Intercontinental

2 Capítulo um: despedidas


Notas iniciais
Esse é meu primeiro capítulo da história, no qual começo a apresentar alguns dos personagens e suas histórias começam a ser traçadas, no entanto todos eles estão sujeitos a mudanças - estas, obviamente, serão coerentes à história.

Dentro do carro, minha cabeça girava na mesma velocidade do velocímetro. Eu olhava fixamente para o nada, esfregava as mãos nas pernas. O silencio era quase agoniante, mas antes que isso acontecesse, Roy me perguntou se eu estava bem, se estava nervosa ou se pensava em desistir. Sempre calmo e com um tom baixo, Roy tentava me passar tranquilidade, mas eu estava uma pilha de nervos.

Jamais, pensei. Eu esperei minha vida toda para voltar para o meu país, lembro-me de que meu pai me prometera que, quando eu completasse dezesseis anos eu voltaria a viver no Brasil, com meus amigos de infância e meu primo, Ryan.

Eu era determinada demais pra desistir agora, e não me permitiria criar dilemas na minha vida; ainda mais dilemas que envolvessem decisões sobre escolhas que eu mesma fiz.

– Está tudo bem, foi uma escolha minha. A vida é assim mesmo, temos que fazer escolhas. Às vezes, precisamos abrir mão de coisas que amamos para que novas coisas tenham lugar na nossa vida – tentei parecer calma, mas era óbvio o meu nervosismo.

Olhei a paisagem se movendo lá fora, o mundo parecia normal, tudo acontecendo no seu devido tempo. Um pequeno raio de luz nascia em meio ao chuvisco que caía sobre as árvores e todo o resto.

Agora entrávamos num estacionamento de um restaurante brasileiro, eu ficara surpresa ao ponto de não acreditar no que estava vendo. Roy estacionou o carro, e abriu-me a porta – ele sempre fez questão de ser gentil a esse ponto, já eu sempre achei meio brega, mas não podia negar que era bastante romântico.

Ao passarmos pela porta, Roy passou o braço em volta de minha cintura e me beijou suavemente nos lábios, em seguida falou com o garçom sobre a reserva que fizera, que nos acompanhou até a nossa mesa.

O interior do restaurante era fantasticamente parecido com o Brasil. Um balcão de madeira, com um computador ao lado. Alguns vasos com flores tropicais tornava o ambiente convidativo. As mesas numa madeira combinando com o balcão estavam enfileiradas, forradas com alguns forros xadrez vermelho e branco, pequenos vasinhos de flores discretos postos no centro de casa mesa – era como os self-services brasileiros, aqueles os quais meus pais me levavam quando eu tinha seis anos.

Roy, como sempre, puxou a cadeira para eu me sentar e eu agradeci a gentileza, ao me sentar. O garçom já trazia o cardápio nas mãos, e colocou-os sobre a mesa. Sr. Manson – esse era o nome que estava no crachá do garçom que nos atendia; o uniforme impecavelmente limpo e passado – deixou-nos a vontade para que escolhêssemos o que iríamos comer.

– Já sabe o que vai pedir, amor?

– Ainda não, mas estou pensando nesse aqui – apontei para o item “feijoada”, e vi Roy fazer uma careta. Eu ri. Era óbvio que aquilo soava como grego para ele, e tive de explicá-lo como era feito o prato. No fim das contas, ele decidiu pedir um prato típico caseiro com carne de panela, que era bastante comum no Brasil; eu continuei firme e decidida e pedi uma feijoada, mas devo confessar que não estava tão boa quanto à feita no Brasil – acho que o sabor do tempero brasileiro é único – mas estava muito bom, mesmo assim.

Ouvi meu telefone tocar e pedi licença a Roy para que pudesse atender, ele concordou sem relutar. Era Ryan.

Ryan é o meu primo maluco que decidiu se mudar comigo para o Brasil. “Vamos viver uma aventura festiva no país do samba, futebol e da mulher bonita” ele me dizia sempre que tocávamos no assunto. Ryan é um cabeção mesmo por achar que o Brasil é resumido a samba, mas tudo bem, quando nos mudamos ele percebeu que não era exatamente assim. Além do mais, é essa a imagem que o país tem lá fora, e isso não se pode negar.

