Notas iniciais
Playlist da fic: https://youtube.com/playlist?list=PLdzJGRM3tNpeAtA-nAl_OjNzCKF9wgOew&si=M63w3VgMXCym-wdk

Peter estava irritado com sua mãe.

Ele queria passar as férias na cidade onde morava, queria ir a algum parque local, em uma locadora, um arcane… Mas a sua mãe tinha planos muito diferentes.

Sua mãe, Natalya Maximoff, queria ir passar as férias no interior, onde os pais dela moravam. Peter e sua irmã, Wanda, não queriam de jeito nenhum. Acontece que os dois irmãos estavam acostumados com a vida na cidade, pensar em estar no interior com dezenas de mosquitos os rodeando não era nem um pouco legal. Como a autoridade era a mãe, eles tinham que obedecê-la, mesmo não querendo.

Eles arrumaram as suas malas e foram para a estrada. Wanda tinha levado vários brinquedos, caderno e tintas, pintar era o seu hobbie do momento. Peter levou dezenas de fitas cassetes e um Nintendo.

A viagem foi entediante. Wanda desenhava várias coisas em seu caderno, mas vez ou outra parava e olhava para a janela. Já Peter, no começo, estava com o Nintendo, mas se tornou chato e passou o resto da viagem ouvindo música.

Finalmente chegaram à casa dos avós. A casa tinha dois andares e um sótão, as paredes eram azuis claras e o telhado beje, dando destaque no meio do campo. Era aquele tipo de casa em que no momento em que você entrava um sentimento de paz e conforto invadia todo o seu ser.

Natalya estacionou o carro atrás da caminhonete vermelha de seus pais. Peter saiu imediatamente do carro e colocou os óculos no rosto, correndo em lugares aleatórios. Wanda também saiu do carro e via apenas um borrão, deixado pelo seu irmão.

De repente, Peter parou em frente a sua irmã, que se assustou.

— Tem um parquinho naquela direção. — ele levantou os óculos e apontou para a direita. — Acho que você vai gostar, está cheio de pirralhos.

— Legal! — exclamou alegre.

— Peter! — chamou a mãe. — Me ajuda com as malas!

— Pode deixar tudo comigo! — disse, abaixando os óculos.

Peter utilizou a sua super velocidade e levou todas as malas para dentro da casa, aproveitou e olhou todos os cômodos. A casa era aconchegante, toda de madeira, até os móveis, e o porão e o sótão tinha várias trambiqueiras e caixas. Peter decidiu que olharia cada coisa que havia ali em outra hora.

Natalya e Wanda entraram juntas na casa e logo foram recebidas pelos anfitriões, que as receberam muito alegres.

— Natalya! Minha filha! — exclamou o Sr. Maximoff. — Quanto tempo não te vejo! — a abraçou.

— É mesmo. — respondeu, um sorriso surgiu em seu rosto e seus olhos começaram a marejar.

— Ah! Essa deve ser a Wanda! — exclamou alegre a Sra. Maximoff. — É muito bom te conhecer, minha querida! Minha netinha! — a abraçou fortemente, a pequena Wanda teve até uma pequena dificuldade para respirar.

— Onde está Pietro? — perguntou o avô, confundindo o nome.

— É Peter, pai. — o corrigiu.

— Isso mesmo. Onde Peter está? — olhou para a porta.

— Estou aqui. — disse, aparecendo atrás deles.

Os avós levaram um baita susto e olharam para onde o neto estava. Eles se olharam e caíram na gargalhada.

— Peter! Meu Deus, como você cresceu! Está praticamente do meu tamanho! — disse o avô, surpreso. — Está com quantos rapaz? 17? — perguntou, abraçando ele.

— Estou com 19 anos. — respondeu sorrindo, o avô o soltou e deu leves tapas em suas costas.

— Ele já é praticamente um adulto! Meu Senhor, como você cresceu… — disse a avó, abraçando Peter fortemente e logo o soltando. — Queria tanto ter visto vocês dois crescerem… — choramingou a avó, olhando para os dois netos.

— Mamãe, por favor… — Natalya repreendeu a mãe.

— Desculpe… Eles cresceram tanto. — colocou uma mão em seu rosto, parecia que choraria a qualquer momento.

O Sr. Maximoff abraçou a sua esposa, em um ato de confortá-la. Ela se acalmou e voltou a sorrir, retribuindo o abraço de seu marido. Peter e Wanda olharam para os dois sem saber como reagir, então apenas sorriram. Natalya abraçou os seus pais novamente e olhou para os seus filhos.

— Muito bem, agora vão lá para cima e colocar as malas de vocês no quarto.

Peter e Wanda obedeceram à mãe e subiram para o segundo andar. Entraram no primeiro quarto e colocaram as malas em qualquer canto. No quarto, havia uma beliche, um guarda roupas de quatro portas e uma mesinha de frente para a janela. Wanda se deitou na cama de baixo, pois tinha medo de altura, e Peter abriu uma de suas malas e colocou suas coisas na parte de cima da cama.

— O vovô e a vovó são legais… — comentou Wanda.

— É… O problema é que aqui é chato. — reclamou Peter.

— Por quê? — perguntou curiosa.

— Não tem nada para se divertir aqui. Não tem shopping, arcane, lan house…

— Mas tem um parquinho! — disse alegre, tentando animar o irmão.

— Você tem alguma coisa para se divertir, eu não tenho nada…

— Você vai encontrar alguma coisa.

— Nesse fim de mundo? Difícil.

Depois de arrumarem as suas coisas, eles desceram e encontraram a mãe e seus avós na cozinha. A Sra. Maximoff estava tirando um bolo do forno, que tinha um cheiro maravilhoso de chocolate e cenoura. Wanda lambeu os lábios e correu para se sentar, ansiosa para comer o bolo. Peter andou calmamente, mesmo querendo usar a sua super velocidade.

Natalya estava arrumando a mesa e o Sr. Maximoff pegou alguns pratos e talheres e pôs a mesa. A Sra. Maximoff colocou o bolo no meio da mesa e pegou a faca para cortar o primeiro pedaço.

— O primeiro pedaço para mim! — exclamou Wanda animada.

— Se acalme, Wanda. — repreendeu Natalya.

— Está tudo bem. — tranquilizou a avó. — O primeiro pedaço vai ser para você sim, querida. Eu vi que está bem animada para comer o bolo. — disse, entregando o prato com o bolo para Wanda.

— Obrigada! — agradeceu, pegando um pedaço grande com o garfo.

— Aqui está o seu, Peter. — disse, com mais um prato em mãos.

— Ah, obrigado. — agradeceu, pegando o prato e sentando ao lado da irmã.

— Tá muito gostoso! — elogiou com a boca cheia.

— Obrigada, querida! — agradeceu a avó, com um sorriso alegre.

Peter comia o bolo lentamente, já entediado. O bolo estava gostoso, admitia, mas isso não o tirava do tédio. O que iria fazer durante as férias se não tivesse nada de interessante para fazer naquele lugar?

— ❀ —

Depois de conversarem bastante e almoçarem, Peter foi levar sua irmã para o parquinho que tinha visto há algumas horas atrás. Durante o trajeto, Peter ficou olhando a paisagem. Havia muitas árvores, arbustos e flores. E de longe, conseguia ouvir o barulho de algum rio. Apesar do tédio, Peter achava aquele lugar bonito.

Quando chegaram ao parquinho, Wanda saiu correndo para o escorregador. Peter sentou em um banco próximo para vigiar a irmã. A menina conseguia fazer amizade facilmente e não demorou muito para arranjar alguns amigos. Wanda começou a brincar de pega-pega com os novos amigos, enquanto Peter estava prestes a arrancar os próprios cabelos de tanto tédio que sentia.

