Internato Valenhall

18 As memórias de Noah


Noah caiu de joelhos.

As mãos cobriram o rosto enquanto tentava respirar.

A imagem daquela senhora permanecia gravada em sua mente.

Aquele sorriso.

Aqueles olhos.

Não podia ser.

Durante mais de trinta anos ele acreditou que jamais voltaria a vê-la.

O mundo ao seu redor desapareceu.

As vozes de Scott, Trevor, Elena, Alex, Katy e Cora ficaram distantes.

Então as lembranças começaram.

Muito antes de Valenhall.

Muito antes das cartas.

Muito antes da porta de ferro.

Existia apenas uma pequena casa de madeira à beira da costa.

Era ali que Noah crescera.

As manhãs começavam cedo.

O cheiro de pão assando invadia a casa.

O rádio antigo tocava músicas baixas enquanto sua mãe preparava o café.

— Noah!

A voz doce de Sarah ecoava pela casa.

— Vai se atrasar para a escola!

Um garoto de cabelos castanhos saiu correndo do quarto.

Ainda abotoando a camisa.

— Já estou indo!

Sarah sorriu.

Ela sempre sorria.

Mesmo nos dias difíceis.

Mesmo quando o dinheiro quase não dava para pagar as contas.

Mesmo quando passava noites inteiras costurando roupas para os moradores da pequena cidade.

Nunca deixava Noah perceber o quanto estava cansada.

Para ele...

Ela era capaz de resolver qualquer problema.

Noah nunca conheceu o pai.

Na escola, quando os professores pediam para desenhar a família, ele sempre fazia apenas duas pessoas.

Ele.

E sua mãe.

As outras crianças perguntavam.

— Cadê seu pai?

Ele respondia o que Sarah havia ensinado.

— Ele mora longe.

Com o passar dos anos, deixou de acreditar nessa resposta.

Aos nove anos, fez pela primeira vez a pergunta que mudaria sua vida.

Enquanto ajudava Sarah a guardar as compras, perguntou:

— Mãe...

Ela continuou organizando os armários.

— Oi?

— Meu pai existe?

Sarah parou por um instante.

Sorriu discretamente.

— Existe.

— Então onde ele está?

Ela voltou a guardar os alimentos.

— Bem longe daqui.

— Ele sabe que eu existo?

Dessa vez Sarah demorou alguns segundos.

— Sabe.

Noah abaixou a cabeça.

— Então por que nunca veio me ver?

Sarah caminhou até ele.

Ajoelhou-se.

Segurou delicadamente seu rosto.

— Algumas pessoas fazem escolhas difíceis.

Naquele dia ela não disse mais nada.

E Noah nunca insistiu.

Mas passou a fazer a mesma pergunta todos os anos.

Sempre recebendo respostas incompletas.

Os anos passaram.

Noah descobriu que adorava História.

Passava horas lendo sobre castelos, famílias antigas e internatos tradicionais.

Havia um lugar que despertava especialmente sua curiosidade.

Valenhall.

O internato era famoso em toda a região.

Dizia-se que dali saíam ministros, cientistas, empresários e grandes atletas.

Mas também circulavam histórias estranhas.

Corredores secretos.

Lendas.

Desaparecimentos antigos.

Sarah sempre mudava de assunto quando Noah mencionava o nome da escola.

Numa tarde chuvosa, quando Noah tinha treze anos, um carro preto estacionou em frente à pequena casa.

Era diferente de qualquer veículo da cidade.

Um homem elegante desceu.

Conversou com Sarah por quase uma hora.

Noah observava tudo pela janela.

Quando o visitante foi embora, encontrou a mãe sentada na cozinha.

Ela segurava uma xícara de chá já frio.

Parecia preocupada.

Muito preocupada.

— Quem era aquele homem?

Sarah levantou os olhos.

— Alguém do passado.

Foi tudo o que respondeu.

No ano seguinte, uma carta chegou pelo correio.

No envelope havia o brasão do Internato Valenhall.

Noah abriu rapidamente.

Era uma bolsa integral.

Seu sonho acabava de se tornar realidade.

Ele correu para mostrar à mãe.

Sarah leu a carta inteira.

Depois permaneceu imóvel por vários minutos.

Não havia alegria em seu rosto.

Havia medo.

Naquela noite, chamou Noah para conversar.

Sentaram-se na varanda da casa.

O vento frio soprava vindo do mar.

Sarah entrou no quarto e voltou segurando uma pequena caixa de madeira bastante antiga.

Ela a colocou sobre a mesa.

Permaneceu olhando para a caixa durante alguns segundos.

Como se decidisse se deveria ou não abri-la.

Por fim, levantou a tampa.

Dentro havia apenas uma fotografia.

Já amarelada pelo tempo.

Ela entregou a fotografia ao filho.

Noah olhou atentamente.

Era uma imagem antiga.

Nela havia um homem elegante, usando um terno escuro.

Ao lado dele estava Sarah.

Os dois sorriam para a câmera.

Entre eles, um bebê de poucos meses.

— Esse bebê sou eu?

Sarah sorriu.

— Sim.

Noah voltou a observar o homem.

— Então...

Ele é meu pai?

Sarah apenas fez um leve movimento com a cabeça, confirmando.

Noah ficou vários segundos olhando para aquele rosto.

Tentando encontrar alguma semelhança consigo mesmo.

— Qual é o nome dele?

Sarah abaixou os olhos.

Fechou lentamente a caixa.

— Ainda não chegou a hora de você saber.

Noah ficou decepcionado.

Mas percebeu que insistir não mudaria nada.

Sarah segurou sua mão.

— Só quero que me prometa uma coisa.

— O quê?

— Quando chegar a Valenhall...

Tenha cuidado com quem você confia.

Noah sorriu.

— É só uma escola.

Sarah respondeu olhando para o horizonte.

— Não...

Sua voz saiu quase como um sussurro.

— Valenhall nunca foi apenas uma escola.

Naquela noite, depois que Noah foi dormir, Sarah voltou a abrir a caixa.

Atrás da fotografia havia uma dedicatória escrita à mão.

Ela passou os dedos sobre as letras já desgastadas.

Então fechou rapidamente a caixa.

O leitor não conseguiu ver o que estava escrito.

Nem o nome de quem havia assinado.

Sarah apenas apagou a luz da sala e murmurou para si mesma:

— Espero que um dia você me perdoe...

...porque a verdade pode destruir muito mais do que uma mentira.

O ônibus percorreu a estrada durante quase duas horas.

Noah permaneceu o tempo todo olhando pela janela.

A pequena cidade onde crescera foi ficando para trás.

As casas desapareceram.

Os campos deram lugar a uma antiga floresta.

A neblina tornava a paisagem cada vez mais cinzenta.

Era impossível não sentir um frio na barriga.

Ele finalmente iria estudar em Valenhall.

Pouco depois das oito da manhã, o motorista reduziu a velocidade.

