Internato

8 Capítulo 8


Notas iniciais
2 em 1 u.u

Alicia

Andar no Brás nunca é um problema. O problema é ser mal encarado e provocar os “moradores” locais. Nunca tive esse problema em especifico.

Fui até o outro lado do bairro, o antigo Brás. O lugar dos casarões.

Tinha decidido ir até a rua da Cristoteca, mas no meio do caminho resolvi mudar. Entrei em outra daquelas ruas sem saída e quase no final meu olhar se fixou em uma. Eu não sabia quem era dono daquela. Com cuidado tentei abrir a porta – trancada. Isso não era estranho. O estranho era uma fechadura abandonada por tanto tempo resistir ao mínimo esforço. Isso significava que o prédio ainda estava ativo. Era uma chance.

Ao lado havia um beco. Escalei o entulho que havia ali e quebrei as madeiras que fechavam uma janelinha no alto. Ali já não era mais o comodo principal. Bem perto da janela havia caixas e mais caixas empilhadas – e me usei delas para descer. A iluminação que ainda entrava pela janela que eu quebrei não era suficiente para iluminar o centro da sala, então fui extremamente cuidadosa para não chamar nenhuma atenção.

Esgueirei-me atrás do que eu percebi que era a ultima pilha de caixas e esperei um pouco. Quando a luz que entrava mudou de cor percebi quanto tempo eu aguentara na mesma posição. Pouco depois do anoitecer uma porta se abriu. Na mais completa escuridão, vi alguns vultos indo até o meio do aposento e jogarem algo no chão. Meu coração descompassou quando percebi que era alguém.

-x-

Alicia

Subi nas caixas de novo, buscando um melhor ponto de observação – e onde eu tivesse uma mira mais clara. Ele estava sentado no chão, os braços amarrados para trás, um saco na cabeça.

Um dos cinco caras tirou o saco de pano da cabeça dele e começou a falar sobre um colar. Ele estava com uma lanterna forte no rosto de Leo. Eu queria descer lá e espancar eles todos. Eu queria atirar em todos eles agora mesmo. Mas eu estava muito nervosa. Eu nunca atiraria enquanto houvesse a mínima chance de que eu acertasse Leon.

O cara da lanterna ficou gritando com Leo por um tempo, perguntando ‘onde está?’ ‘onde está?’

Dava pra ver a essa distancia quanto o rosto dele estava machucado. Ele só olhava para o cara e não falou nada.

O cara entregou a lanterna para um dos brutamontes, e levantou Leo pela gola da camisa. As vozes ecoaram com clareza no galpão vazio:

— Garoto – ele disse bem devagar – Onde está meu colar?

— Como eu vou saber? – ouvir sua voz foi ainda pior do que eu pensava — Se voce esqueceu em algum lugar o problema é seu.

Ele levou um murro por isso.

— Fala logo garoto. Com quem voce deixou meu colar?

— Qual deles?

— O com as asas.

Imediatamente levei a mão ao pescoço. Não acredito que era por causa dessa porcaria.

— Aquela coisinha? Já deve ter sido derretida.

— Não mente pra mim garoto!

— Por que tanta coisa por um pingentizinho daqueles? – ele conseguiu falar – Já vi dezenas iguais em joalheria por aí.

— Mas eu quero esse de volta. Foi abençoado pelo Papa em Roma. Teve gotas de Água Benta aspergidas nele em plena praça São Pedro.

— Então compra outro e aproveite pra tirar umas férias em Roma.

— Pare de me enrolar menino! Eu quero meu colar, e eu quero agora!

— Então vai ficar querendo. Não sei se percebeu, mas não está aqui!

Levou outro murro. O cara o jogou de volta ao chão.

— Ele vai falar mais cedo ou mais tarde. Façam com que ele queira falar.

E deu as costas e saiu.

Fiquei mais do que tentada em ir atrás dele. Mas tinha Leo. Duvido que se eu devolvesse o colar ele nos deixaria ir. E eu queria descer lá e fatiar todos os brutamontes que agora chutavam e socavam Leon. Mas sabia que eu provavelmente seria pega e acabaria sendo espancada também – e aí nós nunca teríamos uma chance real de fugir.

E foi pensando nisso que aguentei aqueles dolorosos minutos, com o rosto virado e tentando não ouvir os lamentos que escapavam pela boca de Léo.

— Parem – disse um deles – Depois a gente volta. Ou matamos o garoto.

Os outros concordaram em murmúrios e os quatro saíram da sala. Imediatamente desci as caixas e corri até Leon me agachando perto dele.

— Léo! – chamei – Leon, olha pra mim! – eu chorava desesperadamente

Ele parece ter me escutado, por que fez força para abrir os olhos inchados e virou a cabeça em minha direção. Ele sorriu.

— Lish...

— Shiii... – disse enquanto colocava sua cabeça em meu colo – Fica quieto. Eu vou te tirar daqui logo.

— Lish – ele começou com a voz rouca, mas foi interrompido por uma sequencia de fortes tosses – Lish, vai embora.

— Eu não vou te deixar Leon! – protestei – Eu disse que esse colar foi má ideia. Eu sabia!

Ele me encarou através dos olhos semicerrados.

— Dá vontade de jogar ele fora, de botar fogo, sei lá!

— Fica com ele – e pegou minha mão – Pra sempre se lembrar de mim.

— Como se eu precisasse de mais alguma coisa pra lembrar de voce, garoto.

Ele sorriu de novo.

— Voce vai embora comigo. Não vou precisar de nenhum lembrete: vou ter voce.

— Eu não vou conseguir sair daqui tão cedo. Vai embora Lish, se salva.

— Para de ser tão idiota! Eu não vou te deixar e ponto final.

— Eu to mandando Alicia.

— Como se eu te obedecesse. Agora vem, vamos levantar – disse e comecei a me levantar e trazê-lo junto.

— Calma Lish – disse ele, e riu de novo. O que deu nele que ele tanto ri?

— Calma nada Leo. Nós temos que ir rápido.

— Só me senta por um momento – eu o fiz e sentei–me também.

Ele passou um braço por meus ombros e de imediato não entendi o que pretendia. Primeiro, por que eu achava a situação estressante demais para qualquer coisa relacionada. Segundo, nunca houve nada parecido entre nós.

Mas ficou claro quando ele soltou sua outra mão da minha e a colocou em minha nuca.

E então me beijou.