Intervenção
1 Capítulo Único
Lílian Evans demorou um pouco para lembrar a senha, mas a Mulher Gorda pareceu muito caridosa ao lhe dar dicas, quase que desesperadamente. A ruiva sorriu, adentrando, ansiosa para contar à Mary o que vira na biblioteca. Ao chegar na Sala Comunal, ficou mais feliz ainda ao ver suas três amigas reunidas, o que facilitaria na hora de contar os últimos acontecimentos do dia. As três estavam sussurrando entre si mas levantaram rapidamente ao ver a ruiva, todas segurando pergaminhos.
— O quê? – questionou a ruiva, estranhando o nervosismo de Mary. Desesperou-se pensando que aqueles pergaminhos já eram resultados da prova de DCAT. – O quê???
As três se entreolharam, receosas, Marlene tomou a frente:
— Lílian, isso é uma intervenção. – sua voz era suave, mas não impediu a ruiva de unir as sobrancelhas.
— De que?
— De Fred Hampton. – completou Emmeline Vance. Lily ficou em silêncio alguns segundos antes de gargalhar, começando a ficar nervosa.
— O que tem Fred? Vocês querem que eu pare de ficar com ele?
— Lily, essa é a questão, por favor, sente-se. – Mary apontou para a poltrona e a ruiva se sentou, segurando o riso, pronta para debochar das amigas. A MacDonald abriu seu pergaminho, respirando fundo: – Lily, você e Fred não estão juntos. Nunca estiveram, e provavelmente nunca ficarão. Você está tendo uma reação exagerada porque levou um fora pela primeira vez na vida e parece estar se tornando James Potter aos poucos...
— Mary! – esganiçou Lily, ofendida, mas a amiga apenas ergueu a mão para silenciá-la.
— ... Ninguém aguenta mais assistir a deterioração de alguém que é superior a Fred em todos os sentidos da palavra. Você não está afim dele, você está magoada porque foi rejeitada.
Lílian continuou de olhos arregalados, mas tudo que Mary fez foi sentar e dar lugar a Emmeline, que abriu seu pergaminho:
— Querida Lily, se olhe no espelho e pergunte se está viva a menina que conhecemos um dia, que tinha algo no cérebro além de macho e que sabia falar de algo que não fosse macho. Estaria morta a garota que conhecíamos com seus excelentes conselhos lúcidos sobre relacionamentos? Desde a chegada de Fred, você mudou, ainda fico aterrorizada quando lhe peguei chorando ao ouvir relatos melosos das meninas do 4º ano. Sinceramente, você morreu e foi substituída?— Emmeline sentou-se e Marlene abriu seu pergaminho, já de pé:
— Lily, ninguém aguenta mais só te ouvir falar de homem, ainda mais um que está cagando para você. Por favor, eu sei que seu ego é enorme, mas aceite que levou um fora e siga em frente.
As três olharam a ruiva, ainda chocada. Ela piscou algumas vezes se encostando na poltrona, largando os livros no chão. Não se lembrava de ter falado demais de Fred para nenhuma das três, pelo contrário, ela segura muito a língua para não o fazê-lo... Sentou-se na ponta da poltrona novamente e deu de ombros para as amigas, ainda confusa.
— Eu não notei que estava aparentemente enlouquecendo. – debochou, cruzando as pernas.
— Você notou que estava enlouquecendo quando começou a chamar a pobre Mica de “versão genérica” sua. – pontuou Marlene.
— Mas ela é! E eu sinceramente não sei qual o problema de Fred, por que ele não fica comigo em vez de ficar com uma garota que é igual a mim só que feia???
— Porque ele não quer você, Lílian! – cortou Emmeline, desesperada. – Pelo amor de deus, e nem você quer ficar com ele! Você odeia tudo nele!
— Eu não odeio tudo nele, eu amo tudo nele! – corrigiu Lily.
— Você falou que ele parecia fisicamente uma lombriga com problemas sociais, você disse que ele parecia um nerdzinho assustado se esforçando muito pra parecer descolado! – disse Mary, séria. Lily arregalou os olhos, sentindo-se acuada.
— Eu estava brincando, eu debocho de tudo!
— Lílian, ninguém aqui sabe nenhuma qualidade desse menino porque você nunca falou qualidades dele, só defeitos. Você ri dele e se acha imensamente superior a ele, como se fizesse um favor em ficar com ele...
