Interferências
2 O Despertar - Jeff, O Assassino
Notas iniciais
Era primavera em Canton, Ohio.
A família Dahmer havia se mudado de Kentucky para Ohio pois Peter tinha recebido uma promoção e conforme os requisitos da empresa ele haveria de se situar próximo a seu novo local de trabalho. Como eles estavam muito bem financeiramente, Margaret e Peter, resolveram escolher uma casa mais "requintada" em uma vizinhança de classe alta.
Neste tempo, Liubert estava com 17 anos e Jeffrey com 15. Liu estava chateado pois teve de se despedir de seus amigos da escola, já Jeff nem estava se importando tanto, pois nunca deixou-se ser muito aberto para amizades, alguma coisa o impedia dentro dele, ele havia colegas, claro, mas sempre foi o mais recluso de sua classe.
O caminhão de mudanças estava sendo esvaziado pelos rapazes da empresa de mudança que Peter havia contratado. Junto a eles, a família Dahmer ajudava a tirar as caixas e levar pra dentro da casa. A casa era bonita, e apesar de que Liu estava meio desconfortável com a nova vizinhança, ele não tinha nada do que reclamar, pois sabia que seu pai havia batalhado muito pra conseguir essa promoção.
– Vamos Liu, não é tão ruim assim, logo mais você vai arranjar novos amigos na nova escola. — Dizia Margaret enquanto pegava mais uma caixa.
– Tudo bem, mãe. É que é estranho pra mim, apenas isso. — Respondia Liu enquanto ajudava a mãe com a caixa.
Quando o caminhão já havia ido embora e os Dahmer desempacotavam as coisas dentro de casa, ouviu-se a campainha tocar. Margaret foi atender a porta e se deparou com uma mulher loira com um vestido florido e um menininho pequeno, segurando sua mão.
– Oi! Eu sou Barbara, moro na casa bem frente a sua. — Mostrou a vizinha, apontando para a casa. — Só queria me apresentar a vocês e entregar esses biscoitos como forma de boas vindas.
– Posso voltar a brincar agora, mamãe? — Disse o menininho que acompanhava-a.
– Este é Billy. — Disse Barbara olhando para o filho. — Claro, querido. Vá brincar.
Billy saiu correndo de volta para seu quintal e se juntou a seus brinquedos. Barbara olhando com um sorriso para o filho, virou-se novamente para Margaret e entregou a bandeja de biscoitos.
– Seu filho é uma graça, Barbara. — Disse Margaret pegando a bandeja e entregando á Peter que chegava agora a seu lado. — É um prazer te conhecer. Eu sou Margaret e esse é meu marido Peter. E aqueles ali atrás são Liu e Jeff.
Os garotos acenam e Barbara retribui com outro aceno de mão.
– Olhem, vou fazer a festa do meu filho, Billy, de 6 anos, daqui duas semanas, no dia 24, e se quiserem comparecer, sintam-se convidados. — Disse Barbara.
– Muito obrigada, pelo convite, Barbara, com certeza iremos!
Eles se despedem e continuam á desempacotar todos seus pertences. Jeff se encaminha até sua mãe e pergunta:
– Mãe, por que você aceitou esse convite pra essa festinha? — Dizia com cara emburrada. -Eu e Liu não somos mais crianças pra frequentar festas com balões e palhaços!
– Jeff, nossa família acabou de se mudar pra cá; Devemos mostrar que queremos passar um tempo com os vizinhos. — Jeff tentou se expressar mas sua mãe logo o cortou. — Nós vamos á festa, e ponto final!
Estressado, Jeff subiu o andar em direção á seu quarto. Fechou a porta de seu quarto e se jogou em sua cama. Encarando o teto de mármore, seus pensamentos sufocava-o. "Por que? Por que eu tenho de sempre fazer o que os outros querem? Eu tenho 15 anos, mas e daí? Eu podia muito bem decidir se vou nessa droga de festa ou não! Já não me dava bem com outras pessoas da minha idade na antiga cidade, apenas convivia e fingia estar tudo bem, por que eu me daria bem com um bando de pivetes brincando pra lá e pra cá sem parar? Ninguém me entende. Ninguém me entende... Ninguém me entende!" Neste momento Jeff sentiu algo diferente. Algo que nunca havia sentido até este momento. Sua cabeça começou a ficar quente e ele começou a tremer, suas mãos ficaram frias e ele começou a suar. No fundo de seus pensamentos ecoava uma palavra... "Rosa". Imagens lhe vieram a mente. Era como imagens neblinadas, nada era totalmente nítido, mas ele pode identificar um homem usando terno, não conseguiu ver o rosto, mas lembrou-se que quando pequeno algo assim havia acontecido, porem ele não se lembrava quando, nem como. O homem com mãos totalmente pálidas dava uma rosa vermelha a ele. Quando as imagens de sua mente se esvaíram, ele se deu conta de ter seu nariz sangrando e estar com uma leve dor de cabeça.
