Capítulo 1

Eu nunca entendi o motivo pelo qual minha mãe sempre dava uma festa quando a empresa do meu pai fechava um grande contrato. Ela dizia que era importante, pois seus amigos e clientes precisavam estar cientes de que meu pai ainda estava na ativa e que ainda era capaz de fechar grandes negócios.

Sempre achei idiotice, mas ao longo dos anos eu fui me acostumando com as festas. Porém, nunca me divertia em nenhuma delas, nunca tinha jovens da minha idade, sempre homens mais velhos e suas esposas, com assuntos referentes aos seus trabalhos. Jamais me interessei por isso, mas fazia o papel de boa filha e dava sempre meu melhor sorriso quando algum convidado me abordava e puxava assunto.

Crescer ao redor de tantas pessoas bem sucedidas e importantes foi uma das piores coisas que poderia ter me acontecido. Eu sofria com a pressão por parte desses ‘amigos’, sofria com suas perguntas e questionamentos a respeito dos meus planos para o futuro. Eu não tinha nenhum plano para o futuro. Eu não precisava me preocupar com o futuro.

Minha mãe simplesmente respondia todas as perguntas que diziam respeito a mim, eu apenas acenava com a cabeça e sorria gentilmente, enquanto tentava abafar todos os gritos que ecoavam dentro de mim. Viver ao lado daqueles homens e seus ternos impecáveis era um verdadeiro inferno. Viver ao lado de uma mãe extremamente controladora era um verdadeiro inferno.

Eu não sabia até quando eu aguentaria tudo aquilo e havia dias que eu pensava que eu realmente poderia desistir de tudo. Um dia tudo mudou. Eu então conheci minha primeira paixão: a culinária. Eu havia conseguido fugir de uma conversa chata sobre um dos antigos clientes do meu pai e corri até a cozinha, onde a chef que minha mãe havia contratado para a ocasião estava finalizando os últimos detalhes dos aperitivos que seriam servidos.

Eu tinha 15 anos na época e me lembro até hoje do cheiro de ervas frescas que havia tomado completamente o ar. Eu me aproximei da mulher, que estava inclinada sobre o balcão, concentrada em finalizar os pequenos detalhes dos pequenos salgados.

Ela desviou a atenção do que estava fazendo e seu olhar se encontrou com o meu. Em suas mãos havia um pequeno pincel, ela sorriu para mim e sua atenção voltou para os salgados. Eu me aproximei mais e a observei finalizá-los. Com a ajuda do pincel, ela passou uma pequena camada de um creme sobre o salgado, polvilhando com queijo ralado em seguida.

“Você não deveria estar na festa?” Ela perguntou.

“A festa está um saco. A comida está ótima, porém.” Respondi, ela agradeceu o elogio com um sorriso e sua concentração se voltou para os salgados.

Eu permaneci onde estava, sem me mover. Observar cada detalhe do que ela fazia me absorveu de tal forma que, quando eu me dei conta, eu estava questionando-a sobre cada detalhe do que ela estava fazendo.

“Talvez você devesse fazer um dos meus cursos básicos sobre culinária.” Ela me disse certa hora e me entregou um de seus cartões.

Foi difícil convencer minha mãe a me deixar fazer as aulas. Ela não via sentido em fazer um curso que me desviava completamente do que eu realmente deveria estar fazendo. Minha mãe estava tendo dificuldade em aceitar que eu jamais seguiria os passos dela ou do meu pai, mas eu prometi que se ela me deixasse fazer o curso básico, eu iria me esforçar mais para entrar na faculdade que ela tanto queria. Ela acabou aceitando, mas não acho que imaginou que aquele curso de duas semanas acenderia em mim um desejo que eu nem sequer imaginava que havia em mim.

Minha paixão pela gastronomia me levou para longe e me colocou numa briga eterna com a minha mãe, que simplesmente não conseguia aceitar que eu não podia seguir minha promessa de entrar na faculdade que ela tanto queria. Meu pai não ligou muito para isso, na verdade, ele foi quem mais me incentivou a seguir meu sonho.

Então, foi assim que eu consegui sair do país nas férias de verão e ir para Paris, para estudar na melhor escola de culinária Francesa. Na França, eu vivi os melhores meses da minha juventude e conheci minha segunda paixão.

O nome dela era Ruby e, assim como eu, ela também estava fazendo intercâmbio. Ela estava morando a poucas quadras da família que estava me hospedando e foi minha melhor amiga durante os meses que eu passei lá. Nos conhecemos em uma lanchonete fast-food, eu estava morrendo de saudades de casa e achei que um hambúrguer fosse me ajudar a me sentir melhor. Lá estava ela, na fila da lanchonete, eu soube logo que ela não era local, pois o francês dela era péssimo.

