Intimamente Emma
8 Cartas do passado
Notas iniciais
Emma tinha se esquecido como a voz de Ingrid soava. Um doce e perigoso sussurro.
De repente, o mundo pareceu desabar em um temporal de verão. Ela jurava que levaria muito tempo para sua mãe voltar, o que seria injusto, pois andava se virando bem desde que conseguira se estabelecer no emprego do hotel Hopper. Uma coisa que Emma gostaria, era a de jamais ver sua mãe novamente, pelo menos a mãe que ela sabia que tinha, uma Ingrid disposta a mentiras e farsas para ter o que queria. Emma odiava pensar que graças a personalidade dessa mulher, um dia foi praticamente abandonada como um plano que deu errado. De um lado, Emma pensava que ter vivido sozinha a maior parte do tempo foi o melhor que o destino pôde lhe oferecer, ao invés de precisar conviver com Ingrid. Não era um momento bom para a moça pensar que sua mãe estaria voltando para Mary Way Village como se nada tivesse acontecido. A sensação de Emma era de injustiça, como as muitas que sofreu na vida. Mais uma.
A cabeça de Emma chegou ao nível mais profundo sobre a almofada de sofá, e a voz de Ingrid soava cada vez mais distante do outro lado da linha.
— Você não está feliz com a notícia, querida? Juntas outra vez, isso não é fantástico? Quero pedir algo a você. Não conte para todos que estou voltando, sei que isso parece estranho e que você com certeza quer gritar de alegria, mas tenha calma, está bem? Vou chegar de surpresa, até porque dependo de algum dinheiro para sair daqui. — disse Ingrid para a filha.
A sensação da moça era tão ruim que começava a torcer para ter adormecido naquele sofá e estar tendo um pesadelo. Sentiu algo tão forte e ruim só de pensar na ideia de voltar a viver com a mãe, que a força desse sentimento a dominou. Ela precisava esbravejar
— Eu não quero que você volte! Eu não quero te ver nunca mais, está entendendo? Você não é minha mãe, você é apenas uma aproveitadora, você quase acabou com a minha vida e a de muita gente nessa cidade. Não é possível que você ainda tenha a coragem de me ligar e não pensar em me pedir perdão por todos os anos em que vivi sozinha nessa casa. Não me venha com essa de que vamos viver juntas de novo, Ingrid. — disse a moça sem noção do quanto havia levantado a voz na ligação.
Ela esbravejou, atirando para longe o telefone que àquela altura tinha se espatifado contra a parede e sobrava em pedaços de plástico no chão.
Emma se levantou furiosa do sofá. Subiu as escadas aos prantos e teve vontade de fazer uma coisa muito importante quando chegou no banheiro de seu quarto. Ela vasculhou tudo o que tinha no armário: Tintura de cabelo, pincel e prendedor. Era o suficiente. Espalhou todas as coisas sobre a pia de mármore e se olhou bem no espelho. Seus olhos se pareciam duas bolas de fogo queimando o verde, o rosto estava corado, Emma rangia os dentes. O cabelo não estava tão desbotado para ela fazer o ritual da descoloração outra vez naquele mês, porém, precisava tirar qualquer vestígio da mãe que enxergasse em seu corpo. O cabelo era o maior deles. Eram dourados e enrolados antes dela descobrir que podia muda-lo.
A moça tomou ar, enxugou as lágrimas que desceram pelas bochechas e misturou a tinta. Começou devagar, primeiro os lados, depois em cima, por fim ele inteiro. Levou uma hora inteira fazendo isso, seu cabelo estava muito maior desde que o cortou da última vez.
O cheiro da tinta havia se impregnado em seu nariz quando ela voltou para o quarto. Demorou pelo menos uma hora, andando de uma lado para o outro, transtornada, mas uma pontada de tristeza a fez parar e os tempos em que não tinha ninguém voltaram a sua mente; por algum tempo sua avó esteve presente, mas não tanto quanto poderia e Emma precisava, Emma não era uma pessoa com sorte. No banho, enquanto a tinta escorreu pelo ralo, a garota pedia para algo acontecer e Ingrid não voltar. Jamais a perdoaria por ter estragado a melhor tarde dos seus últimos dias.
Ela se lembrou de Regina, do tempo que passaram juntas no mirante e ali na sala de sua casa. Sentia que tinha feito uma bonita amizade com a Sra. Colter Mills e como tudo em sua vida, iria retribuir se estivesse ao seu alcance. Mas Ingrid estragara tudo de novo. Justamente quando ia subir e escrever uma carta para Regina, agradecendo sua atenção. Nada a impedia de fazer a carta, contudo, tinha perdido a inspiração depois da ligação repentina da mãe.