Noah levantou os olhos.

Pela primeira vez viu o enorme portão de ferro do internato.

Duas colunas de pedra sustentavam um brasão antigo.

Acima delas, letras douradas formavam um único nome.

VALENHALL

O ônibus atravessou lentamente os portões.

O garoto ficou completamente impressionado.

À sua frente havia jardins perfeitamente cuidados.

Árvores centenárias.

Um lago.

Estátuas.

E, ao fundo...

O gigantesco prédio principal.

A torre do relógio se destacava acima de tudo.

Parecia observar cada pessoa que entrava.

Noah sorriu sozinho.

— É ainda mais bonito do que nos livros...

Quando o ônibus parou, dezenas de alunos já caminhavam pelo pátio.

Alguns estavam acompanhados pelos pais.

Outros carregavam malas enormes.

Noah desceu sozinho.

Segurava apenas uma mochila e uma pequena mala de viagem.

Olhou ao redor.

Tudo parecia organizado.

Funcionários indicavam os dormitórios.

Professores cumprimentavam os novos estudantes.

Era um lugar acolhedor.

Ou pelo menos parecia.

— Você também é calouro?

Noah virou-se.

Um garoto magro, de óculos redondos e cabelos escuros sorria para ele.

— Sou.

— Cristian Rossi.

Ele estendeu a mão.

Noah apertou.

— Noah... Sanmerry.

Cristian sorriu.

— Também está perdido?

— Bastante.

Os dois riram.

Era a primeira amizade de Noah em Valenhall.

Os dois seguiram juntos até o dormitório masculino.

No corredor encontraram outro garoto tentando carregar duas malas enormes ao mesmo tempo.

Uma delas caiu da escada.

Antes que pudesse pegá-la, Noah correu e ajudou.

— Valeu!

O garoto sorriu.

Tinha cabelos claros e usava o uniforme completamente desalinhado.

— Sou Erick.

Cristian respondeu imediatamente.

— Cristian.

— Noah.

Erick olhou para os dois.

— Parece que vamos dividir o quarto.

Os três passaram boa parte da manhã organizando as camas.

Conversavam sobre tudo.

De onde vinham.

O que gostavam.

Quais esportes praticavam.

Erick parecia conhecer o internato melhor que qualquer um.

— Meu pai estudou aqui.

— Meu avô também.

Cristian perguntou curioso.

— Então sua família gosta de Valenhall?

Erick respondeu sorrindo.

— Digamos que faz parte da nossa história.

Naquele momento, Noah não imaginava o verdadeiro significado daquela frase.

À tarde, todos os calouros foram levados ao grande auditório.

Centenas de estudantes ocupavam as cadeiras.

Foi quando Noah a viu pela primeira vez.

Uma garota de cabelos castanhos escuros caminhava pelo corredor distribuindo alguns papéis.

Ela parecia conhecer metade dos alunos.

Cumprimentava professores.

Funcionários.

Veteranos.

Erick levantou a mão.

— Clary!

A garota sorriu ao vê-lo.

— Finalmente chegou!

Ela caminhou até os três.

— Você demorou.

— A culpa foi do trânsito.

Erick respondeu rindo.

Depois olhou para Noah e Cristian.

— Esses são Noah e Cristian.

Clary sorriu educadamente.

— Prazer.

— Clary.

Nenhum deles sabia.

Mas aquela apresentação mudaria suas vidas para sempre.

Poucos minutos depois...

Uma voz ecoou pelo auditório.

— Atenção, alunos!

Todos se calaram.

O diretor iniciou o discurso de boas-vindas.

Falou sobre disciplina.

Respeito.

Tradição.

Excelência.

Enquanto isso, Noah observava cada detalhe do enorme salão.

Foi então que percebeu alguém sentado sozinho nas últimas cadeiras.

Uma garota.

Ela não conversava com ninguém.

Tinha um livro aberto no colo.

Nem parecia prestar atenção ao discurso.

Noah comentou baixinho.

— Aquela menina está sozinha.

Clary olhou discretamente.

Sorriu.

— Aquela é a Vick.

Cristian perguntou.

— Ela é veterana?

— Não.

Entrou hoje também.

— Então por que está sozinha?

Clary deu de ombros.

— Ninguém conseguiu conversar com ela ainda.

Quando a cerimônia terminou, Erick tomou uma decisão.

Caminhou até a garota.

— Posso sentar?

Ela levantou os olhos do livro.

Depois respondeu calmamente.

— Se quiser.

Erick sorriu.

— Sou Erick.

Ela fechou o livro.

— Vitória.

Fez uma pequena pausa.

— Mas todo mundo me chama de Vick.

Cristian e Noah aproximaram-se.

Clary também.

Durante alguns segundos ninguém falou.

Até que Erick quebrou o silêncio.

— Pronto.

Agora ninguém está sozinho.

Vick sorriu discretamente.

Foi a primeira vez que Noah viu aquele sorriso.

Jamais imaginou que passaria mais de trinta anos tentando encontrá-lo novamente.

Naquela mesma noite...

Os cinco caminharam pelos jardins do internato.

Conversavam como se fossem amigos havia anos.

Noah olhava encantado para tudo.

Os corredores antigos.

As esculturas.

Os vitrais.

As árvores gigantes.

Enquanto caminhavam, Vick parou de repente.

Olhou para a torre do relógio.

Ficou completamente imóvel.

Clary percebeu.

— O que foi?

Vick continuou olhando para o alto.

— Vocês viram?

Os quatro olharam.

Não havia ninguém.

— Ver o quê? — perguntou Noah.

Vick respondeu baixinho.

— Tinha alguém na janela da torre.

Erick riu.

— Deve ter sido um funcionário.

Ela continuou séria.

— Não.

Ele estava olhando para nós.

O grupo voltou a caminhar.

Ninguém deu importância.

Exceto Noah.

Antes de entrar no dormitório, ele olhou novamente para a torre.

Uma janela se fechou lentamente.

Talvez fosse apenas o vento.

Talvez não.

Naquela noite, Noah ainda não sabia.

Mas aquele seria o primeiro de centenas de acontecimentos que mudariam completamente sua vida.

Naquela primeira noite em Valenhall, Noah quase não conseguiu dormir.

A imagem da torre do relógio não saía de sua cabeça.

Ele não acreditava em fantasmas.

Nem em lendas.

Mas tinha certeza de uma coisa.

Vick não inventara aquilo.

Ela realmente havia visto alguém.

Na manhã seguinte, os cinco já caminhavam juntos para o café.

Cristian era o mais organizado.

Sempre carregava um livro debaixo do braço.

Erick fazia amizade com qualquer pessoa em poucos minutos.

Clary conhecia praticamente todos os professores pelo nome.

Vick falava pouco.

Observava muito.

E Noah...

Gostava apenas de ouvir.

Era assim que o grupo funcionava.

Cinco pessoas completamente diferentes.

Que, de alguma forma, se completavam.