– Jeff! Venha pegar suas coisas! — Gritou Margaret.
Jeff assustou com o grito de sua mãe, que estava no andar de baixo, correu para o banheiro no fundo do corredor e pegou o papel higiênico para limpar o sangue que escorria de seu nariz. Após isso desceu para pegar suas coisas e em seguida arrumar seu quarto.
Margaret já havia arrumado as matriculas dos meninos na nova escola mais próxima, portando no amanhecer Jeff e Liu foram tomar café da manhã. Jeff e Liu tiveram uma leve discussão por que Liu havia pegado o lugar onde ele queria se sentar e logo a discussão foi encerrada pelo pai dos garotos, falando para Jeff se sentar em outra cadeira. Foi algo bobo mas fez Jeff ficar estressado. Jeff começou a ter um pouco da mesma sensação que havia tido ontem, em sua cama. Sua cabeça ficou quente e ele começou a tremer. Sentiu uma pontada na parte frontal de sua cabeça, mas ignorou e terminou sua refeição. Os meninos pegaram suas mochilas e foram pegar o ônibus á duas quadras de sua casa.
Sentados no ponto, Jeff e Liu, conversavam aleatoriamente enquanto esperavam o ônibus chegar, até que foram surpreendidos por um garoto que vinha em alta velocidade de skate que passou na frente deles, fazendo a poça d'água que estava acumulada ali na borda da calçada espirrar em seus rostos. Jeff e Liu levantaram-se ao mesmo tempo com o susto.
– Que porra é essa?! — Exclamaram ao mesmo tempo.
O garoto do skate deu meia volta e foi em direção a eles. Chegando próximo a Jeff e Liu, ele deu um pisão no skate e pegou-o com a mão. Ele tinha um porte físico de esportista e um topete manchado de gel, vestia uma camiseta da Vans e um jeans rasgado.
– Vejam rapazes, temos carne fresca no pedaço. — Dizia o garoto do skate para mais dois garotos que se aproximavam, então ele se volta a olhar para Jeff e Liu. — Já que vocês são novos no pedaço, gostaríamos de nos apresentar; Aquele é Keith, e o outro é o Troy, ambos tem 15 anos. E eu sou o Randy, o mais velho, tenho 16.
Keith era um garoto muito magro, tinha olhar de cansado com olheiras á amostra e puxava catarro com seu nariz a cada cinco minutos, usava uma camiseta beje gastada e uma calça de moletom preta. Troy, ao contrário de Keith, era muito gordo, era dentuço e usava uma camisa de botão listrada de branco e azul com uma calça jeans.
– Agora, deixe-me explicar uma coisa. — Continuou Randy. — Para todos os jovens daqui do bairro há um preço pequeno a ser pago a nós pra pegar o ônibus, se é que vocês me entendem...
Liu se levanta pronto pra socar o rosto de Randy, mas é ameaçado por Keith com um canivete:
–Quietinho... Pensei que você fosse mais esperto. — 'Sniff' — Agora dê a carteira para o Randy.
Liu com olhar de mau-humor, tira a carteira do bolso e entrega para Randy. Até este ponto Jeff já estava sentindo-se com muita raiva e aquela sensação que tivera antes estava ocorrendo em seu metabolismo de forma muito rápida e muito intensa. Sua cabeça fervia, junto as dores de cabeça que era propiciada pelas pontadas em seu lóbulo frontal. Ele sentia uma movimentação interna que não sabia explicar. E nesse momento que Randy pegou a carteira de Liu, Jeff parou de tremer. Ele olhou profundamente nos olhos de Randy enquanto se levantava. Liu pediu para que se senta-se mas Jeff nada falou, nem olhou para o irmão, apenas caminhou até Randy e apontou o dedo na cara dele.
– Escuta aqui, seu punkzinho, de merda! Devolva a carteira do meu irmão, ou... — Jeff olhava no fundo dos olhos de Randy com olhar arregalado e transpirava.
– E o que você vai fazer? — Dizia Randy enquanto guardava a carteira no bolso e pegava um canivete.
Ao termino da frase, Jeff enfurecido, dá um soco no olho de garoto. Randy tenta revidar com o canivete, mas Jeff segura o pulso do garoto e torce-o com velocidade fazendo-o quebrar. Randy grita de dor e deixa cair o canivete, que Jeff pega logo em seguida. Troy e Keith vão em direção a Jeff tentando pega-lo. Ele chuta Randy, fazendo-o cair no chão, enquanto com o impacto do chute faz ele se afastar fazendo os dois outros garotos errarem seus ataques contra Jeff. "Filha da puta!", grita Keith enquanto corre tentando atacar Jeff com seu próprio canivete. Jeff desvia do ataque e apunhala Keith no ombro esquerdo, fazendo-o cair e derrubar o canivete que segurava. Troy vem direto pra cima de Jeff, porem recebe do mesmo um chute no estomago, fazendo Troy cair de joelhos e vomitar.
