Inspirações Avulsas

2 Guerra dos Reis (?)


O Rei queria se vangloriar dizendo que todos aqueles 140.000 soldados estavam lá por ele, por lealdade ou simplesmente por quererem lutar pela sua bandeira. Ou talvez, ele gostaria de dizer que comprara cada um daqueles mercenários e que pagara as melhores companhias de mercenários possíveis: The Gold Company com seus milhares de espiões, magos deserdados e cavaleiros exilados; The Black Royalty com seus assassinos, bruxas e bárbaros; os Bravos Companheiros do Mar com seus milhares de piratas experientes, marinheiros traidores e barcos, dracares, caravelas e tudo que pudesse navegar sobre o mar.

Ah, o Rei James queria acreditar que todos aqueles homens eram verdadeiramente deles e que os líderes de cada companhia mercenária juraram suas espadas a ele por acreditarem que James merecia o trono. Ah, uma parte dele até acreditava nessas mentiras, mas os mercenários deixavam muito claro que o seguiam por apenas uma razão: a moeda de duas caras.

Estavam marchando. O grande exército de milhares de homens percorrendo quilômetros no sol quente e no solo quebradiço. James suava como nunca e amaldiçoava o sol. A paisagem era feia e quase desértica. Com poucas árvores retorcidas quase sem folhas, um pouco de mato, poças rasas de água espalhadas, o chão arenoso e com frestas. A poeira grudava em sua pele como uma sanguessuga. O cavalo se mantinha forte entre suas pernas e a marcha estava numa velocidade regular. Queria chegar logo ao porto, onde os Bravos Companheiros do Mar os esperavam juntos com os barcos de batalha que levariam todos aqueles mercenários para o outro lado do mar, onde se juntaria com o pai, o grande Lorde George, e derrubaria de vez todos contra o reinado do Rei James e da Rainha Snow.

Tentava se manter forte e acordado, mas dormira pouquíssimas horas nos dias anteriores. Se dependesse dele, o Rei estaria em uma liteira ou numa carruagem, comendo com fartura, bebendo vinho e protegido do sol quente, mas não podia. A moeda de duas caras comprara os líderes das companhias mercenárias, mas não comprara a lealdade de seu exército. Alguns homens, especialmente os bárbaros da Black Royalty o olhavam com desprezo e a última coisa que James queria era voltar para casa com um exército que o odiava. Então, abrira mão de seu luxo para poder mostrar àqueles homens que poderia sim ser Rei e que deveria ser temido e obedecido.

Os líderes das companhias mercenários o provocavam sempre e ficaram surpresos quando James declarara que acompanharia a marcha a cavalo. O líder da The Gold Company viajava na carruagem com seus livros, informantes e planos cruéis, mas a tal companhia era o menor das preocupações de James. Mr. Gold, como gostava de ser chamado o líder, era um homem alto, com seus 40/50 anos, cabelos até os ombros e olhos escuros. Parecia sempre estar rindo de alguma piada que só ele conhecia. Um homem astuto, sempre com vestes caras escuras com detalhes dourados. Usava sempre a mesma adaga, com um nome enorme marcado no ferro, na cintura. Não tinha guarda-costas, só um rapaz mudo ou uma garota cega que normalmente se perdiam em meio a todos os soldados e empregados que os seguiam. Às vezes, Mr. Gold se juntava a marcha montado em um grande garanhão marrom, andava por algumas horas debaixo do sol escaldante, depois voltava a sua carruagem.

Quando o líder não estava presente, seu intendente, Jefferson, tomava seu lugar. O rapaz passava a marcha rindo com os homens, ou reclamando ou puxando briga com os bárbaros e as mulheres da Black Royalty. Jefferson era um homem bonito, jovem, entre seus 20/30 anos, impulsivo e vitima da síndrome de Imortalidade que todo jovem espadachim adquire durante alguns anos. Até que ele morre ou quase isso, pensou James, mas não podia julgar, o próprio Rei ainda sofria dessa velha e mortal doença. O jovem intendente, às vezes, conseguia a briga que queria, mas sempre apanhava até Gold ou algum outro capitão da Gold Company interferisse. A própria Black Royalty jamais separou uma briga.

No mais, a Gold Company era tranquila. Seus homens eram disciplinados e se referiam a James como “Vossa Graça” ou “Senhor Rei”. Se houvesse alguém problemático (mais do que Jefferson), nunca chegou aos ouvidos de James. Mas, a Black Royalty era completamente diferente. Composta por assassinos e bárbaros, que, em sua grande parte, foram libertos da escravidão. Eles eram insubordinados, falavam mais línguas do que James podia imaginar existir, vestiam roupas estranhas, usavam armas estranhas, riam de títulos como “Vossa Graça” e “meu Senhor”, matavam cruelmente sem pensar duas vezes, oravam a deuses pagãos e eram o exército mais perigoso que James já pensara em enfrentar.