Durante as primeiras semanas, a rotina parecia perfeita.

Aulas.

Treinos.

Competições esportivas.

Trabalhos em grupo.

Passeios pelos jardins.

Noah finalmente sentia que havia encontrado seu lugar.

Até que tudo começou a mudar.

Foi numa sexta-feira.

Depois do treino de futebol.

Os cinco caminhavam pelo corredor principal quando encontraram um pequeno envelope preto no chão.

Sem remetente.

Sem destinatário.

Erick o pegou.

— Deve ter caído de alguém.

Abriu.

Dentro havia apenas uma folha.

Em branco.

— Que estranho...

Murmurou.

Dobrou novamente o papel e colocou no bolso.

No dia seguinte...

O envelope havia desaparecido.

Erick jurava que o deixara na gaveta do dormitório.

Nunca mais foi encontrado.

Na época, ninguém deu importância.

Anos depois, Noah entenderia que aquele havia sido o primeiro aviso.

Poucos dias depois...

Foi a vez de Vick.

Ela apareceu no café da manhã completamente pálida.

Clary percebeu imediatamente.

— Você está bem?

Vick hesitou.

Depois retirou discretamente um envelope do bolso.

Era igual ao encontrado por Erick.

Mas esse tinha algo diferente.

Na frente havia apenas uma palavra.

"Vick."

Os quatro se entreolharam.

Ela abriu lentamente.

Dentro havia apenas uma frase.

"Algumas portas nunca deveriam ser abertas."

Cristian riu.

— Algum veterano querendo assustar os calouros.

Erick concordou.

— Deve ser trote.

Mas Vick não sorriu.

Ela guardou a carta novamente.

— Não foi nenhum veterano.

Noah perguntou:

— Como você sabe?

Ela respondeu olhando pela janela.

— Porque quem escreveu sabe coisas sobre mim...

...que ninguém aqui conhece.

Naquela noite, Noah encontrou Vick sozinha na biblioteca.

Ela estava cercada por livros de História.

— Posso sentar?

Ela fez um gesto positivo.

Os dois permaneceram alguns minutos em silêncio.

Depois Noah perguntou:

— Você ainda está pensando naquela carta?

Vick respondeu sem tirar os olhos do livro.

— Você acredita em coincidências?

— Às vezes.

Ela balançou a cabeça.

— Eu não.

Fechou o livro.

— Minha avó estudou aqui.

Noah ficou surpreso.

— Sério?

— Ela sempre dizia que Valenhall guardava segredos.

Achei que fosse exagero.

Agora já não tenho tanta certeza.

Noah sorriu.

— Talvez seja só tradição.

Todo internato antigo tem histórias assustadoras.

Vick olhou diretamente para ele.

— Não estou falando de histórias.

Estou falando de pessoas.

Aquela frase ficou na cabeça de Noah por dias.

As semanas passaram.

Logo depois foi Cristian quem encontrou um envelope.

Dias depois...

Clary.

Depois...

Erick.

Noah foi o último.

Cada carta era diferente.

Cada mensagem parecia conhecer profundamente quem a recebia.

Mas havia uma característica comum.

Todas terminavam com a mesma frase.

"A verdade sempre encontra cinco."

Os cinco decidiram esconder aquilo dos professores.

Achavam que tudo fazia parte de alguma brincadeira.

Foi o maior erro que cometeram.

Numa tarde de outubro, os cinco estavam estudando no jardim quando Erick comentou:

— Perceberam uma coisa?

— O quê? — perguntou Clary.

— Sempre que uma carta aparece...

Acontece alguma coisa estranha no dia seguinte.

Cristian começou a lembrar.

— O laboratório pegou fogo.

Vick completou.

— O relógio da torre parou exatamente às três horas.

Noah acrescentou.

— O professor de História pediu demissão sem explicar o motivo.

Todos ficaram em silêncio.

Até então, nunca haviam relacionado os acontecimentos.

Naquela mesma semana...

Vick desapareceu pela primeira vez.

Não foi por dias.

Nem horas.

Apenas quarenta minutos.

Ela simplesmente sumiu do internato.

Professores a procuraram.

Funcionários também.

Quando finalmente apareceu, estava sentada sozinha no jardim.

Como se nada tivesse acontecido.

Clary correu até ela.

— Onde você estava?

Vick respondeu confusa.

— Aqui.

— Não...

Nós procuramos você em todo lugar.

Ela franziu a testa.

— Eu só fui caminhar.

Noah percebeu algo estranho.

As mãos de Vick estavam cobertas de poeira.

E havia um pequeno corte em seu dedo indicador.

Mas ela jurava não se lembrar de como aquilo acontecera.

Naquela noite...

Noah não conseguiu dormir.

Saiu do dormitório para tomar um pouco de ar.

Enquanto caminhava pelos corredores vazios, ouviu passos.

Muito leves.

Seguiu o som.

Ele vinha da direção da torre do relógio.

Noah subiu lentamente os degraus.

Chegando ao último lance da escada...

Não encontrou ninguém.

Apenas uma janela aberta.

O vento frio entrava pela torre.

Quando estava prestes a descer...

Percebeu algo preso na madeira do piso.

Um pequeno pedaço de papel.

Abaixou-se.

Era uma fotografia rasgada.

Mostrava apenas metade do rosto de uma garota.

No verso havia uma única palavra.

"Espere."

Noah guardou a fotografia no bolso.

Sem saber...

Naquele instante, sua vida começava a seguir um caminho do qual jamais conseguiria voltar.

E, do lado de fora da torre, escondido entre as árvores do jardim, alguém observava cada um de seus movimentos.

Sem dizer uma única palavra.

Os meses passaram rapidamente.

Noah já não se lembrava como era viver longe de Valenhall.

Pela primeira vez em sua vida, sentia que fazia parte de algum lugar.

Os cinco haviam se tornado inseparáveis.

Os professores já sabiam.

Se um deles estava na biblioteca, os outros quatro apareciam poucos minutos depois.

Se um ia ao lago, logo todos estavam lá.

Os veteranos começaram até a brincar.

— Lá vêm "os cinco de novo."

Erick ria.

Clary fingia ficar brava.

Cristian apenas voltava a ler seu livro.

Vick sorria discretamente.

E Noah...

Apenas aproveitava aqueles momentos.

Sem imaginar que seriam os melhores dias de sua vida.

Noah e Cristian passavam horas na biblioteca.

Cristian gostava de História.

Noah preferia arquitetura.

Os dois costumavam disputar quem encontrava as curiosidades mais interessantes sobre Valenhall.

Numa tarde chuvosa, Cristian abriu uma planta antiga do internato.

— Engraçado...

Noah aproximou-se.

— O quê?

Cristian apontou para um corredor.

— Está vendo isso?

A planta mostrava um corredor que simplesmente não existia mais.

— Reformaram?

— Talvez.

Mas nenhuma anotação dizia quando.

Noah apenas respondeu:

— Deve ser uma planta antiga.

