaninha e correu para salvar alguns papeis debaixo dos pés do amigo.
– Calma. Que cara estressado. Seus papeis estão em boa companhia, são um par de italianos caríssimos.
– Grande merda.
Se alguém visse aquele dialogo, não acreditaria que um mero empregado da Shacklebolt Building estava mesmo falando com o poderoso Damon Giuseppe Salvatore daquele jeito. Ninguém também nunca havia visto o grande empresário tão relaxado e sorridente.
Aquele era um raro momento em que Damon despia a mascara de gangster e podia ser ele mesmo. Com o amigo Alaric Saltzman.
– Este é o projeto Mikaelson?
Alaric o encarou com os olhos estreitos.
– Nem vem. Amigos, amigos, negócios a parte. Isso aqui é algo que você não conhece seu playboy safado, chama-se trabalho. Não vou te mostrar o projeto dos Mikaelson.
Damon deu outra risada.
– Não precisa. Ganho o que quiser deste velho idiota com a mão nas costas. Fora isso não estou pensando em construir um hotel no momento. Penso em algo maior. E é obvio que é você quem vai realizar meu projeto e mesmo que você não admita eu sei que sendo para mim, você vai fazer melhor do que nunca.
Alaric riu.
– Você é realmente um cara muito folgado sabia Salvatore?
– Sempre soube.
– E você sabia que isso aqui é meu trabalho e que ao contrario de você, eu realmente não posso fazer... – Ele apontou os pés de damon na mesa – Isso.
– Mas eu posso.
Ele revidou com um sorriso cruel.
– Damon, eu tô falando sério...
– Um minuto.
Ele suspendeu o dedo, pedindo um tempo quando o celular começou a tocar. Atendeu e pôs no viva voz. Depois sibilou um “Olha isso” como um moleque folgado.
– Salvatore.
– Damonzito...– Uma voz melosa soou do outro lado do telefone e Alaric rolou os olhos – Querido que saudade.
– Ah... Oi... E ai... Gatinha?
Ele fazia uma careta a cada palavra.
–Estou com muita saudade de você meu querido, quando vamos nos ver?
– Ah... Bom... Não sei... Eu ando meio ocupado, sabe como é né? Muito trabalho... Mas a gente marca algo.
–Claro que sim. Eu não vou atrapalhar você. Você está sozinho não está?
Alaric fez uma careta e Damon levou a mão à boca para não rir.
– Claro.
– Então diz meu nome daquele jeito tigrão, diz...Diz daquele jeitinho que eu sou gostosa...
Desta vez foi Alaric que colocou a mão na boca para não rir quando Damon fez careta.
– Porra... – Ele sibilou baixo – Ah... Eu... Você é... Muito gostosa... Pearl...
– Pearl? – A voz da mulher mudou completamente e Damon bateu na testa como se ele houvesse sorteado algum nome e o sorteio dera errado – Meu nome é Ângela, Damon.
– Ah... Certo. Ângela, que seja.
– Como assim? Quem é Pearl, Damon?
– A gente se vê Angie.
Ele disse isso e desligou o telefone.
– Cara, odeio mulher histérica. Eu devia está muito bêbado para ter dado meu telefone. Vou ter que bloquear esse número – Ele parecia falar para si mesmo, então em seguida olhou para Alaric – Onde estávamos mesmo?
Alaric o encarou lívido.
– Na parte em que eu digo que você é um cafajeste?
– Talvez.
– Por que você chamou a mulher de Pearl? Se não sabia o nome dela?
– Ah sei lá. Acho que foi a ultima com quem sai, o nome veio. Mas quem se importa? Vamos dar uma volta?
– Damon, eu não sei se você percebeu, mas eu estou trabalhando.
– Trabalhando? O que é isso uma nova palavra no dicionário?
Damon riu e Alaric fez careta.
– Você é um cínico, e o único que ri destas piadas sem graça.
– Ah vamos lá Alaric, olha ai, o dia está lindo. Ninguém merece ficar preso na gravata, com este monte de merda dos Mikaelson. No fim você sempre consegue.
– Damon eu tô falando sério. Não posso elaborar um projeto assim, sem bases. Eu realmente preciso me concentrar.
– Que saco. – Damon tirou as pernas de cima da cadeira.
– Damon é sério, você vai acabar destruindo alguma coisa. Tira seus sapatos de couro italiano caro do contrato dos Mikaelson.
Damon levantou-se da cadeira que estava e começou a perambular pelo escritório, remexendo nos objetos dispostos nas prateleiras, o barulho da porta abrindo chamou a atenção deles.
– Saltzman!
Tyler Lockwood acabara de entrar na sala, segurando plantas e papeis do projeto em que Alaric estava envolvido.
– Você pode me explicar o que é isso aqui?
