Intimamente Emma
46 Uma outra vítima
Notas iniciais
Embora já soubesse de cor, Ingrid insistia em dizer a mesma palavra mentalmente, como se fosse um despertador programado para o momento exato. Inocente. Não foi ela quem o matou. A hora em que o juiz fizesse a pergunta, ela diria: Inocente. Mas seria mesmo tão inocente assim ou ainda valia o benefício da própria dúvida? Ela pensava enquanto uma nuvem turva se esvaia com os flashes do acontecido na fatídica noite em que Daniel morreu, junto do som que a voz abafada da juíza abria seu julgamento.
— Como a ré se declara?
— Inocente, vossa excelência. — respondeu a própria Ingrid com mais força do que se achava capaz.
Isaac a olhou de relance e houve a impressão de que deram as mãos por debaixo da mesa numa tentativa de conforto. A juíza iniciou sua fala pela terceira vez, apresentando ao júri as razões pelas quais Ingrid Swan era acusada de homicídio, mas era muito pouco provável que metade daquele tribunal estivesse atento a voz muito impoluta da senhora Ursula, sabia-se lá o sobrenome, quando Ingrid e qualquer ação que tomasse fosse o centro das atenções.
— ... portanto, este tribunal cede a palavra ao promotor. — anunciou a juíza.
Em meio minuto Walsh se ergueu, agradeceu a juíza e direcionou suas atenções aos jurados de forma discreta. Ele tinha a intenção de sair vitorioso daquele tribunal, por mais estranha que sua sensação fosse desde aquela manhã quando conversou brevemente com Isaac nos corredores do prédio. Ao que parecia, o defensor tinha uma boa estratégia surpresa para pegar desprevenidos os jurados e até a audiência, e o promotor tinha a ligeira impressão de que se tratava de uma testemunha chave. O que ele poderia fazer para reafirmar todas as provas e testemunhos se não tinha uma evidência exata e nem a certeza de Emma do que havia acontecido? Em alguns casos, o que parecia muito óbvio não era exatamente o que se tratava. Ele sabia disso como ninguém e talvez aquele caso bizarro na cidadezinha de Way Village fosse o maior desafio da sua carreira.
— É fato que Daniel, o senhor Daniel William Colter foi cruelmente assassinado. A investigação criminal, então, se depara com o seguinte questionamento: Tratando-se de um homicídio, quem então, senhores do júri, teria interesse em eliminar a vida de Daniel Colter? É o que neste momento todos nós, incluindo os senhores, precisamos compreender. Dentre figuras pouco familiares no círculo social do pintor, quem estaria tão próximo dele ao ponto de entrar na mansão da rua Santa Barbara Bay com a intenção de assassiná-lo? Quem teria um motivo concreto para ceifar a vida de um homem condenado à morte por suas condições físicas? Quem teria um envolvimento particular com a vítima para tratá-la tão cruelmente? Algum inimigo? Não, nada. Daniel nunca teve inimigos. Desavenças? Ao que tudo indicava nem mesmo com sua ex esposa, a senhora Regina Mills, com quem por ventura havia assinado o acordo de divórcio poucos dias antes da morte. Pois então, o que resta de hipótese? Algum relacionamento conflituoso? Sim, isto sim. Com quem, perguntam-me os senhores? Todas as evidência encontradas na cena do crime apontam para uma única pessoa, a senhora Ingrid Elizabeth Swan. — ele parou estrategicamente na mira do júri. — A ré Ingrid Swan assassinou Daniel Colter e tinha motivos para isso. Se sentia rejeitada, humilhada diante do caso conturbado entre os dois que, se não for do entendimentos dos senhores, teve um passado e ocorreu posteriormente no presente.
Regina engoliu em seco, estava incomodada e aflita na plateia. Se fosse depor estaria talvez mais nervosa que Emma, não negaria. As sensações não eram das melhores entre quem assistia, especialmente no momento em que o promotor Walsh começou a consultar as evidências; Algumas fotos eram terríveis, horrorosas para pessoas mais sensíveis. Ruby Lucas, bem no meio da audiência e duas cadeiras distante de sua mãe e da srta. De Vil, sentiu uma tremenda náusea quando viu o sangue espalhado no chão ao lado do corpo de Daniel numa das imagens mostradas pelo refletor de slides. Archie balançava a cabeça constantemente, como se não acreditasse no jogo de palavras da acusação. Mary segurou a mão de David ao seu lado, notando o suadouro do marido entre os dedos. Até Zelena colocou a mão nos lábios, comovida. Ninguém escaparia de ter qualquer sensação ruim naquele tribunal.
