Intimamente Emma
16 Promessas não feitas
Notas iniciais
Passava das oito quando Regina deixou a mansão e andou até a casa de Emma. A moça acendia um par de velas sobre o candelabro de dois braços que herdara da avó. Tinha feito um jantar para Regina e ela, na esperança incansável da mulher aparecer como disse naquela noite. Abanou o fósforo entre os dedos para apagar a chama quando o som da campainha a alarmou, seu coração veio a boca, tinha certeza de que era Regina. Emma correu até a porta e encontrou quem queria trêmula, como se estivesse assustada, mas era o efeito do frio que começava a tornar a noite mais sucinta para ambas as mulheres.
Regina tinha se banhado antes de sair de casa, colocado uma roupa quente, embora parecesse não ter adiantado de nada no momento em que pisou do lado de fora da mansão. Os cabelos estavam devidamente penteados para trás e a maquiagem delineando os olhos traziam um quê mais feminino à expressão séria da escritora.
Elas trocaram um sorriso simultâneo e Emma puxou Regina para dentro da casa com pressa e medo de serem descobertas. Bateu a porta e tocou nos braços da mulher, tateando-a com desespero. Por outro lado, Regina também a tocava no rosto, pescoço e ombros. Estavam se reconhecendo, ou ao menos tentando acreditar que eram de verdade uma para a outra, como se o coração ainda desconfiasse das batidas aceleradas demais quando se viam.
Emma foi a primeira a falar com emoção, os olhos enchendo d’água, prestes a desabarem de felicidade.
— Não sei porquê, mas tive medo de que não cumprisse sua promessa de vir me ver hoje. Acho que tive medo de que fugisse como tinha planejado, te achei tão assustada hoje de manhã, como nunca vi antes.
A mulher engoliu em seco, mas já se permitia chorar. A boca tremia para baixo numa tentativa de sorrir.
— Eu não iria sem você... — Apertou a mão da moça entre as suas. — Vamos manter o que está acontecendo entre nós aqui, não vamos fugir por enquanto.
— Um dia deixarei Mary Way Village, espero que seja com você, e fico feliz que tenha pensado no que falei. — Emma não pediu permissão para abraçar a mulher, apenas fez como se a vida dependesse disso. Secou as lágrimas escuras que desciam dos olhos dela e compreendeu aquela emoção genuína de Regina como ninguém. — Fiz nosso jantar. — Ela apontou para a mesa. — Gosta de macarronada? É minha especialidade.
Regina tomou ar, surpresa e contente, observando cada detalhe sobre a mesa de jantar. Houve um bom sentimento, algo que permitia que se sentisse segura com a moça.
Jantaram relativamente rápido para terem o resto do tempo apenas para conversar e trocarem carinhos quando o vinho fizesse efeito. Emma providenciou outra garrafa como a que tinha desde a noite em que convidou o sr. Gold para jantar macarronada, porém com um ingrediente a mais. Dessa vez, tinha colocado um novo ingrediente sim, que o nome ela estava conhecendo ao fitar Regina limpando os lábios num guardanapo e em seguida bebericando o resto que sobrou em sua taça. Amor. Olhava para a mulher, apoiada nos próprios cotovelos, como se estivesse assistindo a um lindo romance em visão privilegiada. A mais velha trocava olhares com ela, ainda calada, talvez criando uma poesia improvisada para recitar para a jovem, mas era muito difícil colocar sentimentos que borbulhavam dentro dela em palavras tão depressa.
— Uma delícia. — disse Regina após o último gole de vinho, olhando de soslaio para Emma.
— Sim, uma delícia, e linda.
— É, estava muito bonita mesmo, você soube apresentar bem o prato. Já pensou em trabalhar como cozinheira? — Regina pousou a taça vazia sobre a mesa, deslizando a língua pela boca para limpar qualquer vestígio da bebida, mas não era sobre a macarronada que Emma falava.
— Acha que estou falando da macarronada, não? Você é quem estava deliciosa e é linda. — Emma riu em seguida.
— Ah, eu? — A mulher corou até entender a sugestão na fala de Emma.
— Você sabe do que estou falando, não sabe? Foi realmente importante para mim, exatamente como eu esperava que fosse, assim como suas personagens se amam nas cenas do seu livro. — disse a jovem, pensando na noite anterior e na manhã seguinte, tentando se decidir qual dos prazeres tinha sido melhor, se ter sido amada ou se ter amado Regina com a boca.
Ainda assim, a escritora voltou a corar sem saber como responder. Emma observou-a, mostrando um sorriso de canto com satisfação, como se fosse um triunfo descobrir os pontos fracos da mulher e deixa-la sem palavras. A amava cada segundo mais por sentir a caixa de surpresas que Regina era se abrindo somente para ela.
