Notas iniciais
enjoy!

O Literadouro

- Primeiro: nunca mais saia correndo na nossa frente. Isso é estúpido! – avisou Helena, apontando um dedo nervoso nas fuças do jovem Charlie – em segundo lugar: sua mãe nunca te ensinou a não falar com estranhos?

— Ela me diz muitas coisas, mas eu nunca dou ouvidos a ela.

Helena o fitou com ceticismo. Charlie sorriu, sem graça.

— Foi mal, é que era a minha única frase de impacto.

— Vou te mostrar o impacto quando a sola do meu sapato estiver no seu...

— Ok, Ernesto, fica frio. – Helena ficou entre os dois rapazes – Charlie, não seja tão idiota, ok? Isso aqui não é um jogo. Aquilo poderia te matar, se quisesse.

— Tudo bem, eu já pedi desculpas, ta legal? É que, bem... É tudo muito novo pra mim. Acho que fiquei um pouco extasiado.

— Então controle-se. Vamos, meu tio precisa saber o que aconteceu.

A aventura fora longa. Ainda não tinham percebido que a noite passara e o dia começava a nascer, radiante. Charlie precisaria pensar em uma desculpa para dar aos pais mais tarde.

Entraram na biblioteca, às pressas. Munphus saberia o que fazer, melhor do que eles. Helena achou melhor não mencionar a atitude estúpida de Charlie.

Encontraram Andrew sozinho na sala, lendo algum livro para passar o tempo. Pela sua expressão desanimada, não havia boas notícias a serem contadas. O garoto acenou, desanimado e voltou sua atenção ao livro.

— Nada? – perguntou Charlie.

— Não... O Sr. Munphus está lá em cima, olhando alguns livros e... Fazendo uma autópsia, ou algo do tipo.

— Autópsia? – Helena perguntou, intrigada – em quem?

Andrew empurrou o livro para o lado, olhando para o trio.

— O zelador.

— O zelador... Ele está aqui? – exasperou-se Charlie.

— Ora, é claro que sim! Quem você acha que organizou toda a bagunça que vocês fizeram? O dragão, os armários, o corpo bizarro do zelador... – Ernesto impacientou-se.

Conversaram por mais alguns minutos, até Munphus voltar. Não tinha respostas. Mas, pelo menos, conseguira descobrir algumas coisas.

— Não há consciência no corpo – avisou ele, sentando à mesa com o resto do pequeno grupo – é como se o zelador nunca estivesse lá dentro. Apenas um recipiente vazio, agindo por instinto.

— “Agindo”? Quer dizer que aquilo está vivo, tio?

Munphus fez uma pausa, e continuou:

— Já li, em algum lugar sobre esse tipo de aparição. É um corpo semi-vivo, uma espécie de intermédio entre a vida e a morte. Nunca vi um pessoalmente, apenas ouvi falar... E, ainda assim, não é certeza, pode ser outra coisa.

— Quer dizer que o zelador foi transformado em um tipo de zumbi?

— A grosso modo, sim.

— Algo mais?

— Sim... Essa “coisa”, ela tem uma habilidade incomum... ela é um desfabulador.

— Um o quê?

— Um desfabulador – foi Andrew quem disse dessa vez, já inteirado do assunto – lembram-se do que fiz à Ophelia? Pois bem... Segundo o velho... Quer dizer, o Sr. Munphus, essa mãozinha nojenta aqui pode separara fábula do real. Exatamente o que fiz. Ophelia, na mente de alguém, era uma garota com características felinas... O que eu fiz foi separar esses dois lados, removendo todo o, ahn, “encanto” dela.

Munphus levantou-se, caminhando em direção à chama central. Todos mantiveram o silêncio, observando o movimento do bibliotecário. Por fim, como se uma idéia estalasse em sua mente, o homem se virou para o grupo:

— Precisamos preparar os Emissários... Agora mais do que nunca... O que eu vi... Nunca, em nenhum lugar, um semi-vivo conseguiu sair do Vazio. Ele não é uma fábula, não é um fruto de lembranças, sentimentos ou coisa do tipo. Semi-vivos são filhos dos três Guardiões do Vazio.

