Intimamente Emma
35 O nome da Beija-Flor
Notas iniciais
Ter ido confrontar Ingrid não havia feito bem à Emma. Nos dias opostos a conversa que tiveram, a jovem continuava na expectativa de compreender as razões pela qual sua mãe voltara a Mary Way Village que não fosse por ela. Se por um lado ela quisesse acreditar em tudo o que Ingrid disse, por outro sua razão não permitia que fosse tão ingênua. Ela sentia que nada, a não ser cavar mais fundo sobre sua vida, aliviaria sua curiosidade, e, que o quanto antes fizesse isso, mais rápido aquela tormenta acabaria.
— Bem, não estou dizendo que não sei o que fazer, mas não tenho alternativas, entende? — Perguntou a Regina, sentada na beira da cama enquanto a mulher observava a mansão da janela entreaberta na sacada.
— Por um acaso está com medo de perguntar as pessoas sobre o passado da sua mãe? — Regina cruzou os braços, continuava de olho na casa do fim da rua.
— Nem um pouco. Nem duvido de nada que me contem a respeito dela, eu só não sei por onde começar a perguntar.
— Já pensou em ir falar com quem nunca cogitou conversar sobre sua mãe antes? — Regina finalmente voltou a olhar para Emma.
— Não — admitiu Emma.
— As pessoas das fotos. Quem você reconhece nas fotos que estão no álbum da família?
— De todo mundo que eu vi só há uma pessoa que conheço, a sra. Lucas, mãe da Ruby. Tá, elas foram amigas na época da escola, mas depois disso nunca mais tiveram contato mais íntimo. O que devo perguntar para a sra. Lucas?
— Pergunte se ela sabe de alguma coisa. — Regina se lembrou do dia em que viu Emma sendo demitida do restaurante de Anita. Uma aparição da moça que lhe custou devaneios muito questionáveis. Sorriu por causa disso e se aproximou dela, abrindo o roupão de dormir para ir se deitar. — Irônico vai ser se essa mulher souber de alguma coisa sobre a sua mãe. Acho que foi graças a ela que acabei descobrindo você, porque se ela não tivesse te expulsado do restaurante, talvez você não fosse ao hotel pedir emprego e eu jamais teria visto seu rosto.
— Foi onde tudo começou para você. — Emma refletiu. — Eu devia ter olhado para o lado antes de sair correndo naquele dia.
Regina se sentou ao lado da moça e com alguma delicadeza beijou-lhe a boca.
— Vai ficar tudo bem, Emma. — disse, bem rente aos lábios dela.
— Minha mãe sabe sobre nós. — Murmura Emma, temerosa sobre a reação da mulher.
— O que ela disse? — Regina deixou espaço para a resposta.
— Não sei como ou quem disse a ela. Ingrid não confia em você. — Elas trocaram um olhar.
Regina meneou a cabeça.
— É óbvio que ela não confia em mim, uma mulher mais velha que filha dela e que de repente está morando na casa que foi dela um dia.
— Escuta, meu amor, se ela vier procurar você não dê ouvidos, por favor.
— Se isso acontecer eu sei exatamente o que vou falar a essa mulher. — replicou Regina com pressa para acabar o desagradável assunto.
Emma estava mais sensível que o normal desde o dia em que encontrou Ingrid. Andava querendo evitar o assunto para não desabar e preocupar Regina. Era uma moça forte e decidida, porém muito sensível quando alguma ferida sua mal cicatrizada do passado era tocada.
Tentou segurar o choro até onde podia, desconcertada por não conseguir ser otimista nesse momento.
— Eu sinto tanto por ter metido você nessa história. — ela escondeu o rosto para o lado, apoiada nas mãos.
— Jamais vou me opor a ficar do seu lado, seja pelo o que for. — Regina via a dificuldade de Emma em conter suas emoções. — Acho que posso citar um momento que escrevi no meu último livro, quando Catherine pensa que está magoando Suzana ao escolher ficar em Nova York.
A moça limpa o canto dos olhos com os dedos e sorri de súbito.