Ele jogou os papeis em cima da mesa e puxou as mangas da camisa listrada, verde berrantes que usava. Damon recostou-se no armário, não havia sido notado por Tyler.
Alaric se aproximou, com uma carranca e observou por cima de que papeis se tratavam e o encarou.
– São os papeis do projeto Salvatore, estas são as primeiras plantas que desenhei, mas elas vão passar por uma reforma, claro. E quando aos custos, Damon Salvatore foi bem claro que...
– Não estou falando de porcaria de custo Saltzman! – Ele esbravejou – Para quem pensa que trabalha? Uma comitiva de operários. Isto é uma construtora! A maior construtora desta porra de cidade! Eu estou falando de desacato!
Alaric o encarou, com os punhos fechados embaixo da mesa. Tyler Lockwood não passava de um mauricinho desocupado, que se valia da posição de sobrinho do patrão. Não tinha qualquer formação relevante para exercer qualquer cargo na empresa e fazia vezes de modelo. Mas, hora ou outra gostava de bancar o diretor e seu alvo sempre era Alaric.
– Desacato?
– Claro que sim! Deixei bem claro que queria você fora de qualquer planejamento ou projeto que envolvesse o Salvatore. Nós temos conta com as duas empresas, Salvatore e Mikaelson e elas são rivais. Não há cabimento em ter o mesmo arquiteto nas duas obras. Qualquer diferencial e é motivo para um processo. Será que você não entende essa merda?
– Eu não trabalho fazendo diferença entre clientes. Vou trabalhar para o Salvatore com o mesmo empenho que o farei para Mikaelson. Isso é descabido.
– Foda-se o que você acha Saltzman. Você está fora da conta Salvatore! Me entendeu?
– Escuta aqui mauricinho...
Mas a discussão foi interrompida por uma voz mais alta. A de Damon.
– Trabalha para minha empresa, quem eu desejo contratar Lockwood.
Tyler virou tão branco quanto um fantasma para encarar Damon.
– Eu pessoalmente requisitei os serviços de Alaric Saltzman, que por sinal, é o melhor arquiteto da sua grande empresa nesta porra de cidade. Não me importo para quem ele trabalha por que eu sei que ele fará um serviço de qualidade. Se o Mikaelson tiver problema com isso, foda-se ele. Troque de arquiteto, o que eu duvido que ele vá fazer.
– Senhor... Salvatore... – Tyler balbuciou tremulo pelo susto – O senhor... está aqui...
– Ah não, claro que não estou, isso é uma ilusão criada pelo seu subconsciente doente. Se Alaric Saltzman estiver fora da conta Salvatore, a conta Salvatore estará fora da Shacklebolt Building. Eu fui claro?
– Senhor... É que... Não é ético...
– Foda-se! Eu não trabalho com ética, Lockwood, eu não sou medico, nem padre. Eu trabalho com resultados. Eu não cheguei onde cheguei filosofando como Sócrates, eu cheguei aqui jogando e só jogo com os melhores. Aliás o que você tem com as contas da empresa, até onde eu sei Remo Lupin é o diretor geral.
– Eu... Eu sou... Herdeiro...
Damon gargalhou.
– Ah claro, o herdeiro que vai foder com anos de trabalho suado quando Lupin bater as botas certo? Você não sabe nada, nem entende nada seu pivete. Lupin sabe que você anda destratando o melhor arquiteto dele? Sabe que eu posso conseguir uma vaga para Alaric em qualquer construtora que ele queira não é?
– Sr. Salvatore, o senhor não está entendendo o ponto...
– Não estou, nem quero. Eu quero é que você vá lá mostrar esse seu rostinho de boneca, que é o que sabe fazer e pare de atrapalhar a minha reunião e o meu projeto.
Tyler ainda ensaiou algo para dizer, mas no ultimo minuto escolheu ficar calado, apenas assentiu duramente e se retirou da sala.
Damon manteve os olhos nele, duros, intensos, até ele fechar a porta. No instante seguinte, Alaric e ele gargalharam até o ar faltar.
– Cara, você é muito cínico – Alaric disse quase sem ar – Tem noção de que ele realmente vai herdar isso aqui?
– Grande merda, e bem, antes dele herdar, eu compro esse negocio todo para você.
Alaric fez uma careta de desagregado.
Damon circundou sua mesa e começou a remexer nos objetos.
– Isso... É de má qualidade. Sabe uma coisa que se aprende na periferia e nos becos imundos de Londres? A valorizar o que é bom. Eu não consigo trabalhar com coisa de má qualidade, Lupin é muito pão duro.
Alaric continuou do outro lado da mesa, organizando os papeis que Tyler havia espalhado enquanto Damon falava.
– Você merece mais do que isso aqui Alaric, sabe disso não é? Eu posso te ajudar, posso ajudá-lo a ser mais do que isso tudo aqui.
Alaric parou de mexer nos papeis e encarou Damon.