“Tenta fazer o pedido pelo número.” Sugeri.

Ela se virou, me encarando com seus olhos azuis e um sorriso logo surgiu em seu rosto.

“Por favor, me diz que você é americana.” Disse e parecia um alivio para ela poder falar inglês novamente.

Eu confirmei com um aceno e ela se jogou nos meus braços, o que me deixou bem confusa e sem reação. Em seguida, nós fizemos nossos pedidos e passamos o resto da tarde conversando sobre o quanto sentíamos saudades de casa. Ela era três anos mais velha que eu, estava lá para estudar francês e a família que a estava hospedando levava a sério o estudo da língua, de modo que nenhum deles falava com ela em inglês. Então, ela passava a maior parte do tempo fora de casa, procurando turistas americanos para conversar.

“Parece uma atividade bem perigosa.” Eu disse, enquanto dava uma mordida no meu hambúrguer e tentava com todas as minhas forças ignorar o quanto o sabor era péssimo e nada parecido com o do meu país.

“Perigosa?” Ela me questionou, rindo da minha observação. “O único perigo que se corre na França é o de se apaixonar.” Concluiu e sorriu para mim.

Nossas saídas passaram de passeios inocentes pela cidade a algo que até hoje eu não sei dizer ao certo como começou. Eu nunca havia saído com garotas e aos dezesseis anos eu só havia beijado um garoto na vida (e graças a uma brincadeira estúpida em uma festa de uma das garotas da minha escola), mas eu não havia sentido nada e nunca havia me questionado a respeito.

“Como a gente realmente sabe se estamos apaixonados?” Eu perguntei a Robin, um garoto que estava morando na mesma casa da família que eu estava hospedada. Ele era de Londres e tinha o sotaque mais irritante que alguém poderia ter, mas ele era bem bacana, quando não estava tocando aquele violão desafinado dele. Robin me encarou, seu rosto tomou uma expressão de dúvida.

“Do que você está falando, Regina?” Ele me questionou, me fazendo revirar os olhos e jogar a cabeça para trás.

Nós estávamos sentados no sofá da sala, sozinhos, a televisão ligada em algum canal francês enquanto tentávamos traduzir o mais rápido possível o que as pessoas diziam. Era uma brincadeira bem estúpida, mas estava chovendo e os nossos ‘pais temporários’ haviam saído para comprar comida, de modo que tínhamos que encontrar algo para passar o tempo.

“Eu estou falando de me apaixonar.” Respondi. “Como você sabe que está realmente apaixonado?” Continuei e percebi pelo seu semblante que ele não fazia a menor ideia do que eu estava falando.

Eu deduzi que não conseguiria ajuda com ele, era um caso perdido. Levantei-me do sofá e caminhei até o meu quarto. A chuva lá fora havia engrossado, não havia nada para fazer. Liguei o rádio que havia no meu quarto e uma música em francês cantada por uma vocal feminina começou a tocar.

Joguei-me em minha cama, tentei recapitular meu dia, mas só havia Ruby em meus pensamentos. Não consegui parar de pensar nela, no quanto ela era divertida e no quanto ela me instigava e no fato de que faltavam apenas duas semanas para eu voltar para casa e nunca mais vê-la. Esse pensamento me atormentou, eu me levantei para ir até o telefone residencial e ligar para ela, mas para minha surpresa a energia caiu. O rádio se silenciou e eu me vi em pé, completamente no escuro.

“Regina, está tudo bem por ai?” Era a voz de Robin atrás da porta, eu gritei dizendo que estava tudo bem e ele me disse que iria procurar algumas velas ou lanternas e que voltaria logo para “me salvar”. “Ah, uma amiga sua ligou perguntando se você estava em casa, mas quando eu disse que ia te chamar, ela simplesmente desligou.” Ele completou e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, eu ouvi os passos dele descendo as escadas.

Eu me sentei na cama e aos poucos a minha visão foi se adaptando a escuridão. Eu já podia distinguir os móveis do pequeno quarto em que eu estava, a mesinha no canto com meus livros, a cadeira com minha mochila e minha blusa pendurada sobre o encosto. Encostei minhas costas contra a parede e me permiti pensar em Ruby, até que alguém bateu à porta e não esperou por uma resposta para adentrar.

“Robin?” Perguntei, não houve resposta, a porta apenas se fechou e meu coração se acelerou com medo. Eu estava prestes a gritar, mas então eu senti o peso de alguém se sentando na cama onde eu estava e ouvi a voz dela.