— Sei que não devia me sentir tão envergonhada, é só que eu nunca estive com uma mulher antes, entende? Ouvir isso é mais do que surpreendente. — Finalmente a mulher contou. Abanou a cabeça, tentando se livrar do calor que aquecia seu rosto involuntariamente, tornando aos poucos seus olhos para Emma.
— Do jeito que me amou, pareceu saber muito bem o que estava fazendo. Mesmo assim, meu amor, eu me sinto privilegiada de ser a sua primeira mulher. — Emma se levantou da mesa e estendeu a mão para Regina segui-la. — Vem. Eu tenho algo para mostrar.
Emma tinha separado um álbum de fotografias antigo que pertencia a família Swan. Mostrou para Regina retratos dos entes queridos já falecidos, alguns nem havia conhecido, mas os quais sentia imenso apreço. Um retrato chamou a atenção da escritora, uma fotografia quase no fim do álbum com três pessoas posando na porta daquela casa, aparentemente muitos anos atrás. Regina estreitou os olhos para o retrato. Um homem de barba branca, uma adolescente e uma mulher de meia idade. Teve certeza de que aqueles dois eram os avós de Emma por tê-los visto nas fotografias anteriores àquela, porém a moça lhe causou um estalo. Não tinha visto essa pessoa em nenhuma imagem até então, seria ela Ingrid? A escritora esperava que Emma falasse sobre a foto, foi quando percebeu que ela também havia franzido a testa para olhar aquilo.
— Sua mãe? É ela, não é? — a voz de Regina soava com cautela.
Ela não ouviu Emma responder, mas viu a jovem virar a página como se a foto seguinte pudesse falar por ela. Outro retrato da mesma pessoa, a adolescente sozinha, sentada sobre os pés de uma escada de um lugar grande ao fundo.
— Me esqueci que vovó guardou fotos dela nesse álbum. Eu devia ter achado o outro. — Emma falou em tom aborrecido, tentou se levantar, mas Regina a segurou pelo pulso fazendo-a se sentar de novo.
— Sua mãe fez muitas coisas ruins, mas eu prometo que ela não tocará nem mais um dedo em você, nunca mais. — disse a mulher, olhando nos olhos da moça.
Swan olhou para ela e levantou uma sobrancelha.
— Não prometa o que você não pode cumprir. Minha mãe já prejudicou muita gente, ela sempre dá o jeito dela de estragar tudo. — Emma se calou, virou o rosto. — Já sentiu a sensação de impotência? De que algo ruim esta prestes a acontecer e você não será capaz de fazer nada. Quando prometemos algo assim, corremos o risco de falhar. Não quero que me prometa nada desse tipo, apenas quero que me ame tanto quanto está acontecendo, porque se você falhar ou mentir, eu jamais vou te perdoar. Essa mulher me prometeu tantas coisas, me enganou tantas vezes que eu não sei mais se suporto outra promessa de quem eu amo. Foi assim que deixei de amar a Ingrid. Você tem noção do quanto é ruim deixar de amar a própria mãe?
Regina se sentiu incomodada com a reação da moça. Não deixou barato.
Muito séria, ela questionou, procurando uma resposta menos emocional da jovem.
— Você tem tanto medo assim da sua mãe? Acredita que ela vai estragar a sua vida mais uma vez?
— Eu não sei se suporto olhar para ela outra vez e ouvir a mesma ladainha de sempre, porque eu vou cair nas histórias dela e ela irá embora, levando tudo o que eu tenho. Eu não vou suportar se na próxima vez em que ela aparecer te tire da minha vida. Você nunca vai entender a maldição que ela jogou em mim.
Ela fechou os olhos ao dizer isso. Regina começava a entender o que Belle havia dito mais cedo e o que ela própria pensara sobre a guerra que travaria por Emma. Nunca seus livros estiveram tão certos sobre seu futuro. Estava se repetindo exatamente como no livro que estava escrevendo, seu tão sonhado Intimamente. Ela abraçou Emma, ajoelhando-se diante dela, em busca de confortar a mulher que amava desde o dia em que a viu pela primeira vez. Então Emma a olhou com os olhos pesados, muito distantes do brilho que tinham quando abriu a porta para Regina uma hora atrás. A mulher limpou o rosto da moça, afastou as mechas de cabelo escuro dela, abrindo-o mais para a luz fraca do abajur no canto da sala, o tirando das sombras para fita-la exatamente como queria.
