Insomniacs
11 Capítulo Onze - O Lado de Fora
Notas iniciais
Eles adormeceram depois que Xavier limpou a bagunça que fizeram um no outro. O garoto se aconchegou ao seu lado, acariciando o pulso de Alex até que seus olhos ficaram pesados. Alex não conseguiu dizer o que realmente queria, algo como querer que o garoto ficasse ao seu lado, não deixando que ele abrisse os olhos novamente. Isso era o que mais o assombrava, a sensação de acordar para uma ausência, para nada além do ar frio ao seu redor. Essa parte o atormentava tanto quanto os sussurros e agora ele tinha certeza que seu sono se livraria dos pesadelos enquanto Xavier estivesse lá para conforta-lo.
Xavier Sharpe era definitivamente uma droga. Suas pílulas para dormir. Sua gravidade e ancora.
E quando ele finalmente caiu no sono e acordou quando a luz se infiltrava pela cortina, ele não pôde deixar de sorrir novamente quando seus olhos avistaram o familiar cabelo loiro. Xavier estava dormindo profundamente contra seu peito com as mãos em volta de sua cintura e suas pernas entrelaçadas.
Alex enterrou o nariz no cabelo do garoto. Xavier cheirava principalmente a seu shampoo, mas havia um toque de um cheiro de madeira velha e algo mais. Era estranho dizer, mas o cheiro de Xavier o lembrava de uma velha loja de discos a qual ele tinha ido, aquela em que ele ouviu Come As You Are do Nirvana pela primeira vez. Era estranha dizer que o cheiro de uma certa pessoa poderia reviver tal memória, procurando um CD de música clássica já que era a época que ele era forçado a tocar violino, seus pais não o deixando escapar de modo algum. Eles praticamente só queriam mostrar o talento musical de seu filho. Ele entrou na loja e Nirvana estava tocando no alto-falante, a voz de Kurt Cobain ecoando pelas paredes. Esse foi o dia em que ele se apaixonou pela música de verdade, o dia que o pequeno Alex Webber percebeu que ele poderia ser algo mais do que seus pais esperavam que ele fosse — ou pelo menos foi o dia em que conseguiu acreditar naquele sonho infantil, por meros segundos.
Xavier se mexeu ligeiramente, provavelmente percebendo a pequena ação de Alex antes que os olhos do garoto se abrissem, piscando rapidamente para acordar. Ele esfregou os olhos antes de abrir um pequeno sorriso e virar a cabeça para Alex.
“Bom dia Alex.” Ele disse, a voz rouca.
A próxima coisa que ele fez poderia ser caracterizada como sorriso, porque o canto de sua própria boca se contraiu imitando a ação do garoto. Definitivamente tinha passado tanto tempo sem fazer isso que o musculo de sua bochecha protestou contra a ação, ou ele definitivamente estava apenas sendo hiperbólico. O sorriso de Xavier se alargou ao ver isso, e ele puxou um dedo para cutucar o rosto de Alex.
Ele nunca imaginou que acordar com o calor de alguém seria tão bom. Ele nunca tinha se sentido tão feliz antes, havia se esquecido como era.
“Você está acordado e eu estou aqui.” Disse Xavier, roçando os dedos nos lábios de Alex, lendo seus pensamentos novamente. Foi o que ele disse ontem à noite, como ele simplesmente entrou em pânico com o pesadelo e acordou para descobrir que Xavier havia sumido.
“Não me deixe.” Alex sussurrou. “Não se atreva, porra.”
Xavier sorriu ainda mais ao ouvir suas palavras que soavam mais como uma ameaça do que um pedido. Ele pegou outra coisa, porém, algo que brilhou nos olhos do garoto, algo que mudou ligeiramente por um breve momento antes de desaparecer novamente, como ele estivesse prestes a protestar contra as palavras. Sua expressão se contraiu um pouco ao ouvir suas palavras, mas o garoto apenas sorriu rapidamente de novo e Alex optou por esquecer o que ele havia acabado de notar.
“Eu não vou, Alex.” Disse ele. “Estarei sempre aqui.”
“Sabe Alex, você realmente deveria ir para a faculdade.” Xavier disse enquanto eles tomavam o café da manhã na mesa da cozinha. Todas as suas atividades foram feitas em cima do sofá ou da mesa da cozinha, e apenas nos dois lugares eles iniciaram uma conversa decente.