Eles fecharam o mapa.

Sem imaginar que anos depois aquele detalhe faria todo sentido.

Enquanto isso...

Clary e Erick discutiam no jardim.

Ou melhor...

Fingiam discutir.

— Você perdeu de propósito! — dizia Clary.

— Claro que não!

— Você errou uma cesta sozinho.

— O sol estava nos meus olhos.

Ela começou a rir.

Erick também.

Vick observava os dois de longe.

Noah aproximou-se.

— O que foi?

Ela demorou para responder.

— Você já reparou como eles brigam o tempo todo?

— Já.

— Mas nunca ficam realmente bravos.

Noah sorriu.

— Acho que isso é amizade.

Vick olhou para os dois novamente.

— Talvez seja algo mais.

Noah riu.

— Você acha?

Ela apenas deu de ombros.

— Não sei.

Mas às vezes as pessoas demoram para perceber aquilo que todo mundo já percebeu.

Anos depois...

Noah lembraria exatamente daquela conversa.

As competições esportivas começaram.

Noah entrou para a equipe de atletismo.

Erick para o basquete.

Clary representava o vôlei.

Cristian preferia o clube de xadrez.

Vick participava do jornal estudantil.

Apesar das rotinas diferentes...

Os cinco continuavam se encontrando todas as noites.

Tinham até um lugar favorito.

Um banco de madeira debaixo de um enorme carvalho.

Dali era possível enxergar toda a fachada do internato.

Principalmente a torre do relógio.

Numa dessas noites...

Erick fez uma pergunta.

— O que vocês querem fazer quando terminarem a escola?

Cristian respondeu primeiro.

— Quero ser professor.

Todos riram.

— Claro que quer.

Ele sorriu.

— História.

Sempre gostei.

Clary falou logo depois.

— Administração.

Meu pai quer que eu cuide dos negócios da família.

Erick respondeu brincando.

— Então vou trabalhar para você.

Ela deu um leve empurrão nele.

— Nem pensar.

Todos olharam para Noah.

Ele pensou um pouco.

— Acho que professor.

Cristian sorriu.

— Eu sabia.

— Educação Física.

Sempre gostei de ensinar.

Por fim, olharam para Vick.

Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu.

— Quero descobrir a verdade.

Todos riram.

Erick comentou:

— A verdade sobre o quê?

Ela olhou para o prédio principal.

— Ainda não sei.

Mas tenho a impressão de que este lugar esconde alguma coisa.

O grupo ficou em silêncio.

Cristian mudou de assunto.

Mas Noah percebeu.

Vick falava sério.

Na semana seguinte...

Noah começou a notar pequenas mudanças nela.

Ela fazia perguntas estranhas aos funcionários.

Queria saber quando o internato havia sido construído.

Quem eram os antigos diretores.

Por que algumas salas permaneciam fechadas.

Quem morava na torre do relógio.

Ninguém respondia com clareza.

Era sempre a mesma frase.

— Isso aconteceu há muito tempo.

Ou...

— Não vale a pena mexer no passado.

Quanto mais ouviam isso...

Mais curiosa Vick ficava.

E, sem perceberem...

Os outros quatro começaram a acompanhá-la nessa busca.

Foi assim que tudo começou.

Não por causa das cartas.

Nem da porta de ferro.

Mas porque cinco adolescentes decidiram fazer uma pergunta que ninguém fazia havia décadas:

"O que Valenhall está escondendo?"

A curiosidade de Vick passou a contagiar o grupo.

No início, eram perguntas inocentes.

Depois, tornaram-se pequenas investigações.

Durante o intervalo, enquanto outros alunos jogavam bola ou descansavam no jardim, os cinco caminhavam pelos corredores mais antigos do internato.

Noah percebia algo curioso.

Valenhall era impecavelmente conservado.

Mas algumas partes do prédio pareciam... esquecidas.

Corredores sem saída.

Portas trancadas.

Escadas que terminavam em paredes.

Janelas que, vistas por fora, simplesmente não existiam.

Era como se o internato tivesse sido reconstruído várias vezes ao longo dos séculos.

Numa tarde, Cristian apareceu na biblioteca carregando três livros enormes.

Os colocou sobre a mesa.

— Acho que encontrei alguma coisa.

Os outros quatro se aproximaram.

No primeiro livro havia desenhos antigos do internato.

O segundo mostrava reformas realizadas ao longo dos anos.

Já o terceiro...

Era um registro arquitetônico.

Cristian começou a folhear lentamente.

— Estão vendo?

Apontou para uma planta de quase cem anos.

— Esse corredor aqui...

Noah aproximou o rosto.

— É exatamente onde hoje fica o salão principal.

— Isso mesmo.

Cristian virou mais algumas páginas.

Outra planta.

Mais recente.

O corredor havia desaparecido.

No lugar dele existia apenas uma parede.

— Reformaram.

Disse Erick.

Cristian balançou a cabeça.

— Não.

— Reformas costumam deixar registros.

— Aqui simplesmente apagaram o corredor.

Vick permanecia em silêncio.

Observava apenas os desenhos.

Depois comentou:

— Não apagaram.

Todos olharam para ela.

— Esconderam.

Naquela noite...

Os cinco voltavam do jantar quando encontraram o senhor Arthur.

Era o bibliotecário mais antigo do internato.

Devia ter mais de setenta anos.

Sempre muito educado.

Conhecia praticamente todos os livros da biblioteca.

Ao ver os cinco juntos, sorriu.

— Continuam pesquisando a história da escola?

Cristian respondeu animado.

— Sim.

Arthur deu uma leve risada.

— Tomem cuidado.

Erick brincou.

— Por quê? Vamos encontrar um tesouro?

O velho ficou sério.

— Às vezes...

Encontrar respostas é muito mais perigoso.

Os cinco se entreolharam.

Antes que Noah pudesse perguntar qualquer coisa, Arthur continuou caminhando.

Como se tivesse percebido que falara mais do que deveria.

No dia seguinte...

Vick voltou à biblioteca sozinha.

Encontrou Arthur organizando alguns livros.

— Posso fazer uma pergunta?

Ele sorriu.

— Claro.

— O senhor trabalha aqui há muito tempo?

— Quase quarenta anos.

Ela respirou fundo.

— Então conhece toda a história de Valenhall.

Arthur permaneceu em silêncio.

Depois respondeu.

— Conheço apenas a parte que me deixaram conhecer.

Vick franziu a testa.

— Como assim?

O velho olhou discretamente para os corredores.

Certificou-se de que ninguém estava ouvindo.

Então respondeu bem baixo.

— Existem livros que nunca chegam às estantes.

Ela arregalou os olhos.

— Onde eles ficam?

Arthur sorriu.

— Se eu responder...

Perco meu emprego.

Vick insistiu.

— Só quero entender a história da escola.

O velho fechou lentamente um dos livros.

— Então comece fazendo outra pergunta.