— Não quero que pense no pior, Emma. Está me ouvindo? Por mais que sua mãe seja alguém ruim, ela não pode mais te enganar. Eu vou te proteger. Por favor, confie em mim. — Agarrou-se nas mãos dela.
Emma finalmente se acalmou e assentiu, resignada. Regina estava fazendo uma promessa novamente, mesmo que inconsciente. Mas tinha razão. Não podia ser tão pessimista, pois sua história com a escritora estava apenas no início, não era justo que a felicidade fosse acabar tão depressa.
As duas se abraçaram e, sem pensar muito, encontraram o caminho dos lábios para se beijarem. Não foi lento dessa vez, foi um beijo afoito, dessincronizado, sem espera. Emma não esperou pela permissão de Regina para tirar a blusa de lã avermelhada que ela usava, antes por baixo do sobretudo. Um tempo se passara da hora em que jantaram, muito mais da hora em que terminaram de beber a garrafa toda do vinho, tanto que as velas que a jovem acendera sobre o candelabro já haviam se apagado. Era muito tarde da noite, beirando a madrugada quando se deitaram sobre o tapete.
A hora não importava mais para elas, apenas os toques, os beijos sedentos e a procura do prazer. Foi bom, como da primeira vez, porém hoje nenhuma das duas tinha receios do que faziam. Enroscaram as pernas quando se cansaram, sorridentes e aliviadas. Emma deitada nos seios de Regina, e a mulher afagando o comprimento dos cabelos da moça. Nuas completamente sobre o tapete da sala entre suspiros e carícias.
— Você é exatamente como ela, Suzana. — disse Emma, saindo do silêncio que as envolvia. A voz mansa, calma e confortável, observando o vai e vem da respiração pesada de Regina.
— Você é exatamente como Catherine. E isso me alegra. — Respondeu Regina. — E me perturba. — Continuou.
Emma ergueu seus olhos e rosto para ela sobre seu peito, assustada com a revelação, contudo não sabia o que a mulher diria adiante. Manteve-se quieta, apreensiva.
— E me encanta. Eu não quebraria esse encanto por nada nesse mundo. — Completou a mulher.
Ela olhou para Emma em seus braços com algo muito próximo da paixão, e a moça compreendeu o que ela queria dizer. Era como se as personagens dos livros pudessem ser vividas e cabia apenas a ela aceitar a missão.
— Algo me dizia que seria assim, por mais que eu ainda não soubesse o seu nome — Emma começou uma carícia terna sobre o contorno do seio direito de Regina, queria ver se ele voltaria a se enrugar com o toque do seu indicador. Beijou a ponta do dedo e o levou no desenho do alvo e o bico. — nem o que você fazia da vida. Era você, tinha de ser você, não importava como fosse acontecer.
— Gosto de saber disso. — sussurrou a mulher, distribuindo beijos incansáveis pelos cabelos de Emma, os bagunçando enquanto os cheirava.
Emma sorriu, se apertando contra ela.
— Você é minha, e vai continuar sendo minha toda vez que estiver comigo.
— Como sabe disso? — Regina soou tola, de propósito.
— Está escrito em Intimamente: “Suzana é de Catherine, e Catherine é de Suzana, como asas pertencem aos pássaros e o coração ao peito.”
Repetiu uma frase icônica que andou grifando do livro que estava lendo e Regina escrevera. Emma sentiu-se enlaçada ainda mais por aqueles braços, e o rosto de Regina colou ao dela. Ela, então ofereceu a boca para a escritora estalando os lábios no beijo seguinte.
. . .
Emma dormiu aninhada a Regina sobre o tapete da sala até às oito da manhã, num sono único e desenfreado. Acordou com dor de cabeça por causa do vinho, mas fora isso, sentia-se bem, profundamente reconfortante ao se dar conta de que tinha passado uma segunda noite com a sra. Mills. Deixou cautelosamente que Regina dormisse mais um pouco enquanto se levantava do chão e do corpo dela para preparar uma boa dose de café.
Cobriu Regina com uma manta que trouxe do andar de cima, sem deixar de admirar como a mulher ressonava em paz, sendo que não tinha um sono como aquele há muito tempo. Emma a deixou na sala, tomou um litro de água e duas aspirinas para se livrar da ressaca e buscou o café dentro do armário no alto. E, quando pôs a água para ferver numa chaleira, ouviu um ruído distante de porta se fechando, era de um carro, segundos depois o portão rangendo. Alguém estava chegando.
Ela foi até a porta em passos comedidos, abriu uma fresta e viu o tio subindo o lance de escadas que antecediam a porta. Foi para fora imediatamente, protegendo a porta atrás de si. Estava vestida com um roupão de banho antigo, o que gostava de usar e antes fora de sua avó. David o reconheceu logo de cara.