— Claro, isso acontece no capítulo treze. A Suzana diz uma coisa que eu nunca vou esquecer: “Não importa as coisas que eu vivi nessa cidade antes de te conhecer. Importa que você fez uma escolha e, se eu te amo, o meu passado não convém ao que eu quero para nós no futuro. Cabe a mim esquecer e me dar essa chance.” Bem que eu avisei que você estava me fazendo de sua Catherine.
— Há mais outra coisa que acontece depois do que Suzana disse.
Emma ouviu Regina e voltou a fita-la.
— Elas se beijam e fazem amor em cima da mesa do escritório.
— Exatamente. — Regina caminha até o abajur ao lado da cama e o deixa ligado antes que apague as outras luzes do quarto.
Antes dela voltar, Emma observa o copilado de movimentos que a escritora faz antes de tirar a camisola de tecido fino que estava ao corpo. É uma cena bonita para ela sempre que Regina se despe e sabe que em seguida vão fazer amor. Os ombros de Regina, de costas para ela, a chamam para tocá-los. Emma sobe na cama e engatinha até a mulher se lembrando da beleza em que a cena no livro foi escrita.
Ansiosa, Emma toca na pele febril da mulher e abafa um beijo em cada lado. Suas mãos descem pelos braços dela, e dali conseguiu ver os seios pálidos apontando os biquinhos para os lados. Emma virou Regina na cama e tirou de si mesma a camisola. Quer sentir sua pele em contato com a da escritora logo de uma vez. Elas se enroscaram, se beijaram como se tudo dependesse daqueles segundos. A moça não quis esperar para descer sua mão esquerda até entre as coxas de Regina. Ela estava tão úmida, tão pronta e excitada que exalava um convite aos dedos e boca da moça. Mas Emma ia levar algum tempo até beijá-la nos lábios de baixo, queria ver seu rosto mudando de expressão quando fosse tocada.
Regina puxou os cabelos de Emma, não tirou seus olhos dos dela até sentir a intromissão da moça dentro de si. Emma a penetrou fundo, um, depois outro dedo e os fincava mais fundo a cada arquejo de satisfação da sra. Mills. Entrou e saiu dela muitas vezes com os dedos, apreciando cada feição de dor que ela fazia, mas que na realidade era uma forma de lhe dizer que estava gostando, que era daquele jeito que queria fazer amor com ela. Emma lambeu seus lábios, mordeu o queixo, espalhou beijos molhados pelos seios da mulher e rodeou os mamilos com a língua. Foi a gota para Regina, que apanhou novamente os cabelos da jovem e sorriu para ela.
Regina soltou uma risada tremida e se curvou. Um segundo mais tarde apanhou Swan e seu rosto num pedido exagerado que descesse até suas pernas. Emma enroscou os dedos da mão esquerda com a de Regina e fez o que ela queria. Começou com beijos molhados na virilha, provocando a mulher, agora muito ansiosa para ter o segundo gozo da noite. Desceu a língua pelo umbigo, lambeu a parte alta da pele onde começam a nascer os pelos e que Regina gostava de raspar – preferia assim. Sua boca se encontrou com a vulva cheia e corada do que seus dedos haviam feito anteriormente. Ela chupou a mulher com tanta satisfação que decidira não usar mais os dedos, nem precisaria. Regina se contorceu tanto quanto da primeira vez. Com a mão livre ela afastara os cabelos escurecidos da jovem, trocando um novo olhar com ela, assistindo seus seios subirem e descer ofegante para encontrar com os olhos de Emma.
— Isso... Olhe para mim, meu amor — Regina pedia, enquanto Emma abocanhava seu sexo como quem abocanhava uma fruta madura.
Novamente Regina foi tomada pela onda de luxúria e seu corpo parecia não lhe pertencer mais. Passava as mãos pelos cabelos de Emma, escutava seus gemidos e sorria como se ela fosse a única capaz de lhe oferecer tal prazer.
Só muito tempo depois, quando os lábios já ficaram quase dormentes de ter beijado e chupado Regina, Emma parou onde estava e ficou observando dali como Regina parecia exausta, porém lindíssima.