Ela ficou confusa.

— Qual?

Arthur respondeu olhando diretamente em seus olhos.

— Não pergunte o que aconteceu em Valenhall.

Pergunte...

O que fizeram para que ninguém lembrasse.

Antes que Vick pudesse responder, um professor entrou na biblioteca.

Arthur voltou imediatamente ao trabalho.

Nunca mais falou sobre o assunto.

Naquela noite, Vick contou a conversa aos amigos.

Erick riu.

— Acho que ele só queria parecer misterioso.

Cristian não concordou.

— Não.

Ele realmente ficou com medo.

Noah também percebeu.

— Parecia que alguém podia estar ouvindo.

Clary permaneceu pensativa.

— Meu pai sempre dizia uma coisa.

Os quatro olharam para ela.

— Que todo lugar antigo tem histórias exageradas.

— Mas também dizia que algumas portas devem permanecer fechadas.

Vick sorriu discretamente.

— Engraçado...

Clary estranhou.

— O quê?

— Todo adulto fala sobre portas.

Mas ninguém explica onde elas estão.

Os dias passaram.

O grupo voltou à rotina.

Treinos.

Aulas.

Provas.

Trabalhos.

Por alguns instantes, parecia que tudo voltara ao normal.

Até que, numa manhã de novembro...

Arthur não apareceu para abrir a biblioteca.

Outro funcionário assumiu seu lugar.

Cristian perguntou casualmente:

— O senhor Arthur está doente?

O homem respondeu enquanto organizava alguns livros.

— Foi transferido.

Vick estranhou.

— Transferido para onde?

O funcionário deu de ombros.

— Não faço ideia.

Foi tudo muito rápido.

Ontem mesmo ele esvaziou a sala.

Noah ficou inquieto.

Na tarde anterior, Arthur parecia perfeitamente bem.

Quando saíram da biblioteca, Vick tomou uma decisão.

— Vamos até a sala dele.

Erick arregalou os olhos.

— Ficou maluca?

— Só quero ver se deixou alguma coisa.

Os cinco esperaram o corredor esvaziar.

A porta da antiga sala permanecia destrancada.

Entraram.

O ambiente estava praticamente vazio.

Nenhum livro.

Nenhum documento.

Apenas uma mesa antiga.

Uma cadeira.

E uma estante.

Parecia que alguém havia retirado tudo às pressas.

Cristian começou a examinar as gavetas.

Noah observava as paredes.

Erick olhava pela janela.

Clary verificava os armários.

Foi Vick quem encontrou.

Atrás de um dos livros esquecidos na estante havia um pequeno pedaço de papel dobrado.

Ela o abriu cuidadosamente.

Não era uma carta.

Era apenas um recorte de jornal.

Antigo.

Muito antigo.

A manchete dizia:

"Aluno desaparece durante excursão de verão."

A data chamava atenção.

1834.

Abaixo da notícia havia uma anotação feita à mão.

Com uma letra trêmula.

"Foi aqui que tudo começou."

Noah sentiu um arrepio.

Era exatamente o mesmo ano que, décadas depois, Elena encontraria nos livros da biblioteca ao investigar a história de Valenhall.

Sem que soubessem...

Arthur havia deixado a primeira pista.

E ela permaneceria escondida por mais de trinta anos, esperando exatamente por eles.

Noah fechou os olhos no presente.

A lembrança era tão nítida que parecia estar vivendo tudo novamente.

Foi naquele pequeno pedaço de jornal...

Que ele percebeu, pela primeira vez, que o passado de Valenhall não era uma lenda.

Era uma história cuidadosamente escondida.

E eles haviam acabado de encontrar a primeira página.

Noah ainda guardava aquele recorte de jornal.

Durante muitos anos ele permaneceu dobrado entre as páginas de um velho livro de História.

Sempre que alguma pista surgia, ele voltava a lê-lo.

Na época, porém, era apenas um pedaço de papel velho.

Nada mais.

— Então foi em 1834 que tudo começou... — murmurou Erick, enquanto observava o recorte.

Cristian balançou a cabeça.

— Não sabemos.

— Só sabemos que alguém escreveu isso.

Clary dobrou cuidadosamente o papel.

— Acho melhor devolvê-lo onde estava.

Vick imediatamente discordou.

— Não.

Todos olharam para ela.

— Se esconderam esse recorte durante tantos anos, é porque alguém não queria que ele fosse encontrado.

Noah percebeu que ela tinha razão.

Pela primeira vez, decidiram esconder uma descoberta dos professores.

Naquele momento, nenhum deles imaginava que aquela seria a primeira de muitas decisões tomadas em segredo.

Os dias seguintes transcorreram normalmente.

Pelo menos na aparência.

Os cinco continuavam frequentando as aulas, treinando e convivendo com os demais alunos.

Mas havia uma diferença.

Agora prestavam atenção em detalhes que antes passavam despercebidos.

Funcionários conversando em voz baixa.

Portas trancadas.

Professores que mudavam de assunto sempre que alguém mencionava a história do internato.

Parecia que todos sabiam alguma coisa.

Mas ninguém estava disposto a contar.

Certa tarde, Noah e Cristian caminhavam pelo segundo andar quando ouviram uma discussão atrás de uma porta entreaberta.

Os dois pararam imediatamente.

Reconheceram a voz do diretor.

— Esses documentos deveriam ter sido destruídos há muito tempo.

Outra voz respondeu.

Era calma.

Mais velha.

— Não podemos apagar quatrocentos anos de história.

— Podemos esconder.

O diretor respondeu sem hesitar.

Houve alguns segundos de silêncio.

Depois a segunda voz falou novamente.

— E quando alguém voltar a fazer as perguntas certas?

O diretor respondeu friamente.

— Então faremos o que sempre foi feito.

Noah olhou para Cristian.

Os dois se entreolharam.

Sem dizer uma palavra.

Deram meia-volta e seguiram pelo corredor.

Nenhum dos dois teve coragem de continuar ouvindo.

Naquela noite, contaram a conversa aos outros.

Erick parecia incrédulo.

— Vocês têm certeza?

Cristian respondeu.

— Absoluta.

Vick permaneceu pensativa.

— "Fazer o que sempre foi feito..."

Ela repetiu lentamente.

— O que será que isso significa?

Ninguém respondeu.

A frase ficou ecoando na cabeça dos cinco durante dias.

Pouco tempo depois, aconteceu algo que Noah jamais esqueceu.

Era sábado.

Não havia aulas pela manhã.

Os cinco decidiram explorar uma parte pouco movimentada do internato.

Seguiram por um corredor antigo atrás do teatro.

As paredes eram diferentes.

A madeira do piso rangia a cada passo.

No fim do corredor havia uma janela enorme.

Dela era possível ver quase todo o terreno de Valenhall.

Enquanto observavam a paisagem, Noah percebeu um senhor cortando a grama próximo à torre do relógio.

Era o jardineiro mais antigo da escola.

