Interlúdio

10 Capítulo 10


Notas iniciais
N.A.: Once Upon A Time não me pertence. Obviamente. Se pertencesse, o
Archie podia muito bem ter morrido em The Cricket Game (2x10). Não gosto do Grilo. A parte mais interessante dele é ter o Pongo como cachorro. Como é bem sabido, todos os créditos aos senhores Edward Kitsis e Adam Horowitz e à ABC.
Milhões de agradecimento à minha beta, Mellie, que me salva de publicar alguns erros crassos!

Isabelle abriu a porta para encontrar os sorrisos forçadamente amplos nos rostos de Mary Margaret e Leroy, cada um com uma enorme vela amarela em mãos.

“Boa tarde, Isabelle!”

“Uh, boa tarde.” Ela passou os olhos entre os dois, um tanto desconcertada.

“Estamos vendendo velas feitas pelas freiras para o ‘Dia do Mineiro’!”

“Ah, claro! Não querem entrar por um instante?”

“Você está sozinha...?” Mary Margaret perguntou, meio hesitante, levantando um pouco o olhar para tentar ver por sobre o ombro de Isabelle. Ela imaginou que a mulher estava perguntando se o Sr. Gold estava ali, já que era basicamente a única visita que Isabelle recebia, além da aparição ocasional de Emma e Ruby.

“Sim, estou. Entrem, fiquem à vontade.”

Mary Margaret soltou um suspiro de alívio, e Isabelle viu seus ombros caírem cansados enquanto ela entrava, tirando o cachecol em um movimento derrotado.

“Ufa! Finalmente um pouco de boa-vontade... Já não aguento mais portas se fechando na minha cara.”

“E eu não aguento mais sorrisos falsos, irmã. Minha bochecha está doendo.” A carranca habitual de Leroy voltou a seu rosto, enquanto ele seguia a professora pela sala.

Isabelle não ficou surpresa ao saber da falta de receptividade das pessoas de Storybrooke. Ela vira a apatia dos clientes do Granny’s naquela manhã, quando Mary Margaret fora pedir voluntários para ajudar nas festividades. Ela também não era surda aos burburinhos que estavam ultimamente acompanhando o nome da mulher nas bocas dos moradores da cidade.

Ela não gostava de dar ouvidos às vozes sussurradas e maliciosas que corriam entre as mesas do restaurante, mas a própria Ruby acabara lhe fornecendo detalhes sobre o caso, o tapa que Kathryn dera em Mary Margaret e as especulações gerais que brotavam por aí. Isabelle ficou muito triste por Mary Margaret, que nunca fora nada além de gentil com ela. Durante sua estadia na casa dela, Isabelle podia ver a angústia que ela sentia com a situação.

Parecia incrível como toda a cidade parecia pronta para julgá-la e condená-la automaticamente. Ela sofrera aquilo na própria pele, sendo a ‘louca oficial’ de Storybrooke. Ainda sofria, na verdade. Havia algo de terrivelmente errado naquela cidade.

“Vocês querem beber alguma coisa?”

“Não, irmã, nós queremos vender velas.”

Mary Margaret lançou um olhar recriminatório para Leroy, mas isso não pareceu incomodá-lo.

“Quê?! Nós não temos tempo para perder. As freiras precisam do dinheiro.”

Isabelle ficou espantada pelo tom resoluto de Leroy. Ele não tinha parecido nada interessado naquilo pela manhã.

“Eu me lembro dos festivais que faziam no Dia do Mineiro quando eu era criança. Era sempre muito divertido. Tenho certeza que vocês vão vender muitas velas por lá.” Isabelle sorriu, simpática.

“Muitas velas? Mil velas?” Leroy perguntou, mal-humorado.

“Mil velas?!”

“É uma longa história, Isabelle... Resumindo, temos que vender todas as velas para conseguir o dinheiro do aluguel do convento, ou as freiras serão expulsas e acabarão transferidas para outra cidade.” Mary Margaret explicou, desanimada.

“Uau! E como estão indo as vendas?”

Os dois se olharam, em um silêncio desamparado.

“Uh... Tão mal assim?”

Parecia que eles estavam com um grande problema. Isabelle tinha certeza que o Sr. Gold exigiria o pagamento no dia estipulado em contrato, independente das consequências para as freiras, e de repente ela se sentiu muito mal pela situação.

