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22 Capítulo 22


Capítulo 22

Eu não estava com pressa e nem Emma, ainda assim parecíamos caminhar em uma velocidade sem controle. Estávamos totalmente a mercê de um Universo que parecia entender todos os nossos desejos e então nem percebemos quando começamos a fazer parte uma da vida da outra como se nunca tivesse sido diferente. Ainda assim, estávamos cada uma em uma velocidade, Emma sempre a frente ou completamente fora do meu universo, mas por algum motivo eu ainda sentia como se pertencíamos a mesma página.

Ela simplesmente me entendia, meus silêncios, meus gestos e meu olhar que sempre buscava pelo dela. Em alguns dias, eu me perguntava se minha existência era apenas uma ilusão e ela havia me criado em sua mente. Havia também a distância e sua ausência quando ela precisava criar. Nesses momentos, eu cogitava se eu ainda pertencia ao seu mundo, mas então sua mão tocava a minha e seu sorriso era direcionado a mim e isso me acalmava e me trazia de volta ao chão.

Nós passamos uma semana juntas, em meu apartamento, no meu restaurante ou no escritório que ela trabalhava. Dividíamos três mundos, nos encaixávamos nos três e nos perdíamos em todos eles. No meu apartamento, nos compartilhávamos segredos, toques, beijos e intimidades. Em meu restaurante, eu mostrava a ela meu mundo particular e tentava ver em seu olhar e em suas perguntas uma amostra de que ela realmente estava disposta a embarcar em tudo o que eu era. No seu escritório, eu tentava entrar em seu mundo e essa era a parte mais difícil, pois era quando o seu silêncio se mostrava presente.

Talvez fosse minha impaciência ou a minha falta de visão artística, mas todos os dias ali com ela, afundada em seus papéis, cores e mundos fictícios, eu me questionava se realmente nos encaixávamos. Aos poucos, essa insegurança foi me deixando e eu fui aprendendo a ver o que eu representava na vida de Emma.

Durante seus silêncios, eu me afastava, pensando que ela não notaria minha ausência, mas era só eu cruzar a porta que o olhar de Emma procurava desesperadamente o meu. Ela então sorria aliviada ao ver que eu ainda estava ali e eu suspirava e tirava de mim um peso que as vezes eu sequer notava que estava carregando.

Em uma noite, eu perguntei a Emma aonde estávamos indo e o que representávamos uma para a outra. Eu estava deitada de frente a ela, tocando seu rosto e desejando que eu ainda tivesse forças para tê-la novamente aquela noite, mas nós duas já estávamos exaustas e precisávamos acordar cedo para organizarmos o jantar de noivado de Elsa e Anna. Emma se aproximou de mim, o lençol caindo de seu corpo, revelando sua pele.

Eu suspirei diante da visão a minha frente, senti seus dedos em meu rosto e seus lábios tocando os meus. Eu fechei os olhos, sentindo seu gosto e a maciez de seus dedos, que conseguiram fazer com que todo meu corpo se arrepiasse. Em meu ouvido, ela respondeu que não importava aonde estávamos indo e que, naquele momento, nós éramos tudo o que eu desejasse e também éramos nada.

“Nós somos livres.” Ela disse em meu ouvido, se afastando e me beijando outra vez.

Seus olhos verdes, fixos nos meus, me acalmaram e responderam minhas últimas dúvidas. Não importava de fato aonde estávamos indo ou se pretendíamos sequer chegar a algum lugar. Nós estávamos juntas naquele momento, mas meu passado cheio de perdas me impedia de relaxar, pois eu temia que a qualquer momento esse mesmo Universo bondoso que a entregou a mim, a levasse de volta.

Emma não foi levada de mim aquela noite e eu acordei com ela, parada no pé da minha cama, usando o vestido que jamais caberia nela se a tia de Elsa não tivesse mandado reformá-lo e moldá-lo ao seu corpo. Ela estava linda, rodando pelo quarto, com a luz do sol iluminando seu corpo e a saia do vestido fazendo-a voar pelo espaço daquele cômodo.