— Sinto vontade de fazer poesias para você enquanto te olho. Não sabe o quanto está bonita agora.— Emma fala, enquanto seus dedos passeiam ao longo da barriga da mulher.
— Os seus olhos já estão me mostrando. — Regina jogou um beijo para ela.
— Agora entendo porque os casais dos seus livros fazem amor depois de discutirem. — Emma continua a olhando. — Essa sensação, sabe? É como viajar para outro lugar e esquecer todos os problemas, descarregar a raiva e os medos. Ter alguém em quem confiar para trocar energia.
— Não só nos meus livros, mas em boa parte dos romances isso acontece, Emma. Na vida real isso acontece até mais do que nós imaginamos. Mas há uma coisa que você deve entender. Fazer amor com quem se ama é muito mais do que uma troca de energia, é intrínseco, não se põe em palavras.
— Mesmo que existam palavras que possam definir o que eu senti com você agora, nenhuma pode traduzir o que venho sentindo desde que te conheci. Um dia ainda irei escrever sobre tudo o que você me dá, mesmo que seja uma poesia muito complicada de entender.
— Para entender basta você. — Regina sorri anestesiada, preguiçosa.
— E você entende o que sente por mim?
— Sim, eu entendo. E é apenas isso que eu faço. Sentir.
Emma mordeu o lábio inferior, sorriu e gostou do silêncio que se manteve entre elas. Mais nada falaram. Foi o restante da noite trocando carinhos, e os carinhos se misturaram aos sonhos e o sono. Regina queria proteger Emma, proibi-la de pensar nas dores não físicas que estava sentindo, e Emma queria apenas que a noite não acabasse. Se abraçavam para ter certeza do calor uma da outra, trocavam beijos e olhares para não deixar que acabasse de repente.
Quando já estava bem claro lá fora, Emma acordou com os braços de Regina em cima dos seus seios. Acordou a amada com um beijo, tocou os braços dela em volta de si com carinho antes de se soltar e levantar.
— Está quase na hora do almoço, devíamos ter vergonha de ficar na cama até essa hora. — disse Emma abrindo o armário e pegando calça e camisa de manga cumprida.
— Não é pecado, não estamos fazendo mal a ninguém. — Regina se senta e boceja.
A moça sorri, vestida, fechando o zíper da calça. Penteia os cabelos com a escova que encontra no móvel de frente para a cama. Abre a janela, a sacada e caminha até a porta.
— Quer comer alguma coisa? — pergunta a Regina, sentindo os olhos escuros seguindo-a por onde ia.
— Estou faminta. — diz a sra. Mills de um jeito charmoso.
— Vou ver o que tem na geladeira e preparo alguma coisa rápido pra você. Não estou com fome. E nem devo comer cedo hoje.
— Tem se alimentado mal há dias, Emma. Por favor faça um esforço e tome um café da manhã pelo menos. — aconselhou Regina, que finalmente levantou, com uma certa cerimônia em levar o lençol consigo cobrindo o corpo. Ela entrou no banheiro e Emma acabou concordando com a ideia antes de descer.
Ao pôr os pés no andar de baixo, Emma estava a poucos passos da cozinha, mas ouviu o toque do celular de Regina baixinho vibrar sobre uma cômoda da sala. Ela deu meia volta e viu o aparelho tocar repetidas vezes. Não ia atender ao ver que quem ligava parou por breve momento. Quase deu as costas, mas o telefone tornou a tocar e a curiosidade dela foi mais rápida que o pensamento.
— Alô? — disse assim que o colocou rente ao ouvido.
— Alô. Regina? — a voz do outro lado da linha era máscula, talvez aborrecida. — Eu gostaria de pedir que viesse a mansão hoje pela tarde. Tenho um assunto a tratar com você. Garanto que é algo do seu interesse. Perdão por não manter contato, creio que agora podemos conversar sobre a minha decisão.
Emma gelou de susto. Reconheceu a voz do ex-marido doente de Regina. Ela fechou o pequeno celular no mesmo momento em que ouviu os passos da mulher na escada.
— Quem era? — Regina chegou.
— Era... Era o Daniel. — Emma entregou o celular. — Disse que quer te ver na mansão essa tarde e tem um assunto do seu interesse para tratar.
