Intimamente Emma
30 Ingrid
Notas iniciais
Aquela era uma das primeiras vezes em que Ingrid não estava atuando para conseguir algo que almejava na noite. Longe de estar querendo alguma coisa, ela entrou no carro com Daniel, chorando copiosamente após ser colocada no banco do carona e ele fechar a porta do seu lado. Não disseram nada pelo caminho. Seu choro devia ser a única coisa que escutavam além do ronco do motor, e ela só parou quando viu onde tinham chegado. Tudo ficou escuro de repente e Daniel desceu para puxar a porta da garagem com tanto cuidado quanto alguém escondendo um corpo no porta malas no meio de uma noite fria.
Daniel a tirou do carro e a conduziu pelos fundos da mansão até estarem seguros lá dentro. Foi tempo suficiente para Ingrid entender que seus planos deram errado e não havia adiantado nada praguejar infelicidade ao pintor quando ele a deixou. Tudo brilhava no corredor, embora a riqueza que Daniel adquiriu com o tempo não fosse o maior sinônimo de sua felicidade hoje. A felicidade dele tinha um nome bastante familiar a ela, um que ela odiava inclusive lembrar, mas agora, pior, se lembrava do que e o que esse nome atingiu. A analogia da vida pegou Ingrid Swan pelas costas e ameaçava a única coisa da qual ela podia amar de verdade – ainda que pouco – sua filha Emma. Conforme ele ligava as luzes, a mulher via os troféus, as fotografias, os objetos de prata, dando liberdade para a imaginação coloca-la ali entre os cômodos se arrumando com as roupas que a mulher de Daniel vestia para sair, o esperando descer as escadas para irem jantar ou namorar em um novo lugar. Ingrid mal notou que quando Daniel a colocou sentada, ela estava completamente absorta em um transe. Ele puxou uma cadeira para perto dela e se sentou de frente, servindo um copo com conhaque para ambos. Quando Ingrid ergueu os olhos para ele, teve vontade de mata-lo ali mesmo. Não sabia se o odiava por tê-la trazido até sua casa cheia de vestígios de Regina por todos os cantos, era humilhação demais. Por que ele estava fazendo isso com ela? Pensava. Sendo assim, ela o olhava irritada, com os lábios tremendo para baixo em contraste.
Ele lhe devolveu o olhar, só que um olhar suave.
— Senti sua falta. — disse, levando o polegar as bochechas dela.
Ingrid afastou a mão dele e roubou o copo com conhaque da mesa, bebendo um gole inteiro de uma vez.
— Mentiroso. — ela não concordava. — Por que me trouxe aqui?
— Foi o único lugar que pensei. Imagino que seja desconfortável para você conhecer a minha casa, porém estamos seguros aqui. Ninguém dirá nada. — ele explicou com suavidade.
— Já entendi, Daniel. Você está com medo que sua mulher descubra que andou se encontrando com sua ex-amante. Ah, eu deveria chamar ela de ex-mulher, já que vocês não vão voltar.
— Vamos evitar falar da Regina. Ela não está aqui para se defender.
— Nem está aqui para que negue o que fez com ela por vários anos.
Daniel estendeu a mão para frente e puxou o rosto de Ingrid para bem perto do seu, desmanchando o penteado dela. Foi tão forte que ela deu um chiado, arregalando os olhos em seguida. De repente a doçura de Daniel sumiu.
— Eu me arrependo de não ter escolhido terminar o nosso caso antes. Eu me arrependo de tudo o que aconteceu entre nós dois depois que me casei, mas qual mentira foi pior? A minha ou a sua? Não se esqueça, Beija-Flor, você estava morta.
— Não me chame assim. — ela pediu entre os dentes.
— Vou chamar você do que eu quiser. — ele rebateu, descendo a mão pelo lindo rosto borrado dela, chegando ao pescoço e encaixando a mão onde podia sufocar Ingrid.
Ingrid mal pôde engolir em seco.
— Po-Por que não me mata logo? Vai que uma hora dessas eu encontro a sua Regina por aí e resolva contar tudo o que aconteceu entre nós dois, hein? — ela dizia com a voz entrecortada.
Daniel apertou o pescoço dela até certo ponto a deixando sem ar.
Ingrid ria debochadamente dele.