— Tô sentindo que lá vem outra história... Só, por favor, não me venha falar de portas, ok? Primeiro foi aquela em que invadimos a escola, depois aquela grandona com um cadeado carnívoro, e, então, a da gata doida...

— Shh! Cala a boca, Andrew, deixa ele falar.

Munphus pigarreou, desfazendo-se da interrupção, e voltou a dizer:

— Krak, Zoakros e Qaaze. São os dominadores do Vazio. Seus filhos são em maior número naquele lugar. Os semi-vivos. Nascidos da completa falta de perspectiva dos três Sentinelas. Frutos do nada.

— Aquilo não é um semi-vivo. É o zelador!

— Não me peça para explicar, Charlie, nem mesmo eu sei como isso pode acontecer. Nunca soube, até hoje, que um ser humano poderia ser convertido em semi-vivo. Isso é novidade até para mim. É por esse motivo... Precisamos reunir os Emissários, e descobrir porque as sombras estão abduzindo fábulas do Meio-Termo.

— Isso pode ser parte do Despertar do Vazio – arriscou Charlie – talvez Northon tenha descoberto uma forma...

— Precisamos do Andarilho! – Helena interrompeu, com seu súbito manifesto.

Todos a fitaram, surpresos.

— Ninguém nunca mais ouviu falar no Andarilho, não sabemos nem como encontrá-lo! – Ernesto protestou – Não comece a dizer tolices, Helena. Precisamos manter a razão, ok? Se quer dar uma boa idéia, comece a pensar...

— Ela tem razão – Munphus quem disse, tendo, então, todos os olhares atentos a ele – O Andarilho foi quem deu as respostas ao Northon... Ele pode nos dar uma solução.

— Um momento, querem que eu pegue o catálogo telefônico? Tenho quase certeza de que o vi no MySpace – Esnesto falou com típico desdém – Não venha com essa, pai! O senhor sabe quantos anos eles passaram em busca do Andarilho, e nunca o encontraram! Como espera que nós...

— Sabe o que destrói o mundo, meu filho? – Munphus encarou Ernesto com um olhar frio – a falta de fé... Sem ela, não há perspectiva, ou esperança... Cuidado para não perder a sua, e acabar se tornando igual a eles, filho... Um semi-vivo, alguém que se esqueceu de deitar ao morrer.

— Mas, papai...

— Não quero ouvir mais nada – avisou Munphus, erguendo a mão – Helena e Ernesto, quero que recrutem os Emissários, e peçam para que vigiem os Inspirados que conseguimos encontrar. Certifiquem-se de que não irão usar seus Literadouros, e garantam que nenhuma outra aparição seja devorada pelas sombras... Charlie e eu vamos treinar um pouco.

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— Vamos, a porta é bem aqui. – Munphus guiou Andrew e Charlie até a porta de madeira e palha. O literadouro.

— Tá vendo, sempre tem uma porta.

Charlie ignorou o comentário do irmão, estava ansioso. Finalmente iria conhecer como era um Literadouro por dentro, todos os mistérios, definitivamente, estariam solucionados. No entanto, a idéia de treinamento mencionada por Munphus ainda o incomodava. O que eles iriam treinar? Algum tipo de luta, Charlie imaginou. Defesa pessoal, talvez...

A porta se abriu. Eles passaram.

Nada era tão extraordinário quando aquela cena. Nem em mil anos de sono, Charlie poderia sonhar tamanha grandiosidade.

O céu era azul, inteiramente. As nuvens dançavam em um círculo perfeito, formando uma espiral branca e imensa, a perder de vista. Eles não estavam no chão, mas sobre um galho grande. Charlie lançou um olhar a volta, boquiaberto.