– Já falamos sobre isso, Damon.
– Não, não falamos. Eu falo, você nega. Eu já disse que tenho dinheiro de sobra para isso, e também já disse que você tem potencial para ser...
– Não Damon, não é sobre isso que estamos falando. Não estamos falando de eu ser um gênio, o que não sou, ou você ter mais dinheiro do que lugar para guardar. Estamos falando sobre uma divida que você acha que tem, mas não tem.
– Não é isso.
– Sim é. Desde aquele dia em que eu te tirei daquele bar, você tenta encontrar um meio de me pagar pela vida que acha que eu salvei, mas não foi assim. Eu até posso ter salvo você. Ok, mas isso não significa que você tenha que me pagar.
– Você nem sabia quem eu era cara. Você nem sabia que eu tinha todo esse dinheiro. Você fez o que fez sem nem ao menos achar que ganharia nada em troca. Você tem noção que poderia ter morrido por nada e que não existem pessoas assim?
– Você exagera tudo Damon. Sempre foi assim. Eu só fiz, o que qualquer um faria.
– Discordo totalmente, mas você é o cara mais teimoso da face da terra.
– Não quero seu dinheiro.
– Não estou te dando dinheiro Alaric, estou oferecendo sociedade. É um negocio rentável, você tem total capacidade de administrar e eu vou ganhar dinheiro sentado, é bom para os dois lados. Eu invisto e você se livra do Lockwood. É um negocio e não uma doação.
– Me diga uma coisa. Em outra circunstancia qualquer, suponha que você acabou de me conhecer e conhece meu trabalho. Se fosse dessa forma você me proporia sociedade?
Damon abriu a boca para argumentar, mas não disse nada.
– Viu? Em todo caso, é sobre essa maldita divida, uma divida que eu não quero que você tenha. Ganhei sua amizade Damon, embora você não seja o melhor exemplo do mundo estou contente com ela. Não quero mais nada além disso.
Damon bufou e soltou os papeis que estava remexendo na mesa. Ele tinha algumas manias, e esta era uma delas, não conseguia manter uma conversa sem remexer em algum objeto.
– Deveria ao menos ter uma bebida que prestasse aqui – Ele sentou e abriu as gavetas de Alaric uma por uma – Tem um chocolate? Cigarro? –Alaric olhou de lado para ele — Nada? Porra isso aqui é o que? Um monastério? Opa!
Damon parou de falar de repente e arrastou a cadeira um pouco mais para trás enquanto levantava uma folha com um desenho feito a mão.
– Wow! Quem é a gostosa? — Ele virou a folha e atrás estava escrito “Jenna” – Jenna? Aquela Jenna?
Alaric não havia prestado atenção ao que Damon dizia até ouvir aquele nome. Então ele ergueu a cabeça com pressa e viu o desenho nas mãos de Damon.
– Esta é aquela Jenna do Reveillon?
– Me dá isso Damon.
– É ela? – Damon continuou sem dar atenção a súbita palidez que atingiu o rosto de Alaric – Ela é linda assim mesmo ou você tá usando demais a imaginação?
– Damon me dá...
– Fala cara.
– É só um desenho.
– Não, não é. É um desenho, por sinal muito foda, de uma mulher muito linda, com quem por acaso você transou há 3 anos atrás e...
– Quatro – Alaric o interrompeu.
– O que?
– Quatro anos atrás e isso não tem nada haver, eu apenas fiz um desenho.
– Vamos lá Alaric. Você já levou dezenas de mulheres para a cama. Por que não fez um da Isobel? Por que um desenho logo dela? Medo de esquecer o rosto?
– Vai se foder Damon.
– Ei, calma cara. Não precisa ficar nervoso.
Alaric puxou o desenho da mão de Damon e se afastou dando-lhe as costas.
– Não quero falar sobre isso.
– Ah deixa de frescura Alaric.
– É sério. É serio Damon. Não quero falar.
– Ok. Você quem sabe então – Ele deu de ombros – Mas e ai, vai comigo ou não?
–Eu não vou me livrar de você se não for não é?
Ele abriu um sorriso.
– Não mesmo.
– Eu não posso demorar Damon.
– Não vai – Ele disse dando leves tapas no ombro de Alaric, enquanto este guardava o desenho numa gaveta chaveada.
– Eu tô falando sério. Eu ainda preciso trabalhar.
– Só um drinque prometo.
– Ok, mas vamos logo porque tenho que chegar cedo em casa.
– Porque? Mudou o horário da sua serie pornô?
Alaric deu uma risada sínica e deu tapa na cabeça do amigo – Não babaca, minha sobrinha chega hoje.
Damon continuou andando , dando pouco caso para o que o amigo havia falado, afinal o que tem de melhor do que beber um bebo whisky as 3 p.m de uma segunda feira?
“A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente”
Soren Kierkergaard
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