Emma abriu os olhos embaixo d’água e olhou para os pés. O último resquício de tinta morena se esvaía pelo ralo em forma de redemoinho. Ela já podia sair, se enrolar em uma toalha e se convencer de que não tinha nada de Ingrid nela.
...
Regina encontrou o marido no atelier montado em um dos escritórios do andar de baixo na mansão. Belle, a empregada, o servia, segurando uma bandeja com chá quente, açúcar e xícara. Daniel pegou a xícara com lentidão, tremendo pela perda da sensibilidade nos dedos, mesmo assim, conseguiu levar o chá aos lábios. Quando ele devolveu a xícara vazia à Belle, agradeceu, pedindo pelos remédios que devia tomar dentro de alguns minutos, receitados pelo dr. Whale e não eram poucos. A moça, prontamente se retirou do recinto, logo notando Regina entre os cavaletes com quadros espalhados pelo recinto.
— Sra. Mills? Deseja alguma coisa? — perguntou a empregada.
Regina fingiu estar interessada nas pinturas do marido. Ela olhou para Belle e sorriu discreta.
— Não, obrigada. Quando eu precisar vou chama-la. — assentiu e seguramente Belle saiu, encostando a porta.
— Ah, querida! Que bom que voltou, eu ia perguntar para Belle se você havia chegado, onde esteve? — Daniel estava sentado sobre um banco com apoio para as costas, atrás de uma grande tela retangular. Ao se aproximar, Regina viu a pintura, um quadro abstrato, sem significado para ela, com cores frias e nem um sentido. Ele notou quando ela fez uma cara de dúvida diante da pintura. — Este é diferente, não acha? Comecei hoje. Não sei se o colocarei a venda, me deu vontade de pintar algo assim, eu não queria perder a ideia. — ele explicou com um tom de voz contraditório.
— Que ideia exatamente esse quadro quer passar, meu bem?
— Acho que muita coisa. Pode ser alegria, pode ser solidão, pode ser tristeza, pode ser felicidade. As cores frias estão em maioria, e em contraste, vai da cabeça de quem gosta de observar e interpretar. — ele empurrou a mão com a força que tinha para pegar no pincel e continuar mais uma dúzia de rabiscos.
Regina ainda não entendia nada, resolveu deixar quieto.
— Certo, meu bem, eu queria saber se está tudo bem, se essa moça, Belle, tem feito tudo como planejado.
— Ah, ela é ótima. Está dando um jeito na bagunça. Ela está arrumando nossas coisas que ainda não tiramos das caixas, estava esperando por você para saber o que fará com alguns objetos que não soube organizar. — dizia ele, enquanto pintava, concentrado na tela.
— Está bem. Acho que é uma boa hora para desencaixotar coisas.
Regina chamou Belle para ajuda-la com as caixas, ignorando parcialmente o que havia feito naquela tarde. Ela não podia prever uma aproximação com Emma, mas a situação estava indo longe demais, de um jeito que ela jamais esperou. Regina começou a se sentir mais estranha depois que recebeu o abraço da jovem no final do encontro delas, já na casa da moça, sentindo uma mescla entre carinho e desconforto. Ela se perguntava se não tinha permitido a aproximação, se não se sentia arrependida, se estava fazendo uma coisa muito errada. Aparentemente ela não fizera esforço algo para a moça vir procurar sua pessoa, o que ela queria, afinal? As duas poderiam estar construindo uma bela amizade, porém, Regina não sabia exatamente se eram mesmo amigas. Emma tinha uma coisa em seu jeito que fazia a mulher mais velha agir de uma forma completamente diferente quando a encontrava. Fazia Regina querer ser livre, escrever para libertar as emoções, como se essas emoções estivessem em uma erupção dentro do seu peito e a única responsável por causar o fenômeno era ela, a própria jovem, Emma.