Como Wanda já tinha companhia, Peter imaginou que não seria problema deixá-la com os novos amigos por um momento e saiu do parquinho usando os seus poderes.

Resolveu explorar o bosque que ficava ao lado do parquinho. Lá a grama era mais alta, mas havia um percurso onde as pessoas andavam. Seu Walkman tocava “Time”, de Pink Floyd, enquanto ele olhava cada detalhe daquele bosque.

De repente, encontrou um balanço feito com um pneu que estava próximo de um rio. Ficou alguns minutos no balanço, balançando e rodando. Ele estava de fone e a música estava alta, o que o impedia de escutar o barulho externo.

Depois de um tempo, ele parou de balançar e ficou olhando para o rio, com os pensamentos a mil. Ele levantou os seus olhos e avistou uma garota do outro lado do rio brincando com um esquilo. Havia algo nela que despertava uma curiosidade em Peter. Ele saiu do balanço e usou os seus poderes para atravessar o rio.

Chegando lá, ele analisou ela. Tinha a pele e os olhos escuros, cabelos lisos e castanhos, usava uma saia longa branca, uma camisa social azul clara e uma bolsa de lado marrom que tinha algumas flores desenhadas à mão.

Uma artista. Gostei.”, pensou.

Ele ficou atrás dela e ajeitou o seu cabelo e suas roupas, para parecer mais apresentável, e voltou à velocidade normal.

— Olá! — ele disse, com um sorriso brincalhão e colocando os óculos no topo de sua cabeça. A garota se virou em um salto, assustada. Peter pensou que ela fosse tímida. — Meu nome é Peter, vou passar as férias por aqui.

Ele lhe estendeu a mão, tentando mostrar um pouco de carisma. Entretanto, a garota se encolheu um pouco e segurou as próprias mãos, como se tivesse medo de contato humano.

— Err… Bem, e qual é o seu nome? — perguntou.

A garota continuou muda e evitava manter contato visual. Peter agora pensava que ela não era só tímida, era muito tímida.

— Eu tô te assustando? Desculpa. É o meu jeito? Às vezes eu ultrapasso os limites. Eu acabei de chegar eu já tô morrendo de tédio! Não tem nada para fazer! A minha irmã deu sorte, porque tem um parquinho. Infelizmente, para mim, não tem nada! Aí eu vi você brincando com o esquilo e pensei que eu poderia fazer amizade com você, mas acho que tô te assustando. Eu tô te assustando? — disse um pouco rápido.

A garota piscou algumas vezes, como se estivesse processando o que ele tinha acabado de falar. Então balançou a cabeça negativamente, ainda de um jeito tímido.

— Ah, menos mal! — sorriu. — Você é muito tímida… Ou é muda? É uma tímida muda? — perguntou.

Quando menos esperava, a garota colocou as mãos na boca, segurando uma risada. Peter sorriu ainda mais com aquilo e estava mais tranquilo. A garota se conteu e fez um movimento com as mãos de “mais ou menos”.

— Você é muda?! — exclamou, surpreso. — Eu nunca conheci uma pessoa muda! Como é? Consegue fazer algum som ou nenhum? Ah, cara! Desculpa! Acho que estou sendo um idiota. — disse, um pouco nervoso.

Novamente, a garota tentou segurar a risada.

— Me desculpe, mas como posso conversar com você se você não fala? Eu não sei libras. — perguntou, coçando a cabeça.

A garota abriu a sua bolsa e pegou um caderno e uma caneta. Ela mostrou para ele, dando um pequeno sorriso.

— Ah… Agora sim! — sorriu alegre.

— ❀ —

Já estava quase anoitecendo quando Peter estava voltando para a casa dos avós. Tinha passado todo o tempo na companhia da garota que não havia percebido o tempo passar tão rápido. Quando notou, teve que se despedir dela e ir embora, pois sua mãe o mataria se ele não voltasse cedo junto com a irmã.

No caminho voltando para casa, junto com Wanda, Peter ficou relembrando a “conversa” que teve com a sua nova amiga.

Seu nome era Noemi e sempre morou por ali. Assim como Peter, ela também era uma espécie de artista. Adorava tirar fotos, pintar e colecionar flores e plantas secas para torná-los marca páginas.

Conversaram bastante, mas não conseguia relembrar o resto, pois tinha que dar atenção para a sua irmã, que estava muito alegre com a tarde que teve e contava todos os detalhes para o irmão.

Quando finalmente chegaram à casa dos avós, a mãe esperava pacientemente na porta com os braços cruzados. Não sabiam quanto tempo estava lá os esperando, mas eles tinham certeza que ela estava irritada.

— Por que demoraram tanto? — a mãe perguntou.

— Foi o Peter que sumiu! — disse Wanda, apontando o dedo para o irmão.

Bocuda… Tô ferrado”, pensou Peter, imaginando o castigo que a mãe daria para ele.

— Como é?! — indagou a mãe, virando-se para ele ainda mais irritada — Deixou sua irmã sozinha? Por quanto tempo?

— A tarde toda! — respondeu Wanda, com um sorrisinho travesso.

— Fica quieta! — exclamou Peter, sentindo-se desesperado.

— Não fale assim com ela! — repreendeu a mãe. — Wanda, entra. — mandou.

Wanda entrou na casa saltitando, olhando para o irmão com um enorme sorriso. Peter estava com muita raiva dela, mas teria que agendar a raiva para depois. Pois agora ele estava desesperado e com medo do que aconteceria.

— Eu pedi pra você vigiar a sua irmã! — exclamou, seu rosto estava começando a ficar vermelho de tanta raiva. — É perigoso deixar uma criança sozinha!

— Tinha várias crianças lá! Pensei que não tivesse problema! — tentou argumentar.

— E onde você estava pra deixar ela sozinha?! — perguntou, imaginando algo que ele aprontou para passar o tempo.

— Eu tava conversando com uma amiga! — respondeu.

— Que? — arregalou os olhos, confusa.

Peter franziu a testa, não entendendo a reação de sua mãe. Natalya parecia ter esquecido o motivo de estar brigando com o filho. Ela cruzou os braços novamente e coçou a cabeça.

— Uma amiga? Uma garota? — ela perguntou, um pouco desacreditada com a história.

— Sim! Se eu digo “amiga”, você pensa em um cara? — disse, com o tom um pouco revoltado. — Qual o problema? — perguntou, cruzando os braços também.

— Bem… É que… — começou. — Bom, é que eu só tô surpresa que você esteja conversando com uma garota.

— Como?! — exclamou, tentando entender.

— É que você é meio desajeitado quando a assunto é garota. — confessou.

— O quê?! — gritou, ofendido. — Eu não sou desajeitado!

A mãe não disse nada, apenas arqueou uma de suas sobrancelhas. Peter respirou fundo e abaixou a cabeça.

— Bem, talvez um pouco. – admitiu.

A mãe revirou os olhos. Ela abriu espaço para Peter entrar na casa.

— Entra logo, “garanhão”. – brincou.

— Eu não sou garanhão. É só uma amiga. – protestou, com as bochechas levemente coradas.

— Hum, sei. – ela semicerrou os olhos, vendo Peter entrar na casa. — Só não se esquece que vou colocar você de castigo. – lembrou, fechando a porta.

— E o que vai ser? – perguntou, cruzando os braços.

— Sem Walkman e seus joguinhos durante todas essas férias. – Peter tentou protestar, mas sua mãe foi mais rápida. O que foi irônico. – Sei que pode usar sua velocidade para recuperar seus brinquedinhos, mas também sei que você é um bom filho.

Natalya levantou a mão, esperando Peter entregar o Walkman e os seus jogos. Ele suspirou, entregando o Walkman. Ele sumiu por um segundo e apareceu com os jogos. A mãe sorriu vitoriosa, enquanto Peter tinha os ombros caídos, totalmente imergido na derrota.

