Interlúdio

3 Catarina II


Notas iniciais
Desculpem-me a demora. Confesso que quase cheguei a abandonar a história, até porque, não acreditei que ela fosse ser lida por alguém. Mas, mais do que ser lida, entendi que ela precisa ser escrita. Ainda que só para mim. Saboreie a leitura!

O que é isto? O purgatório? Nunca acreditei muito nessas coisas, apesar de ser um tanto supersticiosa. Lembro de quando fui fazer a prova do vestibular, há uns seis anos. Dormi de calcinha vermelha e sutiã amarelo, na véspera. Não me pergunte o porquê, eu só senti que precisava ser daquele jeito. Deu certo, eu passei. Engenharia. A sexta feira seguinte foi uma farra que só! O Theo estava viajando de férias, ele perdeu a cabeça quando soube, pelo facebook, que eu e a Nanda passamos a madrugada fora, enchendo a cara e de carona com um velho amigo meu. Ela tinha terminado com o namorado, eu seria caloura na faculdade, muito em breve. Nós duas tínhamos muito que beber.

— Amiga, recebeu a lista no seu celular?

— Recebi! Parabéns! Parabéns! Parabéns! Você merece muito. Agora já pode relaxar e curtir um pouco? – Ouvi aquela risada que já conhecia há tempo.

— Claro! Não vejo a hora. Quer passar lá em casa?

— Pode ser. Estou muito feliz por você, viu?

— Eu também! Nem estou acreditando!

Fernanda Vasconcelos. Devo admitir que esperava encontra-la no meu quarto, quando fui lá, mas então lembrei que você não está na cidade. Está em alguma conferência sobre moda, em São Paulo. Se estivesse aqui, meu pai não precisaria chamar o chaveiro para entrar na minha casa, era só ligar para você. Falando em ligar, quem foi que te ligou e te contou que a próxima festa do meu aniversário foi cancelada? De todas as pessoas no mundo, você é a que eu me seguro. Você sabe. Eu falhei com você, mas você sempre foi fiel. Sempre esteve lá. Mais de dez anos, muito mais! De um jeito ou de outro, sempre soube que a única forma de a nossa amizade acabar, seria assim. Agora eu gostaria de não ter te conhecido, então você não teria me amado e, talvez, hoje não seria um dia pesado demais. Apesar de tudo, sou grata por poder ter te dito “olá”.

A carta que preciso escrever, eu deveria endereçá-la a você.

Existe apenas uma luz fraca, estou na sala, novamente. A caneta e o papel me convidam a começar. Eu quero escrever aos meus pais, meu irmão, talvez até Theo, mas quando penso em Fernanda, a culpa cai sobre meus ombros. Eu deveria estar aqui. Eu deveria estar aqui, quando a sua neném nascer. Eu deveria planejar o chá de bebê surpresa e ler todos esses artigos de mãe de primeira viagem. Eu não vou conhecê-la, não vou conhecer a filha da minha melhor amiga, mas a garotinha vai me conhecer. Ela vai saber quem é a moça de vestido longo azul brilhante, em quase todas as fotos do casamento de sua mãe. Ela vai saber quem era a mulher que fez o brinde, no vídeo da festa. Ela vai ouvir meu nome, vez ou outra, numa conversa de gente velha, e depois vai se esquecer. Talvez Fernanda também se esqueça, mesmo que só um pouco, num dia onde só terá espaço para fraldas, mamadeiras e o marido. Quem sabe ela só abra o álbum de retratos quando ele já for velho, e as rugas tornarem nossas histórias distantes, então ela verá ternos sorrisos, eternizados por uma mini máquina do tempo. Ela verá rostos congelados, memórias empalhadas. Como quando tiramos aquela foto, pintando a frase na cabeceira da minha cama, “Forever Young”. Quem diria que acertaríamos uma previsão!

De todas as piadas, as melhores eram contadas com você. De todos os porres, os mais divertidos foram na sua casa. De todas as vidas que eu tive, enquanto estive aqui, e de tudo o que mudou, uma centena, você foi a constante. Eu deveria ter pensado duas vezes, antes de morrer daquele jeito. Deveria ter tentado um pouco mais. Mas, o fato é que perdi a vontade de tudo, depois que comecei a pensar. Você sabia que algo estava errado, desde a vez em que eu te liguei, depois do trabalho. Eu disse que tinha bebido um pouco, mas você sabia que eu estava sóbria. Só não disse nada, porque sabia também que eu ficaria constrangida de estar aos prantos, com dificuldade para formar frases, balbuciando algo sobre ser tarde demais.

A verdade é que eu tinha medo.

Nanda, você, depois de tudo, estava sossegada, e eu estava muito feliz por você. Quando te vi encontrando seu rumo, sendo “feliz para sempre”, tentei também. Você sempre disse que eu poderia, mas eu nunca acreditei. Já havia passado tanto tempo, tudo o que eu fazia era ajuntar coisas. As pessoas ficavam cada vez mais opacas, os dias, cada vez mais sem razão.

Eu era um buraco ambulante e comecei a devorar todos ao meu redor. Só que eu nunca me satisfazia. Eu quis ir embora, não vou mentir, mas eu quis ficar também. Você sabe que eu quis, talvez, até mais do que tudo que já quis.

