Intimamente Emma
37 Sem saída
Notas iniciais
Era como se todas as suas energias tivessem sido roubadas de dentro da alma e o corpo pedia silêncio; Regina pisou na antiga casa da família Swan onde estava hospedada, encostou a porta, dirigiu-se a sala, deitou-se no sofá e olhou o teto, mas o cansaço foi mais rápido que ela e em um segundo tinha adormecido. Não soube dizer quanto tempo dormiu, e só acordou porque sonhou com Ingrid andando pelas ruas da cidade com a barriga enorme da gravidez de Emma. A sala estava intacta e incomodamente silenciosa. Não havia escurecido, Emma não voltara. “Ainda bem”, pensou a escritora. Regina se manteve deitada, fazendo uma almofada como seu travesseiro, pensando naquele conto bem criado por Belle que um dia com alguns reparos poderia facilmente virar um livro. Contudo, esse conto corria um sério risco de ser uma realidade cruel para duas pessoas.
Regina só conseguia pensar em Emma, em como ela ficaria, em como reagiria se seu pai fosse mesmo Daniel. Pensava no azar da moça de ter uma mãe como Ingrid, uma mulher tão baixa e egoísta que se esquecera da própria filha; e Daniel, uma das pessoas mais cínicas que ela já conheceu. Emma não tinha mesmo sorte, sofreu desde cedo com a ausência da mãe e o julgamento dos moradores de Mary Village. Por que diabos tinha de ser daquele jeito? Por que ela precisava sofrer desse jeito? Se Daniel é seu pai, como isso foi possível? Ter se casado logo com o homem que fez aquele ser tão maravilhoso por quem se apaixonou perdidamente e que agora significava tudo para sua vida. Mais do que coincidência, um destino muito bem cumprido em unir duas pessoas alheias a verdade desconhecida.
Se Emma não tivesse nascido, se fosse outra pessoa, uma jovem completamente diferente daquela que Regina conhecia, elas jamais estariam juntas. Regina jamais teria a descrito se ela fosse outra. Sua cabeça não conseguia conceber a aceitação daquela história. Ingrid, amante de Daniel, mãe de Emma; Daniel, o traidor, pai de Emma; Emma, a menina mulher, o amor da sua vida; E se fosse consigo? Se tivesse engravidado de Daniel? A traição dele não doía mais tanto quanto o fato de Emma ser filha dele. E então se encontrou conformada em pensar que talvez precisasse viver amargurada, traída e entender que Daniel precisava também ser o pai da moça, ainda que parecesse insuportável aguentar a ironia em que a vida as colocou. Estava sofrendo, chorando em silêncio, sozinha no sofá da sala quando Emma estacionou o fusca na garagem da casa e ela teve tempo para limpar os olhos quando ouviu o barulho.
A moça entrou pela porta do corredor e encontrou a amada deitada com as mãos no rosto como se estivesse esfregando a cara depois de um cochilo profundo.
— Oi. — disse ela, colocando o molho de chaves em um gancho na parede. Depois disso tirou o casaco que vestia por cima da blusa de manga comprida.
— Oi — Regina disse imediatamente, e Emma pode perceber a maquiagem borrada nos olhos dela, a grande evidência de que ela chorou.
— Que foi? O que aconteceu? — Emma veio até o sofá e se ajoelhou na altura do rosto de Regina.
— Nada de importante. Tirei um cochilo depois que cheguei. — Regina falou com a voz rouca.
— Tem certeza?
— Sim, meu amor.
— Então por qual razão estava chorando?
Mills abriu um sorriso dócil, ao mesmo tempo trêmulo.
— Porque eu sou um tola e estava feliz pensando em você.
— Como foi lá na mansão? — Emma não acreditou muito na fala da escritora, pegou sua mão pousada sobre o estômago e uniu a dela.
— Daniel me chamou para assinar o divórcio. Estou livre dele finalmente.— apesar de falar o suficiente, Regina transmitia extrema tranquilidade na voz nesse instante.
— É mesmo? Vo-você jura?!
— Uhum — gemeu Mills. — Ele assinou o papel na minha frente.
— O que vocês conversaram?