Alex estava comendo outro pacote de macarrão instantâneo (ou pelo menos o restante dele), enquanto Xavier conseguiu vasculhar sua despensa e encontrou um cereal que ele acreditava estar vencido há muito tempo. Ele olhou para o garoto enquanto se atrapalhava com as gavetas, tirando a tigela e as colheres como se fosse o dono do lugar. Engraçado era ver Xavier tirando o que queria de onde estivesse sem nem mesmo pedir pra ele. Ele havia perdido a conta de quantas noites Xavier passou em sua casa. Ele ainda precisava ir para casa em algum momento, ou pelo menos antes de se mudar permanentemente.
Permanentemente. Por que ele pensou em ter Xavier em seu apartamento para sempre? Como se pudessem simplesmente viver juntos e passar os dias como nas últimas semanas. Mas se sua vida era uma pintura, Xavier conseguiu se fundir nela sem esforço, misturando-se através da pintura e do fundo, sendo uma parte natural que o tornava o que ele era agora. Mesmo a visão dele no longo suéter que ele pegou emprestado e uma tigela de cereal que ele possuía não parecia nada estranha.
Na verdade, ele não queria ir para a faculdade. Ele não achou necessário, assim como vinha fazendo nos últimos meses. Ele realmente não queria colocar o pé lá fora, optando por apenas sentar no sofá e olhar para a tela de televisão. No entanto, mesmo fazer isso não o atraía muito. Olhar para a televisão desligada não era algo que alguém consideraria divertido, mas por meses ele não reclamou. Agora ele começou a sentir aquele tédio, rastejando por sua pele, o desejo de fazer algo mais.
“Você disse naquela época que faria se eu fosse trabalhar também,” ele disse novamente, sentando na frente de Alex.
"Seu ponto é?"
“Que tal eu ir atrás de trabalho hoje e você para a faculdade, huh?” Xavier disse.
Ele havia perdido muitas aulas e ser retido por um ou dois anos era um risco que ele estava disposto a correr. Ele só precisava se formar antes que pudesse assumir a empresa como seus pais planejaram.
“Não acho que seja uma boa ideia”, disse ele. Na verdade não era, mas ele também não estava realmente disposto a fazer isso.
Xavier fez beicinho, franzindo os próprios lábios e tentando fazer uma cara fofa.
“Ah, vamos lá Alex. Eu também não quero voltar a fazer essas coisas, mas se for a única coisa que te impede de ir para a faculdade, estou disposto a fazer isso.” disse ele.
Ele não sabia por que Xavier estava disposto a fazer isso por ele, por alguém que mal conhecia. Ele nem sabia o motivo de metade das coisas que Xavier fazia. Ele sabia muito pouco sobre o garoto, mas aqui estavam eles com Alex acreditando que ele não seria capaz de funcionar corretamente sem Xavier. Isso era amor? Definitivamente não, ele pensou, embora certamente não tivesse experimentado isso antes.
Mas não, isso não era amor.
Isso definitivamente não era, porque ele acreditava que a única pessoa que amaria não seria outra senão ele mesmo.
Pelo curto período de tempo que conheceu Xavier, ele percebeu que era realmente um hipócrita. Havia algo sobre Xavier que o fazia negar tudo sobre si mesmo. E então, quando ele pensou que não iria colocar o pé fora de seu apartamento, ele se viu parado no elevador, os pés batendo no chão com as mãos cruzadas no peito. Xavier estava atrás dele com o rosto brilhando e ansioso. Estaria frio lá fora, sabendo que já era inverno, então os dois estavam vestidos com casacos (Alex tinha esse cachecol enorme enrolado no pescoço), Xavier praticamente pegando emprestado tudo o que tinha da cabeça aos pés. Ele disse que voltaria para a casa de um amigo primeiro para se trocar e depois ir atrás de emprego.
