Internato

4 Capítulo 4


Leon

Nem preciso dizer que a convenci.

Naquela noite ela estava reluzente. Com seu tênis que mais parecia uma bota de combate, um jeans grosso e uma camiseta do Guns. Prendeu o cabelo numa trança de lado e, como sempre, tinha uma linha grossa demarcando os olhos.

Sério, eu a conheci quando ela tinha oito e ela sempre estava com essa linha de lápis de olho preto e parecia sempre pronta para a batalha. Daí eu descobri que ela mantinha facas presas nas mangas e percebi que ela realmente sempre estava pronta para a batalha.

Sempre a achei magnifica. Certo, sou três anos mais velho. As garotas do orfanato quase caiam em cima de mim – e não estou me gabando disso. Mas sempre vi algo em Lish. Algo que fez com que eu me aproximasse. Que nós nos tornássemos amigos.

Que fugíssemos juntos e que acabássemos juntos trabalhando pro Galdi.

Mas quer saber? Estou feliz assim.

Claro que eu preferia ter uma família de verdade. Claro que eu queria ir pra faculdade, arranjar um emprego que se preze. Poder bancar a Lish o quanto fosse necessário – até porque ela não me deixaria fazer isso por muito tempo.

Estávamos voltando do cinema – não me pergunte o filme, não lembro mesmo. Eu estava com o braço sobre seus ombros e ela abraçava minha cintura. Qualquer um que olhasse acharia que éramos namorados.

Mas éramos muito mais do que isso. Éramos amigos, aliados, parceiros, irmãos de guerra, companheiros. Nunca aconteceu nada romântico entre nós. Quer dizer, eu tenho uma queda por ela desde antes de sairmos do orfanato.

Mas eu me tornei um irmão para ela. Seu guia e protetor. É impossível ela sentir algo por mim.

E foi pensando nisso que tudo aconteceu.

Do nada ela disse que queria um chocolate – e isso é normal com ela.

Dei uma nota de vinte na mão dela, e não duvido nada que ela tenha gasto tudo, do jeito que ela é viciada em chocolate. Ela atravessou a rua e entrou numa padaria. Continuei do outro lado da rua, me encostei numa das paredes e fiquei olhando para ela lá dentro.

Vi que tinha alguém se aproximando, mas nem liguei. Afinal, qualquer malandro que se preze dessa cidade me conhecia – e me temia. Mas, infelizmente, não era esse o caso.

O cara parou na minha frente e me encarou por uns dois segundos. Retribui a carranca realmente bravo por não poder mais ficar de olho na minha pequena.

- Cadê o colar?

- Cadê o que, cara? – respondi com desprezo

- Cadê o colar? Voce pegou, e meu chefe quer de volta.

- Sei de nada não. E mesmo se soubesse, porque eu devolveria? O chefe é teu, não meu.

Ele me observou por mais uns segundos. Dai levantou o punho muito rápido e eu quase não consegui me defender. Me abaixei e o segurei pelas pernas, o derrubando no chão e o imobilizando. Mas foi nessa hora que eu senti um pano úmido cobrindo meu nariz.

Imediatamente prendi minha respiração, mas o éter evaporava depressa e penetrava minha narina. Tive tempo consciente suficiente para perceber a burrada que tinha feito ao me focar inteiramente nesse idiota embaixo de mim. E pra torcer que Lish tenha visto, mas não se metesse. Eu não a quero nem a um quilômetro desses caras.


-x-

Alicia

- Galdi! – me exaltei – Eles pegaram o Leon! Voce tem que me ajudar!

- Não vou arriscar – ele respondeu me olhando nos olhos.

Na hora que eu entrei sozinha e furiosa, ele mandou todo mundo sair. Portanto, não tinha nenhum idiota aqui que pudesse me impedir de dizer tudo o que eu quisesse.

- Vai se fuder, Galdi. O Leo é o seu melhor soldado. Somos nós que fazemos todas as missões. Somos nós que te trazemos o lucro sem precisar mexer com os viciados aí na porta. E nós somos bem gratos por isso. Apesar de não nos pagar tão bem quanto paga aos outros, reclamamos pouco disso. E você se recusa a ajudar o Leo?

- Escuta Alicia. Tem mais envolvido nisso do que só suborno. Eu não posso arriscar admitir abertamente que foi meu grupo que entrou lá.

- Mas eles sabem! A gente deixou o broche. E eles nos encontraram e levaram o Leo!

- Mas isso tem que ficar subentendido! Eles têm que achar que essa ação partiu de um grupo leal a mim, mas que agiu sem meu consentimento. Eu não posso simplesmente ligar para eles e dizer ‘Ei, sabe o garoto que vocês têm aí? Então, ele é meu sim. Ele entrou na casa sem eu deixar. Mas tudo bem, sabe, brincadeira de criança. Então solta ele e vem aqui em casa tomar um café!’!

- Então você não vai fazer nada?

- Ainda não. Vai pro seu quarto. Come alguma coisa. Dorme. Pensa direito. Amanhã a gente conversa. Vou pensar num jeito de trazer ele de volta.

Continuei encarando-o.

- Eu to mandando voce subir Alicia – disse num tom autoritário, mas em seguida suspirou derrotado – Olha, o Léo é sim meu melhor homem. Eu sei quanto ele é importante para voce. Mas agir precipitadamente não vai ajudar. Eu prometo que vamos trazer ele de volta. Tenha paciência.

O fitei por alguns segundos mais.

- Certo Galdi. Certo. Só tem um problema: quanto mais demorar, maiores as chances dele estar morto. E eu não vou tolerar isso.

Saí antes de ele poder falar algo mais.