Intertwined Lifes
3 Capítulo 3 - Jardim da Eternidade e Cidade das Trevas
Notas iniciais
Mystara guia Delion até uma sala anexa ao quarto, como um escritório de estudos e pesquisas. Havia mesas com papéis em alguns cantos, e no centro um grande espelho de prata. Ela passa a mão por cima do espelho, revelando uma pequena vila, com casas simples, uma feira com alguns vendedores e vários humanos indo e vindo, vivendo suas vidas rotineiras. Ela muda de cenário algumas vezes, mostrando grandes reinos, vilas em florestas, em desertos. Delion ficou encantado com tudo que viu, com tudo que sua mãe havia criado. Mystara explicou a Delion como os humanos viviam, como era sua economia, seus costumes, e suas necessidades fisiológicas, coisa que os deuses não tinham. Ela passou um tempo também ensinando a Delion como usar melhor seus poderes, para criar portais para o mundo dos humanos, se tornar invisível para seres que não fossem divinos, e materializar objetos, o que poderia ser útil em algum momento. Foi explicado também o que acontecia com os humanos após a morte. Suas vidas se desprendem de seus corpos, e são resguardadas no Jardim da Eternidade, ali mesmo no reino dos deuses. Mystara e Delion passam horas conversando, e Delion treinando o uso de seus poderes ali naquela sala de pesquisa, até que ambos saem para ver pessoalmente o Jardim da Eternidade.
Eles caminham por entre as ruas da Cidadela, onde Mystara é recebida com sorrisos e cumprimentos de todos, porém Delion recebe alguns olhares receosos, principalmente em direção a rapieira presa em seu cinto.
—Eles estão apenas assustados, sabe. — explicou Mystara. —A morte de um deus tem muito mais poder que sua vida, e sua maldição veio da morte de Bork…
—E meu nascimento da morte de Meluise… — completou Delion. —Então eu sou problema em dose dupla.
—Eles apenas temem o poder maior que eles. Me temiam no começo também. Mas quando perceberem que está do lado deles, vão te receber de braços abertos. — diz Mystara, com um sorriso confiante no rosto.
Mãe e filho continuam caminhando por uma pequena estrada de pedra, até que chegam no fim, onde havia um poste de madeira com uma placa escrito “JARDIM DA ETERNIDADE”. Além do poste, havia exatamente o que a placa dizia: um jardim. Flores brotavam do chão, alguns arbustos e árvores de diversos tipos, tantos que Delion mal reconhecia alguns.
—A partir daqui, não há fim. Você poderia caminhar para sempre, e não chegaria a lugar nenhum. Foi necessário uma quantidade absurda de poder para dar vida a esse lugar. Meluise e eu passamos semanas nos recuperando.
A princípio, Delion não via nada além do jardim, mas olhando mais atentamente, começou a ver humanos circulando para lá e para cá, porém sem corpos físicos, apenas um facho de luz com forma.
—E é aqui que começa sua missão, meu filho. — Mystara olha para Delion. —As vidas dos humanos pararam de chegar ao Jardim. E isso é um problema, pois suas vidas são uma energia poderosa, que nas mãos erradas pode causar muito estrago. Eu tenho minhas suspeitas sobre quem está por trás disso, e acho que você também, mas quero que você vá até o mundo humano investigar. Sendo um deus, você deverá ser capaz de ver o momento em que uma vida se desprende do corpo e flutua até um portal aberto para o nosso mundo. Em alguns momentos, será melhor que fique invisível para os humanos,para isso conto com seus instintos.
Delion pensou por alguns minutos, olhando para o horizonte, seus pensamentos indo tão longe quanto o jardim.
—Assim será feito, mãe. — ele olha para Mystara e sorri. —Farei uma visita ao mundo humano, esperarei até que um humano morra, para então investigar o que está acontecendo com sua vida após a morte.
Mystara sorri, orgulhosa do filho.
—Isso mesmo. Agora pode ir se preparar, e partir quando estiver pronto. E já que não pode usar sua espada, leve isso. — Mystara entrega a ele uma adaga, com desenhos de folhas no cabo, e uma lâmina extremamente afiada. —Não é muito mas… é com amor. De mim e da Meluise
Delion pega a adaga, agradece a mãe e vai em direção ao castelo, se preparar em seu quarto.
Ele coloca uma camisa regata preta com um desenho de um sol e uma lua, que havia sido um presente dos tios Solus e Luna, um casaco aberto na frente, uma simples calça preta e botas de combate.
Ele pega sua rapieira, agora denominada Alvorecer, e prende em seu cinto, do lado oposto da adaga que ganhara de presente da mãe. Sem muito esforço, ele consegue abrir um portal para o mundo humano, mas não em um lugar muito bom.
Delion cai do céu, diretamente em cima de um lago, onde uma espécie estranha de sapos mergulhou e se escondeu quando o viram. Ele sai do lago, e começa andar pela floresta, na qual estava perdido. Ele anda por entre as árvores altas, procurando qualquer sinal de que por perto havia uma vila ou algo do tipo.
O tempo todo desde que chegara no mundo humano, Delion sentia algo o atraindo. Quase como um imã, o puxando em uma direção, o que complicou mais ainda seus sentidos de localização.