Chamava-se Thomas.

Devia trabalhar ali havia décadas.

Vick fez um gesto.

— Vamos falar com ele.

Desceram rapidamente.

Thomas sorriu ao ver os cinco.

— Bom dia, jovens.

Erick respondeu animado.

— O senhor trabalha aqui faz muito tempo?

O velho sorriu.

— Desde antes de vocês nascerem.

Cristian perguntou:

— Então conheceu muitos alunos.

— Mais do que consigo lembrar.

Vick respirou fundo.

— O senhor já ouviu falar dos desaparecimentos antigos?

O sorriso desapareceu imediatamente do rosto do jardineiro.

Ele olhou discretamente para o prédio principal.

Depois para a torre.

Abaixou a voz.

— Nunca façam essa pergunta perto da torre.

Noah estranhou.

— Por quê?

Thomas respondeu apenas:

— Porque ela escuta.

Os cinco se entreolharam.

Erick sorriu, tentando quebrar o clima.

— A torre escuta?

Thomas respondeu seriamente.

— Não a construção.

As pessoas.

Antes que qualquer um pudesse perguntar mais alguma coisa, um dos inspetores chamou o jardineiro.

Ele se despediu rapidamente.

Mas, antes de ir embora, olhou diretamente para Noah.

E disse algo que ele jamais esqueceria.

— Existem pessoas que passam a vida inteira procurando respostas...

Mas existem outras...

Que passam a vida inteira tentando impedir que elas sejam encontradas.

Naquela noite, Noah não conseguiu dormir.

Pegou um caderno.

Sentou-se perto da janela do dormitório.

E começou a escrever.

Na primeira página fez apenas uma lista.

Perguntas sem resposta

O que aconteceu em 1834? Por que esconderam aqueles documentos? Quem era Arthur antes de trabalhar na biblioteca? O que existe na torre do relógio? Por que tantos adultos têm medo de falar sobre Valenhall?

Ele fechou o caderno.

Sorriu discretamente.

Não imaginava que, anos depois, outro aluno faria exatamente a mesma coisa.

Liam.

No mesmo internato.

Pelas mesmas razões.

A investigação dos sete havia começado muito antes deles nascerem.

Na verdade...

Ela nunca havia terminado.

Na manhã seguinte, quando Noah abriu novamente o caderno para acrescentar novas anotações...

Percebeu algo impossível.

Na última página havia uma frase escrita.

Ele tinha certeza absoluta de que aquela folha estava em branco quando fechou o caderno.

A letra não era dele.

Nem de Cristian.

Nem de Erick.

Nem de Clary.

Nem de Vick.

A mensagem dizia apenas:

"Vocês estão olhando para o passado. O segredo sempre esteve entre os vivos."

Noah olhou imediatamente para a porta do dormitório.

Ela continuava trancada.

Seus amigos ainda dormiam.

O caderno havia permanecido a noite inteira ao seu lado.

Mesmo assim...

Alguém escrevera nele.

E aquele foi o primeiro momento em que Noah compreendeu que eles também estavam sendo observados.

Os dias seguintes foram estranhamente tranquilos.

Nenhuma nova pista.

Nenhum documento.

Nenhuma conversa suspeita.

Parecia que Valenhall havia voltado ao normal.

Mas Noah aprendera uma coisa.

Naquele internato...

O silêncio sempre vinha antes da tempestade.

O inverno começava a dar lugar à primavera.

Os jardins estavam completamente floridos.

Os cinco passavam quase todas as tardes juntos.

Na maioria das vezes, apenas conversando.

Falando sobre provas.

Sobre esportes.

Sobre o futuro.

E, curiosamente...

Quase nunca falavam sobre os mistérios do internato.

Era como se todos precisassem respirar um pouco.

Numa tarde ensolarada, Erick apareceu carregando uma velha câmera fotográfica.

— Hoje ninguém escapa.

Clary riu.

— Lá vem você de novo.

— Um dia vamos sentir falta dessas fotos.

Erick começou a fotografar tudo.

Cristian lendo debaixo de uma árvore.

Noah treinando corrida.

Clary reclamando porque não queria posar.

Vick observando o lago.

Depois reuniu os cinco.

— Agora uma foto de verdade.

Eles se aproximaram.

O disparador fez um pequeno clique.

Naquele instante...

Nenhum deles imaginava que aquela seria uma das últimas fotografias dos cinco juntos.

Décadas depois, Noah ainda guardaria aquela imagem.

Era a fotografia que sempre levava consigo.

A única em que todos ainda sorriam.

Na semana seguinte começou o campeonato esportivo do internato.

Noah passou boa parte do tempo treinando.

Erick acompanhava quase todos os treinos.

Mesmo sendo do basquete.

— Você vai ganhar essa corrida.

Noah ria.

— Primeiro preciso terminar sem cair.

Cristian aparecia apenas para assistir.

Clary torcia pelos dois.

Vick sempre permanecia um pouco mais afastada.

Observando.

Noah percebeu.

Ela andava distraída.

Mais calada do que o normal.

Depois do treino, ele resolveu conversar.

Encontrou Vick sentada perto do lago.

— Posso?

Ela apenas fez um gesto positivo.

Os dois permaneceram alguns minutos olhando a água.

Até que Noah perguntou:

— Está acontecendo alguma coisa?

Ela demorou para responder.

— Você já teve a sensação de que está sendo observado?

Noah sorriu.

— Desde que cheguei aqui.

Ela não sorriu.

Continuava olhando para o lago.

— Não estou brincando.

— Eu também não.

Ela respirou fundo.

— Tem alguém seguindo meus passos.

— Como assim?

— Sempre que saio da biblioteca...

Ou do salão principal...

Tenho a impressão de que existe alguém atrás de mim.

Noah olhou ao redor.

Não havia ninguém.

— Você chegou a ver essa pessoa?

Ela balançou a cabeça.

— Nunca.

— Mas ela sempre desaparece antes que eu consiga olhar.

Noah tentou tranquilizá-la.

— Pode ser impressão.

Vick respondeu imediatamente.

— Não é.

Pela expressão dela...

Noah percebeu que realmente acreditava naquilo.

Naquela noite...

Os cinco voltavam do jantar quando encontraram um grupo de funcionários limpando um dos corredores do prédio antigo.

O chão estava isolado.

Cristian perguntou a um inspetor:

— O que aconteceu?

— Um aluno derrubou tinta.

Responderam rapidamente.

Erick comentou:

— Muita tinta para um corredor inteiro.

O funcionário não respondeu.

Continuou limpando.

Enquanto caminhavam, Noah olhou discretamente para o chão.

Mesmo coberto por panos molhados, conseguiu enxergar parte do desenho.

Era um pentagrama.

Pequeno.

Quase completamente apagado.

Ele não comentou nada.

Achou que poderia ser apenas um desenho feito por algum aluno.

Mas Vick também havia visto.

Os dois trocaram um olhar.