— Eu adoro quando você fica violento. Me dá um quê de emoção, um susto excitante. Onde aprendeu a seduzir assim? — ela se divertia com aquilo.
Ele apertou mais.
— É melhor você calar a boca.
— Me... me so...solte...
Ele largou o pescoço dela e se ergueu, caminhando incrédulo pelo cômodo.
Ingrid buscou ar desesperadamente e tossiu muito, inclinando o corpo para frente.
Com o tempo ele parou, se virou dando um passo para trás e olhou para ela, confuso.
— Me perdoe, Beija-Flor. Me perdoe se fui agressivo.
Ingrid olhou para Daniel quando ele veio até ela e se ajoelhou. Enfim, notou onde estava. O atelier. Só não tinha percebido antes o cheiro da tinta por conta do álcool subindo-lhe a cabeça. Então era ali que ele criava a maior parte de suas obras. O lugar não era o cômodo mais bonito da casa, havia jornais espalhados pelo chão para evitar respingos certamente, além de que as molduras e quadros antigos esperando destino se misturavam sobre um tablado do tamanho do quarto em volta do rodapé. Outros quadros ficavam na parede e esses com certeza Daniel não tinha a intenção de vender. Ela viu tudo isso rapidamente, voltando-se para ele com curiosidade, mas ainda respirava irregularmente atrás do ar que ele tomou dela.
— Você ainda o tem? — perguntou.
— O quê?
— O quadro. O meu quadro. — sua voz começava a voltar ao normal.
Daniel sabia do que se tratava. Levantou pela segunda vez e examinou os quadros soltos. Tirou uma moldura específica de uma fileira de quadros no canto do quarto. Era aquele. Fez um procedimento muito rápido para quem conhecia o segredo e lá estava.
Ela estava atenta a ele. Daniel voltou trazendo o quadro nas mãos. Dava para ver que estava castigado pelo tempo e falta de cuidado, ainda que não fossem só esses os fatores. Ele mostrou a ela o quadro do pássaro. De tamanho médio, aquele certamente seria o quadro mais belo feito por Daniel. Um simbólico pássaro beijando uma flor. Ele fez o quadro para ela quando se conheceram. Era como voltar àquele dia e ser testemunha do amor que sentia por ele. Ingrid estava a meio caminho de perdoá-lo, mas se lembrou de um detalhe. Daniel era um homem muito inteligente, só não foi tão inteligente para supor que o quadro que segurava não havia sido pintado por ele, era uma réplica perfeita. No único ato beneficente da vida de Ingrid, ela resolvera ficar com o quadro original para no futuro vende-lo e dar o dinheiro à filha.
— A sua carta, a que me enviou ainda está aqui. — ele a tirou da moldura e entregou para ela.
— Não quero ler isso, nem quero lembrar do quão tola foi minha decisão ao receber a sua carta. — ela devolveu.
Daniel ocultou o quadro com a velha moldura e tela e o largou no canto, voltando a olhar para a loira.
— Se arrepende?
— Um pouco. Queria que sofresse, queria que passasse pelo o que passei ao ser enganada e no fim eu enganei muitas pessoas vendo você no lugar de todos eles. — ela se levantou. Viu o armário perto de onde estava e tomou a liberdade de abrir outra garrafa de conhaque. Não ia perguntar por que Daniel guardava tantas bebidas naquele cômodo, só estava interessada em alimentar o vício. — Como um Serial Killer fazendo suas vítimas, eu me aproveitei de muitos homens. — ela veio com um copo cheio na mão. — Alguns acho que matei de desgosto, outros levei à ruína e com alguns fiz casamentos de anos terminarem. Tudo por sua culpa, querido.
Ela se aproximou dele com a leveza de uma pluma, veio andando em demasia feminina até seu corpo, tocando-lhe o queixo com as pontas dos dedos livres. Com a outra mão ofereceu a bebida, mas tirou dos lábios dele antes que descesse. Bebeu tudo e livrou-se do hálito diante dele.
— Como veio parar nessa cidade? — perguntou ele, sério.
Ingrid passou a língua entre os lábios sem tirar os olhos do pintor e sorriu antes de responder.
— Ora, querido, isso é muito simples. Eu nasci aqui.