Depois de muito tempo andando em círculos, Delion encontra uma trilha, apenas um pedaço da terra mais pisado que o restante da floresta. Ele a segue até o fim, e encontra uma vila na base de uma montanha, com uma enorme árvore com folhas cor de rosa no lado de fora. Acima da montanha, o sol estava quase no meio do céu, indicando que já era quase meio dia. Ele observa de longe, e percebe que suas roupas eram muito diferentes das roupas dos camponeses, então ele faz um pequeno truque de ilusão, para que suas roupas fiquem mais parecidas com as dos aldeões.
Ele entra na vila, e ninguém parece notar ele. Delion passa na barraca de frutas, compra uma maçã, caminha um pouco para disfarçar, e se senta em um pequeno banco de madeira, aguardando.
Depois de um tempo concentrado em seus sentidos, Delion nota uma violenta tosse, vindo da casa de um aldeão próximo ao portão da vila. Ele se faz invisível aos humanos, e segue naquela direção. Chegando lá, ele encontra um velho doente em uma cama, sua família ao redor cuidando dele. O velho parecia estar em seus momentos finais, então Delion achou uma boa idéia ficar por ali para presenciar a morte e ver o que acontecia com a vida do humano após isso.
Após um tempo, o velho parou de tossir e se mover. A família se abraçou e começou a chorar. Então, Delion viu a vida se desprendendo do corpo, e flutuando para fora da casa. Um portal para o mundo dos deuses se abriu, e a vida estava prestes a entrar, quando um portal negro se abre, e uma criatura sai. É uma criatura com pelos totalmente negros, e olhos vermelhos. A criatura morde a vida pelo braço, e vai em direção ao portal negro. Delion sobe em cima da casa, e pula pelo portal atrás da criatura, antes de o mesmo se fechar.
A primeira coisa que ele notou, foi que aquela atração que estava sentindo no mundo humano, parou. Em seguida, notou a escuridão, e seu coração gelou por um momento. Sua mente se sentia de volta à escuridão de séculos, onde ele não via, ouvia ou sentia nada, porém Delion volta a si quando pousa a mão sobre a adaga, presente de sua mãe.
Ele analisou o ambiente, e notou que era praticamente uma cópia exata do mundo dos deuses, porém envolto em trevas. As casas onde moravam os deuses eram mais parecidas com celas de prisão, e gritos eram ouvidos vindo de algumas delas. Delion se esgueirou pela escuridão por entre as casas, e olhou dentro de uma. A forma tremeluzente de uma vida, quase se apagando, estava presa por correntes nos pulsos e tornozelos, com espinhos na parte de dentro, e o chão sob seus pés estava em brasas.
Delion reprime o enjoo que sentiu, e segue se esgueirando pela cidade. Ele segue o caminho que havia seguido mais cedo com sua mãe, até o local onde seria o Jardim da Eternidade. Quando ele chega ao fim da estrada, o poste onde estaria o nome contém uma placa escrito “Danação Eterna”. Dali para frente, viam-se muitos postes de madeira, com vidas tremeluzentes amarradas, e várias das criaturas que as capturavam no mundo dos humanos circulando. Até que a mais próxima parece sentir a presença de Delion. Ele se vira e caminha rápido de volta para a cidade, onde havia aquele labirinto de celas. A criatura o segue. Delion vai em direção a floresta, onde consegue se esconder entre as árvores mortas. A criatura anda por entre as árvores, cheirando, até que ele não consegue mais se esconder, e a criatura salta para cima de Delion. Ele se abaixa, e dá um soco na mandíbula da criatura, a lançando para longe. Ao fazer isso, outras três criaturas aparecem. Delion pega sua adaga, e se prepara para o combate. As três novas criaturas avançam, e Delion desliza para o lado, para desviar e conseguir acertar a adaga diretamente no pescoço da criatura a direita, que cai jorrando sangue preto. As duas criaturas restantes avançam, uma salta em direção ao pescoço de Delion, e a outra tenta usar as garras para ferir sua barriga. Com um rápido movimento, ele soca a criatura de baixo, porém não consegue se desviar da que vinha por cima, então a criatura crava os dentes em seu pescoço. Delion grita de dor, o que provavelmente iria atrair mais criaturas. O sangue prateado dos deuses saia violentamente de seu ferimento. O garoto soca a criatura, tirando-a de cima do seu corpo, e começa a correr. Mais criaturas começam a se aproximar pelos lados e correr junto dele. Delion se concentra para tentar abrir um portal para o mundo dos deuses, porém a dor no pescoço era grande, e a perda de sangue o estava deixando tonto. Uma das criaturas salta para tentar morder novamente, mas ele consegue a segurar pelo pescoço, e corre com a criatura na mão, tentando sufocar a mesma. Finalmente, um portal para o mundo dos deuses se abre, porém em algum lugar impreciso. Delion não pensa duas vezes, e apenas pula.
O garoto cai de costas no chão, com a criatura desmaiada ao seu lado. O sangramento havia piorado.
—Mas o que…
É tudo que Delion ouve ao ver a mãe enrolada em uma toalha penteando os cabelos ainda molhados, então ele desmaia.
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