Os três garotos se contorcem de dor enquanto xingam Jeff. Ele olha para os garotos no chão e sorri. Uma tontura abala seu ser e ele começa a perder as forças e quase cai no chão se não fosse por Liu ter segurado ele.
– Jeff... Como você... — Liu não sabia de onde o irmão tinha tirado tanta força e habilidade com luta, afinal, Jeff nunca havia feito nenhum esporte e não tinha praticado nenhum tipo de luta. Ele estava estupefato com o que acabará de ver.
Enquanto Jeff se levantava nos braços de seu irmão Liu, eles avistaram de longe o ônibus vindo em direção ao ponto. Sem pensar duas vezes os garotos começaram a correr, pois é claro que seriam culpados pelo trio que se contorcia em dores ao chão. Enquanto Liu corria ele olhava para trás e via o motorista do ônibus socorrendo o trio de garotos, enquanto Jeff olhava em outra direção. Em frente á uma casa ele via um homem de terno parado observando eles, Jeff pensou ter achado que o homem não tinha um rosto em sua face, porem por estarem correndo e por estar com náuseas, achou que seria apenas coisa de sua cabeça.
Chegando na escola não comentaram nada sobre o acontecido e tiveram uma aula normal. Liu estava com medo do que havia acontecido, porem orgulhoso do irmão. Enquanto Jeff se aprofundava em seus pensamentos. Quieto. Sozinho. As vezes rindo. Em casa, os irmãos nada comentaram sobre o acontecido também, porem quando a mãe de Jeff havia perguntado á ele como foi o dia, sua resposta foi:
– Foi... um dia muito bom... Ótimo. — Em sua voz havia prazer e soava peculiarmente sinistra.
Na tarde do dia seguinte, ouviu-se a campainha tocar. Margaret atendeu a porta e lá se encontravam dois policiais.
– Boa tarde, madame, desculpe atrapalha-la mas recebemos denúncias oculares de que seus filhos estavam envolvidos em uma briga com canivetes com três garotos da vizinhança. — Disse um dos policiais.
Jeff descia as escadas e viu sua mãe virando-se para olhar pra ele com um olhar muito zangado. Margaret chamou Jeff que engoliu seco e caminhou até a porta.
– Jeffrey Dahmer! Que história é essa de que você e seu irmão brigaram com três garotos?! E com canivetes, Filho! — Jeff abaixou a cabeça e nada disse, dando a se entender que era.
– Mas mãe! Os canivetes eram deles! Eles apontaram pra mim e para Liu! — — Disse Jeff.
Um dos policiais colocou a mão no ombro de Jeff:
– Filho, nós encontramos os três garotos na manhã de ontem, depois do ocorrido, um estava com o olho roxo e com o pulso quebrado, outro com uma contusão no estomago e o outro com um corte no ombro. Nós temos testemunhas de que vocês estavam lá. Agora conte-nos a verdade. — Jeff estava desolado, nada podia fazer nada para provar que ele e seu irmão eram inocentes. — Bem... chame seu irmão, por favor.
Jeff arregalou os olhos que estavam abaixados e olhou para o policial:
– Senhor! Fui eu! Eu que bati nos garotos! Liu tentou impedir, mas não conseguiu me impedir!
Os policiais achando que aquela confissão já era o suficiente acenaram a cabeça um para o outro e um deles disse:
– Isso lhe dará um ano de detenção juvenil, garoto.
– Espere! — Gritou Liu, no topo das escadas, enquanto segurava um canivete.
– Coloque o canivete no chão! — Gritou um dos policiais enquanto entravam na residencia com suas armas apontando para Liu.
– Fui eu. Eu que que dei uma lição naqueles punks. Tenho as marcas pra provar. — Dizia Liu enquanto levantava a camiseta mostrando marcas roxas e alguns cortes no abdome.
– Largue esse canivete, filho. — Disse um dos policiais.
Liu largou o canivete jogando-o no chão e andou até os policiais com as mãos na cabeça.
– Não! Liu, não! Fui eu que fiz isso! O que você esta fazendo?! — Gritava Jeff enquanto lagrimas escorriam de seus olhos.
– Oh, maninho... tentando pegar a culpa pelos meus atos... Não se preocupe, vai ficar tudo bem, não precisa fazer isso por mim. — Dizia Liu com um olhar triste e um sorriso de canto. — Vamos policiais, me levem.