Era a vez da defesa se pronunciar e Isaac não mediu esforços para convencer de que Ingrid nada mais fora uma espectadora na cena do crime. Ele parecia muito confiante e estranhamente gentil para um advogado de defesa, nem um pouco apelativo. Deu um sorrisinho amarelo para a juíza quando lhe concederam a vez e se pôs de pé, abotoando o terno mais elegante, quase que escolhido a dedo para a ocasião.
— Senhores do júri, como podem observar, as imagens deste terrível acontecimento nada mais são do que uma impressão errônea do real fato. Ingrid Swan foi acusada veemente por fazer parte da cena do crime, mas em nenhum momento foi pensado que talvez tenha ocorrido um triste acidente. Estar na cena não incrimina a ré imediatamente como o departamento de polícia e seus subordinados sugeriram ao decorrer da investigação. A senhora Swan esteve em evidência nos jornais locais pelas semanas subsequentes ao ocorrido, sendo tratada como principal suspeita, vamos reafirmar, de um acontecimento bárbaro. Talvez tenha sido uma imensa infelicidade a escolha de Ingrid em tratar de assuntos particulares naquela noite com Colter. Assim como talvez ela tenha atendido a um pedido do mesmo para um diálogo que resumisse a relação entre eles, sem imaginar que poderia ser incluída em uma armadilha. Possibilidades, senhores do júri, possibilidades que a acusação não gostaria de questionar por ansiar a condenação. Eu garanto, senhores, que Ingrid Swan é inocente, ainda que ela esteja em profunda dúvida sobre seus atos naquela noite. Porque se os senhores forem sagazes em suas deduções, uma mulher em sua natureza, jamais tiraria a sangue frio a vida do homem que amou. Ainda que Ingrid tenha sido humilhada por Daniel, o pintor galanteador, sua consciência jamais permitiria que ela atentasse contra sua vida. Antes de tudo, Ingrid Swan amava Daniel Colter e continuará amando apesar de sua morte.
De Vil revirou os olhos para os argumentos de Isaac. Eram velhos inimigos e achava ele ridículo, ainda mais fazendo as caras e bocas de conquistador barato para o júri. Anita a cutucou no braço querendo entender a rixa antiga entre eles.
— Se ele convencer o júri com essa história de armadilha, eu desisto da minha carreira criminal e volto aos divórcios. — cochichou ela para a sra. Lucas.
— Achei que já estivesse fazendo isso, Cristina. — Anita disse quase num sopro.
A juíza desfez a pose e considerou aberta a sessão de depoimentos. Era a hora mais esperada do tribunal ou a mais constrangedora. De repente um burburinho surgiu e Úrsula ergueu sua voz.
— Ordem... Este julgamento considera o início dos depoimentos da acusação. Senhor Walsh, tem a permissão para chamar seu primeiro depoente.
— Sim, vossa excelência. — Walsh se ergueu e pediu a entrada da primeira testemunha. Era um dos policiais que esteve na ocorrência do assassinato na manhã seguinte quando Belle e Graham encontraram o corpo do pintor falecido. — Primeiramente, como se chama? — perguntou o promotor, se aproximando da testemunha no lugar reservado próximo ao júri.
— Jack Peterson, senhor. — respondeu o homem com trajes convencionais e muita segurança para responder o que quer que fosse perguntado.
— Naquela manhã o que o senhor presenciou ao chegar a mansão Colter?
— A polícia foi contatada para averiguar um dito corpo de um homem com aproximadamente quarenta e dois anos. Eu e meu parceiro fomos designados para averiguar sendo os primeiros a checarmos o local, encontrando num dos recintos da residência o corpo do senhor Daniel Colter banhado em sangue na altura do peito.
— Alguma arma foi encontrada no local? Alguma prova concreta de que tratava-se de um crime?