— Que vacilo... – ele murmurou.

A Sra. Maximoff preparou um jantar, ou melhor, um banquete maravilhoso. Natalya era uma ótima cozinheira, mas sua mãe era outro nível. Peter e Wanda comeram bastante, principalmente Peter, por causa de seu metabolismo acelerado. O Sr. e a Sra. Maximoff ficaram um pouco assustados com aquilo, mas logo ignoraram.

A hora de dormir chegou em um piscar de olhos, até Peter ficou assustado com isso. Deitou-se na cama e fechou os olhos, esperando dormir, mas não conseguia de jeito algum. Estava ansioso para chegar o dia seguinte. Queria descobrir mais sobre a sua nova amiga. Demorou muito, mas, felizmente, conseguiu dormir depois de longas horas.

— ❀ —

A manhã foi agitada. Bem, pelo menos para Peter.

No café da manhã, ele comeu rápido, o que fez sua mãe chamar a atenção dele. Logo depois, se vestiu ainda mais rápido e saiu da casa antes que alguém pudesse pará-lo. O Sr. e a Sra. Maximoff ficaram confusos com a pressa de Peter, Natalya teve que explicá-los que o motivo de Peter estar daquele jeito era porque tinha arranjando uma amiga.

Os avós se olharam com um sorriso, como se dissessem “uma amiga?”. Natalya não pode julgá-los, pensava a mesma coisa. Apenas Wanda que não entendia a situação, que deu de ombros e voltou a brincar com sua boneca.

Peter usava sua super velocidade para encontrar a casa de sua amiga sem ser notado. Olhou de casa em casa, em busca dela. Demorou um pouco, mas conseguiu achar.

A casa dela era um pouco mais afastada e tinha uma bela plantação de milho. Diferente da casa de seus avós, a casa de Noemi era branca e sua estrutura era diferente, mas tinha dois andares também.

Peter entrou na casa e olhou cada canto. A decoração era de uma típica família americana, nada do tipo extraordinário. Era o normal que era confortável. Com exceção da cozinha, que tinha um armário só para potes vazios. De várias cores e formatos diferentes, era alguma espécie de coleção. Isso intrigou Peter, que riu achando engraçado.

Indo para o segundo andar, ele avistou a primeira porta com uma placa preta escrito em branco: Favor não incomodar. Olhou nos cantos da porta e encontrou desenhos de flores e folhas, o mesmo traço do desenho na bolsa de Noemi. Já sabia que aquele era o quarto dela.

Ele abriu a porta, tomando cuidado para não encontrar alguma situação constrangedora. Por sorte, Noemi estava apenas na janela observando o céu. Ele olhou o redor do quarto, que era diferente do restante da casa.

As paredes eram azuis e havia muito mais desenhos em cada canto das paredes até no teto. Em um canto, uma prateleira estava cheia de discos de vinil. Peter se aproximou e viu que a maioria era do Frank Sinatra.

Frank Sinatra? Fala sério...”, pensou. Ele não gostava do cantor de tanto que falavam dele.

Olhou para outro lado e na parede, ao lado da cama, havia um mural das fotos que ela tirou. Eram dezenas de fotos, várias sendo de paisagem, outras de animais, de casas, de pessoas e casais vivendo suas vidas e uma que o deixou surpreso.

Havia uma foto dele.

Quando ela tirou essa foto?!”, indagou mentalmente. Ele analisou aquela foto e notou que ela foi tirada no momento que ele e sua família haviam chegado na casa de seus avós. Ele estava com os óculos em seu rosto e suas mãos estavam segurando elas. Aquela foto havia sido tirada antes ou depois de usar seus poderes? Aquilo não importava.

Ela tinha visto ele usando os seus poderes.

Estava surpreso, assustado. Ela sabia seu segredo, ele tinha certeza disso, mas porque ela não disse nada sobre isso? Ela vai falar para as autoridades ou vai fingir que não sabe de nada?

As perguntas que passavam como um vulto na mente do Maximoff o fazia ficar mais ansioso, imaginando o pior que poderia acontecer. De repente, seus olhos caíram sobre Noemi. A sua cabeça, que estava um completo caos, agora se encontrava em absoluto silencio. Ele se aproximou dela e encontrou seus olhos em direção as nuvens. Ela tinha um pequeno sorriso em seu rosto e parecia tranquila.

Peter não sabia, mas, olhando para ela naquele momento, sentia que ela não contaria sobre seus poderes. E com o tempo que passou com ela no dia anterior poderia ter certeza. Peter respirou fundo e se manteve calmo.

Virou-se e saiu do quarto, olhando para a amiga antes de sair para ir ao ponto de encontro deles. No dia anterior, Noemi havia marcado de encontrar ele em uma ponte não tão longe dali.

Quando saiu, Noemi sentiu uma brisa atrás dela. Ela se virou, mas não encontrou nada de estranho.

A não ser a porta entreaberta, a qual havia deixado fechada.

— ❀ —

Peter estava encostado no parapeito de uma pequena ponte de madeira, esperando Noemi. Ele observava o rio passando por baixo da ponte, enquanto sua mente voltava para o quarto de Noemi e para aquela foto.

Sem perceber, a garota se aproximava dele silenciosamente, com sua câmera em mãos. Ela posicionou a câmera no ângulo perfeito e tirou a foto. O barulho do click da câmera assustou Peter e ele olhou para ela, com o coração disparado.

— Noemi! – exclamou, recuperando o fôlego. – Me assustou! – disse rindo, tentando esconder o nervosismo.

Noemi pegou seu caderno e lápis e começou a escrever.

“Desculpa pelo susto. Não pude evitar tirar uma foto”.

— Você gosta de tirar foto, hein. – deu um sorriso brincalhão. – Acredito que você já tenha tirado uma foto desse lugar. – disse, olhando em volta.

Peter já sabia que ela já havia tirado uma foto desse lugar, mas não podia mostrar que sabia disso.

“Uma não, várias. Acho esse lugar lindo demais”.

— É mesmo. – ele concordou.

Não disseram mais nada, apenas ficaram se olhando. Noemi, por ser tímida, não conseguiu sustentar o olhar e desviou, olhando para o rio. Peter, no entanto, não parou de olhá-la. Não sabia bem o porquê, mas não conseguia simplesmente parar de olhá-la, ou melhor, admirá-la.

De repente, Noemi voltou a escrever em seu caderno.

“Quer caminhar?

— É claro! Gosto muito de caminhar. – disse, sorrindo como uma criança boba.

Noemi sorriu com a resposta e apontou para onde iriam, iniciando a caminhada.

Eles passaram a maior parte do tempo sem conversar, apenas observando a beleza da natureza. Noemi tirava diversas fotos, enquanto Peter admirava as fotos tiradas. Em alguns momentos, os dois encontravam algumas flores e as pegavam. Noemi guardava as flores em sua bolsa para não correr o risco de perdê-las.

Em dado momento, um lindo passarinho apareceu e pousou em cima da cabeça de Noemi. Ambos sorriram com a situação.

— Ou você tem uma boa energia, ou ele já te conhece. – Peter comentou olhando para o passarinho e para ela.

Noemi sorriu ainda mais e olhou para baixo. Peter não conseguia entender, mas o sorriso dela deixava ele estranhamente bem. Olhando para ela, ele queria registrar aquele momento tão lindo e inocente.

Ele se aproximou dela e apontou para sua câmera.

— Posso tirar uma foto sua com o seu amigo pássaro? – perguntou.

Ela acenou com a cabeça com um sim, tomando cuidado para não assustar o passarinho. Peter pegou a câmera e se afastou um pouco. Ele posicionou a câmera e, quando a garota mostrou aquele sorriso encantador, tirou a foto.

O barulho da câmera assustou o passarinho e ele foi embora.