Liu saia pela porta algemado na companhia dos policiais que colocavam-o na viatura, enquanto Jeff gritava desesperadamente para o irmão:
– Liu, fale para eles que fui eu! Fale! Fui eu quem bateu nos garotos! — Grita Jeff desesperadamente.
– Por favor, Jeff, querido, você não tem que mentir. Nós... nós sabemos que foi o Liu... Não podemos impedir, ele tem que arcar com as consequências de seus próprios atos... — Dizia Margaret enquanto apoiava sua mão no ombro de Jeff e se segurava para não chorar na frente dele.
Jeff nada pode fazer. A viatura se distanciava e seu olhar mostrava sua culpa. Pouco tempo mais tarde o pai de Jeff, Peter, chegou em casa, e ao ver que seu filho estava chorando com um olhar paralisado em direção ao chão, sabia que havia algo de errado. Ele tentou perguntar á Jeff, mas ele nada respondeu. Margaret contou a má noticia á Peter enquanto Jeff continuava lá fora, apenas criando dentro dele mesmo uma grande culpa cada vez mais intensa. Quando Jeff entrou em casa reparou seus pais ainda perplexos e magoados com o que tinha acontecido, aquilo corroeu mais o peito de Jeff, "Isso não ta acontecendo... Fui eu quem fiz. É minha culpa", ele pensava. Ele subiu correndo ao seu quarto, fechou a porta e começou a sentir aquela raiva abrangendo ele, trazendo de volta aquela sensação, porem dessa vez parecia diferente. Sua cabeça estava quente e ele sentia as pontadas na cabeça, porem nenhuma dor vinha das pontadas; ele não tremia mais, porem o nariz dele começou a escorrer sangue. Ele tentou limpar mas continuou escorrendo, e com isso sua raiva aumentou gradativamente á um ponto que ele começou a passar mal. Sua cabeça começou a rodar e ele começou a tossir. Ele se sentou na cama antes que caísse no chão, ele estava prestes a desmaiar quando sua visão avistou alguém em sua janela, ele não sabia quem era pois sua visão estava turva, o único detalhe que se via era um vulto preto, depois disso tudo se apagou. Acordando no outro dia, Jeff não foi a escola, na verdade foram-se cinco dias sem fazer praticamente nada. Até que no sexto dia, depois do acontecido, Jeff foi surpreendido pela sua mãe acordando-o, com um rosto feliz.
– Acorda querido. É hoje! — Disse Margaret enquanto abria as cortinas fazendo o quarto clarear.
– Huh? Que droga é essa mãe? — Acordava Jeff de mau-humor — O que é hoje?
– Ora, a festa do Billy, filho da Barbara, nossa vizinha, não se lembra? — Ao ouvir isso de sua mãe, Jeff sentou-se na cama e fez uma cara de confuso.
– Você ta de brincadeira, né, mãe? — Ele dizia abismado — Você não espera que eu vá a essa festa de criança depois do que aconteceu, né?
– Jeffrey, nós sabemos o que aconteceu, mas nossa família não vai definhar! Essa festa vai ser um recomeço. — Dizia Margaret com olhar de esperança. — Agora levante e vá se vestir.
Ela se retirou do quarto de Jeff e foi se arrumar. Jeff se esforçou pra se levantar. Vestiu uma roupa aleatoriamente e desceu as escadas em encontro aos seus pais.
– Ah não! Você não vai usar essa roupa pra ir na festa! — Exclamou Margaret.
– Melhor do que usar algo exagerado... — Disse Jeff fazendo bico e virando os olhos.
Margaret suspirou, se acalmando e disse:
– Jeff, por favor, vá vestir algo melhor. Queremos causar uma boa impressão.
Jeff subiu as escadas e entrou no seu quarto, procurou peças de roupas mais "extravagantes". Ele botou uma calça preta, que tinha para ocasiões especiais, porem as camisetas estavam todas para lavar. Sem muita paciência vestiu uma camisa branca e por cima dela vestiu um moletom branco, que estava jogado na cadeira de seu quarto. Jeff sentia uma presença, como se houvesse alguém observando ele, mas ele estava sozinho no quarto. Sua mãe gritou chamando-o, ele ignorou a sensação e desceu as escadas.
– Você vai assim?! — Perguntou Peter e Margaret ao mesmo tempo.
Margaret olhando para o relógio notou que estavam atrasados para a festa:
– Oh, meu Deus! Não importa, não da tempo, vamos logo! — Disse Margaret indo em direção a porta enquanto Peter e Jeff seguiam-na.
Atravessaram a rua e bateram na porta. Barbara atendeu a porta. Ela vestia um vestido dourado e usava brincos maiores que as orelhas. Dentro da casa havia adultos de toda a vizinhança conversando e rindo, nenhum sinal de crianças ali.
– As crianças estão lá fora, no quintal, Jeff, vá lá brincar com elas. — Dizia Barbara com um grande sorriso estampado em seu rosto.