— Com certeza. Encontramos um resolver calibre trinta e dois próximo ao corpo.
Na plateia, David não parecia confortável, estava inquieto, suando frio, pensava o que seus pais pensariam sobre ter uma filha criminosa. Ele não queria acreditar que aquele julgamento estava acontecendo. Subitamente se levantou e pediu licença, deixando a sala.
— David?! Aonde você vai? — chamou Mary que acabou o seguindo.
Enquanto isso o policial continuava depondo.
— ... o exame do revolver confirmou a presença de duas digitais no cano... Uma delas correspondia a vítima e a outra com noventa e nove virgula noventa e nove por cento de certeza da senhora Ingrid Swan... Foi checado junto a uma prova de DNA fios de cabelo que também pertenciam a Ingrid sobre a roupa da vítima, confirmando a presença dela na cena do crime.
— E de acordo com a sua experiência, havia uma proximidade de aproximadamente quantos metros da vítima e a assassina quando houve o disparo?
— Se for me basear pelos meus cálculos foi um disparo a queima-roupa. Nós da polícia trabalhamos com duas hipóteses, uma em que a vítima foi atingido desprevenidamente com uma grande proximidade do assassino, e a segunda com uma luta corporal que pode ter ocasionado um disparo acidental.
— Certo, policial Peterson, e qual das duas hipóteses parece a mais concreta?
— A primeira.
Um silêncio aflito imperou na sala e Walsh estava satisfeito por enquanto.
— Agradeço muito o seu depoimento, senhor Peterson. Encerro minhas perguntas aqui, excelência.
— O advogado de defesa está permitido a fazer perguntas à testemunha. — A juíza disse.
Isaac, que não era tolo, tinha sua estratégia. Novamente ele desabotoou o terno e abotoou uma segunda vez, vindo com calma até o policial.
— Senhor Peterson, é verdade que no dia seguinte ao crime foi solicitado a uma familiar da sra. Swan que coletasse provas de DNA para incriminá-la?
— Protesto. — Walsh pediu de seu lugar. — Pergunta indevida a testemunha.
— Negado. — Ursula rebateu.
— Sim, é verdade. — o policial disse.
— Pode me dizer se essa familiar da sra. Swan trava-se de sua filha, uma moça cujo nome é Emma?
Pela primeira vez o policial não se sentiu confortável em responder uma pergunta. Ele fitou Walsh de longe, depois a juíza.
— Responda por gentileza. — pediu a mulher.
— Sim. Porém, não foi a polícia que solicitou essa ajuda. Foi a própria Emma que manifestou o desejo de cooperar com provas que ajudassem a incriminar a mãe dela.
O tribunal entrou em um verdadeiro inferno particular. Um novo enxame de comentários e burburinhos começou.
— Ah não, ele está querendo acusar a Emma. — Zelena falou, balançando a cabeça.
— Por que não estou surpresa? — Regina comentou.
O policial Peterson foi liberado quando Heller conseguiu o que queria. Ingrid não parecia estar ali, tinha entrado em seu mundo particular e há muito tempo não olhava para os lados, nem mesmo quando a juíza bateu seu martelo pedindo ordem.
Graham era o próximo a testemunhar, entrou nervoso, segurando as mãos e quase perdeu o equilíbrio quando se sentou na cadeira. Ele olhou para o tribunal e os olhos estavam todos voltados para ele.
— ... o senhor jura falar a verdade, somente a verdade, e nada além da verdade? — Graham ouviu com a mão direita levantada e outra sobre a bíblia.
— Eu juro.
— Muito bem, pelas informações que temos, trabalhava para Daniel Colter na condição de enfermeiro, correto?
— Correto.
Como apenas uma testemunha ocular do falecido, Graham não se adiantou demais nem precisava. Seu depoimento durou menos do que aparentava e Isaac não quis sequer questionar qualquer coisa a ele. Talvez, Belle, sua namorada dissesse bem mais do que se imaginava, mas antes dela outra pessoa poderia dar informações valiosas sobre as condições físicas da vítima. O dr. Whale era muito respeitado na cidade e por causa dele Daniel havia decidido tratar com o que ele oferecia de melhor na cura da sua paralisia transitória. O homem foi bastante sucinto em suas convicções e não acreditava que o paciente teria atirado contra si mesmo.