— Eu meio que estou... – Pontuou Lily.
— Você não tem noção o quão James soou agora. – disse Marlene, fazendo Lílian se estressar.
— Olha, eu não tenho que explicar nada a vocês, ok? Se isso tudo é pra me comunicar que eu não posso mais desabafar com vocês, bem, funcionou!
— Lily, você chamou a Mica de feia, olha o que você se tornou!
— Eu não a acho realmente feia, foi modo de falar!
— Lily!
— Ok!— gritou a Evans. – Ok, eu sei que eu tenho exagerado! Eu sei! Só que... Eu não consigo evitar, não é porque eu quero, que inferno. Vocês acham que eu gosto de tentar estudar a ficar ansiosa fantasiando coisas que não vão acontecer? Ou sentir necessidade de ficar me atualizando da vida dele o tempo inteiro? Eu não gosto disso, mas eu não consigo parar!
As quatro ficaram em silêncio enquanto Lily tomava ar, ainda irritada.
— Talvez... – Marlene parecia receosa, mas manteve-se firme. – Talvez você não tenha notado que no fim, você não queria nada com Fred e sim alguém para... Substituir o que James fez durante anos. Não só ele, como outros garotos. Talvez você não tenha notado a falta de interesse que demonstrava à ele, e como suas palavras são muito cruas às vezes, e que você também é muito distante e sua reclamação sobre como ele nunca te conta nada intimo, também se aplica a você quando nunca contou nada sobre você mesma para ele.
— Você só se “apaixonou” por ele porque foi rejeitada. Porque ele fez com você o que você fez com ele e outros tantos... – completou Emmeline.
Lílian continuava firme em suas convicções, mas sabia que aquelas falas iam estapeá-la quando ela fosse deitar para dormir. Assentiu lentamente, como se concordasse, e aceitou os abraços das amigas, fingindo compreensão. Passou algumas horas no jardim após a intervenção, assistindo James ao longe e se perguntou o porquê dele ter parado de atazana-la e porque ela sente falta daquilo.
Talvez o ego dela seja tão imenso quanto o dele e ela não notara.
Quanto a Fred, ela não conseguia abrir mão de vigiá-lo com os olhos por cada parede daquele Castelo, e não sentia dor ao assisti-lo se envolver com sua “versão genérica”. O problema de Lily era com ela mesma, aquele tempo inteiro. Fred era apenas o estopim. Ela gostava de ignorá-lo, de demonstrar desinteresse (que realmente existia), de rir de Fred, acha-lo pequeno demais para ela, algo como caridade. Ela gostava dele, mas como se fosse um pupilo, sendo que Lily sempre fora a que procurava alguém para ser pupila, o que explicava todos os seus namorados terem sido bem mais velhos. No fim, ela romantizara tanto tudo que ficou presa na versão paralela daquela história, e não a real.
— Tudo bem? – perguntou James, sem olhá-la, continuaram andando pelo corredor vazio durante a ronda noturna. – Você parece pensativa.
— Cuida da sua vida. – cortou ela.
— Ok.
Lily olhou a nuca de James, querendo berrar de desespero. Não quis dizer aquilo, foi sem querer... Quis pedir desculpas, mas era como sacudir uma pesada corrente de orgulho. Abaixou os olhos, fitando suas sapatilhas a cada passo, completamente devastada em ver que é semelhante a quem criticou a vida inteira.
Talvez ela e James se mereçam, talvez os garotos falassem dela da mesma forma que ela ouvira diversas meninas chorarem após James ter partido o coração delas de forma cruel.
— Boa noite. – disse Lily assim que chegaram na Sala Comunal. O garoto não a respondeu, fazendo as anotações de Monitor rapidamente, enquanto ela ia em direção das escadas, parecendo sentir um surto silencioso. – James... Você quer sair comigo? Nesse sábado.
O garoto ergueu a cabeça lentamente, parecendo chocado. Lily não sentia absolutamente nada.
— Eu... Eu meio que já tenho um compromisso. – ela vacilou, assentindo lentamente. James não piscava. – Me desculpe.
Lílian assentiu e virou-se, subindo as escadas, rumo o dormitório. Parou no banheiro antes, fechando a porta lentamente. Olhou-se no espelho, tapando a boca lentamente, assustada com a própria imagem.
Era a primeira vez que se via.
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