No momento em que chegaram ao estacionamento, Alex foi direto para seu carro, estacionado em sua respeitável vaga. Scott realmente fez um bom trabalho cuidando de consertá-lo. Não havia nenhum sinal que pudesse indicar como o referido carro havia sofrido tal acidente antes. Eles conseguiram restaurar o farol quebrado, substituindo-o por novos e até fizeram mágica, não deixando nenhum rastro de arranhão ou amassado na superfície. Parecia completamente novo, liso e impecável. Só isso explicava como ele por acaso não seria capaz de encontrar o vestígio restante de sangue que—
“Vamos lá, Alex.” ele disse.
Alex engoliu em seco. Não, ele ia esquecer isso, assim como Scott havia dito a ele. Ambos esqueceriam que tal conversa já aconteceu. Em breve seria esquecido, assim como a cicatriz que ele escondia sob a manga da camisa e relógio de pulso de couro.
"Sim, vamos." Ele sussurrou, antes de voltar ao volante e ligar o motor.
A dor de cabeça que ele quase havia esquecido voltou quando ele colocou as duas mãos no volante. Suor frio escorria por sua testa e nuca. Os pesadelos. Eles sempre começavam com ele sentado ao volante que parecia muito familiar sob seu toque. Começavam com ele pisando no acelerador, sua dor de cabeça batendo e de repente tudo ficando preto. Ele não pisava no freio, nem sentia o impacto, e a próxima coisa que ele via era sangue pintado no capô de seu carro e uma figura caída no asfalto, totalmente visível pelo espelho retrovisor.
"Alex, o que há de errado?"
Nada estava errado, nada ia acontecer. Ele estava bem. Ele estava perfeitamente bem. Ele tinha Xavier ao lado dele e—
“Alex, você está bem.” O garoto sussurrou, estendendo a mão, tocando gentilmente seu cotovelo.
—e ele ficaria bem, contanto que Xavier estivesse ao lado dele. Ele rapidamente virou a cabeça, vendo a mão em seu cotovelo antes de se mover em direção ao rosto do garoto. Ele se sentia em paz, estranhamente. Ele poderia voltar a esquecer seu problema mais uma vez.
“E-eu não posso fazer isso.” Ele gaguejou.
Ele não podia. Ele não conseguia sentar atrás do volante de novo, não neste mesmo carro pelo menos e lembrar-se de como era familiar ver a rua como era em seu sonho. Estar atrás do volante o lembrava muito da coisa que ele tentava desesperadamente esquecer. Ele se atrapalhou com a porta ao lado dele antes de sair dela, o rosto enterrado na palma da mão. Ele se afastou alguns metros, com as pernas tremendo antes de se virar e dar uma boa olhada em seu carro. Não se podia deixar de pensar que não era diferente de uma arma do crime agora, algo que foi usado para acabar com a vida de uma certa pessoa.
“Ei, ei, está tudo bem.” Xavier disse, saindo do carro e correndo ao lado dele, agarrando seus dois ombros, tentando acalmá-lo.
Seus olhos ainda estavam fixos no carro, pensando em como o corpo seria atingido pelo capô antes de rolar em direção ao teto e passar por cima dele. O referido corpo seria reduzido a nada além de trapos, nenhuma forma humana se fosse enfrentado com a velocidade de seu carro. A única forma humana seria transformada em uma figura retorcida e deitada, com ossos protuberantes e ensopados de sangue.
“Alex, podemos pegar o ônibus, tudo bem?” O garoto disse, confortando-o, as mãos indo para o pulso dele novamente. “Não precisamos pegar o carro se isso te assusta.”
Alex assentiu lentamente, ofegante, sentindo-se como um peixe fora d'água. Ataque de pânico ou o que quer que ele fosse dizer. Ele enxugou a testa encharcada e se virou, nem se deu ao trabalho de trancar a porta. Alguém poderia pegá-lo por tudo que ele se importasse, ele poderia substituí-lo por outro facilmente.
Ele apenas deixou Xavier arrastá-lo para fora do estacionamento e de volta ao saguão antes que eles finalmente saíssem do prédio, o vento frio do início do inverno os cumprimentando. Ele não pegava um ônibus há muito tempo e apenas deixou Xavier guiá-lo.
O tempo todo ele apenas deixou o garoto entrelaçar os dedos nos dele. Foi uma boa distração, porque ele passou de pensar em seu pesadelo para o calor que se espalhou de sua mão. Sim, os dedos de Xavier contra os dele eram uma boa distração.