— ... nas condições físicas do meu paciente seria quase impossível que ele tivesse forças para entrar em luta corporal com qualquer pessoa. Essa hipótese não tem fundamento.
— Dr. Whale, não desprezando os seus conhecimentos, haveria em porcentagem, ainda que muito pequena, da vítima conseguir responder a um impulso desesperado? — Isaac mexeu as mãos dramaticamente.
— Depende do que o senhor quer chamar com impulso desesperado. — Whale manteve a postura.
— Uma ação, doutor. Um movimento brusco na tentativa de impedir alguma outra ação.
— Bem, ainda que Daniel tivesse pouco ou quase nenhum controle sobre seus movimentos, com muito esforço ele teria vinte por cento de chances de se mexer dessa maneira.
— Vinte por cento é uma quantidade considerável, concorda, doutor?
— Concordo.
Depois foi a vez de Belle e uma hora já havia se passado tão demoradamente que ninguém dentro da sala parecia satisfeito.
— A senhorita Belle M. French. — anunciou Walsh, esperando a moça se acomodar no banco das testemunhas.
Do contrário do namorado, Belle estava pacifica, atenta a Ingrid que não levantava os olhos desde o início. Se o comportamento da Swan foi algo combinado com Heller, ela estava atuando tão bem que quase ninguém se lembrava que estava ali. Para Belle, depor contra Ingrid valia mais do que confirmar que ela estava na cena do crime, era uma pequena vingança particular que procurava há muitos anos. Aquele era o momento e não podia perder a oportunidade, pois se desse errado, ela se culparia por não ter conseguido.
Walsh pigarreou. Anotou algo em uma folha na mesa e se levantou em seguida. Encarou a srta. French e a cumprimentou com a cabeça.
— Senhorita French, agradeço a sua disposição e oferecimento em vir depor neste tribunal. Vamos ser breves, pois todos aqui sabemos o que a senhorita foi fazer na manhã em que encontrou o corpo de Daniel Colter no atelier da mansão. A senhorita trabalhou como empregada na mansão, juntamente de seu parceiro, que inclusive já depôs. Muito bem, segundo o depoimento dele, a senhorita foi a primeira a avistar o corpo do seu patrão. Pode descrever como ele se encontrava?
— De uma forma terrível, consigo me lembrar com detalhes se fecho os meus olhos.
— E a senhorita acredita que se tratou de um crime?
— Óbvio que sim. — Belle piscou vagamente seus olhos azul-acinzentados.
— Sendo empregada da mansão, suponho que tenha presenciado a constância de pessoas, fora o enfermeiro e você, que frequentavam a mansão. Por um acaso, o senhor Colter recebeu a visita de Ingrid Swan alguma vez?
— Mais de uma. — Belle confirmou.
— Então se confirma que os dois possuíam um caso amoroso?
— Sim.
— A senhorita saberia precisar o tempo em que Daniel e Ingrid começaram a se envolver?
— Há exatamente quatro meses antes do crime o meu patrão mantinha um relacionamento com Ingrid ao ponto de leva-la para dormir na mansão. Certa manhã eu me deparei com Ingrid nua na cama dele.
De repente Belle ficou quieta e seu depoimento pareceu muito interessante enquanto as pessoas se perguntavam o que mais ela ia contar.
— Saberia dizer quando foi a última vez que Ingrid foi vista na mansão?
— Sim. — ela assentiu e se lembrou de tudo. — Dois dias antes do crime.
Mais uma comoção da plateia. David e Mary retornaram naquele momento e se sentaram de novo.
— O que aconteceu naquele dia, senhorita French?
Belle baixou a cabeça, relutante, mas disposta a dizer.