– Jeff se encaminhou até o jardim dos fundos onde havia varias crianças com fantasias de vaqueiros brincando de atirar umas nas outras com arminhas de plásticos. Jeff sentou na escada na varanda vendo as crianças brincar, até que um garoto, que parecia ter entre 5 á 7 anos, veio até ele com um chapéu de vaqueiro e uma arminha de brinquedo estendendo para dar á Jeff.
– Ei, vamos brincar? — Disse o garoto.
– Ah, não mesmo, pirralho! Eu sou muito velho pra brincar disso. — Disse Jeff.
– Po-favô... — Disse o menino olhando pra Jeff com olhar de cachorro pidão.
– Ah... Tá bem. — Respondeu Jeff sem muita vontade.
Colou o chapéu de vaqueiro e começou a brincar com as crianças fingindo atirar nelas. No começo, Jeff achou que aquilo era totalmente ridículo, porem depois de um tempo começou a se divertir de verdade. Parecia algo bobo, mas naquele momento, foi a única coisa que tirou seus pensamentos de Liu e da culpa que estava sentindo. A brincadeira continuava até que se ouviu um barulho por trás da cerca do jardim dos fundos. Jeff olhou de onde via o barulho e viu Randy, Keith e Troy pulando a cerca. Jeff arregalou os olhos e começou a sentir pontadas em seu lóbulo fontal, ele deixou cair a arminha de brinquedo e arrancou o chapéu de vaqueiro. Randy encarava Jeff com fúria em seus olhos.
– Parece que temos coisas á resolver, Jeff. — Disse Randy que estava com olho roxo.
– Eu acho que não. Ficamos quites quando eu te dei uma surra e você enviou meu irmão para o centro de detenção! — Jeff falava enraivecido enquanto sua cabeça começava a esquentar.
– Háháhá! Não, não. Eu jogo apenas pra ganhar! Você vai dormir para sempre depois de hoje! — Randy começou a correr em direção a Jeff.
Jeff tentou escapar, mas Randy derrubou-o no chão. Eles começaram a brigar no chão até que Jeff segurou Randy pelas orelhas e deu uma cabeçada nele. Randy caiu para trás e ambos se levantaram. As crianças gritavam e vinham os pais ver o que ocorria. Enquanto os pais das crianças pegavam seus filhos, Margaret e Peter ficaram pasmos, não conseguiam se mexer. Jeff tinha dito a verdade. Foi ele quem havia cometido a briga anterior, e Liu havia acobertado o irmão. Uma grande enxaqueca bateu repentinamente em Margaret, fazendo-a cair no chão. Peter acudiu a mulher segurando-a em seus braços. Keith e Troy vendo que os adultos estavam agora querendo sair do jardim dos fundos, puxaram as armas de suas calças, duas calibres 38.
– Ninguém se mexe ou vamos atirar! — Keith gritou, enquanto ambos os dois engatilhavam as armas.
Randy puxou seu canivete e avançou em Jeff apunhalando-o no ombro. Jeff grita e cai no chão, Randy aproveita a situação e começa a chuta-lo no rosto. Depois de três chutes Jeff segura o pé de Randy e torce-o. Randy cai no chão e Jeff aproveita para correr até a porta da cerca dos fundos, porem Troy agarra-o. Ele é jogado por Troy de volta ao pátio. Jeff tenta levantar mas é chutado repetidamente por Troy e Randy, até que ele começou a tossir e cuspir sangue. "Lute comigo!" grita Randy levantando Jeff pelo colarinho jogando-o em direção a porta dos fundos da casa que leva até a cozinha. Enquanto Jeff tenta levantar Randy segue-o até a cozinha, ele vê uma garrafa de vodca em cima da mesa e acerta ela na cabeça de Jeff. Jeff cai de novo no chão com a cabeça sangrando e com tontura. Randy segura Jeff pelo colarinho novamente e grita em seu ouvido "Lute!", em seguida Jeff é jogado em direção á sala de estar.
– Vamos Jeff, olhe para mim! — Grita Randy. Jeff levanta a cabeça olhando para Randy, com sua face coberta de sangue. — Foi eu quem mandou seu irmão pra detenção, e você não vai fazer nada?! Seu irmão deve ter vergonha de você!
Jeff abaixa o rosto e começa a se levantar.
– Finalmente! Agora lute comigo! — Randy exclama.
