Insônia
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estou sozinha
Perdida na cama
E a pele buscando você
Seria uma longa noite para a taichou, que se revirava de um lado para o outro na cama, tentando em vão achar o sono. Mesmo tendo levantado, às cinco horas da manhã, mesmo reforçado sua já árdua rotina de revisão de relatórios, treinamento de recrutas, caça a prisioneiros e a Hollows, ela ainda não tinha sono. Seu corpo já se habituara ao trabalho pesado.
Olhou tentada para o pequeno frasco de pílulas que Unohana-taichou lhe dera, porém ela se sentiria uma fracassada tornando-se dependente deste tipo de coisa.
Mas, o que a ajudaria dormir? Deu um suspiro frustrado, definitivamente não seria nada fácil sentou-se na cama enfim.
Outra madrugada
Traumatiza
Fiquei assim por falta de amor
Seu quarto estava na penumbra, era iluminado apenas pela luz bruxuleante da lua crescente. Sentiu seu peito ser invadido por uma angustia um medo, uma culpa, tantos sentimentos fragmentados que era difícil para ela distinguir, porém de uma coisa ela sabia, a causa de todo aquele tormento que nos últimos tempos parecia insistir em manifestar-se sempre a noite tinha um único nome: Shihoin Yoruichi.
E o que mais a inquietava e o que mais a amedrontava, era o fato de que pela primeira vez na vida ela estava sendo obrigada a reconhecer, o que todo mundo já sabia, seu afeto, sua admiração até mesmo sua devoção, por Yoruichi não tinha nada haver com amizade. Era um sentimento mais profundo, que contraditoriamente foi semeado com um chute que ela num reflexo defendera quando ainda era um reles soldado.
E eu não posso controlar
É como um sentimento sem fim
Que vai tomando conta de mim
Fecho os olhos e começa a loucura
A verdade é que ela amava loucamente sua ex-shishou. E isto a deixava irritada para não dizer furiosa. Primeiro nunca havia nem cogitado a ideia de envolver-se com uma mulher, mesmo tendo recebido algumas cantadas que foram severamente repreendidas justamente por ela não entender como alguém poderia gostar de alguém do mesmo sexo. Não era preconceito, era apenas falta de entendimento, de como algo tão antinatural pudesse acontecer.
Segundo, ela e Yoruichi viviam literalmente em mundos diferentes, com pessoas diferentes, o único laço que as ligava era o eterno laço de mestre e discípulo, ou até mesmo como tanto insistia Yoruichi amizade. Essa última era herdeira de uma casa nobre a qual ela mesmo sendo capitã ainda servia, era inaceitável ela sentir-se dessa maneira com relação ao seu mentor. Aliás, era inaceitável ela sentir-se dessa maneira com relação a qualquer pessoa: tanto homem quanto mulher.
Como chefe da Onmitsu Kidou ela era obrigada a dar o exemplo, cumprindo a mais sagrada das regras: não se apaixonar.
Sem você eu me transformo toda noite
Encho as paredes com teu nome
Eu sempre fico mal
Esse é o meu normal
Louca
Fechou os olhos. Lançou mão de todas as táticas que conhecia, desde contar carneirinhos até uma sofisticada técnica de relaxamento que Byakuya-taichou lhe ensinara. Mas nada parecia ter efeito naquela insônia. Olhou mais uma vez para o vidro de remédios, ainda tentada em apelar para os comprimidos. Mas, ainda era uma hora da manhã, considerando que ela levantaria as cinco, ela ainda teria um tempo pra conseguir aquilo sozinha.
Mas, então as palavras de Kurosaki Ichigo ainda martelavam em sua cabeça. Isto há três dias atrás quando eles saíram para fazer uma patrulha em Karakura, ela foi convocada por causa da presença de um Menos.
FLASHBACK ON
Eles percorriam há algum tempo as ruas da cidade, seguiam em uma velocidade alta até mesmo para os padrões dos shinigamis. A verdade é que Soifon queria terminar com tudo aquilo de uma vez, ela queria evitar Yoruichi que lhe prenderia mais tempo ali.