“Sou eu. Ruby.” Respondeu. “Ele é um pouco estúpido, mas aposto que não vai demorar muito para descobrir que a luz foi cortada de propósito.” Continuou.

“Você cortou nossa energia?” Perguntei, um pouco perplexa e ao mesmo tempo irritada.

“Desculpa.” Respondeu rapidamente, encostando-se junto a mim.

Mesmo na escuridão eu podia ver seus traços, seus longos cabelos negros caindo pelo seu rosto e a pouca luz que invadia a pequena janela do quarto dava ao seu tom de pele um ar melancólico.

“Por que você fez isso?” Perguntei e senti a mão dela tocar a minha. Sua mão estava gelada e molhada. Presumo, então, que ela havia caminhado na chuva.

“Eu sou bem covarde.” Disse Ruby. “E não conseguiria dizer isso olhando diretamente para você.” Continuou e eu percebi que ela olhava para qualquer lugar, menos para mim.

“O que você tem a dizer?” Perguntei, colocando minhas mãos sobre as delas a fim de aquecê-la.

“Eu gosto de você, Regina.” Disse ela. “Eu gosto de você da forma mais estúpida e intensa.” Completou e eu desejei poder ver os seus olhos. Desejei não ter rido, pois ela não estava achando a menor graça. “Você pode me achar bem patética, porque eu também me acho, mas o fato de você não sentir nada por mim agora, não me fará gostar menos de você e isso é o que mais me mata.”

Ela então se virou para mim, apenas um lado de seu rosto foi iluminado pela fraca luz. Nós nos encaramos em silêncio, por alguns segundos, parcialmente no escuro, esperando que alguma de nós fosse mais valente que a outra.

“Eu vou te beijar agora.” Disse Ruby e eu estupidamente respondi um ‘ok’. “E tudo bem se você não quiser me ver amanhã. Eu vou entender.” Eu senti que ela estava prestes a dizer o maior discurso de sua vida, então eu toquei em seu rosto, o que a fez se calar e se aproximar para um beijo.

Seus lábios eram quentes e macios. Ela me beijava como se já desejasse isso há algum tempo. Cada vez que nossas línguas e lábios se encontravam, eu me sentia cada vez mais leve, cada vez mais dela. E de uma forma bem estúpida e intensa, permitimos que aquele beijo se transformasse em algo a mais.

Ela deixava bem explícito que entendia mais do meu corpo que eu mesma. E eu teria aproveitado cada segundo, cada beijo, cada toque por debaixo das minhas roupas se eu não estivesse tão preocupada com o fato de que a qualquer momento a luzes se acenderiam e Robin entraria no quarto, ou pior, meus ‘pais temporários’. Isso jamais aconteceu.

Ela parecia ter planejado tudo, de modo que se controlou aquele dia e foi embora assim que ouviu o carro dos meus ‘pais’ estacionando. Antes de sair, ela me deu um beijo demorado e eu a vi desaparecer pela porta do quarto. Alguns minutos depois, as luzes se acenderam e eu teria imaginado que tudo não havia passado de um sonho ou de uma alucinação, mas ao me levantar e encarar meu reflexo no espelho, eu vi as marcas que ela havia deixado em mim e o batom dela ainda estava em meus lábios.

Eu dormi aquela noite e em todos os meus sonhos lá estava ela, ao acordar, eu entendi que não precisava mais me questionar a respeito do que eu sentia por ela. Nós nos encontramos aquele dia em frente a lanchonete onde nos conhecemos, eu me lembrei da frase que ela havia me dito e sorri para mim mesma.

Ela se aproximou, era uma tarde fria e o vento balançava seus cabelos negros e ela se esforçava para impedir que seu vestido se levantasse e mostrasse suas pernas. Eu me peguei observando cada detalhe dela, como se eu quisesse gravar cada um deles. Ela era perfeita e eu quis dizer isso em voz alta, mas tudo o que saiu da minha boca foi: “De todos os perigos que você poderia ter corrido em Paris, você escolheu correr o mais estúpido de todos eles.”

Ela sorriu para mim, eu a vi corar, toquei em sua mão e ela a segurou em seus dedos, sem se preocupar se alguém poderia ou não nos ver.

“Eu não acho que eu tive escolha alguma.” Respondeu com um sorriso.

Pensando agora nesse romance e na forma como tudo começou, eu realmente acredito que nós não tivemos escolha. Nós simplesmente nos apaixonamos. Um dia nós éramos duas amigas andando pelas ruas de Paris, rindo do sotaque dos franceses. No outro, nós éramos duas amigas completamente apaixonadas uma pela outra, andando pelas ruas de Paris com um sorriso estúpido em nossos rostos e vivendo da forma mais intensa que podíamos.