– Alo, – pude ouvir o primo dizer. – Tudo pronto para amanha, o nosso grande dia?

– Claro que sim, tudo no devido eixo, e você?

– Tá brincando? Por mim eu já estaria a caminho! – Ryan sempre fora muito ansioso e empolgado, e isso me fazia rir. Combinamos de irmos juntos ao aeroporto, ele passaria na minha casa as dez da manha, e depois nos despedimos.

Ao desligar o telefone contei ao Roy como Ryan estava ansioso com a viagem e Roy apenas ria e acrescentava algum comentário “ele é sempre muito empolgado”. Pude notar que a conversa antecipava o sofrimento dele, assim como o meu, e me senti mal por tocar no assunto e precipitar tudo – tudo, na verdade significa toda dor, todo medo da despedida do dia seguinte. Roy me olhou por uns longos segundos e acenou para o garçom, pedindo a conta. Sr. Manson dirigiu-se até a mesa, acertamos o que devíamos e fomos embora.

Eu estava sofrendo por ter de deixar Toronto. O Canadá era um lugar incrível, além do que eu tinha uma vida muito boa por lá: meus amigos eram ótimos, a Fundação, o Roy, meus pais, meus tios e o Ryan. Meus passeios eram sempre calmos e agradáveis, as coisas fluíam num modo muito diferente do de São Paulo. Toronto é uma grande cidade, mas ainda mantém características de um lugar tranquilo, na verdade, não tão tranquilo como Calgary, mas tranquilo em relação ao que vivi em São Paulo; mas de certa forma eu voltaria ao Brasil – o lugar onde nasci, fui criada até meus oito anos, o lugar onde deixei alguns amigos – e isso me alegrava. Eu estava ficando louca com as oscilações que meu espírito sofria a todo o momento. Eu detesto admitir que, pela primeira vez, eu estava num dilema.

Observei meu namorado dirigir calmamente, uma expressão séria e fixa, como se estivesse atento ao transito, mas eu sabia que, na verdade ele estava pensando em como seria os próximos dias. Com quem ele passaria seu tempo, quem iria com ele aos musicais. Alguém ocuparia esse assento ao qual me encontro? Perguntei-me e não quis pensar muito sobre isso. – Roy, eu quero que prometa que não vai se esquecer do tempo que passamos juntos, do que vivemos, ou até mesmo de mim. Eu sei que parece meio egoísta, ou até meio egocêntrico, mas na verdade, eu só estou pedindo que se lembre com carinho da gente. Eu sei que a paixão vai acabar, e mesmo assim eu vou continuar o amando. Pelo que você foi na minha vida, pelo peso que você tem na minha história. A paixão é passageira, e tanto você quanto eu vamos superar isso, mas o amor, Roy, o amor fica. E espero que você saiba que sempre será uma pessoa muito importante pra mim. – Ao ouvir cada palavra sendo despejada como um jato, ele encostou o carro e me beijou. Não um beijo comum, foi um beijo quente; passando a mão em minha nuca e me puxando o cabelo, pressionando o corpo contra o meu e acariciando minhas costas. Por fim, ele me soltou, deu um sorriso torto e disse:

– “O amor vai sempre ser amor. Em qualquer lugar.” – Naquele momento específico eu sabia que conhecia o trecho, mas só mais tarde me lembrei de que era de uma música que eu o havia mostrado, era um trecho de uma música do Biquíni Cavadão, uma banda brasileira a qual Roy havia passado a gostar graças a mim. Eu adorava o rock brasileiro, tinha uma galera bastante inteligente e talentosa, assim como na música popular brasileira e até algumas bandas da geração atual do pop rock brasileiro.

O sol havia aparecido, o que não era tão comum nessa época do ano. O inverno no Canadá era realmente frio, aliás, frio não, gelado. E eu pude ver o chuvisco de mais cedo ir cessando vagarosamente, dando espaço para cada raio de sol penetrar na pele das pessoas, ou nas folhas das árvores cobertas por neve.

– Este é um dia tipicamente brasileiro – falei.

– É um lindo dia, mas confesso que muito sol me dá dor de cabeça – Roy respondeu, sem tirar os olhos do transito.