— Trocamos algumas palavras, ele me confessou o que fez, me falou das cartas e eu apenas desabafei. O Daniel se mostrou uma pessoa cínica. Eu senti pena dele quando o vi na cadeira de rodas, sendo empurrado para todos os cantos com ajuda do enfermeiro. Ele não consegue se mover sozinho às vezes, está magro e mal cuidado. É como se quando eu cuidava dele não deixava chegar naquele estado, mesmo desejando que ele chegasse a esse ponto e um dia talvez morresse. A hora dele está se aproximando.
— Então foi por isso ele tomou a decisão?
Regina permaneceu em silêncio até ter certeza se valeria a pena falar de Ingrid.
— Também por isso. Me disse que quer se casar outra vez.
— Hã, como? — perguntou Emma levemente espantada.
— Disse que encontrou uma mulher e quer se casar com ela.
Elas trocaram olhares. Emma subindo e descendo as sobrancelhas numa velocidade de dúvida. Já Regina disse a verdade omitindo a parte extra que tinha a ver com Emma, mas por sorte a moça seguiu para outra questão no assunto.
— Mas assim de repente? Só encontrou uma mulher e agora quer casar...
— Mais ou menos assim.
— Bem, que ele seja muito feliz com essa mulher e não volte a te perturbar. — Emma disse isso com algum desleixo, estava ainda preocupada com aquele borrado no rosto da mulher, sinais de lágrimas escorridas. — Mas... Por que você estava chorando? Não foi nada que ele disse, foi?
— Não, Emma, é uma coisa que eu estava pensando. — Regina tentou inverter a situação. — Tem a ver com Daniel, com você. Eu acho que aconteceram coisas que me fizeram muito infeliz, mas ao mesmo tempo se elas não acontecessem eu jamais teria vindo para cá e conhecido você. — Emma esperou para ouvir, se encostou mais ao lado dela no sofá. — Eu não sei o que vai acontecer daqui para frente, como você irá reagir as coisas que sua mãe precisa contar, mas a única certeza que eu tenho é a do meu amor por você. — a mulher apertou a mão de Emma sobre a sua e não conteve novas lágrimas. — Por favor, me prometa que não vai desistir de nós duas quando esse pesadelo acabar.
— Como assim desistir de você? Eu não vou desistir da gente, nunca. — Emma meneava a cabeça como se pudesse dizer a Regina que estava tudo bem, que aquele era um desespero inútil.
— Minhas diferenças com Daniel estão resolvidas, eu o superei depressa mesmo antes de estar com você de corpo e alma. Falta você saber o que deve da Ingrid, mas por favor, Emma, é tudo o que eu peço, aconteça o que acontecer...
— Regina, você pode parar de falar isso? — Emma começou com a voz alterada em meio a uma raiva do que a escritora pedia. — Eu não vou a lugar algum sem você quando isso acabar. Você não consegue perceber que estamos unidas até mesmo quando não pensamos? Sei lá o que o Daniel disse para você hoje, eu acho que foi sério para estar desse jeito e me deixa preocupada. Respeito seu momento se não quer falar sobre, mas entenda que não te amo atoa. O meu amor não é desses que dura uma estação e na outra enfraquece só porque se é jovem. Eu não sou como as outras pessoas, eu não sou como as pessoas acham que eu sou. Eu não sou como a minha mãe que não sabe amar ninguém. Não sou nada disso porque você me ensinou tudo o que eu sei sobre sentimentos. De uma forma ou de outra eu quero ficar com você, ser a primeira, a única mulher na sua vida como sempre quis.
Não havia como resistir àquele lindo par de olhos esmeralda, a decisão ousada de Emma de querer ficar com ela e àquelas palavras tão cheias de seriedade. Regina puxou a namorada para si. Emma se deitou sobre seu corpo e sentiu que deviam ficar o tempo que fosse preciso no sofá. Não fazia ideia do que Regina sabia, nem suspeitava de como a tarde havia sido conturbada para a mulher, só sabia que devia ficar ali com ela, quieta lhe dando carinho em forma de beijos e carícias. Ia continuar amando Regina com todo o coração mesmo que seus piores pesadelos se tornassem verdade, pensava de vez em quando. E para ela, não havia pesadelo pior do que a morte separando as duas, Emma imaginou que talvez fosse esse o receio de Regina, que uma das duas morresse por algum infortúnio. Que isso nunca alcançasse elas então. Regina estava equivocada, não era hora de pensar em tragédias, devia ser forte, Emma estava ali para ela e ninguém mais. Chega de pensar em uma asneira tão grande, meu amor, disse Emma para ela com os olhos. A beijou com tanto vigor que os lábios formigaram. Emma faria de tudo para ter sua razão, Regina, de volta sendo a mulher que ela conheceu. O amor delas não seria ferido por nada, absolutamente nada e essa foi a última coisa que a moça jurou sem precisar falar.