Em um impulso, ela foi até sua bolsa jogada sobre o sofá e retirou boa parte do que havia na carteira. Por sorte, seu salário havia sido pago poucos dias antes. Ela estendeu o dinheiro para Mary Margaret. “Aqui. Quantas velas isso compra?”

A mulher contou o dinheiro, surpresa. “Isabelle, tem certeza? Isso é muito dinheiro!”

Isabelle deu de ombros. “Tudo bem. Eu peço um adiamento da data do meu aluguel ao Sr. Gold.”

“Boa sorte com isso, irmã! Nem freiras conseguiram alguma boa-vontade do homem. Quando estiver morando embaixo de um viaduto, não nos culpe.”

“Não acho que lidar com o Sr. Gold vá ser um problema.” Respondeu ela, simplesmente. Leroy lhe lançou um olhar curioso, até que Mary Margaret pediu para que ele fosse pegar cinco caixas de velas no carro.

Assim que ficaram sozinhos, Isaballe notou o olhar indeciso da mulher sobre ela.

“O que foi?”

“Isabelle... Já que você é, hm, próxima do Sr. Gold... Não haveria alguma possibilidade de você conversar com ele sobre o caso das freiras?”

“Oh! Mary Margaret... Desculpe, mas eu realmente tento não me envolver nos negócios dele.”

“Claro, claro. Você está certa. Eu não deveria ter sugerido isso, sinto muito.”

“Não, tudo bem, não precisa se desculpar.”

Um certo constrangimento desceu sobre a sala, até que Leroy voltou, arrastando a duras penas as cinco caixas até o meio da sala.

“Prontinho. É melhor irmos agora. Hora de voltar às vendas.” Ele falou, ironicamente armando no rosto o maior sorriso que Isabelle já vira, o que lhe arrancou uma pequena risada.

“Quem sabe vocês não devam fazer uma expressão de coitados, ao invés?” Sugeriu ela, não muito a sério. Mas Mary Margaret pareceu considerar a questão.

“Bom, se não os ganhamos por simpatia, quem sabe por pena... O que acha, Leroy?”

“Qualquer coisa que venda velas, irmã.”

“Tenho certeza que vocês conseguirão vender muitas.” Isabelle tentou soar confiante.

“Claro. Porque muitas pessoas querem ajudar a prostituta e o bêbado da cidade.” Leroy comentou, amargamente. Depois de alguns segundos, completou, zombeteiro: “Além, é claro, da louca da cidade.”

“Leroy!” Mary Margaret lhe lançou um olhar horrorizado. Isabelle pensou que devia se sentir incomodada com o comentário, mas a verdade é que ela quase achou engraçado. No que lhe dizia respeito, pelo menos.

A verdade é que ela sempre nutrira uma inexplicável simpatia pelo carrancudo homenzinho. Mesmo que em suas breves interações no Granny’s ele tivesse sido sempre mal-humorado, ele o era em tal absurdo extremo que Isabelle achava cômico.

“Tudo bem, Mary Margaret. Eu não me importei.”

“Certo. Acho melhor irmos andando, mesmo.”

“Boa sorte para vocês.”

“E boa sorte com o seu aluguel.” Leroy respondeu, e Isabelle lhe deu um sorriso despreocupado. Ele lhe olhou seriamente por um instante e acrescentou, em um tom sincero: “Muito obrigado, irmã.”


Enquanto os via entrar no carro para seguir seu caminho, Isabelle pensou que esperava mesmo que eles conseguissem vender todas as velas.



–*-*-*-


Quando o Sr. Gold veio a sua casa, no início da noite, logo lançou um olhar surpreso para a pilha de caixas no meio da sala. Isabelle riu de sua expressão espantada.

“Estava pensando em ingressar no ramo dos incêndios criminosos. Será que posso pedir umas aulas particulares?”

Ele elevou uma sobrancelha, divertido. “Minha querida Belle, com todas essas velas, temo que você esteja planejando deitar metade da cidade em chamas.”

“Alguma objeção?”

“Não, absolutamente nenhuma.” Ele pegou uma das velas e fingiu examiná-la. “Mas, talvez, eu pudesse sugerir algum material mais inflamável, para melhores resultados?”