– Rá! Se você acha que aqui está realmente insuportável, vá ao Brasil e veja como esse solzinho aqui está agradável. – Provoquei, num tom brincalhão. Vi-o sorrir e balançar a cabeça.

Paramos na porta da minha casa e o chamei para entrar, ele se recusou dizendo que eu deveria passar o resto da tarde com meus pais, e arrumando minhas coisas, ou sei lá, fazendo qualquer coisa que precisasse fazer sozinha. Dei-lhe um beijo rápido.

– Fique linda hoje à noite, vou te levar a um lugar surpresa. – Tudo é surpresa hoje? Pensei comigo mesma, e sorri, concordando com a cabeça – Eu te amo, Veronica.

Eu fui pega de surpresa, Roy não tinha o hábito de me dizer isso tão diretamente, na verdade ele me demonstrava com atitudes, ou era sempre sutil, mas hoje ele disse com todas as letras: “eu te amo” e eu não sabia o que dizer, ou nem mesmo que expressão devia fazer, e muito menos se devia dizer o mesmo. Resolvi que deixaria as coisas acontecerem normalmente, sem ter de pensar numa frase e editá-la.

– Ei, nesses últimos dois anos você tem sido uma companhia incrível. O melhor namorado que eu poderia escolher, e eu sou grata à vida por isso.

Ele ergueu a sobrancelha, e me desafiou: – E a parte que você diz que me ama? – eu não consegui me conter, soltei uma risada.

– Eu te amo, seu imbecil – esse é meu jeito de demonstrar afeto, desculpa. Beijamo-nos mais uma vez, e então desci do carro, e ouvi os pneus cantarem enquanto caminhava até a porta.

Eu morava numa casa aconchegante, num condomínio longe do centro e da badalação. Era uma casa confortável, espaçosa o suficiente para três pessoas, mas nada de exageros. Se existe uma coisa que meu pai não gosta essa coisa é esbanjar dinheiro. Sempre fomos pessoas humildes, nesse sentido. Nunca fizemos questão de estar nas festas das famílias mais nobres de um lugar, nem fazemos questão de ter roupas que tenham muitos zeros no preço.

– Oi mãe, cheguei – minha mãe estava do outro lado do balcão que separava a sala da cozinha, preparando algo para comer. – Oi, filha, não vi você entrar.

– Bem, na verdade, eu acabei de chegar. O que faz aí? – minha mãe preparava uns sanduíches, e a pergunta tornou-se meio retórica quando a observei separando o presunto, o queijo e o tomate.

– Uns sanduíches, você quer? – eu não estava com fome, tinha comido uma feijoada há menos de uma hora, ou seja, eu ficaria satisfeita por boa parte do dia.

– Não, obrigada, mãe. Eu vou subir e arrumar algumas coisas, tomar um banho e mais tarde o Roy disse que tem uma surpresa pra mim – vi minha mãe ficar meio tensa, certamente porque “arrumar algumas coisas” significava terminar de arrumar minhas malas e depois a vi sorrir, isso com certeza porque ela sabia algo da surpresa que o Roy havia preparado para mim.

Meu quarto era meu espaço particular. Era onde eu podia ficar sozinha por horas para ouvir música, ou ler algum clássico de Shakespeare, ou quem sabe dos autores contemporâneos que tanto gosto. Ali era onde eu podia ficar de camiseta e calcinha, se quisesse. Ou até mesmo um lugar para trabalhar com minhas fotografias e edições – essa é uma das coisas que pouquíssimas pessoas sabem sobre mim: eu sou apaixonada por fotografia. De todos os tipos, das mais espontâneas para as mais elaboradas. Edição de fotos sempre foi uma paixão também, no entanto a melhor parte é, sem sombra de dúvidas, fotografar. Estar sempre com uma câmera em mãos e capturar os momentos mais inusitados ou particulares da natureza, das pessoas no meio social, ou de algum elemento construído pelo homem. Ser fotografado é legal, editar é bastante bom, mas, com certeza, fotografar é a melhor parte desse mundo.