— Então quer dizer que você está prestes a se casar com o pintor milionário? — Gold brindou com a ajuda de Ingrid. Os dois se sentaram juntos no largo sofá da casa do vendedor de carros e vereador da cidade como velhos amigos se reencontrando após muito tempo sem se verem.
— Ainda não dei o sim para o pedido dele, pedi que justificasse a vontade de se casar comigo e sei exatamente o que ele fará. — Ingrid bebeu o conteúdo de seu copo de whisky em três segundos. Fez um charme com os cabelos soltos quando o calor alcoólico subiu pela nuca.
— E o que ele fará para convencê-la?
— Vai assinar o divórcio que a mulher dele estava pedindo há meses.
— É justo. Se ele quer se casar com outra pessoa deve estar divorciado para tal. — Gold deu uma olhada no decote brilhante sobre coxa de Ingrid, um desenho que o vestido fazia entre uma camada de tecido e lantejoulas. — A propósito, está sabendo que a sua filha e a mulher do pintor... bem, agora ex, estão juntas?
Ingrid deslizava a ponta da língua no lábio superior quando foi pega pela pergunta de Gold. O semblante não era dos bons para ele, Ingrid ficou muito insossa de repente.
— Não só sei como vi as duas se atracando na sala da minha casa. Como acha que me sinto?
— Com raiva. — Gold não tinha opinião formada sobre o assunto, mas conseguia pensar no amigo Prefeito se revelasse para ele do que Regina Mills gostava de fato.
— Foi a coisa mais nojenta que eu vi. — Ela deu uma olhada em Gold e ele esperava que ela continuasse. — O quê? Você acha que tenho preconceito? Oh não, não tenho problemas quanto a casais de mulheres, eu apenas acho que essas coisas devem ser feitas por quem entende do assunto.
— Como é que é? — Gold estava mais confuso que uma pessoa alheia tentando entender grego.
— Emma é muito nova, certamente essa mulher deve ter seduzido a minha garota. Regina Mills não é de confiança.
— Hum... Ingrid, eu lamento dizer que elas já vinham se encontrando há muitos meses, alguns antes de você voltar.
— Pode até ter sido isso, mas minha menina também pode muito bem ter sido seduzida pelas falácias dessa mulher. Como uma garota carente, pobre e desiquilibrada, Emma aceitou ser a ninfeta da Regina. Escreva o que eu digo, ela ainda vai lançar um livro em que fala como as duas se comportavam na cama.
Gold soltou uma gargalhada.
— Fala como se Emma fosse uma criança e estivesse sendo abusada. Pelo o que parece e o que eu vi, ela está envolvida até o último fio de cabelo com a mulher.
— Você fala assim porque sente um...Vamos dizer... Uma simpatia, fetiche por mulheres se beijando. Todos os homens sentem. — Ingrid era pura irritação.
— Decerto é um motivo para me excitar.
— Então não defenda. — Ingrid comandou. Largou o copo de Whisky e se levantou para fumar na janela da sala. Pegou um cigarro e o isqueiro na bolsa postada sobre uma pequena cadeira com aspecto do século passado, se dirigiu a janela e acendeu o cigarro.
Gold permaneceu onde estava, mais à vontade se encostou todo no sofá.
— Quem não ficará feliz em saber disso também é o Leopold.
Ela deu uma tragada firme, voltou-se para Gold e disse:
— Não faço ideia do que ele viu na sem graça.
— Ora, Ingrid, ela não é tão sem graça. É bonita, chama atenção, é famosa. — Ele quase fez uma lista de atrativos da Sra. Mills.
— Não vejo beleza em mulheres, queridinho. — Ela estreitou os olhos para ele.
— Eu sei como se sente, ela foi casada com o homem por quem você sempre foi apaixonada e ele preferiu ela a você, tem inveja dela. — Gold foi um bocado irônico.
— Ela é quem sente inveja de mim. — Ingrid falou entre dentes. Tragou o suficiente para derrubar as cinzas no tapete em que pisava. Soltou a guimba acesa e pegou a bolsa, indo em direção a porta. Saiu batendo os pés, nada satisfeita.