— Uma discussão entre ela, o meu patrão e Emma Swan. — numa pausa Belle mirou Ingrid pelo canto do olho. Pela primeira vez a mulher saiu de seu mundo particular e devolveu o olhar a empregada. Walsh assentiu para que ela continuasse, então não havia mais volta, tinha de contar. — No fim da manhã daquele dia a campainha da mansão tocou, meu patrão estava lendo o jornal na sala de jantares quando Emma apareceu dizendo precisar ter uma conversa com ele. A princípio eu não quis deixar que ela entrasse, pois estava com muita raiva e eu temia pela saúde do sr. Colter. Mesmo assim, Emma me empurrou e entrou. Não assisti o que aconteceu, apenas ouvi uma conversa nervosa entre os dois, Emma queria saber sobre o divórcio de Regina Mills e meu patrão. Minutos depois foi Ingrid quem apareceu e entrou ainda mais brusca que Emma. Elas gritaram uma com a outra e Ingrid disse que Daniel era o pai de Emma. Ela passou por mim atordoada e foi embora. Ingrid permaneceu na sala de jantar e gritou com Daniel coisas muito feias, o chamou de patife, desgraçado e muito mais. Graham teve de controlar ela e expulsá-la da mansão.
— A senhorita então está dizendo que Ingrid agrediu verbalmente o pintor?
— Diversas vezes.
— Por qual motivo acredita que Ingrid tenha sentido a necessidade de dizer palavras de baixo calão a vítima?
— Protesto! — Isaac ergueu a voz.
— Aceito. Reformule a sua pergunta sr. Walsh. — pediu Ursula, observando Belle.
Walsh enfiou as mãos nos bolsos e deu uma volta em torno de si mesmo, procurando as palavras certas.
— Qual seria a razão para a vítima ser tratada de tal maneira?
— Ela levou um fora dele. Daniel podia não ter forças físicas, mas ainda conseguia falar muito bem quando queria. Ele disse a ela que não acreditava mais em quem ela era. Que queria que ela fosse embora e que tudo o que eles tinham estava acabado.
O tribunal eclodiu em murmúrios.
— Ordem. — disse a juíza. — Prossiga, Walsh.
— Sim, vossa excelência. — o promotor respirou fundo. — A última pergunta que tenho para fazer, senhorita French, é um tanto particular. Qual é a relação de Ingrid Swan com um quadro de pássaro que a senhorita encontrou no atelier de Daniel semanas após iniciar seus serviços na mansão?
— Protesto! Indagação sem fundamento. — Isaac se levantou bruscamente.
— Negado, Heller. Prossiga com a resposta, senhorita. — A juíza também ficou curiosa.
Belle fez que sim e aceitou dizer o que sabia.
— Há muitos anos, meu pai entregou um quadro com exatamente as mesmas características que esse na residência de Ingrid Swan, uma casa na esquina da rua Santa Barbara Bay. Suponho que os dois se conheciam há muito mais tempo do que aparentavam e exista uma réplica do quadro.
— Pois então há um grande acaso do destino que os colocou novamente na mesma cidade. Incrível! — ele olhou para a juíza. — Minhas perguntas estão encerradas, vossa excelência.
Isaac se mantinha de pé e custou muito pouco para se aproximar de Belle na cadeira das testemunhas. Ele não estava nada feliz com as coisas que ela disse, notou a forma como olhava para sua cliente e ia tirar até o último fio de cabelo dela para conseguir provar o ódio gratuito.
— Muito bem, senhorita French, pelas suas convicções minha cliente é culpada pelo assassinato de seu patrão, estou certo?
— Sim. — Belle não se intimidou.
— E o que leva a senhorita a acreditar piamente que foi Ingrid quem o assassinou?
— As provas da perícia.
— Apenas isso? Tem certeza? Ou a senhorita tem alguma outra razão particular que este tribunal não pode saber?
— Protesto. — Walsh reclamou.
— Negado. — devolveu Úrsula.
— Pelas minhas convicções, Ingrid é culpada sim, mas há uma série de fatores que me conduzem a pensar como ela sendo a assassina se o senhor quer tanto saber. — Belle o desafiou. — Minha amiga, Emma, sempre foi alvo de chacota nessa cidade por culpa dessa mulher que se diz mãe dela. Eu sempre fui testemunha do que Emma passou e passa até hoje por culpa da mãe dela. Ingrid nunca fez questão de cuidar da filha, de se importar, sempre foi mal falada nesse lugar e sempre foi uma vergonha para a família dela. — A moça olhou para a mulher mais uma vez e agora não ia suportar. — Essa mulher acabou com a vida de muita gente e não satisfeita quase acabou com a vida da filha dela. Ela... Ela destruiu a minha família... — Com um piscar Belle deixou duas lágrimas caírem dos seus olhos. Olhava Ingrid levantar o rosto para ela, indignada. Qualquer coisa que ela fosse dizer a loira não se lembrava, não conseguia e não compreendia. — Ingrid teve casos com quase todos os homens dessa cidade... Meu pai foi um deles. Quando minha mãe descobriu ficou tão doente que morreu de desgosto.