Tudo naquele lugar tinha a minha cara, desde as cores que foram usadas nas paredes até aos objetos de decoração que eu mantinha ali. As paredes impecavelmente brancas pendiam pôsteres de várias bandas que eu adorava – ia de Pink Floyd e Beatles a Avenged Sevenfold e Iron Maiden –, havia umas estantes penduradas sobre a parede, onde eu guardava os meus livros, a maioria romance, tragédias e comédias de William Shakespeare, Nicholas Sparks, John Grenn e Emily Bronthe; e uma mesinha num dos cantos do quarto, onde eu mantinha meu computador, meu scanner e alguns livros sobre edição e fotografia. Eu tinha fotos em todos os lugares. Não necessariamente minhas. Às vezes com amigos, às vezes fotografias do colégio, ou fotos de algum lugar que eu tenha gostado bastante.

Uma porta do lado direito do quarto dava para o closet e para o banheiro. Dentro do closet só se podia ver espelhos, armários e estantes – e claro, porta-retratos em todo canto – e a parte legal é que uma das portas de um dos armários era “falsa”, ou seja, ao abrir dava para o banheiro. Pastilhas pretas e brancas desordenadas davam um ar de sofisticação ao lugar, assim como a cuba de mármore e um box preto. Tinha bastante luz lá dentro, pra quebrar os tons que as paredes e o box davam ao local.

Liguei a ducha e deixei a água cair sobre minha cabeça e senti toda minha tensão esvair-se junto com a água que caía pelo ralo. Lavei os cabelos, e esfoliei o corpo, depois enxaguei e saí do banheiro enrolada numa toalha branca. Vesti uma camiseta que eu comprara quando fui à Disney – era cinza com uma estampa do Mickey – e uma calcinha da Victoria’s Secret, daquelas que parecem shorts e voltei ao banheiro para secar o cabelo. Usei uma escova grande, e sequei até que grandes ondulações se formassem e ficasse com um volume ideal.

Eu não me pareço uma canadense, o que é meio óbvio já que não sou uma, mas também não tenho características totalmente brasileiras. Minha árvore genealógica é um pouco complicada. Meus bisavós maternos e paternos são alemães, mas vieram todos para a América quando a Alemanha passou pelo regime nazista. Eles não eram perseguidos nem nada, mas era um inferno viver naquele lugar, pelo menos naquela época, e então eles e mais um monte de alemães vieram para o Brasil e tiveram seus filhos aqui.

Meus avós, os quatro, nasceram no Brasil e suas famílias foram se mudando quando perceberam a desgraça que seria viver no Brasil uns anos depois – toda aquela história com Dom Pedro II e o golpe da maioridade já trazia consequências para o Brasil. Os meus avós paternos foram para o Canadá, que havia sido colonizado por franceses e ingleses, e os maternos foram para o Uruguai, que anos antes havia guerreado contra o Brasil, na Guerra do Paraguai.

Mesmo com esses conflitos, o Canadá e o Uruguai não eram cheios de complicações como o Brasil, que não tinha potencial para se tornar um país bom de viver futuramente, e então meus avós viveram nesses países até a morte, e foi nesses lugares que meus pais nasceram. Meu pai, canadense; e minha mãe, uruguaia.

Naquele tempo meu pai usara toda a sua herança para se dedicar ao jornalismo e se tornou um jornalista respeitado em sua região, já meu tio – que ainda vivia no Canadá – usou parte de seu dinheiro para estudar administração e mineração. Anos depois papai foi ao Brasil para escrever matérias e artigos sobre o Golpe Militar. Já minha mãe havia herdado a fortuna dos meus avós e decidira que iria voluntariar no Brasil anos depois, mais ou menos na mesma época que meu pai.

Lá eles se conheceram, quando meu pai escreveu um artigo sobre os voluntários que estavam tirando crianças feridas e desabrigadas das ruas. Apaixonaram-se e começaram a sair, mas no meio daquela confusão era bem difícil ter uma relação saudável e normal, então foram para o sul do país – onde agora se localiza a cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul – e viveram lá por uns anos. Foi quando minha mãe engravidou e meu pai decidiu que era melhor eles se mudarem para São Paulo. E foi aí, depois de uma noite que eles haviam saído para dançar, que eu nasci.

