Interlúdio

2 Tempestade de Verão - Parte 2: Fred


Notas iniciais
Eu não imaginava que alguém ia conseguir ler a primeira parte, mas a Rosa16 não só leu como pareceu gostar. Então essa parte vai para você, Rosa! Muito obrigado pela leitura. Algumas considerações: essa cena do Fred é simultânea a cena do Victor no carro com a Sandra. Tudo isso ocorre exatamente no dia 21 de dezembro.

Frederico vagava pelas ruas estreias de Paraty. Sem rumo, sem direção. Tinha a roupa do corpo e nada mais. Dividia a rua somente com as gotas densas de chuva. Não ventava, porém sentia frio. Pelas vias conturbadas de sua cabeça, os problemas vagavam. Sem rumo, sem direção. Ainda não caíra a ficha de que aquilo realmente estivesse acontecendo. Não poderia estar acontecendo. Sua vida se tornou miserável, não podia fazer nada senão existir. Apenas existir. Ele não encontrava um propósito além desse. Infelizmente a sua existência nem era mais um propósito, mas era o único significado que restou em sua vida. As lágrimas percorriam seu rosto junto às gotas de chuva.

Longe, alguns cachorros latiam, mas seu som era abafado pelo barulho da chuva forte. Distante dali, alguns carros passavam em alta velocidade, dava para notar pelo som do ar que eles cortavam. Nos postes faltavam a luz, provavelmente tinha acabado a energia ali, como sempre. A escuridão predominava sem uma lua para iluminar o céu. A sua vida estava daquele jeito naquele momento: repleta de escuridão. Os relâmpagos e os trovões o assustavam muito. Era tarde demais, não havia escapatória da realidade.

— Por que tudo precisa acontecer da pior forma possível? – perguntou para si mesmo olhando para o chão escuro. Levantando um pouco a cabeça, pôde ver um homem barbudo, provavelmente um morador de rua, levantando e andando em sua direção. O homem parecia decidido, olhava apenas para frente. Passou por Fred como se ele nem estivesse ali. Continuou andando devagar, porém determinado.

Como se não tivesse problemas o suficiente para se preocupar, Fred agora não tinha um lar. Nunca é agradável ser expulso de casa, nem mesmo com 16 anos. Muito menos quando sua vida já é conturbada. Se pudesse, deixaria o orgulho de lado e pediria desculpas à sua mãe. Mas agora não dependia mais dele, ela nunca mais iria querer vê-lo novamente.

Fred sentou no canto de uma poça larga da calçada em que estava andando. Quase não havia lugar sem água ali. Mas era impossível ficar mais encharcado do que já estava. Juntou os joelhos e envolveu seus braços por eles. Enfiou sua cabeça ali e chorou em pensar o que aconteceria dali para frente. Sentia arrepios na espinha. Chorou em pensar que não tinha intimidade o suficiente com ninguém que morasse ali perto. Chorou por não ter um pai, e sim um monstro. Chorou em pensar que não era capaz de ser amado pela própria mãe. Fred foi, de fato, rejeitado pela sua própria mãe e maltratado pelo próprio pai. Essa era a realidade que tinha que encarar.

Chorou em pensar que passou 9 meses no ventre, que foi alimentado por ela. Que foi cuidado, criado e educado por ela. E agora ela o larga, assim como uma mãe joga um filho no lixo. Agora ela desiste dele, assim como uma grávida aborta seu embrião. Chorou por pensar que é fruto de um amor, mas é um fruto que nasceu podre.

Aquele era o fim de tudo. O definitivo. Conseguia sentir a Terra se movendo em outra direção, outra velocidade. Não tinha como, aquele era o fundo de seu poço. Ele mesmo o cavara. Com soluços periódicos, seus pensamentos vagavam sem parar. Não conseguia respirar direito, era como se todo o ar que existia na Terra não fosse o suficiente para seus pulmões. Cada vez que respirava fundo, sentia mais falta de ar. Sentia também o céu caindo assim como o seu chão. E soluçava, interrompendo o fluxo de ar. Qual seria a sensação de ser amado do jeito que ele é? Não sabia e parece que nunca saberá. Queria experimentar pelo menos uma vez na sua vida toda a sensação do amor. Queria mais do que tudo pertencer aquele mundo, mas só conseguia existir nele. Queria se encaixar, não conseguia. Queria ser importante para alguém, ser o mundo de alguém. Pelo menos uma vez na vida. Uma vez na vida.

Chorar não era uma escolha, era uma saída. Era uma válvula de escape de todo o arrependimento que o matava por dentro. Era uma forma de aliviar e atenuar o sofrimento ao mesmo tempo. Chorar não era um meio, era um fim. Delimitava o seu limite.

Frederico chorou naquela noite como nunca na sua vida. Chorou por se sentir vazio e por perceber que nunca foi sequer preenchido, por perceber que a situação em que se encontrava era culpa sua, de mais ninguém. Estava tendo finalmente o que merecia. Percebeu que na verdade desejava nem ter nascido para vivenciar tudo isso. Sua vida era uma sequência de desastres. Chorou principalmente por querer deixar de fazer parte daquele mundo mas ser covarde e não ter coragem de fazer nada a respeito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.