Jeff está de pé e com sua cabeça abaixada. Seu cabelo castanho escuro, que termina na medida do peito, escorrem pelo seu rosto encharcado de sangue e vodca. Uma voz ecoava em sua mente enquanto a imagem de uma rosa vermelha se fixava em suas lembranças. "Pegue está rosa vermelha, criança. Quando chegar a hora de você despertar, eu estarei lá." As pontadas na cabeça de Jeff batiam sem para á cada frequência de segundos. Suas pupilas dilatavam e escorria sangue de seu nariz, o calor que se alastrava na cabeça de Jeff se dissipava e tudo começava a ficar frio. Sua cabeça parecia se chocar com algo interno, algo dentro dele, algo que ele mesmo deixou crescer dentro de seu sub-consciente sem mesmo ter notado. Randy cansa de esperar e corre em direção á Jeff. Jeff em uma velocidade extraordinária desvia do soco de Randy mergulhando em diagonal e avança sua mão contra o pescoço de Randy, jogando-o direto no chão. Em seguida á queda de Randy, Jeff ainda mantem a mão em seu pescoço, apesar de Randy se rebater pra sair, Jeff pressiona até deixar Randy sem ar. Quando Randy já estava ficando todo roxo, Jeff larga o pescoço e da um soco no peito dele, fazendo o coração de Randy parar de bater. Mesmo com Randy já morto, Jeff continua golpeando-o no rosto. Jeff gritava de fúria, sangue de Randy voava aos arredores. Quando Jeff parou, já não havia mais o rosto de Randy, era um amontoado de carne, ossos e sangue. Jeff estava com as mãos pingando com o sangue de Randy e todos na casa olhavam para ele.
Keith e Troy estavam espantados. Eles apontaram suas armas para Jeff e começam a atirar, Jeff corre para as escadas em direção ao andar de cima seguido pelos dois garotos armados. Eles atiram suas ultimas balas, mas Jeff foge entrando no banheiro. Troy e Keith sobem com duas facas pegas na cozinha. Troy entra no banheiro com a faca em punhos mas é surpreendido por Jeff que bate no rosto de Troy com o toalheiro, isso fez Troy cair duro no chão com um buraco em sua cabeça. Jeff se depara com Keith entrando no banheiro, que desvia do ataque de Jeff e avança em direção á ele largando a faca no chão e segurando-o pelo pescoço. Isso faz com que ele empurre Jeff contra uma prateleira, fazendo o liquido de uma garrafa de água sanitária cair sobre os dois. Suas peles começam a arder e ambos gritam de dor se afastando um do outro. Jeff enxugou os olhos com as mãos e em seguida pegou o toalheiro que estava caído no chão antes que Keith pude-se voltar a ataca-lo. Jeff bate com o toalheiro na cabeça de Keith, fazendo-o cair no chão sangrando, porem antes que Keith perde-se a consciência ele olha para Jeff e esboça um sorriso doentio.
– Qual é a graça?! — Grita Jeff com raiva.
– A graça é que você está coberto de álcool e aguá sanitária! — Diz Keith pegando o isqueiro de seu bolço, acendendo-o e jogando em Jeff.
Jeff arregalou os olhos e viu o isqueiro tocando-o. As chamas se propagaram em seu corpo em questão de milésimos de segundos. Sua pela queimava e se esbranquiçava enquanto Jeff gritava e corria em direção ao corredor passando por cima de Keith, fazendo-o queimar. Jeff deitou no chão e começou a rolar, mas não havia adiantado, ele se arrastou para as escadas e caiu delas rolando nos degraus. Todos que ainda estavam dentro da casa começaram a gritar, Margaret e Peter correram com as cortinas da casa de Barbara e tentaram apagar o fogo. Jeff olhava seus pais enquanto suspirava seus prováveis últimos momentos de vida, quando estava prestes a desmaiar olhou em um canto escuro da sala, onde achou ter visto um homem de terno segurando uma rosa vermelha.
. . .
Jeff havia acordado. Havia um molde de gesso envolvendo praticamente todo seu corpo, inclusive o rosto. Sentiu-se todo dolorido e agora sábia ele que estava no hospital. Tentou se levantar mas era impossível se mover por causa dos gessos e das dores. Uma enfermeira veio até ele e botou sua mão em cima da dele.
– Olá, eu sou a enfermeira Jenkeins. Fique calmo, você não pode se levantar ainda, mas já tratamos você e logo mais vai poder voltar a sua vida normal.
Então Jeff ficou ali deitado sem poder ver nada, apenas com aquelas dores e com um sentimento novo que ele não sabia reconhecer, porem ele gostava. Até que depois de algumas horas ele ouviu a voz de sua mãe.
– Querido, você está bem? — Perguntou Margaret.
Jeff nada pode responde por causa do gesso mas balançou a cabeça em sinal de afirmação.
– Oh, querido... Eu tenho uma ótima notícia. — Disse Margaret fazendo carinho na mão do filho. — Depois que todas as testemunhas disseram à polícia sobre o que aconteceu, eles decidiram soltar o Liu.
Jeff se irradiou de alegria e quase caiu da cama.