— Ingrid, o meu tapete Persa! — gritou o homem por cima do ombro depois de levantar depressa para tentar aliviar o estrago que ela quase deixou em seu tapete.
. . .
Uma hora mais tarde quando já havia anoitecido, Ingrid pediu a um taxista para deixa-la na calçada da mansão Colter. Ela estava particularmente aborrecida com as acusações do sr. Gold e agora queria perguntar algo muito particular a Daniel. A loira pagou o taxi, desceu do carro, subiu os degraus suntuosos da entrada e tocou a campainha de cara com a porta. Quem atendeu foi Belle, arregalando os olhos para ela mais do que depressa com um pavor maior que o susto que havia levado.
— Boa noite, querida. Posso falar com o seu patrão? — Ingrid estava muito educada para quem ia atormentar alguém. Mesmo assim, Belle deixou que ela entrasse, abrindo a passagem e ficando ao lado da porta. Swan entrou olhando para o alto. — Onde ele está? — perguntou à empregada.
— Deitado no quarto lá em cima. O enfermeiro está tomando conta dele. A senhora por favor não o deixe alterado. — Pediu Belle.
Ingrid virou os olhos azuis para ela, deu-lhe uma risadinha cínica como se o que ela dissesse fosse a maior asneira que já ouviu em sua vida. Deixar alguém alterado? De onde já se viu pedir isso a uma mulher como Ingrid, a profissional da criação de encrencas.
A loira seguiu pela escadaria, com ar determinado sem olhar para trás ela não deixava dúvidas do que estava fazendo ali.
Viu Daniel sentado na cama, sendo medicado por Graham, e, este por sua vez, deu um salto quando foi surpreendido pela mulher parada no pé da cama.
— Boa noite. — ela disse suave, chiou como uma serpente.
— Beija-Flor! — Daniel iluminou-se.
Graham entendeu que não devia ficar ouvindo a conversa dos dois como fez na tarde daquele dia quando o sr. Colter se trancou no escritório com Regina. Ele segurou a pequena bandeja de remédios e saiu fechando a porta do quarto por fora como o hábito que o patrão lhe deu.
Ingrid não se incomodou em ser chamada daquele jeito por ele, afinal, naquele estado quem ia raciocinar direito? Ele não devia nem se lembrar direito de seu nome. Embora calma ela o advertiu.
— Meu nome é Ingrid, querido. Se esqueceu?
— Não — ele replicou com firmeza —, é a forma como gosto de chama-la. Desculpe-me se incomoda tanto.
— Não mais como antes. Você, como está se sentindo?
— Bem na medida do possível. Que bom que veio, eu tenho uma grande notícia. — Daniel tinha um cobertor de luxo estirado até sua cintura, foi próximo a seus pés que Ingrid se sentou para ouvir o que ele tinha a dizer.
— Oh, é mesmo?!
Ele confirmou com a cabeça.
— Sim. — Demorou alguns segundos que Ingrid não gostou de tê-los esperado. — Assinei o papel do divórcio. Regina e eu não somos mais casados.
Ela não queria cantar vitória antes do tempo, então o sorriso grande que pensou dar se transformou em um sorriso compreensivo, humilde.
— Oh, querido, você fez mesmo isso?
— Fiz. Daqui a algum tempo poderemos nos casar, isso se você aceitar o meu pedido. — disse Daniel, sem emoção. — Tudo o que eu falei a você no hospital ainda está certo, você tem a minha palavra.
Ingrid sacudiu a cabeleira, jogou as pontas para trás e limpou o resquício do batom borrado no canto da boca. Olhou para Daniel, e isso fez ele se animar entre as coxas. Ela estava linda, era muito bonita.
— Eu pedi para me provar o seu interesse em mim, estou vendo que tomou a primeira atitude. — Swan se chegou deslizando na cama até ele, levantou o queixo saliente do pintor querendo que ele olhasse bem para ela. — O que eu pensei exatamente que fosse fazer.
— Era o mais adequado a se fazer primeiramente. — Daniel disse.
— Imagino que Regina vá ficar muito feliz quando receber os papéis.
— Ela não parecia feliz ou contente com a situação, nem ao menos me agradeceu da forma correta. — Daniel falou
— Ahm... Hum... Ela não agradeceu. — Ingrid começou a refletir.