Ichigo surpreendentemente a acompanhava detrás. Ambos lutaram, com o Menos, a luta foi relativamente rápida. Os dois contraditoriamente formaram uma equipe eficaz, ele conseguiu encurralar o monstro, e ela o matou com um combo de dois hits. Fácil assim. Mesmo ela não estando acostumada com trabalho em equipe.
– Uau, muito bom taichou. – Disse Ichigo, esquecendo-se do quanto àquela mulher podia ser fechada atreveu-se a dar uma tapinha nas costas dela. Vendo seu olhar de irritação, o rapaz ficou sem jeito.
– Er... Foi mal, é que eu pensei que não seria tão fácil assim. – Disse ele com um olhar sincero e isto de alguma maneira a desarmou.
– Apenas tenha mais respeito, eu ainda estou acima de você. – Disse ela já se afastando, porém o rapaz não ficou contente com sua resposta.
– Não precisa ser grosseira, foi só uma interação saudável entre dois companheiros de equipe.
– Esses festejos são para humanos. – Disse ela, entredentes. O rapaz ficou alguns segundos em silencio como se tentasse compreender aquelas palavras antes de retorquir suas palavras.
– Com todo respeito, taichou, mas mesmo sendo uma shinigami e independente de estar num posto elevado ou não, você continua sendo tão humana quanto qualquer outra criatura. E eu sei que bem no fundo desta sua dureza toda tem um coração que bate e ele esta repleto de sentimentos, que você insiste em não deixar vir à tona. Lamento por você. – Disse ele afastando-se a toda velocidade. Estranhamente não sentia medo, mas queria realmente ajuda-la a se soltar mais... Muitas vezes, ouvira Yoruichi fazendo comentários neste sentido também.
Porém, a raiva da mulher era tanto que naquele momento ela não viu as boas intenções do rapaz.
FLASHBACK OFF
Amaldiçoou mentalmente o shinigami substituto. Foi desde que ele dissera aquilo que sua insônia começara. Foi ele que desencadeou todo aquele tormento. É claro que ela não tinha um coração. Soldados não poderiam ter um foram feitos para matar e morrer, em nome de uma causa. Ela costumava dizer que lutava pelas regras, porém ela mentia descaradamente quando dizia isto, a verdade é que ela sempre lutou por Yoruichi.
“Yoruichi, Yoruichi, Yoruichi...” – Pela primeira vez amaldiçoou aquele nome.
Se ela não tivesse a abandonado por causa daquela espiga de milho que usa chapéu nada daquilo estaria acontecendo. Ela não teria toda aquela carência, ela não sentiria aquele vazio, e ela não conseguiria disfarçar o que sentia.
“OMG, Yoruichi nunca poderia saber...” – Pensou ela determinada.
Sem você
Fujo de mim e do momento
Voo pelas ruas como vento
Enquanto eu não te achar
Não posso despertar
Desse sonho que me deixa te ver
Mas não me deixa te amar
Mesmo que uma voz dentro dela dissesse que o que ela queria na verdade era Yoruichi ali. Na sua cama, abraçando-a naquela noite fria, apenas isto a faria dormir o sono dos anjos. Mas, logo sua razão, embalada por sua teimosia, tratou de afastar aquilo que ela insistia em chamar de devaneio.
Ela não podia nutrir aquele tipo de sentimento. Sua família já estava a pressionando para casar-se, afinal ela precisa gerar aquele que seria o próximo chefe do Clã. Para isto precisaria de um marido, um sorriso bobo surgiu nos lábios da mulher imaginando, Yoruichi como a mãe de seus filhos ou vice-versa, socou os dois lados da cabeça, aquela era uma das muitas razões que tornavam aquele tipo de pensamento uma insensatez.
“Eu não posso me apaixonar por uma mulher. Eu não posso me apaixonar por Yoruichi. Eu não posso sonhar com Yoruichi. Eu não posso continuar perdendo o sono por causa disto...” – Dizia ela já ofegante de tanto repetir aquilo que logo se tornara palavras vazias repetidas automaticamente. Sua mente estava fechando-se de uma maneira, que ela não conseguiria muito em breve discernir o certo e o errado. Esse era um dos sintomas de estar apaixonado.