Eu a observei, sem saber o que dizer ou sem querer estragar o silêncio que me permitia aproveitar cada segundo daquele momento. Ela parou de repente, suas mãos na cintura, seu sorriso iluminando-a e seu olhar me convidando para mais perto de si. Ajoelhei-me na cama e meu corpo nu se juntou ao dela. O tecido macio em contato com a minha pele e seus lábios nos meus fizeram-me fechar os olhos.

Eu jamais conseguiria reescrever o mundo ao qual Emma me levava durante esses beijos, talvez fosse um lugar que ela mesma havia criado e compartilhado comigo. Todavia, durante nossos beijos, eu me sentia fora de mim e mais conectada a uma parte de Emma que eu imaginava que poucos conheciam. Eu gostaria de poder dizer o que eu devolvia a ela, porque as vezes eu pensava que pegava tudo o que ela tinha a oferecer e dava nada em troca.

Naquele dia, porém, eu percebi que não era bem assim. Depois do jantar, quando a maioria dos convidados já haviam ido embora e a equipe de limpeza se preparava para limpar o local, Emma se aproximou de mim. Eu estava parada ao lado da minha equipe e eu não havia tirado os olhos de Emma a noite inteira. Ela estava linda e completamente feliz, temi quebrar essa felicidade, mas quando sua mão tocou a minha e ela me puxou ao centro do salão, eu senti que essa felicidade não seria quebrada, mas sim compartilhada.

“O que você está fazendo?” Eu perguntei, sentindo suas mãos ao redor da minha cintura, seu olhar fixo ao meu e seu sorriso tão grande e tão generoso me dizendo para segui-la e não questiona-la.

Não havia música, não de princípio, e eu estava deslocada, com meu uniforme, meu sapato fechado e nada confortáveis para dançar. Então, a música preencheu o lugar e eu não ousei segurar meu sorriso ou minha felicidade, permiti Emma me girar ao redor do salão e nós sequer estávamos conectadas a música, mas sim a nós mesmas. Não sei dizer quando a música se tornou lenta ou quando o corpo de Emma se juntou ao meu, meus braços ao redor de seu pescoço, a música alta demais para que eu escutasse o que ela dizia em meu ouvido.

Seria um ‘eu te amo’? Eu perguntei no primeiro momento, mas ela então repetiu ‘obrigada’ foi o que saiu de seus lábios e meu olhar confuso se cruzou com o seu. ‘Obrigada por trazer de volta todas as cores’ ela disse novamente e eu encostei minha testa a dela e sorrimos uma para a outra.

Aquela não era nossa música ou nossa valsa e muito menos uma celebração de nosso amor, mas Emma fez com que fosse e continuou fazendo nos meses que se seguiram. Eu ainda lutava para me encaixar em seus silêncios, em sua arte, em suas ausências emocionais e Emma sequer precisava se esforçar para tornar isso mais fácil, as coisas simplesmente fluíam.

“Você nunca vai dizer que me ama, não é mesmo?” Eu perguntei uma manhã, na mesa do café que ela mesma havia preparado.

Emma parou com sua faca suja de geleia no ar, sorriu e tirou sua atenção de mim, antes de voltar a suas torradas. Ela nada disse nos segundos seguintes e eu me arrependi da pergunta, mas então houve um suspiro, Emma se encostou na cadeira, cerrou os olhos e eu tentei adivinhar o que viria a seguir.

“Você acha que eu não te amo?” Perguntou Emma, deixando-me sem reação.

“Não foi isso que eu disse.” Respondi, depois de alguns segundos. “Eu sei que você ama. Eu sinto isso, mas é estranho não ouvir de sua boca.” Continuei a dizer. “Não é como se fosse uma frase sagrada. Você pode dizê-la sem medo de quebrar algum encanto.”

