Interlúdio
1 Capítulo 1 - Tempestade de Verão
Era uma noite quente de dezembro e as descargas elétricas rompiam a rigidez do ar. Os relâmpagos distantes anunciavam uma tempestade vindo e as nuvens cuspiam rispidamente as gotas de chuva. Sandra conduzia o carro com pressa, contudo não sabia aonde iria e nem quando chegaria, mas tinha uma certeza em mente: queria sair dali o mais rápido possível. As gotas de chuva batiam fortemente no para-brisa. Nas janelas laterais, faziam riscos de água. Os trovões serviam de melodia para o ritmo macabro que as árvores dançavam ao vento forte. As lágrimas cessaram, mas a maquiagem borrada denunciava que chorara naquela noite. O limpador de para-brisa estava ligado, mas não dava conta de toda a água que caía do céu. Estava sendo confirmada uma típica tempestade de verão.
Olhando pela janela lateral, Victor não podia deixar de pensar que assim como as tempedades de verão, os problemas da vida vêm sem avisar. Muitas vezes causam tragédias e deixam pessoas feridas, desconsoladas. Sem dó, as tiram tudo que têm. Algumas vezes a calmaria sucede, mas a bagunça é quase irreparável. Com tempo e esperança, as pessoas se recuperam, mas aí vem outra tempestade igualmente devastadora.
A tempestade era a menor das preocupações de Sandra no momento. Dela e do seu filho único Victor, que mesmo com 18 anos de idade, estava sentado no banco traseiro do carro. Eles não estavam apenas apreensivos, estavam com medo. Trovões. Aquela noite estava sendo apenas uma espécie de prelúdio de uma série de acontecimentos que mudarão suas vidas por completo. Ventania. Sandra tirou o olho do velocímetro que marcava 86 km/h e olhou para o retrovisor. Chuva. Além de descobrir que não vinha carro algum, ela notou que seu filho sacou o telefone do bolso e começou a escrever.
— Victor, não me diga que você está escrevendo uma mensagem?! — percebeu o espanto em sua própria voz, mas prosseguiu — porque você não pode contar para ninguém os acontecimentos de hoje.
Ele não a respondeu de imediato, estava focado em escrever. Naquele trecho da estrada, o telefone não tinha sinal. Porém Victor queria deixar tudo pronto para somente apertar “enviar” quando seu celular tivesse área de serviço.
— Victor? —indagou sua mãe preocupada.
— Que? Ahn... não, tô não — respondeu ainda concentrado no celular em suas mãos.
— O que você está fazendo? Posso saber?
— Ah... me deixa. Não é nada demais. — simplesmente disse, já que não conseguiu inventar nada naquele momento.
— É o que então?
Victor parou e pensou por um instante. Sua cabeça estava conturbada demais para conseguir pensar em alguma desculpa naquela hora. Então decidiu ser sincero:
— Eu preciso contar para alguém isso logo. — ainda não sabia quem seria esse alguém, mas tinha dois ou três nomes em mente.
— Sei que deve ser muito difícil lidar com isso tudo tão subitamente, mas preciso que você pelo menos tente entender a minha... melhor, a nossa situação no momento — disse Sandra com mais tranquilidade na voz, mas ainda aflita por dentro — primeiro vamos sair daqui. Depois você pode falar com quem quiser.
— Eu corro riscos, Sandra. — chamá-la de mãe ainda parecia muito estranho — Essa é a minha situação no momento. Você pode aceitar esse fato calada, mas eu não. Você sempre foi covarde e não quero ser que nem você. Se eu tiver a oportunidade de salvar a minha pele, eu vou. E você não pode me impedir.
Victor tirou os olhos do celular por um momento para olhar pela janela e deduziu que estavam quase no trevo que ligava a Rodovia Rio-Santos à cidade de Volta Redonda. Não era possível que aquilo tudo estivesse acontecendo de verdade. Ele só podia estar dentro de um dos piores pesadelos. Voltou sua atenção para o celular em suas mãos.