— O roupão da sua avó. — Ele parou ao terminar as escadas e sorriu de uma forma curiosa. — Não sabia que usava as roupas dela.
Emma apertou o laço do traje e rangeu os dentes.
— Roupas dela que cabem em mim, não são todas, tio. Posso ajudar em alguma coisa? O que aconteceu? — fez a pergunta como se estivesse sendo interrompida, visivelmente incomodada, nada satisfeita.
David ergueu as sobrancelhas douradas demais.
— Eu é quem pergunto, o que aconteceu? Archie me ligou ontem, tarde da noite querendo saber de você. Não foi trabalhar e no dia anterior disse que você fugiu, que saiu antes da hora. Você está doente, Emma? — o tom na voz dele não era dos melhores também, soava como um pai preocupado e no fundo era isso que David queria ser de Emma, um pai.
A jovem pigarreou, passou uma mão pela nuca e pensou.
— É, eu estava resfriada ontem, achei que não seria legal ir trabalhar desse jeito. Peça desculpas para o Archie se passar pelo hotel hoje, eu preciso de repouso ainda, mas amanhã vou trabalhar, com certeza.
— Seu telefone ainda está quebrado? Ele me disse que você nem tem atendido o celular. Você já foi mais cuidadosa, filha. — houve uma transformação da preocupação dele para uma ternura cuidadosa.
— Ah, tio, eu ainda não resolvi isso, justamente porque tenho trabalhado muito no hotel e quando chego fica tarde para me lembrar de chamar a companhia telefônica, mas eu farei isso hoje, vou ligar para lá. Mas o celular... Ah, bem... Não sei se está funcionando, eu vivo esquecendo ele na sala, então não escuto quando subo para o quarto.
— Eu te dei esse celular outro dia, não pode estar quebrado. Posso vê-lo? — David cruzou os braços, e para Emma ele não parecia acreditar no que ela contava.
A moça engoliu em seco, mas para se livrar do tio ela precisava fazer o que ele pedia. Fez que sim com a cabeça e um sinal de “espere” com a mão aberta. Entrou na casa, deixando a porta encostada.
David esperou parado no mesmo lugar, deu as costas para a porta, mas a madeira rangeu com a brisa fria e ele se voltou para ela. Não fez esforço, correu os olhos pela fresta e viu ao fundo a mesa de jantar ainda desarrumada da noite anterior; Dois pratos, o candelabro aparentemente usado, taças de vinho e uma garrafa vazia acompanhada do par de pratos. Ele pensou algo incomum. Emma jantou com alguém, talvez estivesse mentindo sobre estar doente. Mas com quem ela havia jantado daquela forma romântica ao que parecia? Ele ficou longos segundos a pensar nas hipóteses, de testa franzida e boca entreaberta, chegou até mesmo a coçar os olhos e se aproximar da porta para enxergar melhor. Porém, ao invés disso seu olhar se deparou com outro detalhe, o sobretudo escuro pendurado no cabideiro logo ali na entrada. Isso pareceu ainda mais estranho. David teve certeza de que aquele casaco pesado não era de Emma. Nunca tinha visto a moça usando uma roupa de grife como aquela, não podia ser dela. Ele estava prestes a entrar na casa, alguma coisa estava acontecendo e Emma escondia lá dentro. Prestes a invadir pela porta, ela se abriu por inteira quando Emma voltou com o aparelho celular na mão. O fitou desconfiada da expressão na face dele.
— O que foi?
David deu um passo para trás, tomou um pequeno susto com a sobrinha aparecendo de repente.
— Nada. A porta estava encostada eu pensei em entrar. — respondeu ele, nesse momento, incomodado.
— Aqui está o celular, quer dar uma olhada? — Emma estendeu o aparelho para ele e puxou a porta da casa atrás de si com uma mão.
O homem deu uma olhada no celular de Emma, não tinha nada mais do que duas chamadas perdidas, ambas de Archie do Hotel Hopper, mas era bem óbvio que a moça não tinha escutado o toque, pois o aparelho estava no modo silencioso. David fez o favor de checar isso e o reprogramar para tocar quando ligassem.
— É, não tem nenhum problema com o celular, ele estava apenas no silencioso. Agora vai voltar a tocar. — Devolveu o mesmo para a moça.
— Ah, era só isso? Poxa, eu devo tê-lo deixado assim por acidente, não vai mais se repetir, tio. Obrigada.
David Swan deu mais uma olhada para a porta, pensou em perguntar para Emma sobre o que tinha visto, mas desistiu para não parecer evasivo demais na vida da sobrinha. Ele lhe deu um sorriso e beijou o rosto da jovem, virou-se enfim e desceu as escadas da entrada até o portão.