Nenhum deles disse uma palavra.

Dias depois...

Outro pentagrama apareceu.

Dessa vez na parede do antigo ginásio.

No dia seguinte já havia sido pintado.

Depois surgiu outro.

Perto da torre do relógio.

Também desapareceu rapidamente.

Os cinco começaram a perceber um padrão.

Os símbolos apareciam.

E, poucas horas depois...

Funcionários os apagavam como se nunca tivessem existido.

Foi então que Vick fez uma observação.

Enquanto caminhavam pelo jardim, disse:

— Repararam numa coisa?

Scott... (Noah sorriu consigo mesmo ao lembrar, confundindo passado e presente. Não, Scott ainda nem havia nascido.)

Ela corrigiu:

— Noah...

Você percebeu que nunca vemos quem faz os símbolos?

Noah assentiu.

Cristian respondeu:

— Sempre encontramos depois.

Clary completou:

— E sempre são apagados antes que a maioria dos alunos veja.

Erick cruzou os braços.

— Então alguém está tentando esconder.

Vick respondeu olhando para a torre do relógio.

— Ou alguém está tentando deixar um recado...

...para uma pessoa específica.

O grupo ficou em silêncio.

Sem perceber...

A investigação estava prestes a entrar exatamente no ponto em que Noah, Cristian e Clary contariam décadas depois aos sete estudantes.

Os pentagramas haviam começado.

E, muito em breve...

As cartas voltariam a aparecer.

Os pentagramas tornaram-se parte da rotina.

No começo apareciam uma vez por semana.

Depois, duas.

Em seguida, quase todos os dias.

Nunca eram grandes.

Nunca ocupavam o mesmo lugar.

Mas havia um detalhe curioso.

Sempre eram encontrados antes das primeiras aulas.

Como se alguém percorresse o internato durante a madrugada.

Os funcionários limpavam tudo antes que a maioria dos alunos percebesse.

Ainda assim...

Os rumores começaram.

Alguns diziam que eram trotes dos veteranos.

Outros acreditavam que antigos alunos estavam invadindo a escola.

Mas ninguém falava em voz alta sobre as histórias antigas de Valenhall.

Era um assunto proibido.

Certa manhã, durante o café, Erick comentou:

— Aposto que são os alunos do quarto ano.

Cristian discordou.

— Eles fariam questão de contar para todo mundo.

Clary também não acreditava.

— Além disso, os pentagramas aparecem em lugares onde nem os veteranos entram.

Vick permaneceu em silêncio.

Ela girava lentamente a colher dentro da xícara.

Noah percebeu.

Ela estava olhando para alguém.

Discretamente.

Sem virar completamente o rosto.

Ele acompanhou seu olhar.

No outro lado do refeitório havia apenas funcionários.

E um homem desconhecido.

Vestia um uniforme de manutenção.

Noah nunca o tinha visto antes.

Quando tentou observá-lo melhor...

O homem já havia saído.

Depois das aulas, os cinco voltaram ao banco debaixo do velho carvalho.

Era quase um ritual.

Ali conversavam sobre tudo.

Foi então que Erick tirou um envelope do bolso.

Era branco.

Sem remetente.

Sem selo.

Os outros quatro imediatamente ficaram sérios.

— Encontraram isso embaixo da porta do meu quarto.

Cristian pegou o envelope.

Não havia absolutamente nada escrito do lado de fora.

— Vai abrir?

Perguntou Clary.

Erick respirou fundo.

Abriu cuidadosamente.

Dentro havia apenas uma folha dobrada.

No centro...

Uma frase escrita à mão.

"Nem todos os escolhidos chegam ao fim."

O grupo permaneceu em silêncio.

Noah pegou o papel.

Virou dos dois lados.

Não havia assinatura.

Nem qualquer identificação.

Vick fechou os olhos por um instante.

Depois disse:

— É igual.

Os quatro olharam para ela.

— Igual ao meu.

Naquele momento, Noah compreendeu.

As cartas haviam voltado.

Nos dias seguintes aconteceu exatamente o que eles contariam décadas depois aos sete estudantes.

Primeiro Clary recebeu a sua.

Depois Cristian.

Poucos dias mais tarde...

Noah encontrou um envelope sobre sua cama.

Sentou-se.

Permaneceu olhando para ele durante alguns minutos.

Não queria abrir.

Mas sabia que precisava.

Dentro havia apenas uma frase.

"A verdade exige cinco."

Nenhuma assinatura.

Nenhum nome.

Somente aquela frase.

Noah guardou a carta dentro de um livro.

Era a mesma carta que, anos depois, ainda conservava em uma gaveta de sua sala.

Naquela noite os cinco reuniram-se escondidos no dormitório masculino.

Erick fechou cuidadosamente a porta.

Cristian espalhou as quatro cartas sobre a cama.

Clary colocou também a sua.

Vick observava todas em silêncio.

Cinco cartas.

Cinco mensagens diferentes.

Mas todas pareciam fazer parte de um único texto.

Cristian aproximou uma da outra.

— Estão vendo?

As frases pareciam se completar.

Como se alguém tivesse dividido uma mensagem maior.

Noah fez uma anotação no caderno.

Era a primeira vez que registrava oficialmente a investigação.

No topo da página escreveu:

Cartas

Abaixo anotou cada frase.

Depois desenhou um pequeno mapa do internato.

— Precisamos descobrir onde cada carta apareceu.

Erick sorriu.

— Você está levando isso muito a sério.

Noah respondeu sem levantar os olhos.

— Alguém teve trabalho para entregar cinco cartas diferentes.

Isso não parece uma brincadeira.

Vick concordou.

Pela primeira vez desde o início da investigação...

Todos pensavam da mesma forma.

Foi Clary quem teve a ideia.

— Vamos marcar no mapa onde cada um encontrou sua carta.

Noah desenhou cinco pontos.

Curiosamente...

Os cinco locais formavam quase um círculo.

No centro havia apenas uma construção.

A torre do relógio.

Os cinco permaneceram olhando o desenho.

Ninguém falou por quase um minuto.

Foi Erick quem quebrou o silêncio.

— Coincidência.

Cristian balançou a cabeça.

— Talvez.

Vick respondeu olhando para o mapa.

— Ou um convite.

Na manhã seguinte...

Enquanto atravessavam o pátio, Noah percebeu uma movimentação incomum perto da torre.

Dois funcionários retiravam algumas tábuas antigas da escadaria.

Pareciam fazer algum reparo.

Ele observou por alguns segundos.

Até que um deles levantou a cabeça.

Ao notar que Noah o encarava...

Fez um gesto rápido para o colega.

Os dois recolocaram imediatamente as tábuas no lugar.

E foram embora.

Sem terminar o serviço.

Noah estranhou.

Comentou com Cristian.

Os dois decidiram voltar ali depois das aulas.

Sem saber...

Aquela decisão mudaria completamente a história dos cinco.

Porque naquela mesma noite...