Daniel ficou quieto por sua vez, olhando-a em silêncio.
— Nasci e fui criada a vida toda nesta cidade. Você deve estar se perguntando como apareci em São Francisco... Outra explicação simples. Antes de terminar a escola, eu abandonei tudo e fui morar na Califórnia, trabalhando como garçonete em San Diego em um primeiro momento. Eu tinha um sonho de me tornar uma estrela de cinema e meu objetivo era ir a Hollywood. Você já deve ter notado o meu talento para atuação. Pois então, eu passei por todas aquelas cidades antes dos meus dezessete anos e quando cheguei a São Francisco meu primeiro emprego foi em um cinema. Isso me alimentava tanto os sonhos. — Contava Ingrid, desfilando pelo cômodo com o copo de bebida na mão. — Idas e vindas de lá para cá, cartas para a família, promessas de que ficaria rica e voltaria para ajudar meus pais, muitos homens aos meus pés me prometendo mundos e fundos (especialmente os militares) e finalmente você. Nos conhecemos em um lugar completamente distante, aquele bar na beira da estrada, no entanto morávamos na mesma cidade, veja que interessante. Me lembro da sua cara quando eu falei da Golden Gate, você associou no mesmo momento. Se lembra dos primeiros seis meses? Nunca gostei de me esconder do seu estilo de vida milionário e ter deixado São Francisco foi minha primeira vingança, mas lá estava você em Wisconsin me esperando. Há coisas que não me lembro mais ou estou começando a esquecer porque é exatamente isso que beber causa, esquecimento. — Ingrid olhou para o teto em seguida, refletindo. — A paixão. Ah... Essa sim eu me lembro muito bem.
Ingrid andou até o móvel para encher novamente o copo, mas a garrafa já estava vazia. Daniel buscou algo na adega que não era conhaque. Abriu um vinho caro para eles dois e brindou com ela, acompanhando-a na breve história de vida que ela compartilhava.
— Nós éramos tão jovens. — ele dizia enlevado pelo calor. Tirou a gravata e encheu o copo mais uma vez.
— Jovens e apaixonados. — Ela o olhou. O via duas vezes, como se ele tivesse um irmão gêmeo, então não sabia para qual deles olhar. Com o pouco de sobriedade que lhe restava, ela perguntou: — Como veio parar aqui?
— Estive doente. Sou um homem doente, Ingrid.
— O que você tem? — balbuciou ela.
— Paralisia. Uma espécie de doença degenerativa que boqueia meus movimentos. É uma doença rara para homens da minha idade e eu fui um sorteado. Assim que me despedi de você na carta, comecei a sentir os primeiros sintomas. Por alguns anos ignorei os avisos que meu corpo anunciava repetidamente, até que em um momento ele foi enfraquecendo e eu perdi o controle. Passei alguns anos indo a médicos por todo o país atrás da cura e, por último, em Nova York, a ponto de desistir, Regina e eu encontramos esse doutor Whale de quem tanto falam. Ele é o único a tratar desse tipo de paralisia e graças a medicação dele eu estou totalmente curado como pode ver. Vim para cá atrás da cura. É uma grande coincidência.
Com calma, ela se colocou no lugar de Regina dentro da história. Ela não seria tão benevolente por ele. A atitude de tê-lo deixado ganhou a simpatia de Ingrid e a loira pôde até admirar a escritora.
— É por isso que está carente. Preferia que estivesse doente com Regina presente do que relativamente bem e ela ausente. É doloroso, não é? Eu tive minha vingança de você tarde e sem querer. Não sabe como estou feliz por ver a sua cara de derrotado.
Daniel encheu seu copo pela última vez.
— E você faria quase o que ela fez. — retrucou.
— Ora, é mesmo?!
— Só que do contrário de você, Regina esperou que eu melhorasse para ir embora. Não garanto que você fosse suportar tanto tempo cuidando de mim.
Ingrid se irritou com a comparação.
— Se casou com ela porque a achava melhor do que eu?
— Em muitos aspectos se quer saber. Percebi que os nossos problemas estavam muito além de sermos amantes. — ele bateu o copo na mesa e andou até ela furioso. — Regina era uma jovem inteligente, bonita e honesta. Você por outro lado, era jovem, inteligente, bonita e interesseira. — foi para cima dela.