— ❀ —

Já estava entardecendo quando Peter voltou para casa. A manhã e a parte da tarde com Noemi foi muito boa, mais do que conseguia admitir. Não fizeram nada extraordinário, mas, por algum motivo, Peter adorou cada momento.

Agora, voltando para a casa dos avós, ele lembrou que Noemi sabia sobre sua mutação. Naquela manhã antes de sair com Noemi, ele estava muito apreensivo, com medo do que poderia acontecer. Mas depois de passar mais um tempo com ela, ele sabia que não tinha motivo para ficar com medo.

Noemi em nenhum momento mostrou algum sinal de medo dele ou que iria contar para as autoridades. Muito pelo contrário, parecia que nem se importava se ele era um mutante. Parecia gostar dele como ele era. E isso o tranquilizava.

Quando pôs os pés dentro da casa, sua mãe, novamente, o aguardava. Ela tinha uma expressão séria em seu rosto. Peter ficou parado, esperando algum sermão.

— Boa tarde, Peter. – pronunciou-se.

— Eu não fiz nada. – levantou as mãos em rendição.

— Onde passou a manhã toda? – perguntou, cruzando os braços. — Você nem almoçou aqui, sua avó ficou muito preocupada e triste. Inclusive, você comeu alguma coisa?

— Calma! Eu almocei sim, não precisa ficar preocupada. – explicou. – A vovó ficou tão triste assim? – perguntou, sua voz entregando que ficou sentido com aquilo.

— Sim. Ela esperava passar mais tempo com os netos nessas férias, mas você ficou a maior parte do tempo fora ontem e hoje.

Peter abaixou a cabeça, envergonhado. Não queria ter chateado ninguém, principalmente sua avó, que mostrou ser uma pessoa mais sensível.

— Onde estava esse tempo todo? – perguntou de novo.

— Com a minha amiga. – respondeu.

— Esse tempo todo? – ela descruzou os braços, franzindo a testa.

— Sim.

Peter se perguntava por que era um pouco difícil para sua mãe aceitar que tinha uma amiga. Ele admitia, para si mesmo, que não levava jeito para cantar alguma garota, mas isso não o impedia de ter uma amiga.

— Ah... – Natalya parecia pensar. — E qual seria o nome dela?

— Noemi. – respondeu, colocando as mãos dentro do bolso da calça.

— É um nome bonito. – ela elogiou, com um pequeno sorriso. Peter concordou com a cabeça. — Podia chamar ela pra vir para cá, gostaria de conhecer sua “amiga”. – ela articulou as aspas.

— Tá fazendo essas aspas aí por quê? Ela é só uma amiga.

— Sei... – ela semicerrou os olhos. — E aonde você almoçou?

Peter abaixou sua cabeça. Os fatos estavam indo contra ao que ele estava dizendo.

— ... Na casa dela.

— Ah... E é só uma amiga, certo? – ela sorriu, irônica.

— Tudo bem, vamos encerrar esse assunto! – ele disse andando, tentando fugir daquela conversa antes que piorasse mais a sua situação.

— Peter.

— O quê?

— Pode enganar os outros, mas a mim você não engana. Você gosta dela, mas não sabe ainda.

Peter riu, nervoso com a situação. Ele não sabia se gostava de Noemi, nem se quer tinha parado para pensar nisso. Só sabia que a companhia dela fazia bem para ele, trazia uma sensação de paz e calmaria. O que era esquisito, já que ele era agitado.

Ele parou de rir e encarou o chão. Começou a se perguntar se sua mãe estava realmente certa sobre aquilo.

— Olha... – ela começou. – É normal nutrir sentimentos por uma amiga. Na sua idade então nem se fala. – ela riu. — Acho que o problema em questão e o fato de que você é um... mutante. – ela sussurrou, com medo de que alguém escutasse. – E ela não sabe...

— Ela sabe. – ele disse baixo, quase como se fosse um sussurro.

— O quê? – ela arregalou os olhos.

— Ela sabe. – ele repetiu, olhando para ela. – Quando... Quando eu fui na casa dela, eu olhei toda a casa e no quarto dela tinha uma parede cheia de fotos... e tinha uma minha no momento que a gente tinha chegado aqui. E... Bem, eu tinha usando os meus poderes naquele momento.

Natalya estava meio atordoada com a notícia. Não era para acontecer isso, mas infelizmente aconteceu. Se as autoridades fossem alertadas e seu filho pego, o que poderia acontecer? Ela respirou fundo, tentando esconder a sua preocupação.

— Acha que ela vai contar para as autoridades? – ela perguntou.

Peter deu um pequeno sorriso, o que tranquilizou o coração da mãe antes dele começar a falar.

— Se fosse pra contar eu acho que ela já teria feito isso, mas não vou mentir que isso me perturbou por um bom tempo.

Natalya soltou um longo suspiro, ficando um pouco mais aliviada.

— É... Acho que você deu sorte desta vez. – ela sorriu. – Mas tome mais cuidado ao usar os seus poderes.

— Vou tomar mais cuidado. – ele abraçou ela e foi para o seu quarto.

— ❀ —

Peter estava no sótão, procurando alguns discos de vinil. Alguns minutos atrás, seu avô disse que tinha uma coleção de discos de vinil no sótão e, como Peter estava começando a ficar entediado novamente, correu para vasculhar aquele lugar.

Eram várias caixas com vários discos. Quando eles acabavam enjoando de algum disco, eles guardavam no sótão. Quando estavam com saudades das músicas, pegavam alguns discos e colocavam na sala.

Durante um tempo olhando e pegando alguns discos para escutar mais tarde, ele encontrou um que deixou ele surpreso.

Era um disco de Frank Sinatra.

Peter não poder deixar de pensar em Noemi e em seus vários discos. Estava pensando na possibilidade de pegar o disco para escutar, mas por que diabos ele pegaria o disco se ele não gostava do cantor?

Enquanto, ele olhava para aquele disco, completamente distraído com seus pensamentos, não notou alguém se aproximando dele.

— Sua avó adora esse cantor.

Peter se assustou e virou para quem estava ali. Começou a se acalmar quando viu que era o seu avô.

— É... mesmo? – disse, se recuperando do susto.

— É... Eu não gostava de Frank Sinatra, mas depois de um tempo escutando as músicas dele passei a gostar. Impossível não lembrar da minha esposa quando escuto alguma música dele. – disse com um jeito caloroso.

— Isso... é legal.

A relação de seus avós era algo muito bonito na visão de Peter, mas, por não saber lidar com suas emoções muito bem, parecia que não ligava muito.

— Esse é o poder da música. – seu avô sorriu. — É bem viciado, não? Puxou a gente nesse quesito. – ele notou.

— Um pouco. – riu. Era completamente viciado em música.

— Vou deixá-lo em paz para olhar os outros discos, só vim aqui para ver se estava tudo bem. – ele se virou, indo para a escada.

Peter olhou para o seu avô indo embora e lembrou-se das palavras de sua mãe. Não seria ruim ter a companhia dele.

— Olha... – ele começou.- Pode ficar comigo se quiser, eu gostaria de ouvir algumas recomendações.

Esse era o jeito dele de dizer que queria o seu avô por perto. Algumas pessoas podem não entender esse jeito mas, por sorte, seu avô entendeu e deu um grande sorriso.

— Só se for agora, garoto.

E assim passaram à tarde. Só saíram do sótão quando a avó apareceu e quase os arrastou para não ficarem tanto tempo em um lugar cheio de poeira.

O resto da noite foi Peter escutando alguns discos na sala, sendo um deles Frank Sinatra. Tentava não pensar, mas era impossível. Só conseguia pensar em Noemi.

Não entendia o porquê dele estar daquele jeito, sempre pensando nela. Mas tinha certeza que tinha um laço muito forte com a garota, mesmo ter conhecido ela há apenas dois dias. Parecia que a conhecia há anos.