Estavam sobre uma imensa árvore, talvez tão grande quanto um arranha-céu, com galhos que se estendiam em mais de quinhentos metros, cada um sustentando uma cabana, um chalé ou uma pequena casa de madeira e tijolos. Flores brancas do tamanho de um automóvel cresciam em todos os cantos, exalando um perfume adorável. Suas pétalas reluziam o ameno sol que faiscava timidamente no céu. Os galhos estavam repletos de livros presos em ramos, como se dessem, literalmente, em árvores. Toda a sorte de livros. Alguns pareciam faltar páginas, outros mal tinham uma capa. Charlie, então, viu um fenômeno inusitado: bichos-da-seda do tamanho de um cão deslizaram ligeiramente pelos galhos e começaram a tecer. Os fios de seda produzidos se juntaram aos poucos, formando uma lâmina quadrangular. Tão logo ele percebeu. Estavam tecendo livros! Um pequeno ramo brotou da árvore e se prendeu ao livro. Da extremidade, um líquido escuro começava a escorrer.

— Estão registrando a história de um Inspirado nesse exato momento – avisou Munphus, percebendo o estupor dos jovens – mas está no início, ainda. Vejam, temos alguns livros mais maduros por ali... Sabe, eu costumo dizer que o livro é o mais belo fruto, pois é feito de uma semente que não se pode ver e, ainda assim, suas raízes se espalham sem limites e, quando nos damos conta, todos estamos envolvidos por sua sombra fresca e agradável. A arte, meus caros, é uma dádiva, um dom a ser semeado.

Não houve palavras por parte dos garotos. Era impossível dizer diante de tamanha beleza. Imensas borboletas sobrevoavam os céus. Charlie notou que, em alguns galhos (se bem que, nem de longe, conseguia ver todos) crisálidas estavam fixas como se, em breve, fossem eclodir.

— São os nascimentos – avisou Munphus – dentro de cada Crisálida está uma personagem. Um ser produzido pela mente de um Inspirado. Vamos, um dia mostro a vocês como é o nascimento de uma Fábula.

— Então assim é o Meio-Termo?

Munphus riu.

— Isso aqui é o Literadouro, uma pequena fração do Meio-Termo. Vamos, deixemos as perguntas para depois.

Eles começaram a caminhar sobre o galho. Charlie observou o horizonte. A árvore estava plantada em uma ilha, todo o resto era mar. Ainda assim, os galhos ultrapassavam o horizonte, tocando a linha do oceano. A grama abaixo deles era verde e seguiam o fiel movimento do vento, como se fossem vivas. Talvez fossem mesmo, pensou Charlie.

Caminhos de pedras amareladas se espalhavam por todos os lugares. Aos poucos, eles puderam ver imensos pássaros que ganhavam o céu com suas penas das mais variadas cores. Frutos brotavam a cada instante da árvore. Maçãs, cerejas, romãs e figos. Os animais alados buscavam-nas como alimento. Não havia apenas aves e insetos. Charlie logo notou um leão alvo de jubas negras e asas tão brancas quanto a própria neve poderia ser. O animal sobrevoou e, tão agilmente, recolheu do ar um pássaro de plumagem vermelha. O leão sobrevoou ainda mais alto, sumindo sobre as nuvens com sua presa entre os dentes afiados.

— são os Imperadores – avisou Munphus, apontado para um cisco no céu, que deveria ser o leão – Eles são os maiores caçadores alados do Meio-Termo. Mas são tão gentis quanto habilidosos.

— O pássaro não concorda com a parte do "gentil" – comentou Andrew, ainda cogitando se deveria, ou não, sentir medo daquele animal.

— Não seja tolo. Você não viu que o Imperador pediu antes de devorar o animal? Aquelas aves são Grahtes. São compostos de luz do pequeno sol. Quando o Imperador come um Grahtes, ele migra em direção ao sol. Observem.

