Finalmente. Finalmente eu vou me sentir livre. Finalmente eu vou sair desse país ipócrita, idiota, capaz de pensar só em futebol, bunda e samba.

A melhor coisa que eu fiz na minha vida, foi inventar essa história de intercambio. Eu finalmente vou fazer alguma coisa que presta nessa vida, que foi repleta de sofrimento, e dores. Nessa vida que todos te abandonam, sem saber a verdadeira história. Nessa vida, que existe pessoas iludidas, e ignorantes. Nessa porcaria de vida.

Eu tenho motivo para as minhas palavras sujas sobre a vida. Meu pai e meus dois irmãos morreram num acidente de carro. Meus amigos me abandonaram por uma história sem nexo, inventada por vadias, com inveja não sei doque, mais tinham. Um idiota, que me violentou, por não querer fazer sexo com ele. Na real, o único motivo que eu ainda estou viva, é pela minha mãe.

Eu já pensei várias vezes em me matar, mais não seria justo com a minha mãe. Minha mãe já passou por coisas mais terríveis que eu, e sempre continua com um sorriso perfeito, que ilumina por onde que passa. Não seria justo com ela, perder sua única filha ainda viva, que a ama incondicionalmente.

Claro, nossa relação não é perfeita. Nenhuma relação de 'mãe e filha' não é perfeita. Temos nossos conflitos como qualquer um.

Depois de quase ser internada, pela depressão de minha mãe, ela conseguiu arranjar um emprego bom, e é por isso que eu resolvi fazer um intercâmbio. Preciso sair desse lugar, que não importa o sol que faça sempre vai ser um lugar escuro, e espinhoso.

A única coisa ruim desse intercâmbio, é o pouco tempo dele. 1 ano apenas. 1 ano pra mim em Los Angeles não é nada. E é por isso que u penso em quando terminar meu intercambio, fazer uma faculdade por lá mesmo, e passar o resto da minha vida lá, com a minha mãe, claro.

A única coisa que estou rezando para não acontecer, é me apaixonar. Se apaixonar é a pior coisa que pode acontecer. O amor não é um conto de fadas como contam

Estou no aeroporto, olhando milhares de pessoas passando por mim. Cada pessoa tinha um jeito. Loiros, morenos, ruivos, atingidos, olhos escuros, claros, tudo. Agente se via tudo.

"Que horas são?" minha mãe, me sacudiu, me acordando dos meus desvaneios. "15:25" "tá chegando a hor..." minha mãe foi interrompida por um som de uma voz de uma mulher, abafada pelo som das pessoas que falavam. Tentei prestar atenção no número do voo. Sim era ele.

Pedi a minha mãe que não trouxesse ninguém, não queria choro, não queria serimônia, nada. Queria que fosse um momento só 'mãe e filha'.

Chegou minha hora, chegou a hora de ser alguém na vida, é agora.

Olhei para minha mãe. Para aqueles olhos azuis, pelo qual sempre fui apaixonada. Aqueles olhos azuis, ipnotizante, um mar, onde você se perdia se olhasse para ele. Aqueles olhos azuis quase enxarcado pelas lágrimas, aqueles olhos azuis mais lindo do mundo, aqueles olhos que eu já estava acustumada. Oh, como eu ia sentir falta desses olhos que escondia a dor de perder o marido e dois filhos, e ter que deixar sua única filha, ser levada pelo distíno, ser levada pela vida, pelo qual eu achava uma merda.

Eu pedi para minha mãe não chorar, mas quem começou a chorar fui eu. Corri para ela, e a abraçei. Abraçei com toda a minha força, já sentindo saudades do cheiro dela, do delicioso cheiro do cabelo dela, daquele perfume que só nela ficava delicioso, aquele perfume adocicado, e refrescante.

Senti ela chorar também, e me abraçar mais forte ainda.

Me afastei dela, olhei em seus olhos e disse: "se cuida, por mim" "se cuida por mim também. Quero que você entre naquele avião -ela disse apontando para a janela onde dava para os aviões estacionados — e quando pisar em Los Angeles, mostre o seu sorriso, pelo qual eu vivo. Eu te amo" chorei mais ainda, e continuei abraçada com ela. Ouvi outra vez chamarem meu voo, limpei minhas lágrimas, e entrei naquele túnel, que seria sombrio para algumas pessoas, mas pra mim seria a passagem de uma nova vida. Minha nova vida, que eu não queria errar. Que eu não queria escolher as pessoas erradas para ficar do meu lado, e confiar. A vida que eu queria ser feliz. A vida que eu não queria estragar.

Achei minha poltrona, e por sorte ninguém sentou do meu lado. Senti meu celular vibrar:

Uma nova mensagem

mamãe

"Já estou com saudades."

Peguei meu Ipod, e coloquei para escutar.

Tell me do you feel the way I feel

Cause nothing else is real

in la-la land to appeal

Nessa hora não quis saber mais de nada, lembrar das coisas horríveis que eu fiz no Brasil. Fiquei olhando a cidade de Belo Horizonte ficar cada vez menor pela janela do avião, e começei a chorar. Começei a chorar e a cantar baixinho. Deixei a música tomar conta da minha cabeça.

I won't change anything in my life

(I won't change anything in my life)

I'm staying myself tonight

(I'm staying myself tonight)

Senti o avião decolar.

Tchau Brasil.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.