Parecia anos desde que ele esteve sob o sol pela última vez. Eles pegaram o metrô antes que Xavier o deixasse na estação perto de onde seu amigo morava e ele fosse direto para a universidade sozinho. Era estranho não estar dentro de seu apartamento ou atrás de seu volante. Isso e encontrar a cabeça completamente leve, os pés pisando no chão assim como outras figuras anônimas ao seu redor faziam. Por um momento tão fugaz, ele se sentiu normal. Não como ele era antes, mas com suas circunstâncias atuais, ele certamente não achava que as pessoas sentiriam e passariam pelas coisas que ele passou.
Encontrar-se em frente ao prédio da universidade era uma sensação ainda mais estranha. Parecia que anos se passaram, mas nada parecia mudar. Não era o prédio. Talvez tenha sido o próprio Alex quem fez. Tudo parecia tão estranho, até mesmo seu pesadelo veio mais como uma realidade em vez de seus passos ecoando pelo corredor.
Ele se sentiu estranhamente deslocado ao se sentar em sua aula de estatística na hora certa, encarando o professor que parecia um pouco assustado ao ver seu rosto (o fato de seu próprio professor se lembrar de seu rosto também o surpreendeu). Há quanto tempo ele estava desaparecido? Dois meses? Três? Todos aqueles dias que passou em seu apartamento, o telefonema e a batida do carro diminuíram em uma lembrança há muito esquecida. Ele voltou a ser o Alexander Webber que se sentava bem no fundo da classe, se possível, ouvindo a aula chata com o rosto mostrando um claro indício de desinteresse. O Alex Webber que só queria que tudo acabasse rápido porque odiava cada segundo de estar naquela maldita universidade para estudar algo que ele não tinha absolutamente nenhum interesse.
“Alex, porra, você está aqui.”
Ele virou a cabeça e percebeu que era Oliver, caminhando em direção a um assento vazio ao lado dele. Havia se esquecido que compartilhava da mesma classe estatística com o amigo, na qual sempre passava sentado ao seu lado.
“Oh meu Deus, Alex, eu não posso acreditar que estou vendo você aqui, fora do seu apartamento.” Ele disse, boquiaberto lentamente e surpresa sendo escrita claramente em seu rosto. Seria preciso apenas o cair dos livros que ele estava segurando para adicionar alguns clichês a ele. Ele parecia estar prestes a abraçá-lo, mas rapidamente se mexeu um pouco, dizendo a Alex que tal ação era embaraçosa e desnecessária. “Você está frequentando a faculdade de novo.”
A última vez que ele falou com Oliver, ele estava com raiva. Oliver sempre tinha tempo para se preocupar e isso o incomodava muito. Suas palavras o irritavam agora, como se ele tivesse que fazer essa pequena mudança que já parecia muito avassaladora para Alex como algo realmente aparente para o universo. Ele simplesmente estalou a língua, cruzou o braço e voltou sua atenção para o professor.
"Cale-se."
Oliver fez, eventualmente, antes de conseguir escapar um "Mas estou feliz que você veio."
No fundo de sua mente, ele só conseguia pensar em como Oliver realmente deveria agradecer a Xavier.
A aula durou uma eternidade. Alex percebeu que havia perdido muitas coisas, mas Oliver, que estava sentado ao lado dele, foi tão gentil em explicar algumas delas e isso mesmo sem Alex perguntar. Oliver até ofereceu seu caderno e ele simplesmente assentiu. Mesmo sem vê-lo, ele podia ver como Oliver estava tão feliz em tê-lo ali. Ele só podia imaginar agora como Luka reagiria à sua chegada. Ele seria enterrado em outros abraços e membros entrelaçados, ele tinha certeza.
Era basicamente o que Oliver planejara que ele enfrentasse, pois ele estava com a mão em seu ombro e pediu que ele passasse um tempo com o outro, pois eles ficariam emocionados em vê-lo. A única coisa que ele percebeu foi como a mão de Oliver em seu ombro parecia mais pesada que a de Xavier. Ele foi guiado (ou melhor, praticamente empurrado) para o refeitório depois. Ele ouviu uma voz em particular gritando seu nome do outro lado do refeitório, seguida de um grito alto. E logo Alex rosnou porque percebeu de quem era a voz. Os olhos permaneceram nele, testemunhando o momento embaraçoso quando Luka praticamente mergulhou em sua direção e o puxou para um abraço apertado que ele mal conseguia respirar.