Papai continuou com o trabalho de jornalista, e depois de anos juntando metade do salário que recebia do jornal em que trabalhava, ele pagou uma faculdade de administração e passou a estudar também, só que por conta própria, minérios. Ao se formar na faculdade de administração, ele pegou suas economias e completou com o dinheiro que sobrara de sua herança e montou uma pequena mineradora. Hoje papai é sócio de uma mineradora internacional. A sede é no Canadá – meu pai decidira, quando eu tinha oito anos que o melhor seria se voltássemos para o Canadá, e abrir uma sociedade com meu tio, que também tinha uma mineradora de pequeno porte no Canadá. Juntos eles cresceriam nos negócios, na visão de meu pai, e ele não estava errado –, e possui umas filiais no Brasil e mais algumas no continente Africano.

Eu era morena clara – meus pais relatam que nasci claríssima, assim como meus bisavós eram, mas com o tempo fui pegando uma cor já que o Brasil é um país com muito sol –, e tinha um cabelo cheio de ondulações e uma cor indefinida. Não tinha uma estatura muito alta, e tampouco era magricela, mas também não era uma típica brasileira. Eu tinha um corpo proporcional, nada de exageros. No Canadá eu era um flamingo entre pombos, para ser bem franca, mas isso nunca me incomodou.

Eu ainda tinha um tempo livre antes de sair com o Roy hoje à noite, então pensei em tirar uma soneca, e foi o que fiz.

Definitivamente não sabia o que vestir, nem aonde iríamos. Optei por um vestido com mangas; acima do joelho, azul com cinza e um tênis vans combinando. Combinei uma corrente de ouro com uma pedrinha de cristal, que eu ganhara de aniversário de quinze anos – a tradição brasileira diz que os quinze anos são os mais importantes da vida de uma menina e, por isso meus pais fizeram questão de paparicarem, assim como no meu aniversário de dezesseis, que era a tradição no Canadá –, e alguns anéis, para dar um toque mais fino e elegante ao look, caso fossemos a um coquetel ou a uma festa assim.

A maquiagem era o toque especial de qualquer mulher, seja qual for a roupa. Os olhos eu deixei negros ao redor, mas usei uma sombra meio bordo, da mesma cor da pele, para dar um efeito iluminado. Nessa época do ano, era meio inútil passar blush, já que o frio deixava a pele rosada naturalmente, então apenas finalizei com um rímel e um gloss cor de boca.

Ouvi a buzina lá fora e quando desci me surpreendi ao ver que mamãe e papai não estavam em casa. Isso fazia parte do plano do Roy? Ou seria um plano do Roy e dos meus pais? Ryan estava metido nisso ou será que seria uma surpresa conjunta? Fiquei um tempo parada me indagando e ouvi a buzina soar outra vez.

Sai pela porta e pude ver o vidro do carro se abaixando e Roy me observando enquanto eu trancava a porta. – Uau, você tá incrivelmente linda – o ouvi elogiar quando entrei no carro.

– Obrigada, hm, você também não está nada mal. Aliás, os meus pais fizeram complô com você nisso? – Vi-o sorrir e revirar os olhos. Claro que sim, concluí. – Olha, eu estou ansiosa, você pode acelerar essa droga?! – Roy soltou uma risada e em meio a soluços, de tanto rir, ele pediu que eu me acalmasse, pois não era nada demais.

Era assim sempre que estávamos juntos. Essa leveza natural que existia entre nós, esse clima de companheirismo e amizade. Isso sempre foi claro pra mim, digo, nossa relação, a amizade que existia entre a gente. Roy era, sem dúvidas, meu melhor amigo.

Fiquei olhando Roy dirigir por um longo momento, até perceber que o carro estava reduzindo a velocidade, o que significava que estávamos chegando. Ao parar o carro, esperei que ele me apressasse para descer, mas isso não aconteceu. Ele continuou com as mãos fixas no volante, olhando o nada, a respiração lenta enquanto eu observava sua imobilidade e sua feição e isso me fazia tremer e ofegar. Percebi, naquele momento, que aquele seria um dos nossos últimos momentos sozinhos, e incrivelmente não me sentia assustada e nem com medo; pelo contrário, eu estava extasiada e só queria aproveitar cada momento que pudesse – olhando, admirando, conversando ou o beijando, quem sabe. Fiquei o fitando, até que naturalmente deixei meus lábios encontrarem os lábios dele.