“Merda... Será que minha mãe está certa?”, ele pensou.

— ❀ —

No dia seguinte, Peter passou a manhã inteira com os seus avós. A sua avó ficou muito feliz, nem conseguia disfarçar. Jogaram alguns jogos de tabuleiros, que trouxe várias risadas e confusões. Descobriram que Peter e seu avô tinham muito em comum, até o espírito de competição.

Na parte da tarde, decidiram passear. Durante o percurso, os avós contavam várias histórias que aconteceram nos lugares que passavam. Como quando a vizinha foi arrastada pelo enorme cachorro que tinha que perseguia um gato. Ou quando a filha de um casal local desapareceu por alguns minutos e encontraram-na brincando na lama com o cachorro de outra vizinha e outra criança, que ninguém tinha notado que tinha sumido até então.

Foram várias histórias, algumas hilárias, enquanto outras eram um pouco preocupantes. Peter e Wanda estavam gostando bastante apesar de tudo e isso deixava Natalya muito feliz e satisfeita.

— Ah! Esqueci de avisar. – a Sra. Maximoff começou. – Vamos almoçar na casa de uns amigos. – disse contente.

— Sim, sim. E lá eles tem duas filhas adoráveis. Uma da idade de Peter e outra da idade de Wanda. É bom que faz companhia um para o outro. – mencionou o avô.

— Mas isso é ótimo! – exclamou Natalya. – Mais uma amiga para a conta, Peter. – ela brincou.

— Ô mãe! – ele murmurou.

Eles continuaram contando mais histórias até chegar à casa dos amigos. Natalya olhava para vários lugares ao mesmo tempo, mostrando uma certa ansiedade. Ela não era muito sociável quando ficava em meio a pessoas desconhecidas. Wanda demonstrava entusiasmo, estava animada em fazer mais uma amizade. E Peter... Bem, ele conhecia o lugar e as pessoas que moravam nele.

A porta foi aberta por Noemi, que mostrou um sorriso tímido até seus olhos caírem sobre Peter. Seu rosto ficou completamente iluminado ao vê-lo e acenou para ele.

— E aí, Nô! – ele acenou de volta, a chamando pelo apelido. – Essa é a minha família.

Noemi olhou para a família e acenou alegremente para eles.

— Ora... Você conhece ela? – perguntou a avó, surpresa, retribuindo o aceno.

— Ela é minha amiga. – respondeu, dando de ombros.

— Então essa é a famosa Noemi... – Natalya disse, sorrindo. Peter ficou levemente corado e se encolheu um pouco.

De repente, o pai de Noemi, John Hoffman, apareceu na porta.

— Ah! Sr. e Sra. Maximoff! – ele os abraçou. – Como estão? Entrem, entrem!

— Estamos bem, obrigado. – disse o Sr. Maximoff, entrando na casa junto com sua esposa.

— E você de novo aqui, to começando a achar que você quer namorar a minha filha. – John olhou para Peter, semicerrando os olhos.

Noemi olhou para Peter e ele olhava para ela. John tinha deixado Peter completamente travado, sem saber o que dizer.

— E-Eu... – Peter tentou dizer algo, olhando para John

— Tô brincando! Tinha que ver sua cara, garoto! – exclamou, com um sorriso brincalhão.

John logo abraçou Peter bem forte, daquele jeito que faz com que você fique com falta de ar. Noemi segurava a risada vendo a situação.

Os Hoffman estavam felizes com aquela amizade, já que muitos da idade de Noemi não conversavam com ela por causa de sua condição. Então quando Peter apareceu foi motivo de grande alegria.

Logo, todos estavam dentro da casa. Wanda brincava no canto da sala com a filha mais nova do casal Hoffman, chamada Alina. Natalya se esforçava o máximo possível para parecer bem sociável com o casal, enquanto seus pais conversavam tranquilamente. Noemi “conversava” com eles também.

Peter estava perto das crianças, mas olhando para o grupo que conversava bastante. Ele queria ir até lá e conversar também, mas não conseguia sair do lugar, não conseguia parar de olhá-los.

Era estranho, mas parecia que estava olhando para o futuro. Ele não percebia, mas suspirava ao ver Noemi conversando com seus avós e sua mãe. Ele olhava a forma que ela escrevia rapidamente em seu caderno, o sorriso, ela brincando com algumas mechas de cabelos com os dedos...

Sem perceber, sua mãe parou bem ao seu lado, vendo a forma como ele olhava para Noemi.

— Ela é linda... e adorável. – ela disse.

— É sim... – ele concordou, sem pensar.

Ao notar isso, sentiu o rosto pegar fogo e abaixou a cabeça.

— Sinceramente... Eu acho que ela gosta de você também. Só o pouco que conversamos, ela só falou de você.

Peter não queria acreditar naquilo. Como uma garota como ela poderia gostar de alguém como ele? Ele virou seu rosto em direção ao de Noemi e no mesmo instante ela o olhou de volta.

Ela acenou com as mãos para ele se juntar a eles e automaticamente ele andou em sua direção. Noemi parecia mais feliz ainda quando Peter se juntou a eles.

— Peter virou cachorrinho? – perguntou Wanda de repente.

— É, acho que ele virou sim. – respondeu a mãe.

O almoço da casa dos Hoffman foi tranquilo e alegre. Todos ficaram familiarizados uns com os outros e ficaram conversando quase o tempo todo. Ninguém comentou, mas todos perceberam que Peter e Noemi não desgrudavam de jeito nenhum.

— ❀ —

Alguns dias se passaram, Peter e Noemi marcaram de se encontrarem novamente. Desta vez, foi Peter que escolheu o local de encontro.

Peter estava determinado a mostrar os seus poderes para Noemi naquele dia. Não diretamente, mas de uma forma mais discreta. Ele não queria assustá-la, mesmo ela sabendo do seu segredo.

Noemi chegou no parque e encontrou Peter no escorrega. Ela se aproximou dele e acenou para ele, com um sorriso de orelha a orelha.

— Boa tarde, Nô! – ele exclamou feliz.

Ele escorregou e ficou sentado na ponta do escorregador, olhando para Noemi.

— Tenho algumas ideias pra a gente se divertir hoje. Só espero você não sair correndo de primeira, porque talvez a gente se meta em confusão. – ele sorriu, se levantando e colocando as mãos atrás do pescoço.

“Estou animada pra ver isso”, ela escreveu, sorrindo.

Isso era um sinal positivo, o que fez o sorriso de Peter se alargar ainda mais.

Eles saíram do parque e ficaram caminhando até chegar em uma rua com várias casas. Peter começou a se aproximar de uma delas, assoviando no processo. Noemi o seguia com uma expressão confusa em seu rosto, sem entender o que eles estavam fazendo ali.

Ele parou em frente à porta, virando o seu rosto em direção a de Noemi com um sorriso travesso. Noemi não estava entendendo, mas seus olhos mudaram de direção e viu a mão de Peter prestes a apertar a campainha.

Noemi arregalou os olhos e moveu seus lábios, dizendo “Não”. Peter tombou a cabeça para um lado e sorriu mostrando os dentes.

Ele apertou a campainha e saiu correndo. Noemi o seguiu logo em seguida, tentando o alcançar. Peter ria e virou de costas, ainda correndo, para ver Noemi. Ela parecia assustada, mas quando viu Peter se divertindo ela deixou um sorriso escapar.

Depois disso, eles apertaram a campainha de mais algumas casas. Na última casa em questão, encontraram um cachorro preso em uma corrente. Ele parecia triste, o que fez Noemi fazer um beicinho, tocada com a situação do animal. Peter então pulou a cerca e foi até o cachorro.