Seus enormes olhos verdes esperavam alguma reação da escritora.
— Hoje? Será que ele quer falar do divórcio? — Mills olhou o número que ligou, era mesmo da mansão, Emma não mentiu.
— Tomara que seja.
Ela pensou que se fosse mesmo aquilo, haveria menos um problema com que se preocupar.
— Assim que a hora do almoço passar eu vou até lá. — pensou a mulher.
— Que seja esse mesmo o assunto. Enquanto você vai falar com o Daniel eu vou procurar Anita Lucas. Pensando bem no que me disse, acho que ela deve ter alguma informação que eu não sei da Ingrid.
— Faz bem, eu também tenho essa impressão. — Concluiu Mills.
Como havia dito, Regina foi a mansão depois do horário do almoço. Tocou a campainha e esperou menos que um minuto para ser atendida por Belle. Elas se cumprimentaram com os olhos, Belle já sabia a razão da patroa estar ali, então mostrou-lhe o caminho até o escritório. A moça foi bastante formal dizendo apenas o necessário para Daniel não pensar que ela sabia mais do que devia. Muito porém, Belle ficou muito nervosa ao ver Regina, pois pensava que mais cedo ou mais tarde ia precisar abrir a boca a respeito de sua teoria esquisita sobre o patrão e uma certa mulher que o visitara poucos dias atrás.
— Fique à vontade, senhora... Ah, quero dizer, Regina... O senhor Colter já está vindo. — a empregada disse e se retirou.
Regina entendeu a formalidade de Belle e assentiu a ela antes que deixasse o recinto. A primeira coisa que fez foi encarar o quadro na parede, um óleo sobre tela que Daniel pintou caprichosamente para seu aniversário anos atrás. Não estava em um dia bom quando posou para ele, mal se lembrava de quando ele fizera o rascunho daquela pose, mas a expressão fechada e rude em seu rosto se tornou suavizada pelos pincéis de Daniel. Poderia pensar em levar o quadro quando viesse buscar suas coisas que ficaram na mansão, só que deixa-lo também não lhe soava ruim. Talvez ele quisesse vender o quadro para uma galeria de arte, e quando morresse o preço da obra quadruplicaria. Todos a reconheceriam como “O retrato de Regina Mills”.
— Esse quadro foi feito com muito sacrifício. Levei mais tempo do que qualquer outro para pintar seu rosto e deixa-la com vida na tela. Apesar de eu amar o resultado, só compreendi a seriedade nesse olhar agora. Você era muito infeliz já naquela época e não haveria nada que eu pudesse fazer para salvar nosso casamento. Eu sinto muito, querida. Espero que leve o quadro com você, ele é seu e pode fazer o que quiser: vender, guardar, destruir. — Quando Regina olhou para o lado, Daniel estava sentado na cadeira de rodas, acompanhado do enfermeiro Graham de pé atrás dele. A voz do pintor nunca soou tão pacífica, mas Daniel era um homem completamente diferente daquele com quem esteve na última vez em que se viram. Magro e com a pele lívida, a barba por fazer. Ela nunca o viu tão debilitado.
— Não sou egocêntrica, mas também amo esse quadro mais do qualquer outro que pintou. Como vai, Daniel? — ela fez a pergunta por educação, sabia que ele talvez nem responderia.
— Vou bem, dentro do possível. — Ele virou o rosto esforçadamente para o lado. — Graham, pode nos deixar a sós. Regina não vai se opor em me auxiliar por enquanto. Quando terminarmos, eu volto a chama-lo.
— Sim, senhor. — o enfermeiro se afastou e deixou o escritório, fechando a porta por fora.
Os dois se encararam, e havia algo mais que incômodo no rosto dela. Percebeu que era a primeira vez que ficavam a sós desde o jantar que resultara em sua saída da própria casa.