Pelo menos era o que dizia uma daquelas revistas do mundo humano que Rangiku a obrigara ler por que ela nunca tinha nenhum outro assunto para palestrar na Associação Feminina que não fosse técnicas de assassinato, perseguição, tortura... Ou mesmo alguma coisa relacionada à Yoruichi. Às vezes, era como se ela conhecesse mais Yoruichi do que ela própria.
Por que eu não posso mais te amar?
Por que eu não posso?
Nunca mais pegaria aquelas revistas. De preferencia não conviveria tanto com Yoruichi. Na verdade, as duas quase nunca conviviam. Mas, iria diminuir ainda mais o contato entre as duas. Ia parar de colocar subordinados atrás dela, se bem que aquela era uma exigência do Clã Shihoin ainda assim, passaria as informações diretamente, mesmo que elas envolvessem festas, bebedeira e outras coisas indecentes, que ela sempre ocultara para evitar um escândalo.
Era curioso como sempre desde cedo ela protegeu Yoruichi. Uma lágrima caiu de seus olhos. Fazia tempo que ela não chorava, só chorou duas vezes, novamente por causa da mesma mulher. Mas, aquele era um fardo, um carma, um dever, que ela carregaria a vida inteira, era como se fosse um tributo por ter nascido na casa Fong. Teria sido um castigo?
Um castigo que ela começara a pagar quando seu pai lhe dera a alcunha que ela carregava: Soifon e dissera que sua vida era pra proteger Yoruichi. Seu pai sempre disse para protegê-la, dar sua vida se necessário nunca ordenou que ela entregasse seu coração. Um serviçal nunca se apaixonaria por seu nobre.
Eu fiz de tudo
Te dei corpo e alma
Exagerei, foi demais (demais)
Parece absurdo
Não existe no mundo
Outra louca que te ame mais.
Era isto a verdade mais do que óbvia, estava se tornando tão clara que ela mesma não podia negar. Sentimento e dever, por muito tempo misturou-se em seu coração. Talvez ela sempre soubesse, mas ela nunca quis aprofundar-se em nada daquilo, por que querendo ou não ela continuava servindo Yoruichi.
Então ela se foi, e ela poderia ter ficado livre, como alguns integrantes de seu clã mais rebeldes fizeram, mas ela agarrou-se com forças, ao objetivo de ser mais forte do que ela, de ser sua sucessora, para afastar o próprio sentimento de inutilidade. Mais do que isto, era o ciúme que ardia em suas veias, era o amor não realizado que transbordava em seu peito, e convertia-se em raiva e frustração. Foi por isto que ela ficou tão amarga.
Ela entregou sem perceber o que tinha de mais precioso para mulher, e ela negou. Talvez, por que não soubesse, mas Yoruichi era inteligente. Quem sabe fosse mais lúcida do que ela própria e entendesse que aquilo era loucura.
E eu não posso controlar
É como um pesadelo sem fim
Que vai tomando conta de mim
Fecho os olhos e começa a loucura
“Eu amo uma mulher. Eu amo Yoruichi-sama”. – Ela repetia baixinho, as palavras que ela antes não permitia nem em pensamento. Ela falava aquilo como se fosse um tamanho absurdo que deveria ser imediatamente cessado.
Mas, quando ela fechava os olhos nada parecia absurdo, era como se a morena tivesse ao alcance de suas mãos. Mas, não era sim, ela sempre estaria inalcançável. Enquanto ela estaria condenada aquela tortura, que lentamente esvaia sua razão.
Sem você eu me transformo toda noite
Encho as paredes com teu nome
Eu sempre fico mal
Esse é o meu normal
Louca
Perguntava como seria se Yoruichi pudesse ler seus pensamentos. Ela a perdoaria? Ela a entenderia? Será que iria achar graça de tudo como sempre. Ou então quem sabe...? Um suspiro escapou de seus lábios, mas novamente sua razão, disse ser impossível. Aquele amor não aconteceria.
Por mais que ela desejasse, por mais formas que sua mente criasse para saciar aquela constante ausência, definitivamente ela sempre amaria sozinha.