Ela estava corando demais. Ia dando passos para trás enquanto Daniel se aproximava, mas tonta por ter bebido além da conta, ela esbarrou no tablado de quadros.
Ia rir dele, mas se conteve. Era verdade. Amava Daniel como sempre, mas o trocaria facilmente pela vida luxuosa que nunca teve. A riqueza e boa família que ele tinha sempre fizeram seus olhos brilharem além da atração que sentiam, ele seria uma vítima perfeita juntando o útil ao agradável. Porém, Ingrid jamais conseguiu a vida luxuosa, nem o homem que amava.
— Vá em frente, aperte o meu pescoço de novo, acho que mereço morrer.
— É você quem está pedindo por isso, Beija-Flor.
Daniel não aguentou muito e a puxou para ele, mas ela se libertou do abraço e esbarrou nos quadros.
— Não ponha as mãos em mim!
Deu as costas para ele e ainda mais tonta derrubou tudo o que tinha a frente dela. Foi a deixa para Daniel agarrá-la pelas costas e empurrá-la até a parede. Ingrid esperneou, gritou, até ser encurralada. Ele a virou e olhou bem dentro de seus olhos azuis intensos.
— Eu sei que não devo — ele disse —, mas quero muito beijar você.
Ingrid não disse nada, continuou a olhar para ele com aquela expressão bêbada, meio cômica, meio trágica. Ele interpretou o silêncio como um sim e a beijou.
A boca dela era macia e úmida, puro gosto de vinho. Ele fechou os olhos. Ela aceitou o beijo entreabrindo os lábios, e ele sentiu a ponta da língua dela.
Não foi preciso mais que cinco minutos para ele coloca-la de costas e levantar o vestido. Abriu o zíper da calça, tirou o cinto, abaixou tudo até os joelhos e afastou o que ela ainda vestia para o lado, entrando nela sem precisar de permissão. Eram movimentos bruscos colocando-a contra a parede e no fim ela sofria quando ele voltava para dentro dela. Ingrid era quente e cheirosa, dava prazer a ele ficar respirando a colônia barata que ela usava enfim. Dessa forma ele a pressionava e ela gemia sentindo o rosto e o corpo baterem na parede gelada ao mesmo tempo que ele se batia contra ela. Estava bom, ela achava que a bebida ajudava a intensificar as investidas dele. Estava muito excitada, tanto quanto ele e decidiu perdoá-lo pelas ofensas no momento em que ele gemeu em seu ouvido anunciando estar próximo do gozo.
— Venha — o empurrou e ele saiu dela. — Vamos lá para cima.
— O quê?! — Daniel não compreendia como haviam parado.
— Quero fazer isso na cama onde se deitou com ela. — comandou Ingrid, pulando no colo dele para ser levada ao quarto de Daniel.
Suzanna vestiu o pijama e deitou, mas não dormiu. Estava muito feliz para dormir. Lembrou do reencontro, do beijo outra e outra vez. Finalmente ela e Catherine cediam aos desejos descontraidamente sem nada, nem ninguém para impedi-las.
A casa estava em silêncio.
Alguns instantes depois da madrugada, ela levantou da cama. Foi pelo corredor até a sala onde Catherine fingia estar muito interessada nas folhas de trabalho. Chegou de leve.
— Oi. — ela disse, em voz baixa.
— Oi. — respondeu Cath.
— Sou eu.
— Eu sei.
Cath estava de costas, segurando uma folha, com a cabeça baixa lia secretamente o que ela mesma escreveu. As cortinas estavam abertas e a luz da lua entrava pela janela. Suzana via a linha do rosto dela e os ombros magros que não achou bonito quando a conheceu. Agora pareciam linhas angelicais.
Ela parou em suas costas e pediu em silêncio para tocá-la. Mãos ao alto.
— Tomei uma decisão. — Cath disse.
Suzana segurou a mão dela, erguendo o papel para ler. Viu por cima do ombro dela a resposta que esperava há meses.
— É verdade, meu anjo?
— Sim.
Catherine escreveu a carta de demissão. Enfim, nada a prenderia mais a Nova York. Viveriam sossegadas naquela beira de praia como o tempo todo planejaram.
— Amo você. — Suzanna disse com lábios trêmulos de emoção.