“Oh deus Alex, eu sinto sua falta!” Ele disse enquanto tentava o seu melhor para tirar as mãos de Luka dele.
“Eu pensei que você estava em turnê ou algo assim.”
“Pequena pausa. Acabei de voltar de Londres há dois dias. Não me diga que você finalmente decidiu aparecer na faculdade porque quer me ver, cara.” Luka disse, sendo repugnantemente irritante com os lábios franzidos, tentando dar um beijo no rosto sem graça de Alex.
“Se eu soubesse que você estaria aqui, eu deveria ter me trancado no meu apartamento.” Ele respondeu antes de empurrar a mão para o rosto de Luka, tirando-o de seu espaço pessoal o máximo possível.
“Então serei eu quem fará uma visita a você.” Luka disse alegremente. “Mas sério, Alex. É muito bom vê-lo aqui, finalmente. Você está precisando muito de luz solar, eu realmente acredito que você se transformou em um vampiro agora.”
Alex gemeu. Ele não precisava da luz do sol quando Luka praticamente representava a grande bola de gás ardente para ele (e não, não era um elogio).
Luka o arrastou para um assento, onde ele costumava passar meses atrás. Scott já estava sentado ali, lendo um livro com os fones de ouvido plugados. Ele certamente não viu Alex chegando antes de Oliver bater em seu ombro e levantar a cabeça, encontrando os olhos de Alex.
“Alex, você está na faculdade!” Scott disse com os olhos arregalados.
Alex gemeu novamente, sentando na frente do garoto, revirando os olhos. Ele absolutamente odiava isso, como ele frequentar a faculdade parecesse ser uma notícia incrível para seus amigos, parecia que eles até viram um cadáver andando na frente dele. Por que eles fariam tanto alarido sobre uma coisa assim?
“Não, eu só estou aqui por lazer, dando um passeio.” Ele sibilou ao comentário.
Eles praticamente passaram o tempo como faziam meses atrás, Luka entrando na conversa, alto e alegre. Outros conhecidos se juntaram a eles mais tarde e ambos praticamente fizeram a mesma reação, ao que Alex respondeu com um simples gemido. Mas ainda havia algo que Oliver e Scott faziam, algo totalmente diferente do que seus outros amigos faziam do que simplesmente expressar o fato já evidente de Alex estar na faculdade. Oliver estava olhando para ele como uma mãe, orgulho escrito claramente em seu rosto. Era como se Alex fosse seu filho que conseguiu ganhar uma medalha de ouro e ele não poderia estar ainda mais orgulhoso dele. Isso era compreensível para Oliver e Alex voltar para a faculdade era praticamente sua medalha de ouro como uma mãe orgulhosa. Considerando que Scott, aquele amigo deu a ele outro olhar totalmente diferente, como se houvesse algo que ele quisesse dizer. Alex engoliu em seco, esperando que não fossem perguntas, sobre ele e o relacionamento com Xavier em particular.
“Estou feliz que você esteja melhor.” Oliver disse quando estava prestes a se levantar e seguir para sua próxima aula. As palavras de Oliver vieram mais como um sussurro para ele e ele simplesmente curvou sua sobrancelha.
Oliver deu a ele um sorriso caloroso, que de alguma forma o fez se sentir culpado. A primeira vez que ele começou a se trancar dentro de seu apartamento, Oliver foi o primeiro a bombardeá-lo com perguntas. Não foi até suas palavras afiadas no outro dia que o amigo finalmente o deixou em paz, dando-lhe exatamente o que ele estava pedindo. Só agora ele se sentiu meio mal por ele, já que ele podia realmente entender que Oliver estava simplesmente preocupado.
“Não sei o que aconteceu com você ou qual era o seu problema, mas estou feliz por você estar melhor.” Disse ele.
Mesmo nesse ponto, Alex queria dizer que não havia nada de errado com ele. Não havia com o que se preocupar. Mas então vieram os sussurros, a televisão e os pesadelos. Ele estaria realmente mentindo e só agora ele entendeu.
