Intervalo.

1 Capítulo Único — Gêmeos.


O mar refletia o sol, e estava quente. Apesar do calor, a areia estava fria, e era um alívio afundar os pés nela. Sem nuvens, o astro dominava o céu.

Um pequeno barco fora puxado para a areia, e descansava de uma longa viagem. Sua única vela estava amarrada no mastro. Não tinha bandeira. A alguns metros dele, sentados numa pedra, um casal de gêmeos estava sentado. O homem segurava uma bússola e anotava alguma coisa num bloco de notas. Sua irmã brincava com a areia. Estavam matando tempo, se preparando fisicamente e psicologicamente para mais trabalhos quando voltassem para seu país.

— Você tava falando sério quando disse que já tem trabalho pra nós quando voltarmos? — perguntou a mulher.

— Seríssimo. — respondeu, tirando a atenção da bússola. — E depois dele, mais outro.

— Não podemos pegar umas férias? Já é o décimo trabalho consecutivo.

— O comércio só descansa numa crise. Até lá, é bem provável que a gente trabalhe várias vezes seguidas. Mas não se preocupa, a gente não vai morrer.

— Claaaro. — ironizou ela. — Só vou ter umas bolhas nos pés de tanto andar e uma dor nas juntas de tanto ficar em pé.

— Quando chegarmos, eu vou comprar uma cadeira de rodas pra você, que tal? — brincou ele.

— Nem! — ela sabia que era brincadeira, mas respondeu. — Vai ser um caos. Acho que não consigo andar numa daquelas sem atropelar alguém na rua.

Ele soltou uma risadinha. Guardou a bússola no bolso do longo casaco preto, que não gostava de abotoar. Só o fazia quando o sol estava muito forte, porque se não queimaria seu tronco, que normalmente não estava coberto. "Se eu fosse usar uma camisa e um casaco desses eu ia desmaiar de calor o tempo todo!" era a justificativa dele.

— Aliás, acho que também seria um caos por causa desse vestido longo. — ela segurou a barra do longo vestido preto. — Talvez ele enroscasse nas rodas e eu não conseguisse andar nem um tico.

— Já entendi, já entendi. Sem cadeiras de roda.

— Mas e se eu começasse a usar um vestido mais curto? — ela começou a pensar nas possibilidades. — Você deixaria?

— Não, né.

— Por quêêê? — ela forçou uma expressão de indignação.

— Lembra daquela vez que aqueles caras estavam levantando as saias das empregadas do chefe deles com espingardas?

— Oh sim. Aquilo foi bem ridículo.

— Então. Não quero que façam isso com você. Seria bem vergonhoso. É mais fácil eles fazerem aquilo com saias menores.

— Saquei, saquei. Melhor essa minha mesmo.

Depois da pequena discussão, os gêmeos passaram algum tempo em silêncio.

— Vamos? — ele se levantou.

— Ugh. Vamos, vamos! Quero começar e terminar a próxima entrega logo.

Levantaram-se e empurraram o barco de volta para o mar. A mulher começou a cantarolar uma música, e ele acompanhou. E ao som de suas próprias vozes e a voz do vento, foram embora daquela praia.

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