Tentando resistir ao frio na barriga de ansiedade, por um aparente efeito tardio desde que saiu da casa de Emma, Regina colocou as mãos em duas caixas grandes num recinto totalmente bagunçado do segundo andar de sua casa. Pediu para Belle ajuda-la a limpar tudo o que retirava e depois organizaria nas prateleiras de um armário no alto. Tinha anoitecido, Regina conseguiu se distrair por duas horas e Belle precisava terminar o jantar deles. A mulher a dispensou para descer, e já desmontando as caixas, se deparou com a pilha de livros antigos do marido. Uma imensidão de enciclopédias, edições limitadas, edição de colecionador e dicionários de pelo menos cinco línguas diferentes. Regina podia sentir o cheiro de poeira que pairava sobre os pesados livros, o que a fez espirrar inevitavelmente. Havia uma nuvem de pó sobre o primeiro livro que Regina abanou, deixando os próprios dedos imundos. Ela se arrependeu por não ter vendido aquilo quando pôde, — e valeria a pena- pois nem Daniel se lembrava mais das enciclopédias Larousse. Pediria para Belle limpar tudo aquilo no dia seguinte e já começaria a providenciar a venda dos livros, mas um detalhe afastou essa ideia da cabeça de Regina no mesmo instante. Ela sabia que em cada um daqueles livros, Daniel assinara seu nome na primeira página, como se os autenticasse como seus, antes de devolver à pilha, Regina abriu a capa dura do primeiro volume que encontrou, e abaixo do título estava o nome dele, em uma bonita caligrafia: Daniel James Colter, março de 2004. Os livros eram muito mais antigos que a data escrita por Daniel, pois ele os herdou de seu pai, que posteriormente herdou do avô. Pensando nos detalhes que circundavam as enciclopédias, os Colter tinham tradição, então isso era muito bonito se Regina parasse para refletir.
Entretida nessa questão e curiosa, Regina folheou algumas páginas atrás de qualquer anotação que fosse da família do marido. Ela as achou, grifadas de lápis nos cantos das páginas, escritas em letras miúdas em páginas de títulos, tudo ali como imaginou. Ela nem percebia que estava sorrindo quando passou depressa pelo meio do livro e encontrou um envelope branco acoplado na costura das folhas. Um cheiro de rosas subiu até seu nariz, um perfume parecido com o que costumava usar na adolescência, fazendo ela aproximar o rosto das páginas e sentir que o odor vinha dali, daquele envelope.
Ela o puxou, mas ele jamais sairia dali se não o arrancasse com algo mais contundente, estava perfeitamente costurado. Então, Regina não tinha outra alternativa a não ser abrir o envelope da forma como ele estava. Ela violou o lacre na parte inferior e tirou de dentro o que pareciam ser folhas de diário. Regina checou a porta para saber se ninguém estava ali perto, mas não corria riscos com Belle e o Daniel no andar de baixo. Desse jeito, voltou aos papéis, acreditando ter achado mais anotações que um dos Colter fez no passado, mas de longe não era o que estava pensando.
Ao abrir as folhas, ela encontrou muito mais que isso:
Querido Daniel,
Queria dizer que sinto sua falta como jamais senti de outro homem. Você foi o primeiro e único. Preciso que você venha logo, não posso suportar mais a sua ausência. Espero que esteja aqui no dia do meu aniversário. Meu pai me dará uma festa e você será o meu príncipe. Ele não confia em você, Dani, diga que ele está errado e que você não vai me deixar. Você prometeu que ficaríamos juntos, para sempre, se lembra, aquele dia debaixo da árvore no jardim da sua casa? As pessoas não acreditam em nós, elas dizem coisas ruins para mim, mas ficaremos juntos, eu sei que sim, para sempre. Volte, meu amor. Eu estarei te esperando até o meu último suspiro. Eu te amo com toda a minha alma.
Com carinho, sua Beija-Flor.
Regina, surpresa, sentiu os dentes rangerem ao ler aquilo. Podia ser uma carta antiga, de antes de conhecer Daniel, mas nunca achou que fosse se sentir tão desconfortável ao ver uma coisa do tipo entre os livros do marido. Isso significava que ele guardava histórias de relacionamentos passados com outras mulheres. Agora Regina queria continuar lendo, mas não tinha um bom pressentimento sobre aquilo. Talvez encontrasse nas folhas seguintes, mais cartas dessa tal Beija-Flor. Daniel nunca havia dito nada sobe essa mulher para ela. Isso era perturbador.
Mais uma carta:
Querido Daniel,
Esperei por você a noite toda... Se você ao menos pudesse me ligar. Por favor não me faça promessas, não me engane. Você prometeu que estaria aqui hoje. Vamos recomeçar, meu amor, dar uma nova chance a nós dois. Me diga que você não vai se casar, não faça isso comigo. Eu não quero ser sua amante, eu desejo ser sua mulher. Se você me abandonar, eu juro que me mato. Não me troque por ela, ela não merece você, Dani. Eu vi sua foto com ela na sua carteira, ela é bonita, mas não ama você tanto quanto eu. Já estou cansada de esperar por uma solução. Você precisa se decidir logo, e estou escrevendo de novo para que perceba o erro que você está prestes a cometer. Eu te amo, Dani. Fique comigo, me escolha.