Ele começou a latir, mas isso não parou Peter, que pegou a corrente e soltou o cachorro. Peter correu e pulou a cerca, ficando ao lado de Noemi. O cachorro parecia muito feliz naquele momento e começou a correr para todos os lados do quintal. De repente, ele foi para um lado da casa e Peter e Noemi só escutaram os gritos da dona. Para não serem pegos, correram o mais longe possível daquela casa.

Em seguida, encontraram algumas crianças jogando bola na rua. Eles ficaram longos minutos brincando com as crianças, até uma delas acertar a janela da casa de um vizinho próximo. Todos se encararam por breves segundos e começaram a correr, cada um para um lado. Peter e Noemi permaneceram juntos na fuga.

Depois, encontraram uma casa abandonada no final de uma rua. Quando Noemi se distraiu olhando para casa, Peter usou sua super velocidade e pegou sua bolsa com suas latas de tinta spray – bolsa essa que estava em sua casa, na cidade. O que para ele foram alguns minutos, para Noemi não foi nem um segundo.

O barulho das latas batendo uma nas outras chamou a atenção de Noemi, que se virou para ver seu amigo. Tudo parecia normal até seus olhos irem para a bolsa. Ela franziu a testa e olhou para ele, como se dissesse: “Da onde você tirou isso?”.

— Que tal a gente dar um pouco de cor para essa casa acabada? – ele sorriu, ignorando a expressão no rosto de Noemi.

“Isso não seria errado?”, ela escreveu.

— Seria errado de tivesse alguém morando nela, mas não tem. – respondeu. — Para a nossa sorte.

Noemi franziu o cenho, nem um pouco convencida. Peter deixou a bolsa no chão, bem ao lado da cerca, e se aproximou da garota.

— Não precisa se preocupar, não vou deixar nada de ruim acontecer. Além disso, se alguém vir pro final da rua, vai ficar completamente fascinado com a obra de arte que encontrar. – ele a tranquilizou, colocando as mãos em seus ombros.

Noemi tentou conter um pequeno sorriso, mas não conseguiu. Peter sorriu mais do que poderia ao ver aquele sorriso. Ele tirou as mãos dos ombros da garota e foi até a bolsa, tirando uma lata spray dela.

Ele sentiu Noemi tocar em seu ombro e se virou para ela.

“Posso pintar flores?”

— Você pode pintar o que quiser, princesa.

Chamar ela de “princesa” foi algo nem um pouco pensado, saiu tão naturalmente de seus lábios que quase não notou o que tinha dito. Só percebeu quando notou Noemi um pouco vermelha.

Por dentro ele estava completamente nervoso, parecia um furacão. Foi apenas uma palavra que ele disse, uma palavra tão simples, mas para ele Noemi era como aquela palavra. Ela era uma princesa para ele.

Ele decidiu ignorar aquilo, começando a chacoalhar a lata e fazer alguns desenhos na cerca.

Noemi ainda estava com o coração um pouco agitado. Era algo que acontecia muito desde que conheceu o platinado e ela não entendia bem como aquilo aconteceu, mas sabia exatamente a porquê de estar assim. Assim como Peter, ela também decidiu ignorar aquilo e pegou uma lata.

Após uma hora, a cerca estava cheia de desenhos. Peter e Noemi tinham traços de desenho bem diferentes um do outro, mas a combinação era perfeita. Eles ficaram um tempo admirando o trabalho, completamente satisfeitos com o feito.

— Depois dessa trabalheira, eu acho que a gente merece um lanche. Tava pensando em fazer um piquenique, o que acha? – ele perguntou, esticando os braços.

“Acho a ideia excelente”, ela escreveu, com a expressão animada.

— Ótimo! A gente ta um pouco perto da casa dos meus avós, vou pegar as coisas para o piquenique e o carro da minha mãe.

Eles andaram mais um pouco até chegarem à casa dos avós de Peter. O platinado pegou todas as coisas que precisava enquanto seus avós e sua mãe conversavam com Noemi. Quando terminou, ele chamou Noemi e foram para o carro. Antes de irem embora tiveram que escutar os mais velhos dizerem “Juízo, hein” algumas dezenas de vezes.

Durante a viagem, Noemi perguntava a Peter para onde iriam e ele sempre respondia com um sorriso brincalhão:

— Hum... Um lugar aí.

Aquilo sempre fazia para o coração de Noemi palpitar forte. Ela só não sabia ao certo se era pelo lugar desconhecido que Peter queria a levar ou a forma que ele falava, mostrando aquele sorriso encantador.

Enquanto tocava no toca-fitas “My Girl”, de The Temptations, Noemi admirava a paisagem que passava ao seu lado. Era uma parte em que nunca tinha ido antes, então onde fosse o lugar que Peter estivesse a levando era novo para ela. Decidida a não perder nenhum detalhe, ela pegou sua câmera na bolsa e começou a tirar fotos.

Peter ao vê-la registrando a paisagem ficou muito feliz, pois era um sinal de que ela estava gostando.

Quando finalmente chegaram, Noemi ficou boquiaberta. Era um lugar muito bonito. A grama parecia mais verde, as árvores eram mais altas e com mais folhagens, as flores eram mais coloridas e o canto dos pássaros conseguia ser mais alto. Aquele belíssimo lugar se localizava em um morro, onde podia ver boa parte da pequena cidadezinha. Era possível ver o telhado da cada dos Maximoff e a plantação de milho dos Hoffman.

Noemi saiu do carro em passos apressados e rodou para ver aquele lugar em todas as direções, com o olhar maravilhado e um sorriso alegre em seu rosto.

Como nunca eu vim aqui antes?”, ela pensava.

A maneira como Noemi se expressava fazia o coração de Peter acelerar. Tinha a sensação de flutuar e do tempo parar a sua volta. Era uma sensação tão diferente e tão maravilhosa, ele adorava o que aquela garota causava nele.

Peter, usando a sua super velocidade, tirou as coisas do piquenique no carro e ajeitou tudo na grama. Satisfeito com o trabalho impecável dele, ele voltou ao tempo normal e chamou por Noemi. Outra maneira de mostrar seus poderes para ela.

Noemi, ao olhar tudo perfeitamente arrumado em tão pouco tempo, ficou muito surpresa. A expressão em seu rosto chegava a ser engraçada para o platinado. Ela se aproximou e sentou-se no tapete quadriculado. Peter a observava enquanto ela pegava o seu caderno e escrevia com cuidado.

“Você é um mutante, certo?”

Peter comprimiu os lábios um pouco nervoso. Tinha se preparado para mostrar suas habilidades para ela, não para conversar. Ele respirou fundo e olhou para os olhos encantadores da garota.

— Sim... Mas não precisa ter medo de mim. Eu sou inofensivo. Eu... Sou só incrivelmente rápido. – ele sorriu com a última parte, não resistindo em se gabar.

Ele notou um brilho nos olhos de Noemi e logo ela deu um sorriso, feliz com a notícia. Ela começou a escrever e Peter pensou no que ela queria dizer.

Foi então quando o mundo a sua volta parou quando ela mostrou o caderno e ele leu o que estava escrito.

“Eu sou uma mutante também”.

Seus olhos arregalaram de uma forma engraçada. Ele estava completamente surpreso com a revelação. Noemi era uma mutante como ele. Mas qual seria sua mutação? Como poderia ser uma mutante se em nenhum momento ela mostrou ser uma. Todavia isso explicava porque ela não contou a ninguém que ele era um mutante.

A mente de Peter borbulhava de idéias sobre a mutação de Noemi.

— Mentira! Sério?! – ele exclamou. — E qual é o seu poder? Tem a haver com o fato de você não falar? Você tem um super grito? Espera! Um super grito que destrói tudo pelo caminho? Cara, isso é irado!

“Quando falo eu encanto as pessoas ao meu redor, o que faz com que elas gostem de mim e façam a minha vontade”, ela respondeu.