— Vou avisar ao Archie que você volta ao Hotel amanhã, e faço questão de vir busca-la bem cedo, fica melhor com uma carona, não acha?
— Ah, eu acho que sim, mas não se preocupe, tio David, eu prefiro ir andando, faz bem fazer exercícios.
Ele parou antes de bater o portão, olhou para ela por cima do ombro e sentiu aquela sensação de mentira no ar. Acabou concordando com ela e entrou na caminhonete em silêncio. Bateu a porta do carro, viu a sobrinha uma última vez e deu a partida, saindo dali em seguida, cheio de perguntas na cabeça que não seriam respondidas facilmente.
Emma entrou na casa de novo, porém só fez isso quando viu o tio manobrar a caminhonete e se afastar bem da casa. Se trancou, suspirando de alívio por ele ter ido embora sem desconfiar de nada. Pelo menos foi isso que pensou. Assim que trancou a porta, encontrou Regina de pé, no portal da sala, envolta na manta que cobria seu corpo antes. Ela também tinha cara de ressaca, os cabelos foram discretamente penteados pelas próprias mãos antes de levantar, Emma notou.
— Bom dia. — a mulher soou séria.
— Bom dia. — respondeu Emma, indo até ela depois de sentir um calafrio percorrer o corpo após ouvir a voz rouca de Regina em ressaca.
— Quem estava aí fora?
— Meu tio. Veio me perguntar porque faltei ao trabalho ontem. Por um momento, achei que ele fosse entrar aqui e te ver, sorte que ele não fez isso. — disse Emma, pegando uma das extremidades da manta para abri-la e se enfurnar no casulo que Regina criou. Abraçou o corpo nu da mulher, encostando sua cabeça no ombro dela. Não resistiu muito e beijou a pele daquela região, se recordando do perfume natural que a pele dela possuía, se excitava com esse cheiro.
— Você só não foi porque se atrasou. — a sra. Mills fechou o casulo e aqueceu Emma no aconchegante abraço.
— Quis ficar dormindo até tarde. — Emma olhou para ela. — Fiz o café, hum?
— Eu percebi, mas acho que não vou poder ficar, tenho que ver como Daniel esta e se precisa de alguma coisa. — Regina falou com lamento, sempre olhando para Emma.
A moça compreendia que ainda dividiria a vida de Regina com Daniel, o pintor com uma doença muito problemática para ser tratada sozinha. Contudo, Emma estava conformada em ter apenas as noites com a escritora, as únicas horas em que veria a mulher e seria amada por ela. Estava conformada e tinha uma certeza quando Regina deixou sua casa nessa manhã. Ela a amava, mais do que amou o marido em toda sua vida.
Regina voltara para casa antes das nove da manhã. Chegou silenciosamente, a procura de Daniel pelos cômodos. Achou estranho não encontrar o marido no atelier ouvindo a música predileta dele tocando, enquanto pintava um painel importante. Não havia sinal dele pela casa, a não ser a xícara e o pires que encontrou sobre a mesa da sala de jantar, como se alguém esteve ali mais cedo tomando café e pelo perfume ela teve certeza de que fora ele. Não tinha olhado os cômodos de cima da casa, ele poderia estar tentando se barbear de novo, pensou Regina, mas ela não ouvia sequer um barulho de água. Estava na hora de Graham, o enfermeiro aparecer para leva-lo, só que do ajudante também não havia sinal.
Ela começara a tomar o caminho para o andar de cima quando Belle surgiu no final da sala, a fim de recolher a xícara que sobrou na enorme mesa.
— Ele saiu. — Respondeu a questão que Regina fazia e estampava na cara sem precisar de palavras.
— Para onde ele foi? É muito cedo para a consulta com o Dr. Whale. — lembrou-se Regina, tendo certeza de que não estava enganada.
Belle abanou a cabeça um pouco tensa.
— Ele dispensou o Graham logo cedo por telefone. Saiu com o carro, disse que se sentia muito bem e que iria procurá-la. — A empregada, torceu os lábios. — Disse que sabia onde você estava escrevendo e foi, parecia muito disposto e andava sozinho, com ajuda da bengala, eu nunca o vi daquele jeito.
Uma sensação de pavor tomou conta de Regina de súbito. Ela olhava para Belle, abismada, quase sem cor. Ele não sabia de Emma, mas também não sabia onde passou a noite inteira, então onde diabos Daniel tinha ido procurá-la? E tão bem disposto? Ela não quis esperar, pois o momento de bem estar repentino dele tinha prazo de validade e dos curtos.
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