“Não se preocupe, estou bem. Eu estou—"
“—perfeitamente bem, eu sei.” Oliver disse como se soubesse que ele iria dizer exatamente essas palavras. Mas, novamente, era a única resposta que Alex sempre dava a Oliver.
“Eu posso dormir agora. Sem remédios. Eu encontrei algo melhor.” Alex disse. Ele encontrou Xavier. Afinal, Xavier era o que era preciso para fazê-lo dormir.
“Estou feliz por você.” disse Oliver. “Não esqueça que você tem a nós, Alex. Você tem amigos. Você pode falar conosco sobre qualquer coisa.”
Ele assentiu. No fundo de sua mente, ele estava tendo esses pensamentos horríveis, atormentando sua consciência. Ele pensou em como não precisava de seus amigos agora. Ele encontrou Xavier e o garoto o consertou melhor do que qualquer um de seus amigos. Foi um pensamento tão horrível que Alex se odiou por pensar nisso em primeiro lugar.
As palavras de Oliver ecoaram em sua cabeça enquanto ele caminhava em direção a sua aula. Ele passou a aula inteira bagunçando o próprio cabelo, percebendo que não entendia nem metade, tudo por ter estado ausente por quase dois meses ou mais. Sua mente vagou em direção a Xavier, imaginando se o garoto realmente foi fazer o que havia prometido ou não. O garoto voltaria para seu apartamento à noite. Ele faria, não é? O medo de não ter Xavier começou a incomodá-lo quando a aula finalmente acabou e ele teve essa mesma vontade de repente, aquela que dizia para ele voltar para casa imediatamente.
Ele disparou em direção à porta, pensando em ir para casa o mais rápido que pudesse, andando pelo corredor quando uma voz o chamou.
"Alex, espere um segundo!"
Ele gemeu, virando-se para ver Scott parado atrás dele.
"O que você quer?" Ele disse, soando mais frio do que pretendia ser. Suas palmas começaram a suar e ele estava familiarizado com essa sensação tão bem que sabia que a dor de cabeça voltaria logo depois. Foi o mesmo pânico que ele teve quando percebeu que Xavier havia sumido. Era o mesmo quando ele se sentava atrás do volante.
“Eu só quero conversar.” Disse ele.
"Sobre o que? Sobre Xavier?”
“Por que eu falaria sobre Xavier?”
“Eu não sei, talvez sobre o que quer que o pirralho tenha dito para você. Oh Deus, o que quer que ele tenha dito, apenas finja que nunca existiu, ok?” Ele disse. A última coisa que ele precisava era que seu melhor amigo o provocasse. A diferença de idade entre os dois não era nada demais, mas mesmo assim para alguns poderia parecer errada. Xavier ainda era um garoto, afinal.
Scott piscou, aparentemente confuso.
“Não, eu só quero falar sobre o que eu disse outro dia. Sobre o carro e...”
Alex sentiu vontade de explodir. Scott disse para ele esquecer isso, não disse?
"Foi você quem me disse para esquecer isso ontem!" Disse ele, elevando o tom. “Por favor, apenas deixe estar. Não quero ouvir nada disso.”
“Mas Alex, ontem eu—”
Ele fugiu. Ele ignorou Scott, passando pelas pessoas no corredor, bloqueando tudo o que seu melhor amigo estava prestes a dizer a ele, coisas que ele definitivamente não queria ouvir. Ainda ontem ele disse para esquecer e Alex estava contente com isso. No entanto, agora ele tocou no assunto novamente, sabendo o quão desconfortável Alex estava com o assunto. Ele não era um assassino. Ele não matou ninguém. Xavier disse isso, não foi? Que ele não era um assassino? Xavier disse isso, certo?
Só piorou tudo, as palmas das mãos suando e a cabeça latejando. Ele chegou à estação de metrô, ignorando como os corpos estavam pressionados contra os dele. Tudo o que importava era o mesmo. Chegar em casa, encontrar Xavier. Ainda bem que não estava levando o carro, pois tinha certeza de que o pesadelo apareceria facilmente se o fizesse.