– Eu sei filho, mas calma. — Disse Margaret contendo ele. — Ele estará fora amanhã, então vocês poderão estar juntos novamente. Agora eu tenho que ir, eu e seu pai estamos ajudando a Barbara a arrumar a casa dela depois de todo o ocorrido.
Ela se despede de Jeff e vai embora. Passou-se três semanas onde Jeff era apenas visitado pela familia, até que chegou o dia que Jeff iria retirar o gesso e os curativos. Os curativos estavam sendo retidos e a família de Jeff esperavam ansiosos pelo ultimo curativo em sua face ser retirado. Assim que o médico retirou as ultimas faixas deixando à amostra o rosto de Jeff, Margaret gritou, Liu e Peter olhavam horrorizados.
– O que foi? O que houve com meu rosto? — Perguntou Jeff.
Todos ficam em silencio. Jeff ignora a tontura e as pontadas na cabeça e se levanta indo em direção ao banheiro. Ele olha no espelho e vê seu rosto que causou espanto em todos. Seus lábios estavam ressecados em um tom avermelhado, sua pele estava em uma tonalidade branca com leves tons bejes, e seus cabelos que antes era castanho escuro e ia até seu peito, agora estavam pretos e iam até os ombros. Ele passou a mão no rosto e notou que a textura parecia couro duro. Ele olhou para Liu e depois voltou a olhar no espelho.
– Ah... Não é tão ruim assim... — Disse Liu tentando confortar o irmão.
– Não... É perfeito! — Disse Jeff que começou a rir descontroladamente.
Todos ficaram surpreendidos e assustados. Eles viram a mão e olho de Jeff tremendo, então Peter disse:
– Uh... Jeff, você está bem?
– Bem? Eu nunca me senti mais feliz, Papai! Hahahahahaaahahaaha. — Jeff acariciava seu próprio rosto olhando para o espelho. — Olhe para mim! Este rosto é perfeito!
Depois de algum tempo eles estavam se preparando para voltar para casa quando Margaret chamou o doutor de canto e perguntou:
– Doutor... — Margaret parecia atordoada. — Meu filho... Ele está bem? Digo, na cabeça dele...
– Ah sim, este tipo de comportamento que ele teve é normal para pacientes que passaram por traumas e tomaram muitas doses de analgésicos. Logo menos ele estará normal, mas caso continue assim traga-o aqui para que possamos fazer um teste psicológico. — Disse o doutor calmamente.
– Tudo bem, doutor. Muito obrigada mesmo! — O doutor sorriu e Margaret se virou para o filho. — Jeff, querido, é hora de ir para casa.
Jeff estava olhando pela janela, se virou e disse:
– Claro, mamãe. He... he... hehe...
Antes de entrar no carro Jeff olha para o pai e diz:
– Papai... he... Eu gostaria de vestir aquela roupa que eu estava usando na festa...
– Mas filho... — Diz Peter olhando para Margaret e voltando à olha-lo. — Aquela roupa foi queimada.
– Por favor, Papai. — Diz Jeff abrindo um sorriso.
Peter e Margaret ficam com pena do filho, e vão até uma loja de roupa aonde compram uma calça preta e um moletom branco.
Na madrugada do mesmo dia, Maragaret acordou com um barulho vindo do banheiro do corredor. Ela levantou-se da cama e com sono caminhou até o banheiro que estava com as luzes acesas. Ao olhar para o banheiro ela se deparou com Jeff, ele estava usando uma faca para esculpir um enorme "sorriso" em seu rosto. Ele cortava os cantos da boca fazendo a faca traçar um rastro pelas suas bochechas, ele aumentou o corte até que todos seus dentes ficassem à amostra e um eterno sorriso ali permaneceu.
– Jeff... O que você está fazendo?! — Perguntou Margaret horrorizada.
– Eu não conseguia me manter sorrindo, mamãe. — Disse Jeff pegando a toalha com a mão que não segurava a faca e começou a limpar um pouco do sangue que escorria de sua boca. — Foi dolorido, mas agora eu posso sorrir para sempre!
– Jeff! Seus Olhos! — Ela via os olhos de Jeff anelados em um tom chamuscado de preto.
– Eu não podia ver meu rosto, mamãe. — Disse Jeff largando a toalha ensaboada de sangue na pia. — Eu comecei a ficar cansado e meus olhos começaram a fechar. Eu queimei minhas pálpebras para ver pra sempre meu novo rosto. — Ele deu uma pausa e continuou. — Hehe...hehehe... O homem alto disse que seria o melhor a se fazer, mamãe.
Margaret começou a se afastar vendo que seu filho estava agora totalmente louco.
– O que foi? — Disse Jeff virando seu rosto com aquele sorriso estampado na face. — Eu não estou bonito, mamãe?
– Sim, querido... — Ela disse com os olhos arregalados tentando esconder o medo. — Você está... Lindo. Deixa eu chamar o papai... Pra que ele possa ver seu lindo rosto filho...