— Sinto muito por sua mãe, senhorita French, mas não se pode acusar uma pessoa sem provas. Sua mãe veio a óbito certamente por conta de uma doença, um mal súbito. É muito triste, concordo, porém ninguém morre de desgosto porque o marido a traiu. — Isaac gesticulou.
— É claro que sim! — Belle esbravejou, desaprovando. — É claro que ela morreu de desgosto. É culpa do meu pai também, mas ela... Ela podia ter evitado.
— Mantenha a calma, senhorita French. — pediu a juíza.
— Vossa excelência, talvez devemos encerrar o depoimento...
— Olha aqui, você não entende nada! Nem você nem a vadia da Ingrid! — ela se apoiou no balcão e soltou na direção da ré: — E você se orgulha, não é? Se orgulha de ser promiscua e ter destruído tantas famílias. Eram homens casados, Ingrid! Era a minha mãe sofrendo por que meu pai preferia você. Ele deixou a minha mãe por sua culpa, ela entrou em depressão por sua culpa, ela se matou por sua culpa.
Dessa vez o tribunal explodiu em conversas paralelas àquela revelação. A juíza demonstrava surpresa, mas precisava tomar uma atitude se não Belle correria até Ingrid.
— Ordem. Senhorita French, volte ao seu lugar, isto é um tribunal. Se desobedecer a senhorita pode ser presa.
Belle sentia as lágrimas despencando do rosto e seu ódio crescia tanto que seria impossível que Ingrid não sentisse.
Num sopro ela disse inaudível e somente para Belle:
— Per...Perdão.
— Não há mais perguntas da parte da defesa, vossa excelência. — Isaac voltou.
— Pode se retirar, senhorita French. Este tribunal entrará em pausa de meia hora. — A mulher bateu o martelo e deixou seu lugar.
Metade da audiência foi esperar a meia hora de recesso do lado de fora da sala. Regina, David e Mary permaneceram sentados e chocados com a história contada por Belle. Fora um desabafo muito forte e talvez seja a principal razão para ela querer sempre ajudar Regina e Emma. Alguns acasos ajudaram a empregada, assim como deviam tortura-la.
Regina assistiu a moça sair aos prantos do tribunal. Será que Emma sabia daquela história? Até aquela moça Ingrid havia prejudicado mesmo que indiretamente. Onde aquela mulher ia parar? Mas o que ainda assustava mais era a falta de empatia da mãe de Emma. Olhando para o outro lado, Ingrid saía acompanhada de Isaac e não parecia menos indiferente, nem mesmo com as coisas estranhas que Belle contou sobre seu passado.
Pobre, moça, pensou Regina. Lembrou de Emma também. Na realidade se lembrava dela a todo momento, queria estar com ela e aquela apreensão toda em cima do julgamento de Ingrid a deixava muito preocupada. E se Emma decidisse descontar sua raiva na mãe na frente de todo o tribunal? Não sabia, não tinha como saber como Emma iria reagir as perguntas de Isaac especialmente. Regina juntou as mãos em prece e isso chamou a atenção de David.
— Está preocupada com ela, não? Nós também. — disse ele.
— Não há como não imaginar o que ela está sentindo ou como ela deve estar se sentindo. — desabafou Regina.
— Emma é forte. Ela vai expor o necessário e Ingrid será punida. — Mary falou.
— É isso que me preocupa também de certa forma. Não tenho um bom pressentimento. — Regina tomou ar e suspirou.
— Até agora o promotor está fazendo um bom trabalho, não pode ser que o júri entenda que Ingrid não atirou em Daniel. — David fala e se lembra da forma como a irmã permanecia em silêncio sobre o caso na cadeia.