Eu nunca mais envelhecerei. Sou jovem, para sempre.

Talvez a forma de eternizar-se, seja morrer. Que curioso, não?

“Forever young, I want to be...”

É engraçado o quanto o para sempre se parece com o nunca. Ambas definições misturam-se em uma dança que me apavora. Estou dançando, agora.

A caneta falha no papel e eu ouço vozes vindas de fora. Ainda estou na sala, sozinha, mas continuo ouvindo as vozes.

— Catarina! – alguém chama.

Levanto a cabeça, procurando por quem seja.

— Catarina? – É ela. É Fernanda.

Levanto-me, apressada, caminho em direção a porta. Giro a maçaneta uma vez, mas a porta está trancada. Ajeito o roupão no meu corpo e tento mais uma vez. Nada. Continuo escutando vozes, mas não consigo identificar do que falam, ainda tenho a sensação de que chamam por mim. Eu preciso ir. Preciso sair. A medida que tento abrir a porta, perco os sentidos. Bato contra o metal de que é feita, na ânsia de me ver longe dali. Vou apagando, perdendo as forças.

Eu não posso ir embora. Não agora. Preciso vê-la.

— Catarina, onde você está?

— Estou aqui! – Eu grito, mas a voz parece rasgar a minha garganta. As palavras sufocam-me e me sinto cada vez mais longe.

Por favor, me deixe sair! Por favor...

Fernanda, eu juro que não é culpa sua. Você não poderia ter evitado. Tudo bem? Já vi você passar por tantos momentos desesperadores, e você sempre os venceu. Prometa pra mim que você vai encontrar o Caio e vai cuidar dele. Eu sei que você vai ter uma filha, em breve, mas prometa pra mim que você vai cuidar do meu irmão. Eu não sei onde ele está. Diz pra ele que as coisas vão ficar bem. E me perdoe. Me perdoe por não cumprir a promessa de estar sempre aí. Eu vou sentir sua falta. Falta de conversar até de madrugada, de rir sem saber o porquê, de ir até a sua casa e almoçar com vocês. Eu sei que o Léo vai te ajudar a passar por isso, ele é um ótimo marido. De nós duas, você sempre fez as melhores escolhas. Lembra? Nunca precisei catar seus pedaços, tanto quanto você catou os meus.

Eu te amo, Fernanda. Eu te amo. Você é a irmã que me faltou. Pode ficar com aquela minha bota, se quiser. E também com todas as maquiagens que eu morria de ciúmes. Se for você, eu não ligo.

Quando eu penso que não vou aguentar por mais tempo, a maçaneta completa o giro, e eu despenco para fora da sala, bem no meio de um quintal.

A luz do sol é forte e a claridade me impede de ver, mas ainda escuto.

— Catarina?

— Aqui. – Tento responder.

Levanto-me do chão, consertando o roupão. Meus pés estão descalços na grama, minhas mãos e cotovelos, agora, estão sujos de terra. Aos poucos, minha visão ajusta-se e posso ver uma silhueta de alguém pequeno, correndo em minha direção.

Tudo fica nítido. É uma garotinha.

Oh, meu Deus! É uma garotinha linda.

— Aqui, mamãe!

Quando viro-me, lá está Fernanda.

— Catarina, eu disse já para o banho!

A garotinha ri, enquanto caminha mais depressa, em direção a casa. Fernanda a segura nas mãos, e caminham juntas, a porta está aberta. Dentro da casa, há brinquedos espalhados por todo canto. Há também um quarto, com a plaquinha “Catarina”, bordada em rosa, pendurada na porta.

A garganta fecha-se e meus olhos ardem.

— Seu pai está esperando a gente no shopping, Catarina. Sem gracinha!

Só quando rio percebo que também estou soluçando de lágrimas.

Você não precisava dar meu nome a ela, você não precisava ter que se lembrar, todos os dias.

— Você sabe por que chama Catarina? – Ela pergunta a garotinha, enquanto volta com a filha toda molhada, enrolada na toalha.

A menina está entretida com uma boneca e nem presta atenção a mãe, mas Fernanda continua.

— É pra nunca nos esquecermos de alguém. Alguém muito especial. Uma amiga.

Eu sei que dói quando ela diz essas palavras, porque conheço o tom da sua voz.

— Catarina... – Ela diz, e sei que, dessa vez, não é referindo-se a filha. — Era tão espoleta quanto você! Ás vezes, parece até ser coisa da minha cabeça, achar que vocês duas se parecem tanto.

Quando Fernanda começa cantarolar o refrão de Forever Young, ao estilo de Imagine Dragons, bem como costumávamos fazer, eu sei. Eu sei que Fernanda entende. Como poderia não entender? Ela é minha amiga. E, ainda que essas cenas sejam apenas alucinações, porque eu morri quatro anos e três meses antes de a “pequena Catarina” ter cinco anos, como a vejo agora, eu tenho certeza que Fernanda, mais do que ninguém, sabe de tudo o que se passou. Sabe que eu a amei e que nunca a deixaria, a menos que não houvesse outra alternativa. A menos que precisasse deixá-la.

E eu precisei.