Ela me encarou silenciosamente, com um meio sorriso nos lábios e uma expressão que não entregava nada. Eu novamente me arrependi da minha pergunta e senti, durante aquele silêncio, que talvez nós fossemos um daqueles casais que um ama o outro mais. Emma estendeu sua mão sobre a mesa, apertou meus dedos e sorriu, voltando sua atenção as torradas e eu me peguei pensando em como esquecer tudo o que eu havia dito.

“Espero que você saiba que eu te amo e que isso não vai mudar se eu não ouvir essa frase de volta.” Eu respondi e me senti como aquelas adolescentes de filmes melodramáticos, querendo algum tipo de aprovação.

“Espero que você também saiba disso.” Ela respondeu. “Regina, sagrado é só o que sentimos. Todo o resto é invenção ou ilusão. Eu não tenho problema de dizer que te amo. Eu só estou esperando que uma frase melhor seja criada, porque eu sinto como se o mundo inteiro já usou essa frase para descrever um sentimento que para mim é tão novo. Eu quero uma frase que seja só nossa ou tão pura quanto o que criamos.”

“E se jamais acharmos?” Eu perguntei e Emma deu de ombros.

“Não se preocupe, Regina. Uma de nós possui uma mente bem criativa e a outra consegue criar algo completamente novo de vários ingredientes já conhecidos. Nós vamos surgir com algo.”

Eu tentei seguir esse romance como se eu não sentisse falta dessa pequena frase, com o tempo eu realmente fui deixando de sentir falta do que essas palavras representavam. Uma parte de mim acreditava que era infantilidade minha exigir essa amostra de amor, mas eu também sabia que de fato eu sentia falta dessa frase que eu tanto ouvia dos lábios de Ruby. Era essa a diferença, Emma não era Ruby, mas sim algo completamente novo e eu ainda estava me adaptando a toda essa novidade.

Era tarde da noite quando ela apareceu em meu restaurante. Emma tinha aquele ar que fazia com todos se virassem para vê-la e não foi diferente aquele dia. Toda a cozinha parou para recebê-la e ela caminhou até mim, ignorando todos os códigos de vestimenta e de higiene do lugar. Ela me beijou ali mesmo, com as mãos para trás, em uma tentativa de fingir que respeitava as regras do local e então riu, fazendo um gesto para que eu a seguisse.

Eu achava impressionante a forma que ela me fazia quebrar todas as regras que eu mesma havia criado. Ali estava eu caminhando até ela em direção ao meu escritório, fechando a porta atrás de mim e esperando que Emma desse o primeiro passo para que eu pudesse então perder o controle. Emma conhecia exatamente meus receios e meus desejos, ela veio até mim, parecendo extremamente excitada e deixando explicito que não queria conversa.

Encostei meu corpo ao dela, pressionando-a contra a mesa, suas mãos pressionaram meus cabelos puxando-os e ganhando acesso ao meu pescoço. Seu hálito quente em minha pele me excitou de imediato e eu perdi os sentidos por alguns microssegundos quando seus lábios tocaram meu pescoço. Ela jamais se preocupava em ser gentil ou em não deixar marcas, eu senti seus dentes cravando em meu pescoço, sua mão buscando urgentemente os botões da minha roupa arrancando-a.

Nos minutos seguintes, meu corpo estava completamente despido e Emma agora me encarava, encostada contra a mesa do meu pequeno escritório. Eu não me mexi, permaneci parada diante de Emma, sentindo o frio correr pelo meu corpo, arrepiando os pelos de meus braços, endurecendo o bico de meus seios. Minha respiração se tornou exasperada, enquanto eu olhava bem no fundo dos olhos verdes de Emma.

Ela se afastou da mesa, levantando-se e parando exatamente a minha frente. Suas mãos caminharam até a sua calça jeans, tirando lentamente seu cinto e jogando-o sobre o chão. Nenhuma palavra foi trocada por nós, havia apenas o silêncio e nossos olhares fixos um no outro. Eu conseguia ignorar o frio, pois observá-la se despindo lentamente aquecia algo dentro de mim. Ela sorriu, quando deslizou sua calça pelas suas pernas, para em seguida tirar sua camiseta, ficando apenas de sutiã e calcinha.