Andrew e Charlie olharam um pouco mais. Detrás da nuvem, um extraordinário leão de corpo dourado e jubas escarlate sobrevoou por entre os galhos, rugindo e exibindo seus belíssimos dentes. Era tudo tão incrível que eram incapazes de sentir medo, isso Andrew logo percebeu.

— Essa é a melhor parte. Vejam.

O Imperador inclinou-se em direção ao sol, de asas abertas. Seu corpo entrou em chamas, deixando um rastro de luz por onde passava, como a cauda de um asteróide.

— Eles farão parte do sol, muito em breve. Todos os dias, um Imperador e um Grahtes fazem um acordo, e o pássaro se oferece como alimento, dando força ao Imperador para sobrevoar acima das nuvens. Com isso, eles migram em direção ao astro. Nosso sol do Meio-Termo cresce a cada dia graças ao que aparenta ser uma caça. Na verdade, é apenas um ciclo. Um maravilhoso ciclo!

Charlie ficou boquiaberto. Jamais imaginara tal acontecimento. Era tudo composto por tanta beleza e harmonia que, por mais que tentasse, eles não conseguiam encontrar nenhum motivo para se sentirem menos que felizes.

— Venham. Nossa carona chegou.

A próxima visão foi tão graciosa quanto o Imperador. Uma garça acabara de pousar no galho. Não era comum. Além de possuir mais de dois metros, as pontas de suas asas eram adornadas com guizos e fitas de cetim branco. As patas eram como as de um leopardo, sua cauda tocava a grama, um longo penacho cor de ouro-branco.

A garça estendeu sua asas, servindo de ponte para os viajantes cavalgarem em seu corpo coberto de plumas.

— Uma Garza d’Uthopia. Essa é uma criação do próprio Vulno. Uma das minhas preferidas.

Munphus montou o animal e, com um aceno, convidou os jovens para que se juntassem a ele. Charlie, ainda hesitante, caminhou até a Garza. Colocou o primeiro pé sobre os penachos das pontas de suas delicadas asas. Ao fazê-lo, Charlie foi tomado de uma súbita sensação de calma, enquanto uma doce música era entoada em seus ouvidos, com violinos e xilofone, uma mistura de harmonia céltica, pensou o rapaz.

— Está ouvindo, Andrew? – perguntou Charlie, maravilhado, para o irmão.

— Ouvindo? O que eu deveria ouvir?

Munphus deu uma risada divertida.

— Suba, Charlie.

O irmão mais velho acomodou-se no lombo do animal. Assim que Andrew tocou a asa do animal, sua expressão se iluminou. Como num passe de mágica, seu braço parecia mais leve e, nem ao menos, lembrava-se do seu aleijão.

— Estou ouvindo! – disse ele, rindo para Charlie – É incrível! Espere só quando minha ficha cair...

Munphus deu uma gargalhada. Ao que parecia, a Garza d’Uthopia era capaz de encher de alegria e paz o coração daqueles que se aventuravam em suas costas.

Assim que eles se acomodaram, Munphus segurou uma das fitas de cetim presas ao pássaro. Como um aviso, a Garza abriu suas asas e, suavemente, alçou vôo. Sua cauda comprida dançava com o balançar do vento morno. Era, de longe, a melhor sensação. Voar e sentir paz. Charlie ainda não conhecera tão bela sensação. Seria capaz de ficar ali pelo resto de sua vida.

— Bem, temos muito o que fazer – avisou Munphus – vamos até a casa de um amigo meu. Tharsos, o leprechaun.

— Ele vai nos ajudar? – quis saber Charlie.

— Isso mesmo! Vai nos ajudar com o seu treino.

— E que treino é esse, Sr. Munphus?

O velho bibliotecário exibiu um sorriso amigável.

— Você é um Inspirado, Charlie. Ou ainda não sentiu o poder fluir dentro de você? Segurem-se. Vamos voar mais alto!

Notas finais
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