– Veronica, me explica uma coisa – Roy começou com cautela, mas depois soltou logo sem se preocupar com as palavras – por que diabos vai morar num país onde a qualidade de vida, a educação e o nível intelectual é infinitamente inferior ao lugar que você vive?

Eu soltei um risinho baixo, ele tinha razão, mas nem eu mesma sou capaz de explicar o porquê daquilo. Talvez agora eu entenda o motivo, mas naquela época eu não sabia, mas sentia que tinha de voltar, e eu queria voltar, e era só.

– Eu realmente não sei, mas quero voltar. Apesar de tudo, é o meu lugar, Roy. – Ele fez um careta, certamente pensando que eu era maluca, ou qualquer outra coisa assim. Era uma verdade, já que no Canadá o acesso à cultura, lazer, educação, saúde e segurança eram bem melhores que em qualquer país em desenvolvimento, além do mais, a maioria da população falava pelo menos dois idiomas (inglês e francês), e no meu caso, três fluentemente, além do pouco que eu sabia de espanhol e alemão enquanto que no Brasil a maioria da população falava apenas a língua nativa. Isso, no entanto, não era tudo. Não para mim.

Olhei pela janela e vi que estávamos em frente a um salão de festas. Informal ou formal? Que tipo de festa? Aliás, era mesmo uma festa ou seria um coquetel ou seria uma cerimonia de homenagem ou de boas vindas a alguém? Bem, se fosse uma cerimonia, não seria uma de “Boas vindas”.

– Vamos entrar e você terá as respostas – Espera aí, Roy sabia ler mentes?

– Como sabe que... – ele me interrompeu antes mesmo que eu concluísse a pergunta: – Fácil. Está estampado na sua expressão.

Ao entrar percebei de cara a informalidade na decoração, nos trajes, na dança, na música e na comida. Era uma festa temática – era parecido com as festas que as boates brasileiras promovem. As luzes tinham cores vibrantes, e quando entravam em sintonia era possível notar como o lugar ficava mais claro e mais escuro inúmeras vezes, e aos poucos fui reconhecendo os rostinhos: Mike, Britney, Giulia, Robert, Doug, Mariah, mamãe e papai, Ryan, tia Lea e tio Peter, e mais um monte de gente do colégio. Mamãe veio me abraçar e dar as boas vindas à festa, e não pude deixar de pensar que, no dia seguinte, ela estaria me dando adeus.

– Oi, Veronica, eu vou sentir saudades – Doug me pegou no colo e me rodou no ar, pude perceber Roy sereno, mas um pouco desconfortável com o fato de ter um cara dando em cima de sua namorada na sua frente. Aliás, aquilo foi desconfortável inclusive para mim, eu sabia exatamente as esperanças que Doug alimentava sobre mim e ele, e eu jamais me acostumaria com um triangulo amoroso. Seria patético.

Quando Doug me colocou no chão novamente, Roy estava já estava do meu lado pegando minha mão e me puxando pra cumprimentar o restante dos convidados.

– Ele nunca vai desistir de você – Roy sorria enquanto falava e dei-lhe um tapinha no ombro.

– Está se divertindo com isso, seu cretino?! Olha, não é legal quando flertam com você na frente do seu parceiro, tá? – Observei-o sorrir novamente.

Passei a maior parte da festa experimentando a comida, tudo tipicamente brasileiro: Churrasquinho no espeto, mandioca frita, salgadinhos e mais algumas comidas que eram regionais (tinha acarajé, que era um prato da Bahia; bolinho frito de arroz com queijo e pequi – pequi era um fruto goiano muito difícil de encontrar fora do centro-oeste brasileiro). Para beber tinha cervejas, refrigerantes, sucos de cupuaçu e açaí, que são frutos típicos do norte do Brasil. Eles haviam caprichado nos preparativos, isso não dava pra negar.

Foi uma noite animada e agradável, mas por volta da meia noite a maioria das pessoas iam embora, pois todos tinham aula no dia seguinte e eu viajaria cedo, assim como Ryan. O salão, há horas atrás cheio, agora se esvaziava quase completamente, e só alguns rostinhos bastante familiares restavam ali, até os últimos minutos: Mariah, Robert e Doug, além da minha família e Roy, claro.