— Por favor, me ajude a chegar até a mesa. — ele pediu, e como previa Regina não se opôs em ajuda-lo empurrando a cadeira de rodas até a mesa. As mãos muito fragilizadas do pintor tocaram uma pasta de papel grosso, revelando de dentro um documento organizado com muita cautela. Daniel puxou uma caneta tinteiro do suporte sobre a mesa e a destampou com os dentes. Assinou no papel seu nome completo do jeito mais fácil e que era possível diante de suas forças. Fechou a caneta e retirou a folha para mostrar a Regina. — Isto é seu. Você está livre, Regina.
A princípio Regina temeu segurar o papel e de repente acordar de um sonho. Ela segurou a folha nas mãos e viu a opção “Diferenças irreconciliáveis” assinalada, logo abaixo o nome dele secando ainda da tinta recém escrita. Ela engoliu em seco, agradeceu em silêncio por não conseguir ser tão objetiva quanto.
— Se esse era o problema, não há mais com o que se preocupar. Saiba que foi uma decisão muito dolorosa. O meu desejo sempre foi que nosso casamento durasse a vida inteira, nunca que você fosse infeliz. Sinto muito que tenha levado você a tal ponto. — Ela não precisava falar nada para Daniel ver uma emoção encruada em sua garganta. Era hora dele pôr as cartas na mesa. — Há uma razão pela qual foi mais fácil escolher assinar o divórcio. Eu acho que você quer uma explicação plausível. Pois bem, tenho interesse em me casar com outra mulher. O que eu vou contar agora a você irá confirmar que não fui um marido a sua altura, um homem que decerto a merecesse. Sinto que estou chegando em um momento crítico e essa história acabaria sendo velada junto comigo no instante em que eu morresse.
Os olhos de Regina arderam, por isso ela os fechou e segurou a escuridão consigo até que os abrisse de novo. Daniel fez que sim para ela com os olhos cheios de lágrimas.
— Se for o que estou pensando, Daniel, eu...
— Por favor, escute bem. Isso aconteceu há muitos anos e foi o ato mais desleal que fiz a alguém. — a voz dele parecia com a de alguém com cem anos nas costas. — Quando ficamos noivos eu conheci uma pessoa em um lugar que meu pai e eu frequentávamos ainda em São Francisco. Eu ainda não tinha certeza se queria que você fosse minha esposa, eram brigas constantes com minha família sobre esse casamento. E tentando espairecer das minhas dúvidas, passei a me encontrar com essa pessoa, essa mulher muito bonita por quem me encantei à primeira vista, assim como me encantei por você. Diferente do que acontecia conosco, com ela foi algo arrebatador e intenso demais para controlar. Tivemos um caso essa mulher e eu por alguns anos, antes e depois do nosso casamento, Regina. Pensei que amava essa mulher, fiz quadros pensando nela, mas com o passar do tempo ela exigia de mim mais do que eu não podia dar. Ela não queria mais ser amante, ela queria que eu assumisse nosso relacionamento e que eu esquecesse meu casamento. Foi nesse momento que me descobri apaixonado por você, perdidamente envolvido por você, ao mesmo tempo desleal. Você não merecia ser traída por alguém que te jurou amor eterno diante do altar, que ficou doente e sempre teve cuidados incondicionais. — Uma lágrima pesada se atirou do olho direito dele. — Eu terminei o caso em uma carta, pedindo que ela nunca mais me procurasse, explicando que eu amava a mulher com quem havia me casado e havia me arrependido de continuar a aventura luxuriosa entre nós dois, mas isso nunca foi o bastante para o meu arrependimento. Ter ficado doente pode ter sido o maior dos castigos por enganá-la, quanto mais perder seu amor e vê-la pedindo o divórcio.
Regina deu uma volta no escritório e respirou fundo. Tornou a olhar o ex-marido como se um grande peso tivesse sido arrancado de dentro dela. Mas preferia não ser piedosa no que ia falar, ele aguentaria mais um pouco já que estavam ali para acertar as contas.