Sem você
Fujo de mim e do momento
Voo pelas ruas como vento
Enquanto eu não te achar
Não posso despertar
Desse sonho que me deixa te ver
Mas não me deixa te amar
Ela poderia ser como um cãozinho contente com as migalhas ou fazer uso de seu orgulho para afastar-se o máximo de Yoruichi. Não envolver-se com nada que tivesse haver com a mulher. No fundo duvidava que pudesse fazer algo assim, porém ela não havia tentado naqueles últimos dois ou três anos que haviam se reencontrado.
Ela poderia se declarar e correr todos os riscos, ou poderia apenas ficar quieta. Ela poderia colocar nem que fosse a força outra pessoa em seu lugar, quem sabe assim ela esqueceria. Seu clã ficaria agradecido, a pressão desapareceria, e tudo ficaria bem, uma vez Unohana dissera que o verdadeiro amor nasce se fortalece com o tempo.
Porém, a ausência deve enfraquecer esse sentimento. Não foi o que aconteceu, mas ela tornou Yoruichi sua mais forte obsessão. Ela sabia que não era um capricho, antes fosse, mas ela sempre foi mulher de batalhas difíceis, e tanto conquistar Yoruichi, quanto esquecê-la eram batalhas perigosas. Naturalmente ela estava mais tentada pela primeira...
Por que eu não posso mais te amar?
Mas, no fundo ainda tinha todos os dogmas e mitos, impostos por sua rígida educação. Ela sabia que nunca conseguiria assumir algo desse tipo com tanta naturalidade, dificilmente conseguiria superar o próprio temor, mais do que isto, não sabia se conseguiria suportar o preconceito de outras pessoas, e ainda expor Yoruichi a este tipo de situação.
Não, ela não deveria alimentar aquele sentimento. Por mais forte que o fosse. Ainda era difícil admitir para ela mesma, que amava Yoruichi, quem dirá para outras pessoas. Muito menos para a principal interessada.
Naquele instante lutar com Barragan de olhos fechados parecia mais fácil perto da dificuldade de dizer uma única palavra: Aishiteru.
Sem você eu me transformo toda noite
Encho as paredes com teu nome
Eu sempre fico mal
Esse é o meu normal
Louca
No dia seguinte decidiu falar com o conselho de seu clã, mandar que eles escolhessem o seu pretendente, independente de quem fosse ela se casaria. Mais uma vez ela se sacrificaria em nome de um bem maior e esqueceria o que o Ichigo disse. Esqueceria aquela história de ter um coração com sentimentos, deixa-los vir à tona era definitivamente perigoso... Quanto a Yoruichi ela deixaria a decisão para depois, quem sabe o tempo se encarregasse de tudo...
Sem você
Fujo de mim e do momento
Voo pelas ruas como vento
Enquanto eu não te achar
Não posso despertar
Desse sonho que me deixa te ver
Mas não me deixa te amar
Ela olhou o relógio já passava das duas horas da manhã, considerou que precisava daquelas horas de sono, pra começar Yoruichi não roubaria dela mais nem um segundo de sono. Avançou para o vidro de onde tirou não apenas um, mas dois comprimidos, que por algumas horas iria esquecer, por algumas horas simplesmente ela deixaria de existir... E então teria força pra fazer valer tudo o que prometera a si mesma naquela noite...
Então fechou os olhos, mas tornou a abri-los erguendo a cabeça, para um ponto do quarto aquele que ficava próximo à janela, teve a impressão de que algo brilhara na escuridão, mesmo com a visão começando a turvar-se por causa do efeito do medicamento, ela tinha certeza que era um brilho dourado, exatamente como os olhos de um gato.
Deu um sorriso de deboche, até com o remédio insistia em ver coisas. Yoruichi nunca estaria ali, em silencio, muito menos àquela hora. E se estivesse pela primeira vez na vida aquilo não tinha importância. E então a escuridão a sugou enquanto de seus lábios, saia o tabu que ela mesma se estabelecera.
– Eu não posso te amar... – Disse a mulher falando quem sabe pela última vez aquele nome. – Yoruichi-sama.
Por que eu não posso mais te amar?
Por que eu não posso?
Por que eu não posso?
Por que eu não posso?
Por que eu não posso mais te amar?
E então enfim ela adormeceu, correndo o risco de não cumpriria sua agenda matinal, porém aquela era apenas a primeira das muitas mudanças que ela esperava que acontecessem em sua vida.
Ah, ah...
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