“Minha primeira lição, então!”

“Oh, ainda não.” Ele tentou suprimir um pequeno sorriso, aproximando-se dela e forçando um tom sério à voz. “Primeiro temos que discutir a forma de pagamento.”

“E o que você tem em mente?”

O Sr. Gold inclinou-se para ela, cobrindo seus lábios com os dele, e Isabelle alegremente passou os braços em torno do seu corpo, puxando-o para si. Ao se afastarem, Isabelle suspirou, contente, fazendo-o sorrir com um brilho no olhar.

“É sempre um prazer fazer negócio com você, Srta. French.”

Ele se deliciou com seu riso, antes de voltar a atenção novamente para as caixas, curioso.

“E então, qual é o real motivo de tantas velas?”

“Nada demais. A Mary Margaret e o Leroy estavam vendendo velas, como voluntários do festival do Dia do Mineiro.” Isabelle tentou disfarçar, mas o Sr. Gold notou uma ponta de desânimo nas suas palavras.

Poucas horas antes, ele estivera com o anão, que havia tentado vender seu barco em um movimento desesperado para salvar as freiras. Ele não se sentira nada inclinado a cooperar. Como o Senhor das Trevas, não era de se esperar que ele fosse muito simpático às irritantes fadas.

Elas vagavam em suas roupas ridículas, oferecendo seus dons como uma solução maravilhosa, sem alertar aos seus ‘protegidos’ que toda magia tem um preço. Mesmo a que vem do seu pó mágico. E o preço que ele pagara, e que Bae pagara, fora alto demais para ser esquecido. Se a madre-superiora, Reul Ghorm, fosse transferida para Boston e sofresse um acidente fatal ao cruzar a fronteira, ele não sentiria nada além de satisfação.

E, ainda assim, seu coração se apertou ao ver uma tristeza pensativa se apoderar de sua Belle enquanto ela passava a mão distraidamente pelas velas.

“Você tentou comprar todo o estoque deles, então?”

“Fiz o que podia. Não tinha mais como ajudar.”

“E é assim tão importante?”

“Bom, é por uma boa causa.”

“’Boa causa’?”

“É. As freiras estão tendo um pequeno... problema financeiro.”

O Sr. Gold notou que ela evitara falar diretamente sobre o aluguel, mas tinha certeza que Isabelle sabia que era a ele que elas deviam.

“Freiras...” Ele resmungou, em um tom chateado.

“Você não gosta de freiras?!”

“Longa história.” Ele respondeu, simplesmente, e Isabelle juntou as sombrancelhas em uma expressão intrigada.

“Bom, pelo menos não vou ter que me preocupar em ficar no escuro se faltar energia.” Ela tentou forçar um sorriso, sem muito sucesso.

O Sr. Gold a encarou, sério, amaldiçoando mentalmente a existência das fadas-freiras. Finalmente, perguntou: “Você gostaria que eu perdoasse o aluguel delas?”

Os olhos de Isabelle se alargaram em espanto, e um leve rubor coloriu suas bochechas. “E-eu não pediria isso.”

“Você não pediu. Eu estou oferecendo.”

“Você não precisa fazer isso, Gold...”

“Não, não preciso.”

“Então por que...?” Ela o encarou, fascinada, e ele se viu repentinamente desconfortável.

“Eu não preciso do dinheiro.” Ele respondeu, como se não tivesse importância. “Então, está decidido. Você pode ir avisar à sua amiga Mary Margaret, se quiser.”

“Você é uma pessoa fantástica, sabia?” Isabelle abriu um largo sorriso, seus olhos brilhando.

Ele franziu o cenho ligeiramente. “Altamente questionável.”

“Não seja bobo!” Ela riu, deixando-o mais sem jeito.

“Não se engane. Não é por causa de uma ‘boa causa’ que estou fazendo isso.”

Ela adiantou-se, plantando um sorridente beijo em sua bochecha e o abraçando alegremente. “Eu sei. Muito obrigada!”

Ele passou o braço livre da bengala por suas costas, sentindo seu coração se aquecer com a alegria que sentia nela. Aquilo bem valia a perda da chance de se vingar das fadas.

Qualquer coisa por Belle.