Margaret correu para o quarto e sacudiu Peter, fazendo-o acordar bruscamente:
– Peter! Pegue a arma! O Jeff... — Ela parou de falar quando viu Jeff na porta de seu quarto, com o casaco branco manchado de sangue e segurando aquela faca que ele usou pra cortar a própria boca.
– Jeffrey! — Gritou Peter se sentando na cama assustadamente.
– você mentiu, mamãe... Agora... Vão dormir. — Jeff avança em seus pais e dilacera-os por completos.
. . .
Liu acorda assustado de um pesadelo. tudo parecia quieto e tranquilo, aqueles sonhos com o homem de terno estavam se tornando mais recorrentes a cada dia e aquilo assustava ele muito. Liu já ia voltar a dormir quando ouve a voz de Jeff chamar seu nome bem baixinho. "Liu". Liu olha em direção a porta de onde vem o chamado e é surpreendido com Jeff acendendo a luz do quarto e segurando uma faca enquanto sorri de orelha em orelha.
– Aaaahhh! Jeff! O que aconteceu com você?! — Liu se levanta da cama e encosta na parede com pavor.
– O que houve comigo?... Hehehe... Hahahahahaaa!!! — Jeff para de rir e encara os olhos do irmão. — O homem alto me despertou, Liu! Ele quer minha ajuda! Desde quando eramos pequenos ele nos acompanha! Você não se lembra?! Hahahahaha.
– Ho-homem Alto?... — Diz Liu gaguejando lembrando da imagem do tal homem alto em seus sonhos. — O que você quer dizer com isso Jeff?! Alias, por que você fez isso consigo mesmo, irmão?! Vamos chamar o Pai e a Mãe... Eles podem ajudar!
– Hahahaha!! Papai e Mamãe estão dormindo, Liu... Dormindo pra sempre! Hahahaha! — Jeff gargalhou histericamente olhando para cima e erguendo os braças, e depois voltou a encarar o irmão e se aproximar com passos leves. — Olhe para mim, Liu... Eu estou perfeito! Eu vou deixar você lindo também, irmão, venha aqui... Hehehehahaha!
Liu começou a chorar ao entender que o próprio irmão havia matado os pais e ficou mais amedrontado ainda ao ver que seu irmãozinho que ele amará tanto um dia, havia se tornado em um monstro psicopata, e que pretendia deixa-lo do mesmo jeito em que ele, com aquele sorriso perturbador. Jeff estava cada vez mais próximo, até que Liu começou a gritar pondo a mão na cabeça, seu nariz começou a sangrar; Jeff começou a sentir um arrepio na coluna e sentiu-se sendo observado. Ele sabia quem era.
Jeff se vira em direção a porta e se curva:
– Seja bem vindo, Senhor Cavaleiro. Hehe... He... Hehe...
Enquanto Liu permanecia ali no chão, agora desmaiado, Jeff levantava sua cabeça e olhava agora para à criatura que permanecia ali de pé em frente a porta. Era o homem alto. Ele vestia um terno preto, calça preta, gravata preta, apenas sua camisa por baixo do terno era branca. Seu corpo se alongava em vertical se estendendo quase até o teto, seus dedos eram compridos se assemelhando a galhos tortos e finos de arvores. Sua cabeça era oval e no lugar do rosto nada havia lá, apenas se perpetuava aquela face branca, o único detalhe que se mostrava era que no lugar de seus olhos, havia um aprofundamento de pele com a coloração levemente acinzentada. Este "homem", que foi chamado de "Cavaleiro", por Jeff, ali permaneceu, com sua face inclinada em direção a Jeff, enquanto Jeff olhava diretamente na face dele.
– O que?! — Gritou Jeff, se levantando. — Você nunca mencionou isso! Ele é meu irmão! Ele não!
Ele se silenciou e permaneceu olhando para o "Cavaleiro" com um olhar de abismado, como se ele estivesse falando algo para Jeff. Então Jeff voltou a sorrir novamente e disse:
– Tudo bem. Desde que você não mate ele, tudo bem. — Jeff virou-se para o irmão. — Apenas deixe eu me despedir dele.
Jeff se aproximou de Liu que estava caído no chão, segurou sua faca e pressionou contra o braço do irmão escrevendo a frase: "Vá dormir, irmão. Eu irei te Salvar"
Jeff se levantou, deu mais uma olhada para o "Cavaleiro" e fez um sinal de afirmativo com a cabeça erguendo aquele enorme sorriso, ele pulou da janela com aquelas gargalhadas e deixou o quarto.
Liu estava desmaiado no chão.
O Cavaleiro estava de pé frente à porta.
O barulho de estática começou a se propagar pelo quarto.
Silencio.
O quarto estava vazio.
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