Intimamente Emma
3 Folha Perdida
Notas iniciais
Regina não dormiu, sentia uma necessidade extrema de descrever a moça, de colocar em um papel o que a perturbava desde cedo. Começara às nove, depois do jantar e do longo banho cheio de vapor. Não tirou o notebook da mala, então começou ali mesmo, numa folha de papel de um bloco que mantinha no fundo da bolsa. A caneta tremia entre seus dedos, já desabituada a ser usada daquela forma. Com as facilidades da tecnologia, Regina pouco pegava em canetas, seus dedos preferiam teclas. Mas ela não podia perder a oportunidade de descrever a moça, jamais e quase em desespero colocou tudo que via quando fechava os olhos.
Jovem, tem um corpo pequeno, aparentemente frágil, cabelos longos e lisos, daqueles escorridos que brilham mais claros contra o sol, mas em seu rosto o mais bonito de se ver são os olhos; fortes, determinados e agressivos. Nem quando há lágrimas sua beleza se perde, pelo contrário, ela cresce, bela, encantadora, adorável...
Com a sensação de alivio, Regina largou a caneta e respirou.
Da pequena mesa do quarto do hotel, ela via o marido ressonando, mas mesmo que ele dormisse confortavelmente, ela não estava tão confortável quanto ele. Sua mudança chegaria cedo no próximo dia, havia muitos objetos para arrumar na nova enorme casa que alugaram, ela esperava que redecorar a mansão ao seu gosto seria sua distração antes de conseguir voltar ao trabalho, embora estivesse sentindo uma angústia tão forte nesse instante que já não queria mais nada, apenas a morte. E se fosse ela no lugar de Daniel? Pensou. Caberia perfeitamente para si uma morte lenta e dolorosa. Já nem sabia mais porque havia descrito a menina quando a maré do desanimo a tomou. Olhou no relógio, era onze, mas essa noite não haveria sono.
Emma chegou no horário para trabalhar, contando os minutos no relógio. O dia começou frio e trazer um casaco no corpo pelo caminho pareceu prudente, mas ainda estava com frio e suas mãos duras quando apareceu na recepção do Hotel Hopper. Archie teve o único trabalho de levantar os olhos para ela que tremia feito um filhote de passarinho sem penas.
— Tem que aprender a andar mais aquecida, Emma. — ele rapidamente voltou a organizar os papéis em que mexia quando ela chegou.
— Vou comprar um carro com o próximo salário que eu receber e não vou mais precisar andar a pé no frio pelo resto dos meus dias. — a garota disse, áspera.
— Você foi demitida de todos os empregos possíveis de Mary Way Village, como vai comprar um carro se mal tem dinheiro para a gasolina? — ele replicou.
— Ganhei dinheiro o suficiente para juntar. Se eu trabalhei em todos os lugares possíveis dessa cidade, então pelo menos um carro velho eu consigo tirar da loja do Gold.
Archie ergueu os olhos para ela novamente. Guardou os papéis dentro de uma caixa e deu a volta no balcão.
— Cuidado com ele. Não dê nada mais do que dinheiro para pagar esse carro, sabemos o quanto ele é sujo.
— Só porque ele tem uma loja de carros usados, sai com garotas bem mais jovens que ele e trabalha na prefeitura, não significa que preciso ter medo. Não tenho medo dele, nem de ninguém. — Emma falou firme.
— A sua falta de medo não vai ajudar muito se ele quiser fazer alguma coisa com você. Precisa ter cuidado, Emma. Você é jovem, uma garota, ainda, não pode sair por aí encarando a vida como se fosse fácil.
— Cobre isso da sua adorada Ingrid, ela me obrigou a encarar tudo sozinha. Se eu não tivesse corrido atrás de emprego, eu já teria morrido de fome por causa dela. — retrucou Emma.
— Sua mãe vai voltar, Emma, é questão de tempo, ela está envergonhada, qualquer pessoa na situação dela se sentiria dessa forma. — ele tentou aliviar.
— Pare de defender essa mulher, ela é mais vagabunda do que as garotas com quem o Gold sai. Quem sabe ele já não tenha a seduzido algum dia também, vai saber.
Archie cerrou os punhos e respirou fundo, por pouco não deu um belo tapa no rosto da moça por ser tão impertinente. Se controlou, ajeitou os óculos e voltou para dentro do balcão.