A viagem de trem foi torturante. Ele praticamente correu desde a estação de metrô até chegar ao seu apartamento, respirando ofegante. No momento em que chegou ao seu apartamento, ele esperava ver Xavier esperando no saguão, se não seu capacho, mesmo. O que realmente fez foi um barulho alto, que sempre vinha de um certo garoto chato chamado Percy Fitzgerald. Tão fácil quanto isso, ele havia esquecido que estava em pânico porque logo foi substituído por aborrecimento.
“Alex, você chegou na hora!” O dito garoto gritou, levantando-se de seu assento enquanto Alex tropeçava pela porta do saguão. Ele gemeu. Este definitivamente não era o momento certo para um vizinho estúpido te encher o saco por ter esquecido as chaves (e, ironicamente, essa era a única coisa que Percy faria).
“Eu meio que esqueci minhas chaves de novo.” Ele disse com um sorriso atrevido. “Eu liguei para o seu apartamento e estou esperando aqui há quase duas horas, Alex.” O lado malvado de Alex dentro dele de repente esperava que ele não chegasse cedo demais para que Percy esperasse ainda mais no saguão, irritando o porteiro se pudesse. “Eles são tão maus que não me deixam entrar no elevador, mesmo que eu seja residente permanente.” disse ele, fazendo beicinho.
Ele nem disse uma palavra, simplesmente ignorando o discurso de Percy, com a respiração ofegante, tentando se recuperar de sua maratona improvisada e se arrastou em direção ao elevador. Suas pernas estavam doendo agora e se sentiriam ainda piores amanhã de manhã, ele sabia. O garoto o seguiu em direção ao elevador. Ele continuou falando (sobre como ele precisava alimentar seu gato novamente e uma prova que ele teria que estudar amanhã ou coisas assim) mesmo enquanto eles entravam no elevador sem Alex dizer uma palavra. Ele nem mesmo ofereceu a Percy qualquer ajuda, embora ele tivesse a cópia das chaves do garoto na tigela de chaves ao lado de sua porta. Seu lado mau o fez pensar em não ajudar o estúpido garoto Fitzgerald no começo. Mas ele podia imaginar o pior resultado possível que aconteceria, em que Percy acabaria sendo uma bola de merda tão irritante que não deixaria Alex em paz. Ele então teria uma criança choramingando batendo constantemente em sua própria porta.
“Ah, a propósito Alex, Xavier não está aqui?”
Certo. Xavier. Ele meio que esqueceu como minutos atrás ele estava procurando o garoto freneticamente, correndo todo o caminho de volta para seu apartamento. Ele esperava encontrá-lo aqui, mas talvez ele ainda estivesse ocupado.
“Ele foi trabalhar hoje.”
"Wow isso é ótimo. Onde ele trabalha?" Percy piou.
Ele apenas percebeu que não sabia. Ele deveria ter perguntado mais tarde, talvez. Foi quando Percy começou a reclamar novamente, sem esperar por uma resposta, e falou sobre como os dois deveriam passar uma noite juntos ou algo assim, até que de alguma forma, o discurso retórico continuou sobre como os quatro deveriam ficar no apartamento de Alex às vezes para um filme. Foi quando o nome de Bianca foi mencionado e a mente de Alex começou a rodar.
“Sobre sua amiga, Bianca—,”
“Na verdade, ela é minha namorada, Alex. Mas, sério, ela ficou brava quando usei o termo. Ela é muito bonita, certo?” Percy disse, sorrindo de orelha a orelha.
Ele xingou baixinho como o termo 'namorada' o fez lembrar da cena que se revelou neste mesmo elevador alguns dias atrás. Até aquele garoto conseguia ter uma 'namorada'. Quem no mundo aguentaria alguém tão louco quanto Percy, Alex não suportaria entender.
"Não, ela é—"
O olhar que a garota lhe deu. Aquele olhar assustado escrito claramente em seu rosto.
“—ela me olhou como—”
—como se estivesse com medo. Como se houvesse algo sobre Alex, uma pessoa que a garota mal conhecia, algo que a assustava, tanto quanto o telefone e os sussurros faziam com Alex.
"Ela olhou você—?"
Foi o 'ding' do elevador que o fez piscar. A porta se abriu e ele apenas suspirou, murmurando um pequeno “nada, esquece”. Por que ele perguntou sobre isso a Percy? Ele não saberia de nada, ou talvez Bianca fosse apenas uma garota estranha, tão estranha quanto Percy. Quem sabe, talvez fosse seu olhar padrão ou algo estúpido assim.