— Se eu disser o mesmo, estarei perdida esta noite.
Isso fez Suzanna sorrir. Ouvir ela dizer que terminariam as juras de amor aos beijos e afagos dessa forma. Beijou as mãos dela, depois a testa, depois a ponta do nariz. Beijou o ombro dela por cima da camiseta fina de algodão.
— Eu entendi. — ela disse sorrindo. Tirou a carta da mão de Cath com calma, a deixou sobre a escrivaninha e levou sua mulher para o quarto. — Venha se perder comigo então, como da primeira vez.
Fim.
Intimamente ganhou um ponto final da autora após um longo ano de perdas e ganhos para Regina. Ela olhava para a palavra “Fim” com a sensação de vazio. Essa provavelmente seria sua maior despedida de um livro, por todas as sensações novas de inspiração que sentiu ao decorrer do período em que o fez. Regina foi relembrando o momento em que o livro ganhou vida em sua cabeça, palavra por palavra. Só que tudo – grande parte, na verdade – teve sentido quando conheceu Emma e comparou as protagonistas. Por isso estava terminando o livro, porque Emma foi sua maior fonte de inspiração. Regina parou para ler o final inteiro novamente e não podia estar mais surpresa; Aquelas palavras eram para Emma. Todo e qualquer acontecimento descrito depois de determinado capítulo, era para Emma. As palavras descreviam um futuro próximo do que Regina planejava, tudo descrito minuciosamente usando codinomes para explicitar de alguma forma o seu amor pela moça.
A sra. Mills tinha de fazer alguma coisa para retribuir a ajuda de Emma. Não foram apenas declarações e poemas emprestados pela própria garota que se findariam no livro. Ela sabia o que devia fazer.
Pulou uma página no rascunho e escreveu:
Agradecimento
Àquela que surgiu em meu caminho se tornando a minha maior inspiração.
Com todo o meu amor, para Emma Swan.
Um sorriso puro surgiu de seus lábios ao ler o que ela mesma escreveu. As intenções eram as melhores possíveis. Tinha certeza de que venderia bem Intimamente e, quando o colocasse no mercado, Emma e ela estariam longe de Mary Way Village.
Regina salvou o arquivo três vezes para mantê-lo seguro. Fechou e desligou o notebook, pensando o que diria para Emma quando acordasse. Já era tarde na manhã, Emma e ela custaram a pegar no sono depois do pesadelo, o chocolate quente e a transa do meio da madrugada. A propósito, a sra. Mills só tinha se dado conta das marcas que Emma deixou em suas coxas quando se levantou da cadeira e o robe que vestia se abriu no meio. Não conseguiu não sorrir lembrando do acontecido. Ainda ardia como ardeu no ato. Regina desejou subir e voltar a dormir com Emma, porém antes de subir a escada seu celular, quase esquecido, na cômoda ao lado do sofá vibrou.
Havia uma mensagem de voz do número de Belle, a empregada. Quando Regina abriu colocou o aparelho no ouvido.
— Regina, sou eu, a Belle. Preciso lhe falar com urgência. Por favor, me ligue de volta assim que puder. — Belle disse tudo muito rápido, falava baixinho dando a entender que não podia ser ouvida. Regina achou muito esquisito.
Motivada pela curiosidade, pensou em ligar de volta, mas alguma coisa fez ela recuar esse pensamento. Ao invés de chamar Belle, enviou uma mensagem pedindo que a encontrasse no bistrô aquela tarde.
. . .
A empregada respondeu rápido. Tinha fugido do trabalho de manhã cedo sem nem mesmo dar uma satisfação a Daniel depois do susto que levou. Mas ele não ligou para ela, nem enviou uma mensagem perguntando o que tinha acontecido. Deve ter suposto que ela passou mal e precisou ir embora. Cairia como uma luva para o patrão, afinal ele estava com uma hóspede em casa, daquelas hóspedes que se pede discrição, ainda mais de quem se tratava e como Belle a viu.
Numa pilha de nervos, prestes a cutucar o último fiapo de unha que tinha para roer no dedo indicador, Belle repetia mentalmente o que ia falar para Regina. Seria um aviso breve e muito útil se ela entendesse. Não entraria em detalhes, só precisava dar o aviso. Deu um salto da cadeira quando Regina apareceu e ficou de pé até ela se aproximar, saudando-a com a cabeça.