Peter não pode deixar de sorrir, aquela era uma habilidade incrível.

— Você consegue controlar?

“Não. É por isso que não falo.”

O sorriso de Peter diminuiu. Ele já não achava um poder tão vantajoso. Se ela estivesse em um grupo de super heróis sim, mas como uma cidadã comum não era muito legal.

— Então é por isso que você não fala. – ele disse, entendendo toda a situação. — Você não é muda, só não fala por causa da mutação...

“Principalmente com você, é o único amigo que fiz que nunca ouviu a minha voz.”

Ler aquilo fez o coração de Peter apertar. Ele era especial para ela. Para ela. Peter via o olhar entristecido de sua amiga e queria fazer algo para fazê-la feliz. Deixar aquele olhar alegre como alguns minutos atrás.

— Noemi... Você não usou a sua voz comigo, mas isso não me impediu de ficar encantado por você.

O coração de Noemi disparou com as palavras do platinado. Parecia uma declaração de amor e isso fazia o coração dela disparar ainda mais rápido e forte. Peter estava nervoso, não era bem isso que ele queria dizer, mas as palavras saíram de sua boca tão naturalmente que o pegou de surpresa.

Já que ele tinha dito o que sentia por ela, decidiu continuar.

— Você não precisou usar a sua voz e eu faria, ou melhor, faço qualquer coisa por você. – disse por fim, olhando para os pés.

Noemi não conseguia fazer nada além de piscar. As palavras dele estavam sendo repetidas em sua mente, como se estivesse as memorizando. Palavra por palavra, silaba por silaba. Ninguém nunca tinha falando algo assim para ela e Peter falando daquele jeito era a coisa mais linda que ela escutou. Ela estava emocionada com aquelas palavras.

Ela estava encantada por Peter.

— Ah, Peter...

Noemi tampou a boca na mesma hora. Peter virou a cabeça tão rápido que parecia que iria quebrar. Era real o que tinha acabado de escutar? Noemi havia falado!

Ela destapou a boca. Estava constrangida com a situação. Ele escutou a sua voz, o que poderia acontecer agora?

— Você falou! – ele apontou o dedo para ela.

— Não! Eu... – ela novamente tampa a boca, estava tão nervosa que não conseguia raciocinar direito.

— Você falou de novo!

— Foi sem querer! – ela exclamou nervosa.

— Mas continua falando. – ele brincou, com o seu sorriso voltando.

— Ah... Eu... Ei! Para de implicar comigo!

— Não.

— O quê? – a confusão tomou o seu rosto e suas sobrancelhas se uniram.

— É que é divertido! – ele explicou. Noemi balançou a cabeça negativamente.

— Não é isso. Era para você não implicar. — ela fez uma pequena pausa. — Eu falei para não implicar.

Peter piscou algumas vezes, processando a informação. Quando a ficha caiu, suas sobrancelhas se ergueram. Ele estava surpreso.

— Ora, ora, ora... Parece que seu poder não funciona em mim.

— Não. Calma... Fale: “Eu odeio música”. – ela ordenou, esperando que ele a obedecesse.

— Eu nunca diria isso! Seria uma blasfêmia! – ele disse com o tom de voz revoltado.

— Meu Deus! Meu poder não funciona em você!

Noemi se levantou e começou a andar em círculos. Ela tentava entender como isso poderia acontecer, mas ela não encontrava resposta alguma.

— Como isso é possível? – ela murmurou.

— Eu não sei. Só sei que não esperava que você me mandasse falar que eu odeio música. Você é traiçoeira. — ele resmungou, mas sua voz entregava que ele estava brincando.

— Eu tinha que falar algo que você não faria para testar! – ela explicou, ainda andando em círculos.

— Precisava ser isso? Eu amo música! Você feriu os meus sentimentos! – ele tapou o rosto com as mãos e fingiu choro.

— Sério? – ela parou de andar e o encarou.

— Não. – ele tirou as mãos do rosto e mostrou um sorriso travesso.

O sorriso dele acabou a contagiando e ela deixou um sorriso escapar.

— Era de se esperar. – ela disse.

Noemi voltou a sentar-se no tapete enquanto tentava controlar os sentimentos dentro de si. Peter pegou dois sanduíches e entregou um para Noemi.

— Você vai descobrir o motivo disso. Enquanto isso tente relaxar, ficar maluca não vai ajudar muito.

— Vou tentar.

— A propósito, sua voz é linda.

O coração de Noemi teve um sobressalto. Ela pensava que em algum momento aquele garoto iria fazê-la ter um ataque cardíaco. Apesar de tudo, ela adorava como ele a fazia se sentir.

Ela se aproximou dele e depositou um beijo bochecha em sua bochecha, o pegando completamente de surpresa.

— E você é encantador, Peter.

— Isso é engraçado, porque é você que tem o dom de encantar as pessoas. – ele disse sorrindo, enquanto tentava esconder o rosto corado, mas acabou falhando.

— Sabe... Naquela hora, no piquenique, antes de eu falar... Você parecia que estava se declarando para mim. Uma declaração de... amor.

— Eu estava. – ele confessou, olhando nos olhos dela.

Eles não disseram mais nada. Noemi não disse mais nada, mas não era necessário. Depois das palavras de Peter ela parecia mais iluminada, ela parecia brilhar. Um sol na terra. Nada mais poderia ser dito quando seus corpos já mostravam o que sentiam. E pela maneira como Noemi o olhava, as pupilas dilatadas e o sorriso mais largo, Peter sabia.

Aquele sentimento que o envolveu tão depressa era recíproco.

— ❀ —

Quando o sol estava prestes a ser por, Peter e Noemi se ajeitaram e voltaram para o carro para irem embora. Bem, na verdade Noemi só precisou se levantar e ir para o carro, pois Peter já havia arrumado tudo e levado para o carro em um piscar de olhos. Na volta para a casa, a viagem foi silenciosa, mas quando “Strangers In The Night”, de Frank Sinatra, começou a tocar no rádio o silencio se transformou em cantoria de ambas as partes.

Após mais algumas músicas e cantorias, eles chegaram à casa de Noemi. Peter estacionou o carro em frente à casa dela e eles saíram do carro em passos lentos, como se eles não quisessem que o encontro terminasse e estivessem enrolando o máximo possível. E bem... Na verdade estavam.

Eles pararam em frente à porta e ficaram se encarando por um breve momento. Nenhum deles queria dizer “Tchau” ou algo parecido. A necessidade de ficarem juntos era grande.

— É... Então é isso. – Peter disse, quebrando o silencio.

— É... – Noemi olhou para baixo, meio triste, mas logo levantou o olhar. – Eu gostei muito de hoje. Muito...

Peter sorriu, vendo ela sem jeito.

— Eu também.

Noemi se aproximou de Peter e ficou na ponta dos dedos. Antes que ele dissesse qualquer coisa, Noemi depositou um selinho demorado em seus lábios. O corpo de Peter se arrepiou por completo, como se tivesse recebido um choque, e antes que ele pudesse tocar nela e aprofundar o beijo Noemi se afastou um pouco.

— Queria ficar mais tempo com você. – ela confessou com a voz baixa.

— Temos as férias ainda, mas posso dar um jeito de passar a noite com você.

Logo, os dois se despediram com um selinho. Noemi entrou em casa e encontrou seus pais a esperando para ela contar os detalhes do passeio dela com Peter. Ela contou tudo alegremente, exceto as partes amorosas e que finalmente alguém pode ouvi-la sem ser afetado pelos seus poderes. Ela iria contar para eles, mas não era momento para ela. Seus pais ficaram muitos felizes por ela estar se divertindo e depois de mais alguns minutos conversando com eles ela foi para o seu quarto se arrumar para dormir.