— É melhor começar a trabalhar, afinal, é para isso que te contratei. — ele pegou uma chave no quadro e a entregou. — Há um quarto para ser arrumado no andar de cima, um casal acabou de desocupá-lo. — ele foi para dentro e voltou com um balde, vassoura e pano. — Deixe tudo impecável.
...
Emma passou a manhã limpando o quarto que Archie lhe pedira. Estava gastando mais tempo do que precisava, ela sabia, mas ele pediu ‘impecável” e se havia uma coisa que ela não gostava de fazer era serviço pela metade. A garota começava a sentir as bolhas se formarem nas mãos de tanto esfregar os móveis. Tinha acabado de deixar o banheiro brilhando e jurava que não faltava muito para acabar.
Pousou o balde no chão, perto da porta e buscou o pano para começar a esfregar a mesa, e fez isso com tanta força que acabou derrubando o que havia ali em cima.
— Mas que droga!
Parou para pegar tudo do chão; um folheto do hotel; um bloco de anotações; duas canetas; um copo de plástico e uma folha destacada do bloco com coisas escritas nela. Emma colocou tudo sobre a mesa e olhou para a folha avulsa. Certamente as pessoas que deixaram o quarto esta manhã haviam esquecido aquilo anotado, pensou ela. A pessoa que escreveu tinha boa grafia, mas no momento em que escreveu estava nervosa, pois a letra estava tremida. A curiosidade chamou Emma a ler o que tinha na folha perdida, ela tirou as luvas de limpeza para tocar na folha.
Emma leu devagar, baixinho com os lábios:
Jovem, tem um corpo pequeno, aparentemente frágil, cabelos longos e lisos, daqueles escorridos que brilham mais claros contra o sol, mas em seu rosto o mais bonito de se ver são os olhos; fortes, determinados e agressivos. Nem quando há lágrimas sua beleza se perde, pelo contrário, ela cresce, bela, encantadora, adorável... Não a conheço, não sei quem é, não faço ideia de como vive, onde vive, mas há nela algo que me passa a impressão de forte.
Olhou o papel de lábios entreabertos após ler o que estava escrito. Não era um recado, um simples número de telefone ou um bilhetinho romântico, era uma descrição. Por que alguém descreveria outra pessoa, uma mulher pelo jeito, dessa forma? A moça ficou intrigada com as palavras. Algumas soavam tão bonitas, tornando a descrição perfeita, mas de quem era? Ela decidiu dobrar a folha e coloca-la no bolso, quis ficar com ela.
Quando teve sua hora de descanso, lá pelas duas da tarde, após almoçar, ela andou até a praia, só para ter um tempinho para ler de novo as palavras do papel. Tomou tanto cuidado para que Archie não descobrisse que tinha achado aquela folha no quarto. Não a tinha roubado, mas tinha medo de perde-la, então checava seu bolso da calça a todo o momento.
Ela se sentou perto da areia, nas pedras do cais, puxou a folha do bolso e leu. E ela continuou não fazendo ideia de quem era naquelas palavras, muito menos quem havia escrito aquelas coisas. Olhou tanto para o papel que começou a imaginar a pessoa por trás das palavras, e se um dia alguém seria capaz de escrever algo tão bonito para ela. Com certeza essa pessoa era um poeta.
“Eu sou forte” , pensou. “Eu sei ser forte.”
Emma ficou presa na última palavra, e então ela dobrou o papel, deixando a imaginação correr pela areia da praia. Se imaginou como a pessoa do papel, na verdade, estava começando a se achar parecida com as coisas escritas. Se bem tinha lembrado, Archie lhe disse que um casal havia deixado o quarto onde achou o papel naquela manhã. Mas qual dos dois teria escrito?
A moça abriu os olhos de repente, com o coração vindo na boca sem qualquer razão que entendesse.
Ela se levantou com pressa do cais, tinha de voltar ao hotel, achar o nome do dono da folha.
Dez minutos mais tarde, esbaforida pela corrida da praia até as lojas, ela chegou no hotel, pensando no que precisava fazer. Archie estava no balcão, escrevendo alguma coisa num formulário, então ela recuperou o ar e o olhou.
— Hey, Archie, antes de sair eu percebi que o chuveiro daquele quarto vazio estava com um problema, pode ir lá dar uma olhada? — inventou ela.
— Sim, sim, claro. Devia ter me avisado na hora em que saiu, Emma. — ele se virou para ela, assentiu e subiu na direção das escadas. — Fique de olho para o caso de algum hóspede chegar.