— Nós não sabemos o que se passa na cabeça do júri, David. Até eu começo a ter medo da sentença. — Mary deu um leve tapinha nas costas do marido.
. . .
Posteriormente, na sala de espera, Emma andava de um lado para o outro, sussurrando frases prontas. Estava convicta do que responderia e mais ainda que não se deixaria abalar pela presença da mãe. Enquanto no lado externo daquela salinha um pequeno caos de pensamentos sobre sua mãe acontecia, ali dentro ela não fazia ideia do que as testemunhas haviam dito. Mas ela começou a ter uma noção quando a polícia trouxe Belle para se acalmar e beber uma água na sala. Emma levou um susto e precisava muito entender o que havia ocorrido.
— Belle?! — disse a moça, vendo a amiga ser deixada cautelosamente. Trouxeram-lhe água com açúcar e ela tremia, limpando o rosto sujo de lágrimas desperdiçadas.
Belle olhou para Emma e mexeu a cabeça negativamente como se tivesse fracassado.
— Desculpa, amiga. Acho que estraguei tudo.
— O que aconteceu, Belle? — Emma ficou sob um joelho diante dela, preocupada, mas não podiam trocar palavras ainda. Estava na hora de Emma depor, finalmente.
— Senhorita Swan, você será chamada nesse momento para depor. — avisou Walsh, aparecendo na porta da sala. Ele parou e viu Belle, e a empregada não tinha nem coragem de falar novamente, não por enquanto. — Sinto muito pela sua mãe, senhorita French. Não se preocupe, foi um depoimento comovente.
Emma ficou de pé e estendeu uma mão para a amiga em solidariedade, mesmo sem saber o que ela havia dito no tribunal.
— Tá tudo bem, já passou. — disse. Respirou fundo, fitou o promotor e fez que sim. — Estou pronta.
. . .
Meia hora se foi tão depressa que pareceram apenas quinze minutos. O público voltou curiosamente para os mesmos lugares como se obedecessem uma sequência. Fez-se silêncio quando o júri retornou, Ingrid e Isaac ressurgiram e Walsh se sentou. A juíza tomou seu lugar no centro e enfim se iniciaria a segunda e última parte do julgamento de Swan.
O coração de Regina estava incontrolavelmente disparado, sabendo que momento era aquele. E tão depressa quanto seu pensamento, a saga recomeçou no tribunal.
— Senhor Walsh, faça entrar a última testemunha de acusação. — disse a juíza bem alto.
O homem, já preparado, caminhou anunciando a última pessoa capaz de ceifar o destino de Ingrid em palavras.
— A senhorita Emma Swan — As pessoas ergueram seus pescoços para olhar a moça, a primeira grande vítima de Ingrid, sua própria filha.
Emma caminhou para dentro do tribunal com irreconhecível controle. Sentou-se no lugar e pôde perceber todos os olhos voltados para ela, inclusive o de sua mãe a quem lançou um olhar gelado. Avistou Regina antes de qualquer outra pessoa, seus tios, Archie Hooper, a senhora Lucas e outros rostos familiares prontos para ouvirem. Regina disse alguma coisa com os olhos de longe e ela quis responder, apenas piscou e tudo estava bem.
— Ela está tão séria, tão diferente... — comentou baixinho Zelena ao lado dos tios e mulher da jovem.
— Muito diferente. — aproveitou Mary Margaret.
As feições de Emma endureceram, não se sabia se era medo, ou raiva ou até mesmo tristeza de precisar se lembrar da cena em que seu pai foi encontrado morto. Emma foi avisada desde sempre sobre o juramento, fazia parte do protocolo e isso não levava um minuto. “Jura dizer a verdade, somente a verdade e nada além da verdade, assim Deus a ajude?”
— Juro dizer a verdade, somente a verdade e nada além da verdade, com a ajuda de Deus. — Soou neutra, olhando para o promotor, então, com uma expressão suave, inspirou.