— Boa tarde, Belle. — a sra. Mills disse, como sempre bem arrumada até para o casual. Se sentou e viu o nervosismo estampado na cara da moça.
— Preste muita atenção no que vou dizer, é muito importante. — ela voltou a se sentar, se encolhendo para ninguém se intrometer na conversa delas, embora quem estivesse no bistrô sentasse distante delas.
— Estou prestando a atenção. Do que se trata? — Regina a mirou com seriedade.
— Emma sabe que está aqui?
— Não. Por que ela saberia? — Regina se fez de desentendida.
— Tudo bem, eu sei que a senhora e ela tem um caso, não precisa esconder. Aliás, isso ficou explicito quando me mandou entregar aquelas cartas para ela quando ela sumiu.
Regina corou. Sem jeito desviou o olhar.
Uma mulher com um bloquinho apareceu para perguntar se queria alguma coisa.
— Um chá gelado e para a moça o que ela pedir. — disse desconsertada.
— Para mim um suco de laranja pequeno. — Belle pediu depressa e a mulher se afastou delas. — Voltando de onde parei, eu sei que a senhora tem um romance com Emma. — Belle disse para Regina de forma cuidadosa.
— Romance é a palavra mais apropriada. Pois bem, e o que isso tem a ver?
— Certo. Olhe, eu soube hoje mais cedo que a mãe dela voltou para Mary Way Village. Corria um boato de que ela estava mesmo na cidade há algumas semanas, mas eu pensei que fosse uma grande mentira, o problema é que ela está mesmo aqui.
— Hã? Como é que é?
— A mãe da Emma voltou e isso não é bom. Leve Emma para o mais distante possível daqui. — Belle explicou.
— Não posso fazer isso agora. Não há como fazer isso nesse momento. — Regina gesticulou.
— Dê um jeito, porque se a Emma souber ela vai ficar maluca. Se eu bem conheço a Ingrid Swan, elas vão brigar.
— Mas não é possível que todo mundo tenha medo dessa mulher. Emma é maior de idade, sabe o que deve dizer a mãe dela, sabe se cuidar e escolher se quer reencontrá-la. — Mills disse convicta.
— Não é bem assim que a banda toca. Eu acho bom a senhora viajar com a Emma por uns tempos.
— E por quê? O que a mãe dela faria?
Os pedidos chegaram a mesa. Logo voltaram a falar.
Belle não queria entrar na questão do quadro, de Daniel, de tudo o que o seu faro de detetive obteve ao se deparar com Ingrid dormindo na cama do patrão.
— Ela tem um segredo. Há uma coisa que se Emma souber vai ficar arrasada.
— Meu Deus, não me diga que Emma tem alguma doença e a mãe dela sabe?
— Nada disso. É outra coisa. Tem a ver com o pai dela.
Regina se encostou para trás e pensou o mesmo que Belle, em partes.
— Então ela pode ter voltado para contar a Emma quem era o pai.
— Isso. Pense em como Emma ficaria quando soubesse.
— Iludida, deslumbrada, triste. Ela acha que o pai dela é um político que mudou de cidade.
— Mas ao que parece não é um político. Eu avisei, senhora, avisei que Ingrid é um grande estorvo na vida da Emma. Toda vez que ela volta um pouco da Emma vai junto. E se ela veio mesmo fazer esse tipo de coisa, é porque quer convencer a Emma a voltar para a casa de Blue Hill ou tirar dela as economias que tem para continuar bebendo.
— Eu não sabia que Ingrid era alcoólatra. — Mills colocou as mãos no rosto.
— E ela é, e das boas para não dizer o contrário.
— Meu Deus, coitada da Emma.
— Faça isso que eu disse. É um conselho de amiga. — Belle bebeu o suco e se levantou, colocando a bolsa sobre o ombro. — Eu tenho que ir agora. Marquei com meu namorado, estou atrasada inclusive. Pense nisso que eu disse, Regina. Se precisarem de uma ajuda qualquer, eu fico a disposição.
— Obrigada, Belle. — a mulher levantou os olhos para a moça. — Vou sair com Emma da cidade esta noite.
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