A moça nada disse. Ficou sozinha na recepção, exatamente como seu plano pedia. Esperou ele subir para entrar atrás do balcão e vasculhas as fichas de hóspedes. Procurou com pressa, indo nas fichas de check-out, foi onde encontrou o primeiro do dia, justamente o dos senhores Regina e Daniel Mills. Ela teve certeza de que aquele era o casal do quarto onde achou a folha. Emma leu a ficha, viu o endereço deles, eram dali mesmo, de Mary Way Village, então eles ainda estavam na cidade, mas isso não era o melhor, eles moravam em Blue Hill. Emma ficou surpresa ao saber disso, mas assim que ouviu os passos de Archie vindo pelo andar de cima, ela guardou a ficha, empurrou a caixa para dentro do balcão e voltou para onde estava.
— Emma, não vi problema algum com o chuveiro. Tem certeza de que era no quarto número cinco? — ele perguntou, ajeitando os óculos no rosto.
— Tenho, absoluta. Ah, deixe, pode ter sido coisa da minha cabeça, passei tantas horas limpando. — ela fingiu, dando de ombros.
— Toda vez que relatar um problema nos quartos, tenha certeza antes. Agora suba que você deve arrumar o quarto número sete, o hóspede está ausente, e não mexa em nada além das roupas de cama. — advertiu o dono do hotel com alguma severidade na voz.
A garota concordou e voltou para o andar de cima, mas assim que acabasse, ela já sabia onde iria.
Havia um transito intenso de homens carregando caixas para todos os lados na mansão que Regina e seu marido alugaram na nova cidade. A casa que antes ecoava vazia, agora estava novamente decorada numa bagunça sem tamanho por todos os cantos que os Mills olhassem. Enquanto Daniel reorganizava seus quadros em um escritório, Regina checava se nenhuma de suas louças e prataria tinham sofrido algum arranhão durante a longa viagem até o Maine, como se sempre tivesse se importado com isso. Ela guiava os homens pelos corredores, fazendo-os deixar os móveis mais pesados exatamente como queria, ou como lembrava que o marido Daniel preferisse.
Depois de muito trabalho, os homens deixaram a mansão, Regina e o marido sozinhos em meio a um mundo de caixas para desfazer. Daniel perguntou à esposa o porquê de terem tantas coisas. Guardá-las parecia sempre mais fácil, mas só uma mudança como essa para saberem o quanto tinham adquirido com o tempo.
Ela e ele iam com calma, fizeram uma parada estratégica para o almoço encomendado e então voltaram ao trabalho, mas Daniel se cansou na metade, se queixando de dores nos braços. Era melhor Regina o pôr deitado na cama dos dois que já estava devidamente montada no maior quarto do segundo andar da casa, foi a primeira coisa que ela pediu para os homens resolverem, a propósito.
Regina voltou a vasculhas seus pertences nas caixas e recoloca-los nos lugares, e lá pelas cinco horas ela não tinha disposição e vontade alguma de arrumar nada. Largou uma caixa pela metade, indo andar pelos muitos cômodos da casa, e quando jamais esperou, ouviu o som da campainha soar pela primeira vez desde que conheceu sua nova casa. Ela pensou se esperava alguém, mas ninguém a conhecia naquela cidade, apenas o senhor Hooper do hotel, inclusive ele tinha o endereço numa ficha. Podiam ser também os homens da mudança que encontraram algum objeto no caminhão, porém ela se lembrava que o motorista lhe disse que não faltava mais nada.
A campainha soou mais uma vez, longa e alta.
Regina andou até a enorme porta de carvalho da entrada, vendo uma sombra de mulher no vidro fosco. Quem era?, pensou. Então abriu e teve uma enorme surpresa.
— Boa tarde, senhora. Eu me chamo Emma, trabalho no Hotel Hooper onde a senhora e seu marido estavam hospedados até hoje cedo. — disse a moça, com segurança na voz.
Regina, de olhos arregalados, deu uma boa olhada nela, não podia crer que a garota apareceu em sua porta subitamente. Não tinha palavras para descrever seu espanto, era a moça.
— Desculpe incomodar, eu encontrei esse endereço na ficha dos senhores lá no hotel. Eu estava limpando o quarto esta manhã e encontrei isto. — Emma retirou a folha do bolso e entregou à mulher. — Esta folha perdida.