Seu corpo andou até o meu, sua barriga quente contra a minha gelada, seus dedos em minhas costas, pressionando minha pele fria. Tirei seu sutiã, a abracei enquanto ela me beijava e deslizei minhas mãos por todo seu corpo, até encontrar o tecido fino de sua calcinha, sentindo as curvas de sua bunda, apertando-a de modo a trazer seu corpo totalmente ao meu.

Meus lábios nos dela e nossa pele trocando o calor uma com a outra contavam uma história que Emma não conseguia colocar em palavras. Mas eu sabia que havia uma, cada toque e gemido de seus lábios eram novos para mim e eu sentia a urgência em suas ações. Jogamos todas as coisas da mesa ao chão e ela me deitou sobre o vidro duro e gelado, por um segundo eu temi que meu corpo pudesse não ser aguentado, mas no minuto seguinte eu me senti levitando, quando sua boca quente se atreveu em meu sexo.

Eu não poderia cair ali ou em lugar nenhum enquanto estivesse em seus braços. Então, fechei meus olhos, afundei meus dedos em seus cabelos loiros enquanto ela me devorava com sua língua. Era impossível me controlar e eu sequer tentei, senti meus gemidos se propagando pela sala, provavelmente invadindo as paredes e ecoando pelo restaurante, mas eu seria estúpida demais se mandasse ela parar. Meu corpo se contorceu sobre aquela mesa e se aqueceu como se eu estivesse prestes a explodir em suas mãos, em sua boca, ali a sua frente.

Naquele instante seguinte o mundo se apagou e voltou de uma forma completamente nova. Perdemos a hora e a noção de nós mesmas aquela tarde e ninguém ousou nos atrapalhar. Deitamos sobre nossas roupas no chão, sem se incomodar com o frio que ainda existia ou com os passos e a presença das pessoas lá fora. Emma havia criado um universo onde só nós duas existíamos e onde apenas nossas leis reinavam, de modo que nada ou ninguém poderia nos atrapalhar ou nos trazer de volta a uma realidade que já não mais nos pertencia.

No final da noite, pegamos um taxi de volta ao meu apartamento. Emma se propôs a preparar o jantar e eu a observei caminhar de um lado para o outro pela cozinha, seguindo uma receita que ela havia escolhido. Não me atrevi a atrapalhar ou dar qualquer opinião para ajudá-la, ela queria fazer tudo sozinha e meu trabalho foi apenas sentar no balcão e admirá-la

“Por que essa urgência tão grande de mim essa tarde?” Eu perguntei e ela desviou a atenção da panela da qual mexia e olhou para mim.

“Eu sempre tenho essa urgência de você.” Ela respondeu, sua mão sobre a cintura e seus cabelos amarrados no topo de sua cabeça. “Hoje eu só decidi atendê-la. Por quê? Não gostou?”

“Eu adorei.” Eu respondi. “Embora eu acredite que meus empregados jamais me respeitarão novamente depois do que ouviram.” Continuei e isso a fez rir.

“Eu acredito que eles sequer olharão para você de agora em diante.” Disse Emma, abaixando o fogo da panela e caminhando até mim, sentando-se na cadeira ao meu lado.

Inclinei-me para um beijo, senti suas mãos no meu rosto e fechei meus olhos, enquanto seus lábios beijavam meus lábios, bochechas, pescoço, para então se afastar e sorrir para mim. Ela pegou minhas mãos, as apertou e eu senti novamente que ela tinha algo para me contar, mas não conseguia ou não sabia como colocar em palavras.

“Está tudo bem?” Eu perguntei e ela assentiu, mas seu olhar entregou um nervosismo. “Emma, pode me dizer qualquer coisa. Há algo errado no trabalho?” Ela suspirou, soltou minhas mãos e correu seus dedos pelos cabelos presos, soltando-os. Seu olhar era sério e frustrado, ela se apoiou no balcão e me encarou.

“Não é nada com o trabalho. É minha mãe, quer dizer, também não há nada de errado com ela, mas eu preciso voltar para lá. Eu preciso voltar para Califórnia.”