As gotas de chuva continuavam batendo na pista e na lataria do carro.
Sandra passara por muito estresse naquela noite, já não tinha paciência para nada. Muito menos pro velocímetro, que passava a marcar 92 km/h. Avistou uma placa que sinalizava a velocidade máxima de 60 km/h mas a ignorou tão rápido quanto o raciocínio do filho e continuou:
— Victor, meu filho...
— Não me chame de filho. — Victor se arrependeu imediatamente após ter dito essas palavras. Não entendia o que estava acontecendo, era informação demais para uma noite só.
— ...passei por muito estresse hoje e já não tenho muita paciência, como você deve saber — disse com toda calma que não tinha. — Então por favor, deixe para falar com alguém quando estivermos seguros. Além do mais, você não...
— Você precisa entender que não ficaremos seguros. Nunca.
— Pare de ser dramático.
— Pare de ser controladora. Você... — ele não teve coragem de continuar.
Negar a maternidade é a pior das ingratidões, principalmente para as mães. Negar a maternidade não é como você ser eleito pelo povo e depois ignorá-los. Negar a maternidade não é como ser salvo por um estranho na rua e depois matá-lo. É como... ficar 9 meses na barriga de uma mulher, chutá-la, tirar as noites de sono, nascer, mamar durantes meses, chorar nas horas mais indesejadas, se sujar, ser limpado por ela, chorar e tirar novamente as noites de sono dela e então menosprezá-la. Nada se compara à ingratidão materna.
Victor não só parou de escrever a mensagem como resolveu apagá-la. Instantes depois se arrependeu e balançou o celular para refazer tudo. Apenas uma frase foi refeita. Balançou novamente. Outra frase foi refeita. Começou a balançar o celular freneticamente, até a mensagem toda ser refeita.
Sandra sabia poucas coisas sobre Victor, mas mesmo assim percebeu que ele não iria ceder. Conversar não ia adiantar, ele iria mandar a maldita mensagem para quem quer que fosse. Teria que ser radical, sua vida estava em jogo. A vida dele estava em jogo. Olhando a pista com muita dificuldade por causa do para-brisa molhado e embaçado, Sandra percebeu que nenhum carro vinha naquela reta. Poucos se atreveriam a dirigir naquela tempestade. Seu pé pesava sobre o acelerador. 95 km/h.
Os relâmpagos pareciam se aproximar.
Ela se virou para trás e estendeu um dos braços para pegar o celular da mão do filho. Sempre seguia rigidamente as leis de trânsito, mas desviar a atenção da pista naquele instante não era tão arriscado. Era uma questão de necessidade.
— Para de ser burro e me passa esse celular, Victor — disse já tateando os braços do filho.
— ME DEIXA! – Victor gritou se esquivando das mãos da mãe.
— ME PASSA ESSA MERDA DE CELULAR — ordenou Sandra já impaciente. Voltou a olhar para frente por um momento e mesmo com a chuva forte dificultando a visão da pista, conseguiu ver que a estrada continuava solitária. 98 km/h. Passaram pela primeira ponte da reta. Tirou o cinto de segurança e se virou para trás novamente para tirar o celular da mão do Victor e impedi-lo de contar para quem quer que fosse o que acontecera naquela noite.
— NÃO SE CANSA DE SER COVARDE? — vociferou Victor enquanto escrevia freneticamente a sua extensa mensagem explicando tudo o que tinha acontecido naquela noite. Não estava se importando mais se saía errado, o que importa é ser legível.
— QUANDO ESTIVERMOS LONGE DAQUI VOCÊ FALA COM QUEM QUISER.
Se Victor atendesse ao pedido da mãe e parasse de escrever a mensagem, Sandra teria voltado a prestar atenção na pista. Desse modo ela conseguiria cumprir com a promessa quando eles estivessem longe daquele maldito lugar. Victor não atendeu ao pedido da mãe. Sandra não voltou a prestar atenção na pista. A promessa nunca pôde ser cumprida porque eles não foram longe naquela noite.
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