A delicadeza na voz jovem de Emma fez a mulher estremecer por dentro. Sentiu um arrepio transparecer na pele e isso só piorou com o tempo em que ficaram paradas se encarando.
De perto, a moça era exatamente como havia imaginado: frágil e bonita, com o cabelo escurecido, talvez artificialmente, ao mesmo tempo firme e, a julgar pela forma como fitava seus olhos, sem escrúpulos, certamente destemida.
Se lembrou da folha, do que escreveu, no momento de ansiedade que viveu na noite anterior, após se deparar com ela discutindo um assunto importante com o dono do Hotel. Regina pensou que em algum momento poderia ter criado Emma em sua mente, que a moça não podia ser tantas coisas e despertar um sentimento que mal sabia decifrar o nome, mas isso custou uma noite em claro que queria superar.
A mulher pegou a folha perdida, roçando seus dedos nos delicados da garota.
— Eu agradeço que tenha se preocupado em trazer essa folha. Acontece que ela não me pertence. — disse Regina, engolindo em seco.
Emma de repente ficou sem jeito, pegou a folha de volta e fitou Regina com singular tristeza.
— A senhora não sabe me dizer quem escreveu essas coisas? São as palavras mais bonitas que eu já li em toda minha vida. Passei o dia inteiro olhando para elas. Quem escreveu nessa folha, escreveu pensando em uma pessoa como eu. — desabafou a moça.
Regina voltou a se abalar. Tentou não olhar para a moça em sua porta, mas era difícil.
Cerrou os punhos.
— Infelizmente não posso. — fez uma pausa, se conteve e a olhou novamente. — Mas quem escreveu não pode ter pensado em alguém como você, porque essa pessoa escreveu para você.
A garota levou um susto.
— Eu não estou entendendo. — franziu as sobrancelhas e Regina viu seus olhos expressivos se tornarem um bonito mar verde de dúvida.
— Fique com a folha. Talvez essa pessoa a deixou no quarto para que você achasse ela.
Regina não sabia se o que tinha acabado de dizer tinha um fundo de verdade. Guardou a folha em seu bloco quando acabou de escrever, mas assim que o dia raiou, desistiu de levar consigo um vestígio de um pensamento louco com uma garota desconhecida, a largou antes de deixar o quarto com o marido.
Emma achou aquela conversa muito esquisita, sem cabimento. Mas tinha gostado tanto das palavras que a suposição da senhora Mills parecia justa, e tinha outra, achado não é roubado. Emma dobrou a folha e guardou novamente em seu bolso, dessa vez no casaco que estava trajando.
Ficou olhando a mulher bonita e elegante, pedindo inconscientemente que ela dissesse qualquer palavra que consolasse sua curiosidade. Se não tinha sido ela a escrever, nem o marido, quem foi? Alguma coisa em Emma disse que aquela mulher estava mentindo descaradamente para ela.
— Bem, senhora, se essa folha não é sua, vou achar o dono dela, quem sabe ele aparece. Desculpe o incomodo, eu preciso ir.
Muitas coisas estavam se passando pela cabeça de Regina. Precisava dizer muita coisa para a moça; como se sentiu mal por tê-la visto ser demitida do restaurante; como teve curiosidade de saber o porquê de Archie tê-la tratado mal no hotel; como pensou nela boa parte da noite anterior.
— Emma — chamou, Regina, antes que ela se virasse. — É esse o seu nome, não é?
— Sim.
— Sou a Regina. Foi um prazer conhecê-la. — ela estendeu a mão para a moça, num ato involuntário.
Emma relutou de primeira, mas isso não a impediu de retribuir o cumprimento.
Trocaram um aperto de mão firme, ao mesmo tempo suave, jamais saberiam definir.
— Até qualquer dia, senhora Mills. Regina... Hum. — Emma, se soltou da mão dela e desceu os degraus da entrada, vagarosamente.
A moça ia andando pela calçada, e Regina a acompanhou com os olhos até vê-la atravessar a rua e seguir até quase o fim. A viu ficar pequena conforme se afastava, e para sua surpresa, Emma não sumiria ladeira abaixo, ela vivia ali perto. A mulher viu a moça parar na frente de uma casa tão grande quanto a sua. Regina ficou pasma, correu até o andar de cima para ver melhor onde Emma estava indo. Quando abriu o portas da sacada de um dos quartos, a moça acabara de fechar o portão. Ela viu Emma sumir finalmente, mas para dentro da casa.
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