Eles encontrariam, pela primeira vez...

A entrada da passagem secreta.

Noah permaneceu imóvel.

No presente, ainda ajoelhado diante do monitor apagado, sua mente o levou de volta àquela noite de 1995.

A noite em que tudo mudou.

Assim que os últimos alunos recolheram-se aos dormitórios, os cinco saíram em silêncio.

Cristian carregava uma lanterna.

Noah levava o caderno de anotações.

Erick vinha à frente.

Clary observava se havia algum inspetor pelos corredores.

Vick caminhava por último.

Os cinco chegaram até a torre do relógio.

Tudo estava silencioso.

Apenas o vento fazia as árvores balançarem.

Erick sorriu.

— Então...

Viemos até aqui e agora?

Vick caminhou lentamente ao redor da construção.

Passava a mão pelas pedras antigas.

Como se procurasse alguma coisa.

Foi então que parou diante de uma parede parcialmente coberta por heras.

— Aqui.

Os quatro se aproximaram.

— O que foi? — perguntou Noah.

Ela apontou para uma pedra diferente das demais.

Era menor.

Mais lisa.

Cristian pressionou a pedra.

Nada aconteceu.

Erick tentou empurrá-la.

Também nada.

Noah observava atentamente.

Até perceber algo.

A pedra não entrava.

Ela girava.

— Espera.

Ele segurou a peça e fez um movimento para a direita.

Um estalo ecoou por dentro da parede.

Os cinco prenderam a respiração.

A terra tremeu levemente.

Algumas pedras deslizaram para o lado.

Uma abertura estreita apareceu diante deles.

Ninguém falou.

Era real.

A passagem secreta existia.

Erick foi o primeiro a entrar.

— Venham.

Cristian iluminava o caminho com a lanterna.

As paredes eram úmidas.

O ar era pesado.

Parecia que ninguém passava por ali havia muitos anos.

Noah anotava tudo.

Cada curva.

Cada escada.

Cada detalhe.

Depois de vários minutos caminhando, chegaram a uma grande sala subterrânea.

No centro havia uma enorme porta de ferro.

Exatamente como Noah descrevera aos alunos mais de trinta anos depois.

A porta era lisa.

Sem maçaneta.

Sem fechadura.

Sem dobradiças aparentes.

Apenas cinco pequenas cavidades circulares.

Vick aproximou-se.

Passou lentamente a mão sobre o metal.

— Cinco.

Murmurou.

Clary também percebeu.

— Como nós.

Ninguém respondeu.

Era cedo demais para tirar conclusões.

Naquela noite apenas observaram.

Depois voltaram para os dormitórios.

Sem contar nada a ninguém.

Durante semanas retornaram à passagem.

Mediam as paredes.

Desenhavam mapas.

Procuravam mecanismos escondidos.

Tentaram mover a porta.

Empurrar.

Puxar.

Nada.

Era como se fizesse parte da própria rocha.

Foi então que decidiram procurar respostas nos livros.

E foi exatamente como Noah contaria anos depois aos sete estudantes.

Nunca encontraram nenhuma referência àquela passagem.

Nem à porta.

Como se jamais tivesse existido.

Os meses passaram.

As cartas continuavam aparecendo.

Os pentagramas também.

A tensão aumentava dentro do internato.

Os cinco, porém, permaneceram unidos.

Até o dia em que tudo desmoronou.

Noah lembrava daquele dia com absoluta clareza.

Era fim de tarde.

Os cinco haviam combinado de voltar à passagem secreta.

Erick não apareceu.

Esperaram quase uma hora.

Depois resolveram procurá-lo.

Foi quando encontraram os primeiros professores correndo pelos corredores.

Alguns funcionários choravam.

Clary segurou o braço de um inspetor.

— O que aconteceu?

O homem respondeu sem conseguir esconder o nervosismo.

— Um aluno sofreu um acidente.

Noah sentiu um aperto no peito.

Correu.

Sem saber por quê.

Quando chegou...

Viu apenas uma ambulância deixando o internato.

Cristian aproximou-se de um funcionário.

A resposta veio em poucas palavras.

— Erik...

...não resistiu.

Noah fechou os olhos.

Ainda hoje aquela frase ecoava em sua mente.

A morte de Erik nunca fez sentido.

Nunca.

Depois do enterro, o internato mergulhou em silêncio.

Os quatro restantes continuaram investigando.

Não porque queriam.

Mas porque sentiam que deviam isso ao amigo.

Vick mudou completamente.

Já não sorria.

Falava pouco.

Dormia cada vez menos.

Noah tentava animá-la.

Cristian também.

Clary fazia o possível para mantê-los unidos.

Mas todos sabiam.

Nada voltaria a ser como antes.

Algumas semanas depois...

Vick desapareceu.

Não voltou para o dormitório.

Não apareceu nas aulas.

Não foi vista por nenhum funcionário.

O internato inteiro participou das buscas.

Polícia.

Bombeiros.

Voluntários.

Dias.

Semanas.

Meses.

Nada.

Nenhum rastro.

Nenhuma testemunha.

Nenhuma resposta.

No presente...

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Noah.

Scott aproximou-se.

Mas não disse nada.

Noah respirou profundamente.

— Procuramos a Vick por semanas.

Depois por meses.

Depois por anos.

Sua voz começou a falhar.

— Nunca desistimos.

Cristian e eu voltávamos àquela passagem quase toda semana.

Clary pesquisava documentos.

Conversávamos com ex-alunos.

Funcionários antigos.

Qualquer pessoa.

Mas nunca encontramos uma única pista.

Ele olhou para Scott.

— Até que a vida seguiu.

Cristian tornou-se professor.

Eu também.

Clary assumiu a direção do internato.

Mas nenhum de nós abandonou a investigação.

Apenas aprendemos a escondê-la.

Noah levantou lentamente.

Ainda segurava a fotografia da senhora que aparecera no monitor.

Olhou para ela durante alguns segundos.

Depois falou:

— Durante trinta anos eu tive apenas duas certezas.

A primeira...

Era que Erick havia morrido.

A segunda...

Era que Vick havia desaparecido para sempre.

Ele levantou os olhos.

Sua voz saiu quase como um sussurro.

— Hoje...

Perdi uma dessas certezas.

O silêncio tomou conta da sala.

Scott respirou fundo.

Trevor olhava para a fotografia.

Elena enxugava discretamente uma lágrima.

Alex permanecia imóvel.

Katy segurava a mão de Cora.

Noah sorriu pela primeira vez desde que entraram naquele lugar.

Um sorriso cansado.

Mas cheio de esperança.

— Se a Vick está viva...

Ele olhou para a antiga porta de ferro.

— Então isso significa que, durante todos esses anos...

Ela também nunca desistiu de nos encontrar.

Naquele instante, todos compreenderam algo.

A história de 1995 não havia terminado.

Ela apenas esperou trinta anos...

Para continuar exatamente de onde havia parado.