Alex ignorou tudo facilmente, como se negasse todos os problemas que teve em sua vida, abrindo a porta de seu apartamento e entrando, apenas para pescar as chaves de Percy da mesma tigela em que guardava a chave do carro, o tempo todo ignorando Percy novamente, que esperava fora, desta vez falando sobre algo como 'entrega de pizza batendo na porta errada'. Ele pegou as chaves e se virou antes de jogá-las para Percy.
“Agora xô.” Ele disse para Percy, que apenas sorriu antes de bater a porta bem na frente do rosto do garoto. Ele podia ouvir o barulho abafado dele gritando 'Eu ainda preciso devolver isso para você, Alex!'
Alex suspirou, apoiando as costas contra a porta atrás de si e tirou o cachecol de seu pescoço. Minutos atrás ele estava procurando freneticamente por Xavier. Pelo menos o ato cômico de Percy fez sua mente vagar um pouco do pânico para o aborrecimento. Ele bagunçou o cabelo, esfregando os olhos ao mesmo tempo em que caminhava em direção ao sofá.
Ele se sentou lá, jogando o cachecol enorme na mesa antes de fechar os olhos e respirar fundo. Ele acabou de ir para a faculdade. Como qualquer coisa que já aconteceu com ele, parecia um sonho, como se os passos de hoje que ele deu no corredor não estivessem perto da realidade, como se ele não tivesse acabado de falar com Oliver, e Luka lhe deu um abraço tão caloroso. sorria, como se ele não tivesse acabado de encontrar Percy no elevador, como se—
— como se ele não tivesse acordado com o calor de Xavier esta manhã.
Ele franziu a sobrancelha, a mão direita se atrapalhando com o suéter que usava para revelar o pulso esquerdo ensanguentado. Seus olhos ainda estavam fechados, mas seus dedos podiam sentir, o corte fresco em sua pele, tudo em cortesia de Xavier agarrando-os com muita força e praticamente cravando as unhas nele. Foi uma das marcas que Xavier deixou nele, não foi? Ele poderia correr para o banheiro e provavelmente ver uma marca de mordida em seu ombro, hematomas.
Aquele sentimento estava de volta, aquela parte dele que precisava desesperadamente da existência de Xavier. Alex cerrou os dentes e cravou a própria unha desta vez no corte. Doía como o inferno e ele sabia disso. No entanto, ele apenas o fez de propósito, tentando se lembrar de como era quando Xavier era o único a agarrá-lo com tanta força. Certamente era diferente quando eram seus dedos que o faziam. Ele ainda precisava de Xavier no final, e o garoto voltaria para casa a qualquer momento.
No momento em que abriu os olhos e tirou os dedos da ferida, o sangue voltou a escorrer pelo pulso e um enorme suspiro escapou de seus lábios. Havia algo perturbador no que ele acabou de fazer, porque de certa forma o acalmou. Tornou-se uma pequena semelhança com um substituto irônico que funcionou muito mal. Porque seus próprios dedos não eram de Xavier, e suas próprias unhas não poderiam esculpir sua pele tão bonita quanto Xavier.
Balançando a cabeça, Alex se levantou, pensando em tomar um banho e acalmar sua mente furiosa. Ele se moveu do sofá e se virou, querendo ir para seu próprio quarto. Foi nesse momento que ele viu algo escondido debaixo de uma almofada de seu sofá e na beirada dele, algo que certamente chamou sua atenção. Ele parou no meio do caminho e acabou enfiando a mão nos travesseiros, tentando agarrar o objeto escuro que parecia vagamente um cabo. Ele a puxou para fora e se viu segurando uma faca de cozinha.
Havia uma faca de cozinha escondida em seu sofá, ou melhor, esquecida. Foi estranho ver porque ele nem se lembrava de tirá-la ou colocá-la no sofá. E o que ela estava fazendo no sofá? Certamente não foi ele quem a pegou.
Mas não foi isso que o assustou.
Havia uma faca de cozinha em seu sofá, uma que ele não se lembrava de ter pegado, e havia sangue nela. O vermelho que estava manchado na borda afiada era definitivamente sangue, e desta vez Alex não podia nem esperar estar errado.
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