Instinto
1 Gênesis
Notas iniciais
Ela surgira pálida...
Intensa luz sobre opaca pele, suave medo sob intensos olhos. Estrangula a voz, o ar no peito sufoca, geme a dor insana, regozija o estranho prazer.
“Ela sorrira ao dizer que era chegada a hora. Ele não sorrira de volta, o medo é cruel e implacável, paralisa quem o respeita e destrói quem o renega.”
Ela surgira trêmula...
Firme ventre para um bélico ser, mãos fortes contra o corpo inquieto, suaves sussurros acalmam a alma ansiosa.
“Fique calma, meu anjo. tudo ficará bem, eu prometo.” Ela dizia entre gemidos e suspiros sufocados, dizia para o ventre que pulsava e contraia contra o corpo. Dizia para “ele”, que parecia a beira do abismo, prestes a pular. Para Klaus, se ele a estava ouvindo, compreendendo, era um mistério para nunca ser desvendado.
Ela surgira feroz...
Mordem os dentes contra os lábios, belos lábios, vivas cores.
Rasgam o ar, gritos que lembram rugidos, escorre suor pela face, pelo pescoço, pelas mãos. Mãos sobre mãos, nós indissolúveis.
Elijah está ao seu lado.
Rebekah está ao seu lado.
Klaus não sabe onde está.
Ela surgira temerosa... Surgira em pânico, surgira em nada.
“Força, força!” Ordens por severidade de Eve.
“Empurre Hayley. Está quase lá, faça força.” Súplicas por amor de Elijah.
“Vai dar tudo certo, Hayley. Vai ficar tudo bem.” Mentiras por consolo de Rebekah.
O sangue mancha os lençóis, o terror corrói as faces, a morte impregna o ar.
Então surgira o fim...
“Eu não suporto mais!” fraqueza.
“Tem algo errado...” medo.
“Hayley, não me deixe.” dor.
“Salve-a! Você tem que salvá-la!” desespero.
“A criança está viva!” esperança.
“Corte!” salvação.
“Não! Vai matar Hayley!” escolhas.
“Ela está morta!” realidade.
“Corte!”
Ele ordena. Obedecem.
Ele a segura antes de todos.
Parece bem. Não tem certeza, respira e chora. Não, inspira e canta. Melodiosa e afinada, encanta. Então ela se cala. Tem olhos verdes como a mãe, os orbes o fitam e não o veem, não prestam atenção, desfocam.
Agora está bem, tem toda certeza. As marcas não doem mais, o passado é névoa tênue e esvoaçante. Voltou a respirar, a viver. A amar. Então ele chora e também tem olhos verdes, como alguém, ninguém. Os orbes a fitam, deliram, têm fascinação, não conseguem desfocar.
Ele a leva consigo e não solta, não ouve, não pensa. Ninguém, não há ninguém, só um vazio.
E Elijah não chora por Hayley, e no fim era o que ele queria não a criança, era a garota. Mas Klaus não o perdoaria, a garota ensinaria a criança sobre coisas erradas, sobre pessoas ruins e a criança chamaria o irmão bondoso de pai e o irmão malvado de ninguém.
E Rebekah não o enfrenta e não grita assustada para que a entregue. Ele não cede, não ouve. Não solta. Ela é sua e de mais ninguém.
Ela não chora, apenas se move devagar e faz algum som, qualquer som. Sons de bebês. Ele a olha, não há olhos verdes, estão fechados, A luz incomoda. Ele a encobre com o braço, tem ciúmes, a luz não a atinge o verde retorna.
Ela busca por algo no algodão da camisa, não encontra, entristece, faz de choro, ele entra em pânico. A balança, suave e lentamente e a língua chia contra os dentes, pedindo silêncio, pedindo não, suplicando.
“Por que você, minha cara santa, é a mais digna de adoração.”
Não se lembra de quando apreendeu, mas sabe. Natural e puro. Ela silencia, mas o balanço não para, ela se move e as pequenas mãos ainda sujas do sangue da mãe, vão à boca que suga com força. Tem fome.
Ela fica frustrada, mas não larga as mãos, talvez seja apenas um conforto.
Adentra ao quarto, ele a deita na cama e tranca a porta. Não se aproxime. Segue até o banheiro e enche a banheira, verifica a temperatura, imagina-se a queimando e estremece.
Volta ao quarto e Rebekah a tem nos braços. Enfurece e avança, selvagem.
Rebekah diz algo sobre ela precisar de cuidados. “Eu cuido dela.” Ele afirma avançando contra a irmã mais uma vez.
“Vai queimá-la com essa água escaldante!” Ela grita entrando no banheiro e medindo a água com o braço livre. Ele encolhe. Não tinha intenção de machuca-la, todas suas más intenções e desejos sangrentos direcionavam-se a irmã, ladra.
“E que roupas pretende vesti-la?” ele não a ouvia, mas ela tinha razão.
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Ela estava limpa e vestia rosa e Rebekah era ridiculamente cariosa, Klaus não quis mais matá-la, talvez não agora.
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E estavam no cemitério, cemitério não é lugar de criança. Esperaram no carro e Davina os olhava de longe, acenou para Elijah e revirou os olhos para Klaus que segurava a filha adormecida entre os braços. E Elijah estava firme e compenetrado e conversava com Kiera e Marcel surgiu.
Hayley tomou a filha nos braços, agora mais fortes que nunca, e a olhou com mais adoração que nunca. Era hibrida agora. Gerada pela própria filha, uma troca mais que justa. Uma vida por uma vida.
Marcel e Klaus conversavam e Hayley poderia ouvir, mas não queria.
Klaus abraçou Marcel, desejando boa sorte com o reino e Marcel desejou boa viagem e que retornassem logo. Klaus apertou a mão de Kiera e Davina não o olhara, Josh ao seu lado, fiel escudeiro.
Voltou para o carro acompanhado do irmão, Elijah sorria, ou talvez não, tinha certeza que sim.
Rebekah no passageiro espreitava por mais uma olhada em Marcel, Elijah no motorista espreitava pelos olhos de Hayley no retrovisor.
E Klaus havia se despedido de Cami, fizeram amor. Ela não quis acompanhá-lo, era uma viagem de família.
Klaus ao lado de Hayley, apenas no carro, a respeitava pela força e coragem e só. Era grato a ela pelo melhor acontecimento da sua vida. Sem encará-lo ela entregou o pequeno ser em seus braços, tinha pulso firme e segurança, com sempre fora desde o ventre. Klaus a aconchegou junto ao corpo, ela dormia tranquila. Ele segurou a pequena mão entre seus dedos e beijou o dorso macio, no pulso, em ouro branco, preso a uma fina corrente, um pingente e nele estava escrito á fogo: Gênesis M.
E o carro seguiu para longe da cidade, o jato para longe do país e o navio para outro continente. Ela cresceria na Europa, onde tudo começou, onde tudo renasceu, onde tudo prosperou.
Pois ela era em si um começo, uma nova vida. Ela era Gênesis, o princípio.
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