Sua Beija-Flor.
Regina se levantou, as mãos tremiam, e ela se sentia ainda pior do que antes. Havia mais uma carta. Ela olhou para o livro aberto sobre a pilha, as folhas espalhadas sobre ele. Aquilo não significava nada, ela não devia se preocupar tanto, mas temia que a última carta fosse fatal. Ela não quis pensar muito, voltou para ao papéis e leu.
Meu amado Dani,
Tivemos uma noite maravilhosa ontem, que pena que você voltou para casa. Há quanto tempo não fazíamos amor daquele jeito. Você é um verdadeiro tigre. Me deixa cheia de marcas, e exausta de amar. Que possamos viver noites como a de ontem mais vezes. Não conte a sua esposa onde esteve, sabe que tenho medo dela, não? Ela não me parece muito amigável. Quando estive com você em São Francisco, tive medo dela nos descobrir, mas com sorte não estamos mortos. Tome cuidado com ela. Quando você volta? Quando poderei vê-lo outra vez? Apesar da noite incrível que tivemos, achei você distante comigo da última vez. Está acontecendo alguma coisa com ela? Por que não me conta? Eu estarei esperando sua resposta.
Da sua amada, Beija-Flor.
Regina fechou o livro com as cartas e o envelope dentro. Estava transtornada. Sem hesitar, desceu atrás de Daniel. Precisava acertar as contas com ele, perguntar o que significava tudo o que tinha encontrado e lido sobre ele e a mulher das cartas. Quando diabos aquilo havia acontecido que nunca desconfiou? Ela parecia uma fera naquele exato momento.
Cruzou os corredores e o encontrou sentado à mesa de jantar. Belle o medicava com os comprimidos que precisava tomar e ele os fazia lentamente. Quando Regina chegou, bufava, mas, seu rosto mudou de expressão ao vê-lo engasgar quando tentou tomar um dos comprimidos. Ela viu quando Belle deu leves tapinhas nas costas dele, viu também quando ele tentou bater no próprio peito, mas as mãos não eram mais tão fortes. Ele era um homem terrivelmente doente. Regina não tinha o direito de acusa-lo, pelo menos, não teve coragem de acusa-lo naquele momento.
Ela ficou parada o olhando com indignação, até ele se recuperar.
— Tudo bem, Belle, eu estou bem. — ele disse após a última tosse que um gole grande d’água resolveu.
— Tem certeza, senhor? — a empregada perguntou. Estava com a roupa de serviço amassada e suja, um detalhe alheio que Regina notou de longe. Ela deve ter feito muito esforço para ajudar seu marido o dia todo.
— Sim, tudo bem. Você pode ir para casa, já passou do seu horário hoje. — ele disse.
— Sim, senhor. Amanhã estarei de volta no mesmo horário. Tenham uma boa noite o senhor e a senhora Regina.
— Igualmente. Só me faça mais um favor. Chame minha mulher para jantar comigo. — pediu Daniel sem notar que Regina o olhava da porta.
Belle não disse nada, mostrou para o homem que a esposa já estava ali e passou por Regina, sorrindo simpática.
Regina agradeceu a atenção da empregada e se aproximou dele vagarosamente. Tinha desistido de esbravejar, de questionar e perder o controle, afinal, na carta, a amante de Daniel dizia que ela não o amava.
— Querida, sente-se. Dei um pouco de trabalho para Belle hoje, mas me sinto muito melhor agora. — ele falava com os olhos brilhando, isso pareceu cínico da parte dele.
Ela puxou uma cadeira ao lado dele e se sentou. Ficou muda por longos segundos, apenas olhando nos bonitos olhos azuis que ele tinha.
— O que foi, meu amor? Algum problema?
— Nenhum, Dani, nenhum. — ela o chamou assim de propósito, mas sua voz soou cansada. — Vamos jantar.
A mulher serviu o marido, e enquanto comia, observava ele levar as colheradas à boca como câmera lenta. Tinha feito uma grande descoberta. Dolorosa, era verdade, mas no fundo recompensadora. Jamais sentiria culpa por não amá-lo mais.
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