"A vida é com certeza o presente de alguém para nós", era o que a Ketily — minha esposa — costumava dizer em momentos felizes ou até mesmo tristes e este modo dela ver a vida sempre me encantou. Desde que a conheci eu nunca me senti só e quando descobrimos que seriamos pais, eu não conseguia imaginar se um dia eu sentiria uma felicidade ainda maior do que aquela que eu estava sentindo. Contudo, no dia em que estávamos voltando do hospital depois de descobrir que esperávamos uma menininha, parados esperando o sinal abrir, eu observei Ket. Ela estava linda, olhando e alisando sua barriga e com um sorriso ela disse "a vida é com certeza o presente de alguém para nós" no mesmo instante um sorriso me escapou e foi assim que nos despedimos. Sem que percebêssemos, um caminhão vinha rapidamente em nossa direção. Ele tentou desviar, mas atingiu exatamente o lado dela do carro. Eu sobrevivi. No hospital as pessoas me diziam que eu tive sorte, mas eu já tinha recebido a notícia de que havia perdido minha mulher e minha filha, sorte não me parecia a melhor palavra para ouvir naquele momento. Não sei dizer bem o que se passou pela minha cabeça nos primeiros dias. Depois do velório, depois de me mudar de casa aconselhado por amigos, depois de todas as mudanças, pensei que a dor diminuiria, mas a solidão só aumentava.

Agora eu era um homem solitário, morava afastado da cidade, não fazia muita coisa além de trabalhar e lembrar da Ket e seu sorriso. Um dia olhando para o espelho do banheiro, percebi que eu era o homem que jamais pensei que seria. A realidade bateu forte em meu peito, senti um aperto e disse a mim mesmo que esse não era o futuro que eu queria. Sem perceber eu já estava aos prantos, já não sabia mais o que fazer. Me senti como uma criança perdida. Fiquei minutos chorando no chão. Ao sair do banheiro foi ainda mais doloroso. Minha casa estava vazia, bagunçada, suja, triste, observava tudo, entrava nos cômodos na esperança de abrir uma das portas e encontrar Ket. Não perguntaria como ou quando ela voltou, só gostaria de sentir novamente como era a ter do meu lado. Comecei a imaginar como seria nossa vida naquela casa se nada daquilo tivesse acontecido, via tudo claramente, até consegui ver brinquedos espalhados por todo lugar e a nossa bebê correndo sem parar. Comecei a me sentir sufocado e sai correndo de casa. Já um pouco distante parei de correr, olhei rapidamente a minha volta, sozinho, não só naquele lugar, mas dentro de mim também parecia vazio. Qualquer um que olhasse para mim naquele momento veria o desespero em meus olhos.

Em questão de instantes eu gritei. Gritei o máximo que podia e ao mesmo tempo que gritava, podia sentir meu peito sendo rasgado de dentro para fora. Quase sem fôlego cai deitado na grama, observei o céu... e sorri. — você adoraria observar este céu lindo agora, Ket... — sussurrando continuei — e eu adoraria observá-la. Finalmente pude sentir meu coração acalmar-se um pouco. — "A vida é com certeza o presente de alguém para nós", né? Agora seria um dos momentos perfeitos que vocês diria isso, certo? Eu gostaria que nossa pequena tivesse a oportunidade de ver isto tudo, conhecer tudo de feliz e até mesmo triste que a vida nos apresenta. Estendi minha mão na direção do sol como se fosse capturá-lo e olhei para minha aliança, lembrei do abraço que ela me deu no dia em que a pedi em casamento. Fechei os olhos, uma lágrima escorreu pelo meu rosto, sorri e adormeci ali mesmo. Dias se passaram e em um dia qualquer no trabalho conversei com um colega, ele me falou de seu projeto. Seu objetivo era criar uma inteligência artificial forte. Seria capaz uma maquina de ter sentimentos? Ele me explicou em detalhes tudo o que havia concluído até o momento. Aos poucos foi fazendo sentido e parecia mesmo possível. Naquele dia foi difícil para mim trabalhar. Teria como um ser humano presentear alguém com a vida?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.