–*-*-*-


O Sr. Gold estacionou em um canto da praça onde ocorria o festival do Dia do Mineiro, e ficou aguardando ao lado do carro, esperando Belle procurar Mary Margaret e Leroy para contar as boas novas. Ela ficara preocupada que os dois estivessem ainda desanimados com a iminente desgraça das freiras, e estivera tão empolgada para falar com eles que o Sr. Gold quis trazê-la logo, embora odiasse festivais.

Ele ficou observando, sem muito interesse, as pessoas vagarem pela praça escura, cada um segurando uma vela acesa. Finalmente, viu Belle voltando com um sorriso alegre e duas velas nas mãos.

“Ainda não haviam velas suficientes em sua casa?” Ela apenas riu. Ela sempre ria, mesmo de suas ironias. Mesmo quando todos os outros apenas o temiam ou odiavam. E ele ficava encantado a cada vez que ouvia seu riso.

“Acredita que eles conseguiram vender todas as velas? Essas duas eram quase as últimas! Agora que as freiras não precisam pagar o aluguel do mês, elas estavam comentando sobre usar o dinheiro da venda das velas para fazer algumas melhorias no convento. Não é fantástico?” Seus olhos brilhavam, animados, até que uma pensamento lhe passou pela mente e ela perguntou, hesitante: “Digo... o aluguel ainda está perdoado, agora que elas têm o dinheiro para pagar?”

“Eu não volto atrás nas minhas palavras.”

O sorriso de Isabelle se abriu novamente e ela lhe estendeu uma das velas, que ele segurou com um olhar indagador. Ela não falou nada, enquanto tirava de sua bolsa uma caixa de fósforos onde se lia ‘Café e Cama da Vovó’. Logo o Sr. Gold se viu segurando uma vela acesa, como a maioria das pessoas no festival, o olhar satisfeito de Isabelle sobre ele.

“Quer dar uma volta pela praça comigo?”

Ele assentiu, surpreso, e ela passou o braço em volta do seu, puxando-o discretamente para uma caminhada. A delicada brisa noturna os envolvia, e Isabelle recostou seu corpo contra o dele, buscando seu calor. O Sr. Gold quase esqueceu o resto do mundo, como se só existissem os dois, caminhando juntos, segurando um pedaço de luz nas mãos.

Ele sentiu quando o corpo de Isabelle se retesou ligeiramente, e ela olhou ao redor, parecendo incomodada. Só então ele percebeu o olhar de muitos dos passantes sobre eles. Isabelle pareceu irritada.

“Que droga! Será que as pessoas vão ficar me olhando assim para sempre? Pensei que já tinham se cansado de olhar ‘a doida’!” Ela soltou um suspiro frustrado, e o Sr. Gold ficou encarando-a, muito sério. Quando seu olhar persistiu, sem nenhuma palavra, Isabelle perguntou: “O que foi?”

“Não acho que é por isso que eles estejam olhando.”

“Hm?” Isabelle pareceu confusa.

“O que eles estão encarando, Belle, de forma tão espantada, é uma jovem bonita caminhando com um agiota aleijado. É isso que é tão insólito.” Ele sorriu, amargamente.

Isabelle arregalou os olhos enquanto a ideia absurda era registrada por sua mente. Ela olhou ao redor, com uma expressão furiosa, e notou muitas pessoas desviarem o rosto para evitar que seus olhares se cruzassem. Ela voltou a encarar o Sr. Gold, respirando pesadamente de raiva.

De repente, sua expressão se tornou resoluta, e sem aviso, ela o puxou pela nuca, juntando seus lábios em um beijo ávido. Ele ficou congelado em surpresa por um instante, até que seu fogo o derreteu, e ele a puxou fortemente contra si, juntando seus corpos, enquanto ela enterrava os dedos em seu cabelo.

Quando eles se afastaram, muito ofegantes, ela tinha um brilho quase feroz nos olhos, e um enorme sorriso nos lábios. Sem se importar em olhar ao redor novamente, ela passou o braço em volta do dele e, juntos, voltaram a caminhar, sem dar um segundo de pensamento para as faces atônitas que os observavam.

Notas finais
N.A.2: A quem interessar possa: Uma caixa tinha 8 velas, cada uma custando U$ 5,00, como pode ser verificado em Dreamy (1x14).