“Por quanto tempo?” Perguntei e ela balançou a cabeça, demonstrando que não sabia responder.

“Alguns dias, talvez. Semanas, meses?” Ela respondeu, incerta. “Eu realmente não sei. A clínica que ela está internada vai passar por algumas modificações, eles não poderão mais ter pacientes internados e eu terei que encontrar uma clínica nova. Acontece que é importante que a família esteja por perto durante o tempo de adaptação, caso algo dê errado. Qualquer mudança para ela é complicada demais. Eu posso não ser de grande ajuda, mas ainda assim é minha obrigação estar presente. Pode ser que ela se adapte e não sinta diferença ou pode ser que seja um completo desastre e isso atrapalhe seu progresso no tratamento. De qualquer forma, eu preciso estar lá.” Completou, senti sua voz carregada de preocupação e tristeza.

“Califórnia não é assim tão longe, Emma. Eu posso te acompanhar por um tempo e depois voltar para cá e como você disse, pode ser que ela se adapte muito bem.” Respondi. “É essa sua preocupação? Passar um tempo lá?”

“Não.” Ela respondeu. “Minha preocupação é ter que te deixar e ficar sozinha naquele lugar. Eu sei que ela é minha mãe e eu quero estar lá, mas outra parte sente que é apenas por obrigação e eu temo passar tempo suficiente e descobrir que na verdade o que eu sinto por ela não significa nada. Eu tenho medo de não sentir nada por ela.”

“Mas você sente.” Eu disse e ela sorriu. “Não é? Você a ama e isso te assusta. Eu também estaria assustada. Eu sei que ela não é e nunca será o que você esperaria que ela fosse, mas talvez você ainda encontre algo que sequer imaginava encontrar nela.”

“Talvez.” Ela respondeu.

“E eu estarei aqui quando você voltar e poderei estar lá também se você precisar que eu esteja.”

Ela se levantou, caminhou até mim e me abraçou apertado, senti seus braços me apertando, senti suas lágrimas molhando meu pescoço. Era uma despedida e, pelos seus gestos, ela estava cansada de me dizer adeus. Apertei seu corpo no meu e fechei os olhos, imaginei como seria os dias sem ela, senti o desespero que ela carregava em si e desejei poder largar tudo para acompanha-la, mas eu precisava ficar.

O resto da noite se tornou silencioso demais, saber que os dias seguintes seriam seguidos da ausência dela me destruiu por dentro. Não comentamos ou conversamos mais sobre o assunto, pois não havia mais o que resolver. Ela voltaria em breve, isso era uma certeza, mas talvez sua distância desmoronasse tudo o que havíamos construído nos últimos dias.

Nos deitamos também em silêncio, senti o corpo dela junto ao meu, mas eu sabia que sua mente estava longe demais dali. Talvez nenhuma de nós tenha dormido, ainda assim nenhuma de nós tentou qualquer tipo de conversa. Esse silêncio se tornaria maior quando ela fosse embora e mesmo sabendo que era passageiro sua ausência, eu temi que o silêncio se tornasse grande demais a ponto de dominar essa relação.

“Você já acordou?” Perguntou Emma, que estava deitada sobre meu peito. Ela inclinou sua cabeça para trás, afim de ver meu rosto e eu toquei em sua pele com meus dedos, beijando-a.

“Eu não sei se eu dormi.” Eu respondi e ela sorriu gentilmente e nos viramos uma para outra. Eu vi em seus olhos que as preocupações da noite ainda a perseguiam. Eu tentei acalmá-la, acariciando seus braços, para lhe dizer que eu estava ali e que ainda estaria quando ela voltasse, mas sabia que havia muito mais do que dúvidas sobre como ficaríamos depois dessa separação.

“Nós passamos seis anos longe uma da outra e ainda assim nos encontramos.” Eu disse, depois de um pequeno silêncio que se seguiu. “Esse tempo não será nada. Não é?”

“Mas nós precisávamos dessa distancia antes, agora tudo o que precisamos é uma da outra.” Ela respondeu.