— Regina é uma mulher muito orgulhosa, se ofende com extrema facilidade. Eu não devia ter aberto o jogo com ela.
Ingrid estreitou o olhar para ele e sua atitude mudou, de repente, sabendo de uma forma sobrenatural que ele havia dito que tiveram um caso no passado.
— Por que tocou no assunto com ela? Você sempre soube o quão perigosa ela é.
— Não, Ingrid, a Regina nunca foi perigosa, ela foi apenas muito sincera dando sua versão dos fatos. Tenho que concordar com tudo o que ela disse. Apesar de me sentir arrependido, não haveria melhor oportunidade para falar desse assunto. — ele levou uma mão a boca e tossiu.
— Pois então ela sabe sobre mim...
— Sabe inclusive seu primeiro nome.
Swan comprimiu os lábios constrangida. Daniel usou suas forças para tocar os cabelos se enrolando nos ombros dela.
— Por algum motivo queria saber o seu sobrenome, vocês já se conheceram?
— Não — ela balançou a cabeça.
— Quando eu contei como se chamava, alguma coisa a enlouqueceu.
— Deve haver outra Ingrid nessa cidade
Daniel roçou os polegares nas bochechas da loira.
— Sim, deve haver.
— Mas você acredita que ela seja capaz de me procurar, fazer algo contra mim agora que sabe do nosso envolvimento? — disse Ingrid, com a voz novamente suave de serpente.
Ele respirou fundo, engoliu em seco e deu a resposta:
— Jamais. Regina é incapaz de fazer qualquer coisa por mais magoada que esteja.
Ingrid não quis ir afundo nas questões que envolviam Regina. O ódio dentro dela fumegou intensamente, era notória a admiração de Daniel pela a ex-mulher. Isso seria um problema a mais em sua vida enquanto estivesse por perto. De súbito um devaneio lhe passou a mente, e esteve ao ponto de blasfemar contra Mills contando a Daniel o que ela andava fazendo com uma moça muito mais jovem que ela em sua casa no fim da rua, até que se lembrou que a jovem se tratava de Emma. Bom, havia outro caso escondido entre essas absurdas coincidências e ela receberia muitas perguntas vindas dele sobre Emma ser sua filha e por que nunca contou sobre a existência da garota. Ela desistiu e cedeu aos pequenos gestos ternos de Daniel, levando sua boca de encontro a dele já que estavam tão próximos e ele parecia incomodamente inquieto entre as pernas.
O beijo foi até o fim sinuoso, reacendendo as energias de Daniel de onde ele não possuía mais. Ingrid deu uma mãozinha lá embaixo, entrou com uma mão no cobertor e tocou o meio da calça de pijama do homem. Parou o beijo quando sentiu a amargues dos remédios no hálito dele, preferia sentir outro tipo de gosto.
— Aceito — disse ela rente aos lábios dele. — Aceito ser sua esposa. — e desceu aos beijos pelo corpo dele, abrindo o pijama, botão a botão.
Daniel sorriu, nada disse. Olhou os cabelos loiros descendo seu corpo, o cheiro do perfume dela que ainda não distinguira se era de rosas ou alguma essência comprada em farmácia. Quando ela chegou lá em baixo fechou os olhos, em seguida viajou para um mundo particular.
Regina permaneceu espantosamente calada na semana que se seguiu. Passava a maior parte dos dias sentada a mesa com o notebook aberto em uma página em branco que insistia em preencher com meia dúzia de palavras e logo tornava a apagar. O dono do hotel, Archie, havia ligado para Emma e pedido que ela voltasse a trabalhar o mais rápido possível e a jovem não teve como negar. Todos os dias elas acordavam, tomavam o café e Emma ia, deixando Regina solitária com quem ela mais andava temendo, as próprias dúvidas. Não havia remédio no mundo que curasse a dor de cabeça quando toda a história que Belle lhe contou vinha a mente. Apenas Emma com um zelo sobre-humano aliviava, porém Regina precisava parar imediatamente de pensar na teoria quando a moça chegava, embora seu comportamento suspeito estivesse preocupando Emma.