Mariah era minha melhor amiga, e com o tempo Robert também se tornou um dos amigos mais próximos que eu tive. Era com eles que Roy e eu costumávamos sair em programinhas de casal e me despedir deles foi mais doloroso que eu pudesse imaginar.

– Lembre-se que foi sua escolha, e você ansiou muito por isso. – Ryan sempre me dizia quando eu me sentia mal por ter de me mudar. Eu tinha pedido essa viagem pro meu pai antes mesmo de completar catorze anos, e ele concordou.

– Você está certo, mas de qualquer modo não é fácil abrir mão de tudo o que tenho aqui – eu retrucava sempre.

– Não encare como “abrir mão”. Encare como uma escolha. – Ele tinha razão, mas era difícil não escolher mamãe, papai e Roy. Em todo caso, eu só assentia e deixava pra lá.

Lá fora, grandes pingos de chuva surravam a telha e o ruído zumbia em cima de nós. Podia-se ouvir a correnteza descendo a rampa do estacionamento, e era perceptível as poças d’água que molhavam os nossos pés.

No estacionamento dei um último abraço em Mariah e Robert e vi lágrimas escorrerem dos olhos da minha amiga, ao entrar no carro. Aquilo me partiu o coração, e eu me sentia mal por isso. Robert fechava a porta do carro para Mariah quando Doug me puxou pelo braço e me deu um longo abraço:

– Vou sentir muito a sua falta, espero que não se esqueça de mim, – eu o olhei com um olhar de reprovação e o vi virar o rosto – quero dizer, da gente.

– Venha cá, me dá um abraço – sorri e dei-lhe um abraço rápido e logo em seguida me juntei aos meus pais.

Roy observava a cena com as mãos nos bolsos, como quem analisava algo de estranho ou implícito e eu me senti desconfortável, mas não podia cobrar o contrário dele conhecendo bem a ousadia de Doug. Quando me aproximei ele tirou as mãos dos bolsos, envolveu minha cintura e me beijou, ignorando as pessoas ao redor, senti sua mão no meu cabelo e a outra na minha cintura me puxando para mais perto. Óbvio que eu mantinha as mãos discretamente em seu pescoço, afinal meus pais estavam ali do lado.

– Eu tenho que ir, você me leva ou prefere que eu vá com meus pais?

– Você decide, mas se quiser eu a levo, se preferir é claro. – Assenti e disse a mamãe e ao papai que encontraria com eles em casa. Entrei no carro e segundos depois Roy pisava no acelerador enquanto saíamos com o carro para a chuva. Ficamos calados durante grande parte do percurso de volta para minha casa.

Sem perceber eu chorava, mas Roy permaneceu calado e dirigindo concentrado. Observei-o por um instante, de rabo de olho, e a feição dele estava distante, como quem fantasiava algo ou simplesmente divagava. Ao olhar para a janela pude notar que minhas lágrimas caíam com a mesma frequência frenética da chuva lá fora, meus olhos estavam todo borrados quando olhei no espelho retrovisor, mas isso pouco me incomodava. – Foi uma decisão sua Veronica – ouvi-o dizer, mas nem me dei o trabalho de responder por que sei que aquelas palavras eram para me servir de consolo, e não significava que estava me condenando nem nada parecido.

Ainda assim, não consegui parar de pensar em como eu era estúpida o suficiente para dar todo o crédito à razão e esquecer que o coração também manda na gente. E, como consequência da minha decisão, eu chorava mais que criança querendo algodão-doce.

– Eu só não queria abrir mão do que tenho aqui. Você, papai, mamãe...

– Não encare como abrir mão, – vi Roy abrir um sorriso enquanto imitava o Ryan falando – encare isso como uma escolha.

– É super difícil pra mim não escolher vocês. – Vi o esboço de um sorriso sombrio se formando, mas em seguida sumiu. É claro que sumiu! Do que estou me queixando?

– Acho que os Santos não estão colaborando com o programinha surpresa que eu tinha pra nós – agora ele sorria da própria piada, ou quem sabe, com malícia. Eu me lembro de ficar bem nervosa com essa revelação. O que seria o “programinha”? Sexo na praça ou o que? Na verdade, tentei não pensar nisso e apenas assenti e ele continuou – Eu estava planejando levá-la ao parque para vermos as estrelas como sempre fazemos.