Walsh se aproximou dela, tocou o espaço que os separava e começou:
— Antes de tudo, tenho certeza que todos aqui presentes sentem muito pela sua perda, Emma. Logo quando a senhorita teve a grande oportunidade de conhecer seu pai verdadeiro, ele lhe foi tirado covardemente. Vou tentar ser bastante breve nas minhas perguntas, mas a senhorita pode se sentir à vontade para expressar as suas impressões. — ele olhou o júri de relance, todos pareciam desinteressados, era uma maneira de mostrar passividade. Tornou a Emma. — Pode descrever como encontrou o corpo de Daniel Colter na manhã seguinte ao crime?
— Naquela manhã eu havia saído para trabalhar logo cedo, porém o meu patrão me deu o dia de folga quando cheguei. Minha única opção era voltar para casa e foi o que eu fiz com meu carro. O caminho que faço de volta me obriga a passar pela casa do pintor e naquela manhã notei algo de incomum. Estacionei e vi a empregada da casa, Belle, o enfermeiro do sr. Colter, Graham, e a polícia cercando o local. Fiquei muito preocupada e quando entrei na mansão, me deparei com o corpo dele no chão do atelier.
— Há relatos de que a senhorita ficou especialmente chocada com o corpo de seu pai estendido e morto, é verdade?
— Certamente. Na verdade, agora, eu não me lembro da minha reação, mas me lembro de como ele estava na hora em que cheguei.
— O que mais a comoveu se prestou o mínimo de atenção na cena do crime?
Emma parou um momento, pensou e se sentiu certa do que ia dizer.
— A expressão nos olhos dele. Era como se estivesse vivo e assustado, horrivelmente assustado.
Ingrid fez um movimento irritado, como se tentasse espantar uma mosca. No fundo ela sabia que era verdade. Tinha deixado Daniel com uma expressão terrível e era o que mais se lembrava nas noites em que tentava dormir na cadeia. Pobre homem, pensou ela. Pobre Dani.
— Emma, o que leva você, filha da ré, Ingrid Swan, acreditar que foi ela a assassina de seu pai?
— Tudo. Ingrid Swan é um ser humano ruim, uma mulher capaz das piores decisões para se beneficiar. Ela não poupa esforços para conseguir o que quer, sempre foi assim e sempre será. — Emma evitou olhar para a mãe, embora estivesse morrendo de vontade de fazer isso.
— Quando soube que sua mãe escondia o paradeiro do seu pai verdadeiro?
— Quando ela me contou na mansão, dois dias antes do crime.
— Conhecemos essa história graças a senhorita French. De acordo com o relato houve uma grande discussão, mas por qual razão a senhorita procurou Daniel antes de saber que ele era seu pai?
— Porque eu quis acertar contas com ele a respeito de Regina Mills. — Emma respondeu. — Eles foram casados e se divorciaram alguns dias antes da minha visita ao sr. Colter.
— Compreendo, estou compreendendo. Então entre você e Daniel não houveram divergências?
— Nenhuma. Antes de saber quem ele era eu tinha minhas dúvidas a respeito dele, depois quando descobrimos a verdade, tudo foi esclarecido e pude conhecê-lo brevemente. — Ela sentiu um aperto dolorido no peito ao se lembrar da conversa que Daniel e ela tiveram antes da morte dele.
— Emma, por que acha que sua mãe mentiu para você durante tantos anos?
Não aguentou mais, olhou para Ingrid com a cara muito feia.
Isaac aproveitou para tentar impedi-la de falar.
— Protesto. Não se deve usar a opinião particular da testemunha.
— Acho que não se trata apenas de uma opinião particular, senhor Heller. A pergunta quer encontrar um fundamento nos motivos da ré. Negado. — Úrsula disse baixando os óculos do rosto. — Responda, por favor. — pediu ela a Emma.
Emma assentiu e sua trança caiu sobre o ombro esquerdo.
— Porque ela me odeia. Ela sempre me odiou por ser filha de um homem que nunca foi apaixonado por ela. Sou o fardo da vida de Ingrid Swan, um fardo que ela nunca quis carregar. — disse, por fim, com uma voz monótona.
Ingrid sentiu as palavras da filha e pela primeira vez demonstrava um desconforto. Lançou a Emma um olhar demorado, carente, mas era muito tarde para convencer só com sua atuação, se aquilo era mesmo uma atuação.
Fale com o autor