— Eu sabia — sorria com ironia. — Eu soube quando encontrei suas cartas para ela, enfurnadas em um livro velho. Por mais infeliz que eu fosse, aquelas cartas e tudo o que ela escreveu a você acabaram comigo. — Regina fungou discretamente. — Foi o dia em que eu realmente quis que morresse, que não me arrependi de ter desejado a sua morte. Eu estava tão farta de você, tão farta de precisar cuidar do seu conforto porque você vinha definhando aos poucos e mais farta ainda por não me sentir amada. Suas declarações nunca chegaram perto do que eu queria sentir, nem mesmo esse quadro tão lindo... Eu olhava para o seu rosto e tinha pena de mim por ter aceitado me casar com uma pessoa que eu jamais ia amar do jeito certo. Até pensei que uma hora eu aprenderia a ser sua mulher. Nos demos bem na cama, fizemos coisas incríveis juntos nos primeiros anos, mas ainda havia um grande problema que eu não entendia qual era. Naquele dia em que encontrei as cartas daquela mulher eu pensei que devia esfrega-las na sua fuça e te cobrar todos os anos desperdiçados. Você me devia todos os anos que perdi do seu lado, todos, consegue enxergar isso ou não consegue? — Ela o olhava com rancor. — Naquele momento eu soube o quanto eu era infeliz e que na realidade eu só era porque você foi um canalha antes de escolher ficar comigo. Era por isso que eu nunca consegui sentir tudo o que eu podia por você. Depois eu agradeci, eu me vi livre para ir embora dessa casa e da sua vida, pedir para me separar do homem mais ingrato que eu conheci e veja onde ele está agora: — ela aponta uma mão aberta na direção dele. — Morrendo em cima de uma cadeira de rodas arrependido ou achando que está muito arrependido por todo o desgosto que ele me fez passar.
O pintor baixou a cabeça e sofreu calado enquanto Regina terminava o desabafo.
— Apesar de tudo, muito obrigada por ter me trazido a esta cidade e me permitido viver uma nova vida. Se não fosse por você eu não teria encontrado meus reais motivos de escrever sobre mulheres que se apaixonam por outras, nem mesmo teria encontrado uma razão pela qual eu quisesse viver e eu encontrei. — ela não ia falar o nome de Emma àquela altura da conversa. Tinha dito tudo o que queria para ele e até mais um pouco. O olhou mórbido na cadeira de rodas, limpou o beiço suado de tanto falar e tinha só mais uma pergunta: — O que afinal essa mulher com quem quer se casar tem a ver com a nossa história?
Daniel ergueu o rosto.
— Ela é a mulher com quem tive o caso. — respondeu ele, e pareceu que Regina levara um balaço no rosto. — Por alguma coincidência e depois de um engano descobri que ela vive aqui. Nos reencontramos e vi nela uma forma de compensar o meu erro. Ela ainda me ama, tenho sentimentos por ela, então fiz uma proposta para que terminássemos juntos. Por isso, Regina, eu aconselho que depois você retire suas coisas dessa casa e se mude para um lugar distante onde não tenha mais notícias minhas e dela. A propósito, ela não gosta de você, consegue imaginar o porquê?
— Eu também não gosto dela, como manda a regra da mulher traída. Posso saber como ela se chama? Porque acho impossível que alguém tenha um nome tão caricato quanto Beija-Flor.
Regina realmente leu as cartas, pensou ele. Que mal ela faria se soubesse o nome da Beija-Flor? Seria mais previsível que Ingrid fizesse alguma coisa a Regina e não o contrário.
— Você não iria querer saber. — disse ele.
— Sinceramente, não importa, mas já que não temos mais segredos, tanto faz como tanto fez,
Ele então revela:
— Ingrid. A Beija-Flor se chama Ingrid.
Ela teve a sensação de uma rajada de vento frio congelando o peito. Que história era aquela? Será que era a mesma Ingrid que ela conhecia? A mãe de Emma? Seu cérebro deu um nó, tinha algo errado acontecendo com ela. Subitamente empalideceu, perdeu o chão, a visão, se apoiou na mesa antes da vertigem atingi-la.
— Ingrid — soou alheia, mas fitou Daniel.
— Você não está se sentindo bem. Eu vou chamar a Belle. — ele disse. — Belle, venha até aqui, por favor. — chamou a empregada um pouco mais alto do que conseguia e a moça apareceu na porta acompanhada de Graham como se estivessem ali atrás o tempo todo. — Traga água com açúcar para Regina. Ela não está se sentindo bem.
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