“É, eu sei.” Eu respondi e me senti tão patética por não saber o que dizer, então lhe disse o que se passava em minha mente. “Então fica, Emma. Você não precisa ir.”

Ela franziu o cenho, se apoiou em seu cotovelo e me encarou. Não entendi de primeira o que passava em seu rosto, mas no instante seguinte, quando ela se sentou e balançou a cabeça, eu entendi que ela não havia gostado da minha sugestão. Também me sentei e antes que ela tivesse a chance de me contestar eu comecei a falar.

“Não estou dizendo para você desistir da sua mãe. Jamais pediria isso. Mas se ela precisa mudar de clínica, talvez ela pudesse vir para uma clínica aqui. Quer dizer, a menos que haja uma verdadeira razão para que ela continue na Califórnia. Eu não sei, mas é uma alternativa. Então você não precisaria mudar sua vida para ficar esse tempo com ela e nós não nos afastaríamos. Talvez seja egoísmo te pedir isso, eu sei, porque provavelmente eu estou te pedindo isso porque a ideia de me afastar de você me desespera.”

Ela não respondeu imediatamente, passou as mãos pelos cabelos e pareceu ter ido para tão longe que eu me assustei. Peguei sua mão e a segurei com as minhas e ela sorriu, mas eu sabia que havia algo dentro dela.

“É que mantê-la longe me fazia crer que eu não precisaria me esforçar para fazer parte da vida dela. Entende? Ela me assusta, Regina. Tudo o que a envolve me assusta e eu tenho medo de me conectar demais, porque ela não pode criar essa conexão e eu não sei se eu saberia me colocar em seu mundo, sem me perder no meu. Para mim é mais fácil essa distância geográfica que me impede de criar qualquer outra coisa com ela. Para mim é muito mais fácil não tentar.”

Eu me aproximei, a puxei em meus braços e a abracei. Tentei me colocar em sua pele, mas era difícil demais para mim criar esse cenário em minha mente. Eu não queria insistir na minha ideia e força-la a ter essa convivência da qual ela não estava pronta. Mas a cada segundo que eu a tinha ao meu lado, mais desesperador ficava a ideia de ter que deixa-la ir novamente.

Ela se afastou de mim, seu olhar triste e seu sorriso quebrado, mas seu toque em minhas mãos me dizia que estava tudo bem. Ela voltaria para mim e então eu esperei. Na semana seguinte, eu a levei até o aeroporto e nos despedimos no saguão de embarque e eu descobri que odiava despedidas. Nos abraçamos e nos beijamos e só nos soltamos quando seu voo foi anunciado. Eu não poderia ir com aquele dia, mas combinamos de nos ver no final de semana. Eu temi não conseguir passar uma semana sem ela e me senti ridícula demais por sentir essa necessidade diária dela ao meu lado.

Eu descobri em sua ausência que amar alguém por amar nunca é a resposta e que ou eu tinha tudo ao lado dela ou eu não tinha nada. Eu não podia dizer que nosso amor morreu quando ela foi embora, mas eu entendi que ele só era real se fosse vivido e compartilhado, guarda-lo em mim não era uma alternativa. Não havia completado uma semana que ela havia ido embora, mas eu sentia que o tempo havia corrido uma eternidade.

As chamadas em meu celular mostravam que eu havia falado com ela uma hora antes, mas dentro de mim parecia que havia completado um ano sem ela. Eu não sabia se era saudável precisar tanto de alguém assim ou se sequer era normal, mas era impossível se desapegar dessa necessidade. Faltava algo em mim e eu estaria mentindo se eu dissesse que era capaz de preencher esse vazio sozinha.

No final de semana eu compraria uma passagem para Califórnia e passaríamos dois dias juntas e então eu voltaria passa a solidão dessa casa. Pensar em quantas vezes eu faria isso até que o desespero me consumisse me deixaria louca, então tentei dormir e esquecer por um segundo que Emma existia. Mas ali estava ela, em meus sonhos, em tudo e ao acordar na madrugada, sozinha, eu aceitei que Emma estaria em tudo.

