Internato

14 Capítulo 14


Alicia

Porra.

Isso foi tudo o que passou pela minha cabeça quando voltei a mim.

Quando abri os olhos, estes quase foram cegados pela luz branca clinica. A sala era totalmente branca e eu estava numa maca bem no centro. Tinha um forte gosto metálico na língua e minha nuca doía de um jeito terrível.

Passei a mão ali e percebi que tinha uma linha comprida, uma cicatriz grossa, que parecia ser de semanas. Quanto tempo passei apagada?

Eu ainda estava nas mesmas roupas em que embarquei. Olhei em volta e minha mochila e talwar estavam no canto. Eu tinha uma intravenosa com o que parecia ser soro. Tirei a agulha com certa cautela – era daquelas compridas e flexíveis. Eu realmente as odeio.

Sentei no chão e calcei minhas botas. São grandes, macias e confortáveis. E aguentam qualquer tranco.

Assim que me levantei a porta se abriu num rompante, e entrou o advogado seguido por meia dúzia de seguranças. Reconheci metade do jatinho.

— Onde eu estou?

— Aonde você pertence.

— Fala direito! – avancei na direção dele, mas os seguranças se moveram e formaram um cordão protetor em volta dele – Me diz aonde eu estou!

— Voce está no lugar onde vai ficar para sempre. Seja bem vinda ao Internato – e me deu o mesmo sorrisinho cínico – Peguem-na.

Dois seguranças me pegaram pelos braços e um terceiro pegou minhas coisas. Não tentei lutar. Afinal, se eu conseguisse me soltar, pra onde iria? Se realmente estávamos naquele prédio que vi, estávamos no meio do deserto. Não havia jeito de fugir.

O advogado – advogado uma pinoia, mas como eu não lembro o nome dele é advogado mesmo – foi na frente, junto com o cara que tinha pego minhas coisas. Os dois me arrastaram atrás deles, e os outros fecharam o cortejo. Seguimos por um corredor tão iluminado quanto a sala em que eu estava. Consegui fazer eles soltarem meus braços depois da segunda curva.

— O que você quer de mim?

— Ora, de você especificamente nada. Só precisávamos de mais alguém aqui.

— E onde é aqui?

— Aqui é o Internato. Temos até uma quantidade razoável de internos, mas tenha certeza de uma coisa: ninguém sai daqui.

— Nem num caixão? – disse fria

— Isso é impossível. Voce vai descobrir.

Viramos mais um corredor, e vi o sol. Tive uma vontade louca de quebrar aquele vidro e pular pra fora. Esse branco todo fazia meus olhos arderem. Mas eu não ia durar cinco minutos lá.

Entramos num elevador e ele colocou um cartão numa fenda que estava onde deveria estar o painel. Tive a impressão que descemos mais do que os três andares superficiais que o prédio parecia ter. Muito mais.

-x-

Alicia

O contraste era imenso.

Enquanto em cima tudo brilhava e reluzia, o que encontrei lá embaixo era quase nojento. Era escuro e úmido. Mal iluminado, as paredes eram de pedra crua e parecia estar constantemente molhada.

Os que estavam me escoltavam praticamente me jogaram para fora do elevador. O outro me jogou minha mochila e minha talwar – ainda bem que ainda estava na bainha.

— Uma dica: aprenda as regras rápido – disse o advogado – Aproveite a estadia – disse com o maior sorriso estampado no rosto.

A porta se fechou, e uma parede de pedra surgiu de dentro da outra para cobrir o metal reluzente do elevador. Tentei esmurra-la, mas obviamente, não tinha um botão desse lado para chamar o elevador.

Encostei a cabeça na pedra fria e pensei por um momento. Eu podia simplesmente ficar ali, esperando que eles voltassem. Ou podia tentar achar algo ou alguém.

Escolhi a segunda opção.

Pra minha direita, o corredor seguia por mais dois metros e acabava num canto morto. À esquerda, bem, ele tinha uma curva dali a cinco metros. Era a única chance.