Um dia a moça lhe disse que iria esperar o momento certo para falar com Archie sobre a mãe. Regina não foi contra a moça, pelo contrário a apoiou e a encorajou com veemência, disposta a ir atrás de qualquer outra pessoa que pudesse ajudar Emma a solucionar o caso. Mas, assim que o silêncio reinava entre elas de novo, Regina se lembrava de cada palavra da empregada na mansão na tarde em que recebeu o papel do divórcio assinado. Quando ia dizer essas coisas a Emma ela não fazia ideia. Ainda não acreditava que Emma fosse filha de Daniel, então não seria justo tratar de um boato com a jovem, sendo que o contrário a colocasse em uma situação de risco. Contando provocaria nela um surto, um grande choque; não contando seria acusada de omitir a possível verdade; Regina prometeu proteger Emma, não era certo deixa-la tão enfraquecida diante do rumor que envolvia ela, o ex-marido e Ingrid.
Regina voltou a roer as unhas, habito que perdera há alguns meses, quando Emma desceu as escadas numa manhã. Com a mochila nas costas e a chave do carro – porque agora ia todos os dias de fusca para o hotel trabalhar – a moça deu a volta nos móveis e abraçou a mulher mais velha com força.
Emma sabia que algo de errado acontecera a Regina, desde o dia em que ela foi falar com Daniel. Estava penando para encontrar a resposta, via um drama imenso nos olhos da escritora e precisava ardentemente cortá-lo da vida dela.
— Você passou uma semana roendo suas unhas, não come direito, mal fala comigo, não sai de casa... Por mais que não queira me contar, eu vou descobrir o que foi que o Daniel disse para ter te deixado assim.
— Emma, não é tão simples.
— Então como é? O que eu tenho que fazer para você não me olhar com essa cara que você está fazendo agora? Me diz! — Emma beirava o choro.
Regina se virou para ela, conteve seus pulsos, a fitou.
— Não posso te dar essa resposta porque não sei.
Emma agarrou Regina, puxou sua cabeça para seu ombro, recolhendo o corpo da mulher.
— Confia em mim, reúne a coragem que você tem e confia em mim, eu posso te ajudar. Me diz o que você está sentindo, o que foi que ele te disse, desabafa, Regina, meu amor. — falou contra o ouvido dela.
— Um dia você vai saber, Emma, eu prometo que irá. — falou Regina com a voz abafada pelo corpo da moça, sem ter certeza se seria ela a contar ou se seria outra pessoa. Sem saber se era o certo contar a teoria de uma vez ou esperar mais uma semana, um mês, um ano, que fosse.
As duas se descolaram e Emma abriu o rosto da mulher de seus cabelos escuros. Pelo menos Regina lhe disse que um dia ela saberia, já era um passo.
— Vai ficar bem sem mim hoje? Quer alguma coisa da rua?
Mills fez que não, sorriu de levinho.
— Não, eu não vou ficar bem. Vou morrer de saudade e esperar até o fim do dia para te encontrar de novo. E eu não quero nada da rua, se eu lembrar de alguma coisa eu ligo.
Emma gostou da resposta dela.
— Okay, mas me liga na hora do almoço porque depois o Archie pede pra gente desligar os celulares. Agora me dê um beijo e me leve até a porta.
Regina fez o que ela pedia, a beijou nos lábios com doçura, fez um gracejo com os dentes mordendo o lábio inferior dela e a levou até a porta da garagem. Se despediram e Emma saiu. Regina viu pela janela quando ela desceu a rua com o carro, seu coração se apertou, mas hoje não queria permitir que a teoria estragasse seus planos de escrever ao menos um texto reflexivo.
Fechou a janela, buscou uma xícara de café fresco na cozinha e se sentou na mesa, de frente para o notebook.
Uma vez que ia ligar o computador portátil a campainha da casa soou. Regina se levantou no segundo toque, esperou um pouco. Andou até a porta sem ousar respirar e nas pontas dos pés viu o olho mágico. Uma mulher sorria para ela como se soubesse da presença dela no outro lado da porta. Aquele sorriso mesquinho. Só podia ser de alguém; Regina deu um passo para trás, não queria que ela estivesse ali.
Antes de pensar em olhar no olho mágico de novo, ouviu a voz da mulher:
— Bom dia, querida, eu sei que está aí dentro morando na minha casa. Uma coisa que você precisa saber é que tenho a chave, se não abrir para mim eu vou entrar da mesma maneira. O que você prefere? — Ingrid continuava sorrindo para o olho mágico e Regina se viu sem saída.
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