Eu lhe perguntei qual a sensação, e permaneceu calado com um sorriso sacana e um olhar vazio, entrei em sua mente e as palavras ressoaram psicóticas "Eu possuo o completo poder, é quente, macio, pegajoso e... Agonizante. Quando aperto, vejo o lindo corpo dela se contrair e abraçar-se e seu rosto se contorce em uma chuva de lágrimas, é divertido de assistir". Ele mostrou os dentes no canto do sorriso sacana... É um tanto assustador... A garota no canto da sala estava sentada nos olhando com os olhos brilhando, parecia ter algum tipo de... Esperança! Ele virou o rosto para ela ainda com o sorriso sacana e fechou a cara retornando a face para mim, os olhos dela ficaram foscos apesar das lágrimas que começaram a escorrer, foi envergando-se aos poucos até ter suas pernas abraçadas contra o tórax e sua visão provavelmente borrada pela quantidade de água nos olhos, tinha o olhar perdido no vazio do chão... Perguntei-lhe se estava bem e ela gemeu agonizada... Entrei em sua mente. "Por que com uma mão ele vagamente puxa a película protetora e com a outra vai arranhando cada milímetro descoberto? E depois vai rasgando cada pedacinho e apertando-os com força até ficarem cinza e vazios? Estou sentindo a lâmina que passa para facilitar o rasgo ao puxar, é muito frio...". É estranho, pois ele nada fez além de fechar-lhe a cara, de onde ela tirou tudo isso? Ele retornou a se virar para ela com uma aparência preocupada dessa vez e lhe falou calmo:

- Hey, estou aqui... Com você. Não precisa chorar...

Imediatamente ela havia parado de chorar e levantou o rosto aliviada, com um meio sorriso para ele, que já estava novamente virando-se para mim, um suspiro profundo junto de um olhar de tédio, então ouvi os pensamentos dela "Me sinto tão estúpida... Tão óbvio que ele está fazendo isso apenas por diversão... E mesmo assim parece que catou os pedaços, reuniu o quebra-cabeça e foi lhes atravessando agulha e linha. Dói, mas é menos doloroso do que o feito anterior, dessa vez ele segura carinhosamente com as mãos quentes e lhe difere palavras muito lindas, onde não encontro sentimento algum, são vazias, mas me confortam bastante... Sou muito estúpida..." ainda não entendo-a, ela sorri enquanto se xinga mentalmente e fala sobre uma dor inexistente...

- Idiota. — Ele novamente pronunciou alguma palavra, voltou ao sorriso sacana, já o dela desapareceu voltando aos olhos vazios e sem brilho, levantou-se aproximando-se dele e lhe acertou socos, chutes, mordidas, ele não reagia mas parecia doer, como se ela tivesse jogando todo o peso que estava nela para ele, pegou a caneta da minha mão sem que eu percebesse de primeiro tempo e acertou um ponto vital no pescoço dele, o olhar assustado do cadáver e a expressão de remorso dela estavam espalhados pela sala " Por quê...? Eu o amava tanto... Parece que no último abraço, ao me derreter nos braços dele, quem escorreu não fora eu que estava derretida... E cada vez mais distante... Agora é como se eu pudesse voar, estou tão leve que diria: quando ele caiu no abismo, tentou se segurar na metade do meu coração, porém o frágil não aguentou e partiu-se no meio em direção à longínqua escuridão... Ficou meio vazio, mas ainda não tenho certeza se ele realmente levou a metade ou é apenas a sensação de não ter mais algemas..." eu perguntei à ela como era antes, no início.

- Vou tentar explicar da melhor forma possível... Inicialmente, eu tinha uma vida como qualquer outra pessoa, nunca havia sentido nada além de atração, até que aquela troca de olhares... Mesmo à distância nos olhamos nos olhos... E aí parecia que dois raios tinham saído de nossos olhos, se chocado bem no meio do caminho e entrelaçado-se, criando um imã, não havíamos conversado mas eu não parava de pensar naquele olhar, claro que eu nunca mais o veria então o certo seria esquece-lo... E então tínhamos um amigo em comum, mas não sabíamos, e então houve uma ida ao cinema com um grupo de amigos e ele estava lá... Sabe, parece que nascemos apenas com a metade do nosso coração, e a cada vez que nos apaixonamos esses imãs unem nossas metades, porém os encaixes são diferentes e então ficam buracos, não estamos completos e não sabemos disso já que nunca tivemos a oportunidade de sentir essa sensação, mas também não conseguimos mais ficar só sem sentirmos um vazio... Se você me perguntar porque eu não havia sentido o vazio antes, vou lhe dizer que é porque antes não havia a falta já que nada tinha ocupado, eu não sabia da existência do buraco antes, ele não se criou após a primeira decepção... Apenas tornou-se visível... E então eu achei o encaixe perfeito, e estava completo! Não haviam buracos, até acontecer aquilo... E a falta... Nenhum encaixe errado ocupava mais, um novo vazio foi descoberto e esse é um vazio único e raro... Que só aquele encaixe ocupa! Só aquela pessoa cura... E naquele primeira saída, houve logo esse encaixe, os imãs do primeiro olhar tinham feito seu trabalho... Eu só notei que era completo meses depois, quando tudo acabou... É quase impossível se acostumar com esse vazio e não mudar sua personalidade... Você até consegue amenizar temporariamente com comida, diversão e encaixes errados, mas ainda vai haver aquele pequeno resquício incurável...

E eu a prendi, ela estava infectada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!