Desde que pisou naquele novo continente, literalmente separado de tudo que ele conhecia por um imenso mar, James já vira muitos exércitos, muitos guerreiros, muitos mercenários e temeu a todos, mas nada se comparava ao terror que sentiu quando sua pequena comitiva enfrentou a Black Royalty em batalha. Verdade seja dita, sua comitiva de 30 homens enfrentou 20 dos mercenários. Foi quase um massacre. Perdera 15 de seus homens no dia e só sobreviveu por causa da moeda de duas caras. Fora sorte, muita sorte, pois qualquer bárbaro, qualquer capitão, iria ignorar a moeda e mata-lo com o resto de seus homens, mas a líder da Black Royalty conheceu o símbolo e parou a batalha.

The Black Royalty odiava a fraqueza. Desprezavam o covarde. Riam da morte. Viviam apenas para batalhar, beber, foder, ganhar ouro e proteger a líder, a quem chamava de “Rāṇi”, ou pelo menos era algo assim que ouvia. James se surpreendia diariamente com a forma que a mulher controlava seus homens. Ela era cruel, mais cruel do Lorde Geoge era com seus homens, mas enquanto Lorde George tratava seu exército com indiferença, a “Rāṇi” tratava seus mercenários com um certo grau de respeito. Por exemplo, ela nunca marchava dentro de uma carruagem ou liteira, sempre estava a frente da marcha em sua égua negra como a noite, com aquela espada leve, afiada e longa pendurada em sua cintura.

James podia vê-la a alguns metros deles, rodeado por dois grandes bárbaros, suas sombras. O exército mercenário a rodeava, não estavam brincando como a Gold Company, nem reclamando como a pequena comitiva de James, eles ficavam calados e sussurravam as vezes. James estranhara esse comportamento, pois os bárbaros não eram calados nos acampamentos, eles bebiam e gritavam a noite inteira se ninguém os proibisse, mas Claude, um velho espadachim exilado da Black Royalty explicou: “Somos nômades, Rei Vermelho, sabemos que para sobreviver temos que poupar nossas energias. Conversar, brincar, brigar e até reclamar pode nos prejudicar se formos atacados.”

Rei Vermelho era o apelido que um dos bárbaros da “Rāṇi” tinha inventado. Quando Jack, que no momento lutava para ficar no cavalo poucos metros atrás de James, perguntara para o homem, cujo nome era Rakharo, o bárbaro rira e respondera: “Por que ele sempre se chama de “Rei” e sempre está com aquela capa vermelha”.

Ao contrário de Gold, que sempre sorria para si mesmo e sumia nas sombras, a “Rāṇi” atraia todos os olhares não importava o que fizesse. Se James não fosse casado com Snow e se ele não fosse o amante de Jack, o Rei com certeza tentaria se enfiar entre os lençóis da líder mercenária. Bem, sinceramente, ele já tentara várias vezes e na última tentativa, Rakharo disse que cortaria seu membro e o daria para os porcos se ele continuasse a se insinuar para a “Rāṇi”. James a olhou horrorizado, enquanto ela gargalhava.

A “Rāṇi” tinha curtos cabelos negros e isso por si só já era escandaloso, de onde James viera homens usavam cabelos curtos e às vezes longos, mas mulheres sempre os usavam longos. Ela tinha olhos intensos e escuros. Um sorriso extremamente arrogante, às vezes quase sádico. Uma característica que ela e Mr.Gold partilhavam. Estava sempre com sua montaria negra e acompanhada por Rakharo, Alloe e Zo, três enormes brutamontes devotos a “Rāṇi”. Jack achava que eles a consideravam uma espécie de Deusa, portanto quando James mencionara isso quando cavalgava ao lado da líder mercenária, ela rira.

“ E o que é um deus, meu querido Rei, se não algo que os homens temem?”

“Mas você se considera uma Deusa?”

Ela abrira um sorriso cruel.

“Você se considera um Rei?”

“É obvio, eu sou o Rei.”

“Ah, não deveria se considerar assim. Reis morrem e Deuses são substituídos. Se ver mais do um mortal é perigoso.” E assim afastou de James.

Pouco depois, ele se aproximou da carruagem de Gold.

“Ah, mas ela está certa. Deuses e Reis morrem.”

“E o que não morre?”

O mercenário exibiu uma moeda de ouro.

“Ouro. Dinheiro. Poder. Essas coisas existem para sempre.”

Um grito adorado de “Rāṇi” interrompeu a conversa.

“Sabe o que significa “Rāṇi”, Senhor Rei?”

James negou.

“Num dos Idiomas Orientas, no qual Zo é fluente, Rāṇi significa Rainha. E há muitos e muitos anos, num idioma que antecedeu essa língua que o senhor fala tão bem, Rainha significa “Regina”.”

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