Sentei-me na minha cama, olhei para o quarto escuro e busquei pelo meu celular na escrivaninha. Liguei então para ela, o celular chamando e chamando, mas nunca sendo atendido. Desisti e caminhei até a cozinha. A escuridão do apartamento me consumia e essa sensação se seguiu pela madrugada fria e solitária. Eu não voltaria a dormir, pois viver nessa realidade sem Emma era equivalente a sequer viver. Quando a manhã surgiu e a luz do Sol invadiu a janela da sala, o celular então tocou. Era Emma e ouvir sua voz deu sentido aquele dia.

“Eu acho que eu estou ficando louca.” Eu disse, ouvindo a risada dela ao fundo. “É sério, Emma.” Continuei. “Eu acredito que não seja nem saudável amar alguém assim, mas aqui estou eu, te amando com tudo o que restou em mim e sem saber o que fazer com tudo o que eu sinto.”

“Apenas sinta, Regina.”

“Eu não acho que seja suficiente.” Eu respondi. “Porque já é o que eu faço e parece que isso vai me consumir a qualquer momento. Eu só queria que você sentisse metade do que eu sinto, pois talvez doesse menos em mim.”

“Não deveria doer, não é mesmo?” Ela perguntou. “Deveria ser simples e bonito, como todo mundo descreve, mas amar é essa dor constante. Eu não acho que vamos sobreviver a isso, Regina.”

“Então você também sente?”

“Sim, eu sinto tudo.”

“Eu não faço a mínima ideia do que fazer com tudo isso. Sentir não é o suficiente, nunca será e a alternativa é muito pior, pois eu jamais escolheria sentir nada por você. Eu prefiro ser consumida por tudo isso do que viver em um vazio. Eu sei que estou sendo dramática demais, mas –”

“Eu amo você, Regina.” Ela disse, deixando-me sem palavras, enquanto eu observava a luz do Sol invadindo tudo. “Eu passei esses dias procurando por uma frase melhor do que essa, mas não existe. É simplesmente isso o que eu sinto. Eu te amaria mesmo que eu não tivesse escolha. Não vai doer menos te amar, mas doí mais a distância. Então, eu não vejo outra escolha além de viver ao seu lado tudo o que nós sentimos. Eu quero casar com você, Regina. Eu quero voltar no tempo e casar com você todos os dias.”

“Emma...” Eu comecei a dizer, sentindo que tudo o que eu guardava em mim agora também consumia o cômodo onde eu estava e se juntava a luz do Sol explodindo tudo a minha frente. “Eu queria poder ouvir isso olhando em seus olhos.”

“Então abre a porta.”

“O quê?” Eu perguntei, mas a ligação caiu e eu olhei para o celular em minha mão e antes que eu pudesse ligar novamente para ela a campainha tocou e em um pulo eu corri até a porta.

Emma estava ali parada, com um buquê de flores em suas mãos, flores completamente coloridas, de distintas espécies. Eu sorri para ela, seu rosto molhado por lágrimas, misturando-se ao seu sorriso. Ela deu um passo à frente, me entregou o buquê e eu me vi voltando no tempo e lembrei que jamais havia dado um buquê de rosas a Ruby. Emma parada a minha frente era uma resposta do Universo, dizendo a mim que existia segundas chances e que nenhuma dor é eterna. Segurei o buquê em minhas mãos e as cores das pétalas se juntaram as cores que Emma trazia consigo.

Eu aceitei aquele pedido de casamento, pois a única forma de fazer esse amor parar de doer era permitindo que ele nos consumisse. Emma era como aquele Sol que invadia a escuridão tornando tudo quente e queimando tudo que tocava. Eu era só uma folha branca de papel, queimando ao seu toque, ao seu calor e o contrário disso era ser consumida pelo vento que só me levaria sem rumo pelo mundo e eu preferia ter alguém para girar em torno. Então, que fosse Emma meu Sol e que fosse só dela meu amor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.