– Ué, por que não? Com chuva ou sem chuva, as estrelas ainda estão lá – encorajei-o e ele sorriu e deu a volta no quarteirão, indo rumo ao parque.

A grama estava molhada o suficiente para encharcar nossa roupa ao sentarmo-nos, a fonte d’água caía num ritmo lento e constante, o vento atingia meu rosto deixando a ponta do meu nariz gelada. Roy acompanhava os galhos das árvores se movendo de um lado para o outro, numa monotonia gostosa e confortável. O silencio gritava tão alto que me ensurdecia e subitamente aquele ritmo lento diminuiu ainda mais. Demorei um minuto para perceber que estávamos imóveis, e mais do que isso, estávamos prendendo a respiração.

Senti Roy procurar minha mão e tocá-la, acariciando de leve. Senti seus braços me envolverem e me dar um beijo na testa, e outro na boca. Lentamente ele movia os lábios contra os meus, e agarrava minha cintura. Senti borboletas e nós no estomago e um espasmo de pavor correu pela minha cervical. Vacilei e estremeci, e Roy me soltou. Ele ficou parado enquanto eu tentava me desculpar e me explicar, enquanto eu me embaralhava com as palavras ele não se movia, nem dava sinal nenhum de que estava me ouvindo e por um instante senti como se aquele corpo estivesse sem vida. Calei-me e o vi suspirar. Eu estava pirando.

Ficamos nos olhando nos olhos por um momento, e uns segundos depois estávamos rindo da situação. Era no mínimo patética a maneira como estávamos agindo, já que nos conhecíamos tão bem e tudo o mais.

No minuto seguinte estávamos nos beijando, suas mãos na procurando minha coxa e me deitando na grama fria. Roy deitou-se do meu lado com o tronco em cima do meu; a excitação do momento chegando e apoderando-se do meu corpo, que respondia rigorosamente cada estímulo. Acariciava sua barriga e ele colocava meu cabelo para trás da orelha e sorria entre os beijos que me roubava. Quase rolou ali mesmo, na grama do parque enquanto a água caía sobre nós, mas um espasmo de sanidade caiu, ao que parecia ao mesmo tempo, sobre mim e ele e paramos por ali. Sorri, meio sem jeito, e ele me deu a mão para que eu me sentasse novamente, foi o que fiz.

Já tinha rolado algumas vezes, claro, mas não sempre, e também não assim, num local público. A nossa primeira vez foi na casa dele, quando estávamos fazendo um trabalho de Ética e comendo pipoca. Não sei bem como aconteceu, só me lembro de ter rolado um clima bacana e minutos depois estávamos nus na cama dos pais dele. Depois de ter acontecido, me lembro dele todo gentil dizendo que tinha adorado e fazendo de tudo pra me agradar nos dias seguintes. Acho que depois da primeira vez, não rolou mais do que umas quatro vezes, não sei bem. Afinal eu não fiquei contando. Claro que não.

Em casa, papai e mamãe assistiam a um jogo de hóquei quando eu passei pela porta. Eles me olharam com as feições desconfiadas e ao mesmo tempo como se estivessem se divertindo em me ver ali constrangida. Eu revirei os olhos e sorri enquanto subia as escadas falando que não tinha acontecido nada do que eles estavam imaginando naquelas cabecinhas maliciosas.

Dentro do meu quarto pela última vez. Essa foi a primeira coisa na qual pensei quando entrei, tentei afastar o pensamento. Tirei a roupa, coloquei algo leve e fresco, tirei a maquiagem, coloquei meus fones e liguei a música num volume baixo até que caí no sono.

O relógio marcava pouco menos das oito da manha quando abri os olhos, então fiquei deitada em forma de estrela-do-mar por um tempo, fitando o teto. Depois do que pareceu mil anos, eu me levantei e fui para o chuveiro. Passei mais um longe período no banho e a ansiedade aumentou enquanto eu me trocava. Daqui há algumas horas eu estaria embarcando, apenas algum tempo e tudo isso aqui ficaria para trás.

Notas finais
Esse foi o primeiro capítulo da história, gente. Aqui vocês puderam perceber mais ou menos o perfil de uma das principais personagens da trama, espero que tenham curtido. Não desistam da história agora, ela vai ficar melhor! Prometo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.