Durante esse tempo, Peter voltou para a casa dos avós, estacionando o carro do jeito errado e entrou na casa. Seus avós e sua mãe o esperavam e quando o viram perguntaram como tinha sido o piquenique.

— Foi muito bom. – disse com um sorriso de orelha a orelha. – Vou contar tudo amanhã, to morrendo de sono. – bocejou.

Antes que dissessem algo, Peter foi para o seu quarto em passos largos. Natalya olhou para os seus pais com um sorriso travesso.

— Esses jovens apaixonados. – sorriu o Sr. Maximoff. – Saudades da juventude, quando eu podia pular a cerca e subia o telhado para ver a minha namorada escondido. – disse com a voz saudosa e olhando para a sua esposa com os olhos brilhando.

— Humm... Que tempinho bom. – ela declarou com um sorriso largo.

— Acho que já deu a hora de dormir. – Natalya disse, já caminhando para o seu quarto.

Alguns minutos se passaram e quando Peter teve certeza que todos dormiram ele saiu de casa usando seus poderes e foi até a casa de Noemi. A garota estava quase pregando o sono quando sentiu um vento em quarto e ouviu o baralho da janela se fechando. Ela se sentou na cama e avistou o platinado encostado na porta fechada.

— Para alguém rápido você demorou um pouquinho. – ela bocejou, piscando lentamente.

— Desculpe a demora, princesa. Eu tive que sair escondido. – ele sorriu se aproximando dela e depositando um beijo na testa dela.

— Deita aqui. – ela pediu, chegando mais para o lado.

Peter deitou-se e passou os braços em volta dela. Noemi se acomodou e soltou um suspiro de satisfação.

— É uma pena que você não mora aqui. – ela desabafou.

— Isso não é um problema.

— Mas se surgir um problema onde você mora não vai poder vir. – argumentou, arqueando uma sobrancelha.

— Tem razão, mas ainda é tranquilo de vir te visitar. – ele deu sorriso.

— Isso é verdade.

Peter começou a brincar com algumas mechas do cabelo de Noemi, enquanto repassava em sua cabeça a tarde que tiveram juntos.

— Contou para os seus pais sobre a nova descoberta? – perguntou, ansioso para saber como foram as reações da família.

— Não, ainda não. Acho que conto amanhã. – ela respondeu, fazendo uma pequena pausa. — Sabe, isso ainda fica me perturbando...

— Será que você está começando a controlar seu poder, mas sem perceber? Tipo, algo do inconsciente. – Peter pensou em voz alta.

— Será?

Uma faísca de esperança surgiu no peito de Noemi, fazendo com que o pequeno sorriso de formasse em seus lábios.

— É uma possibilidade. Pode estar indo assim e, com o tempo, você ter total controle do seu poder. Ouvi histórias de alguns mutantes que só conseguiram controlar seus poderes depois de um tempo. Sabe... Alguns mutantes conseguem controlar de cara, enquanto outros demoram um tempo.

— Quanto tempo?

— Varia de mutação pra mutação. Mas acho que logo logo você vai estar controlando seus poderes.

— Você acha mesmo?

— É claro. – respondeu, compartilhando a mesma esperança dela. — Acho que você pode conseguir ajuda também. Esse ano eu ajudei uns mutantes e um deles é um professor e dono de uma instituição... Para pessoas como nós.

— Eu poderia ir para esse instituto... – pensou alto. — Onde fica?

— Não é muito longe de onde eu moro, mas está fechado. – Noemi fez um bico ao ouvir. — Esse cara tava passando por uns problemas, mas agora está trabalhando para reabrir o instituto. Quando abrirem eu aviso pra você. – ele deu outro beijo em sua testa.

— Obrigada. – ela sorriu, agradecendo tanto pela ajuda do platinado quanto pelo beijo dele.

Noemi bocejou outra vez, parecendo ainda mais sonolenta.

— Humm... Chega de conversa e vamos dormir. – Peter disse, afastando algumas mechas do rosto de Noemi. — Só espero não acordar e encontrar sua família vendo a gente agarrado assim. Acho que seu pai me mataria e nem seria zoando.

Noemi riu imaginando a situação constrangedora.

— Relaxa, eles não entram aqui. Se eu acordar primeiro eu te acordo para não arranjar encrenca. – ela prometeu.

— Fechou, princesa.

— ❀ —

As férias passaram voando, felizmente para alguns e infelizmente para outros. O fato era que faltavam quatro dias para tudo voltar ao normal e Natalya arrumou tudo para voltar para casa. A situação chegava a ser engraçada para ela, porque, antes de irem para lá, seus filhos reclamaram até dizer chega para não irem e agora não querem ir embora.

Antes de irem, os Hoffman prepararam um café da manhã de despedida para a família. Foi uma manhã muito agitada e alegre. Quem olhasse de longe imaginaria que os Maximoff e os Hoffman eram uma família só. Bem, talvez sejam.

Logo eles foram saíram da casa, prontos para irem embora voltar para a normalidade da cidade urbana barulhenta.

— Eu não acredito que já vão embora! – murmurou Maria, a esposa de John Hoffman. – Prometem que vão voltar nas próximas férias?

— É claro! Acho que venho para cá sem ser nas férias, as crianças gostaram tanto! – disse Natalya.

— Uma criança e um adolescente. – corrigiu Peter.

— Dá no mesmo.

— Vou sentir tanta saudade de vocês... – disse a Sra. Maximoff, abraçando fortemente os netos e logo depois a filha. Ela tentava controlar as lágrimas, mas não adiantava muito, seu rosto estava inundado pelas lágrimas.

— Venham sempre que puderem. Não sabem a felicidade que é ter vocês por perto. – disse o Sr. Maximoff, abraçando eles em seguida.

— Pode deixar, pai. – Natalya deu um beijo na bochecha dele e o abraçou.

Enquanto todos se despediam, Peter e Noemi se afastaram um pouco dos outros para poderem conversar.

— Vou sentir sua falta. – Noemi sussurrou, pegando delicadamente uma das mãos de Peter.

— Não sinta. – sussurrou de volta. — No momento que eu chegar em casa eu volto pra te ver rapidinho. Como sabe, eu sou incrivelmente rápido.

— Você é muito metido. – ela sorriu.

— Você gosta. – ele piscou um dos olhos e deu um beijo rápido em sua testa, a pegando de surpresa.

— Peter! Temos que ir! – chamou a mãe, entrando no carro.

Peter e Noemi apenas se olharam e ele logo entrou no carro. Noemi se aproximou de sua família e viu o carro indo embora. Três mãos saíram das janelas e começaram a acenar para eles, que foram retribuídos por todos que estavam na calçada. Peter havia pegado escondido seu Walkman e pegou algumas fitas para se distrair na viagem, já que ele ainda estava de castigo. Logo começou a tocar “On the Way Home”, de Buffalo Springfield, em seu fone. Natalya sabia que ele tinha pegado o Walkman Escondido, mas deixou passar.

O Sr. e a Sra. Maximoff se despediram dos Hoffman e foram para casa. Noemi aproveitou o momento para contar para a sua família o que vinha guardado há alguns dias. A família começou a prestar atenção nela quando escutaram ela escrevendo em seu caderno.

“Acho que meus poderes estão melhorando. Falei sem querer com Peter há alguns dias e ele não ficou afetado”.

— Isso é ótimo! – John exclamou alegre. – Você está controlando!

— Sim, mas... – Maria começou. – Isso foi perigoso. Tem certeza que Peter não vai contar para as autoridades? – ela perguntou preocupada. Estava feliz pela filha, mas temia pela segurança.

Noemi voltou a escrever.

“Não se preocupem, ele não vai contar. Ele é como eu”.

THE END


Notas finais
Playlist da fic: https://youtube.com/playlist?list=PLdzJGRM3tNpeAtA-nAl_OjNzCKF9wgOew&si=M63w3VgMXCym-wdk