Notas iniciais
Espero que curtam. :)

Leorio não havia engolido ainda tudo que a realidade acabara de entregar.
Kurapika estava sentado em perfeita postura no sofá de sua sala. Poderia ser melhor, se ele não estivesse tão tenso. Ainda não tinha se acostumado com muitas coisas naquela visita.


A presença de Kurapika era pesada, opressiva; e isso o entristecia. Ele lembrava do amigo como alguém muito menos ansioso, lembrava daqueles olhos com menos olheiras, daqueles cabelos, mais loiros e bem aparados. Lembrava perfeitamente dos robes coloridos que ele usava antigamente, e agora o amigo vestia apenas uma camisa de botões e uma calça de alfaiataria. Não tinha perdido a sua beleza sutil, porém. E não estava menos do que muito feliz por dentro, vendo que ele estava vivo e sano.


Leorio não lembrava de Kurapika tão desgastado. Ele não costumava tamborilar os dedos nas coisas, e nem dar longos suspiros sem razão. Mas por outro lado também não era o costume dele telefonar para Leorio, tomar a iniciativa.


Pela primeira vez naquele reencontro, ele quis tomar o mais novo num abraço, e queria ser um homem mais sábio, só pra saber como iluminar de novo o rosto de Kurapika. Leorio conhecia a cura para uma quantidade de coisas. Mas não para aquele tipo de patologia.


Ele iria cozinhar alguma coisa para receber o amigo, mas a visão de Kurapika esperando tão tenso na sala o fez desistir. Se limitou a fazer um chá, uma mistura que Leorio achava particularmente amarga, que uma vez pronta ficava vermelho escura. Serviu ele mesmo aos dois sobre a mesinha de centro, e ficou vendo os olhos do amigo o seguirem analiticamente. Quando finalmente sentaram-se frente a frente, o peso do mundo se instalou sobre os ombros do médico.


— Eu estranhei você ligar — disse, olhando dentro dos olhos vacilantes dele. — Eu estranhei porque você não me atendia antes. Mas eu acho que você tinha suas razões, não é?


Leorio queria arrancar todas as respostas de uma vez, mas como o bom adulto que era, foi compreensivo. Ele no fundo sempre compreenderia Kurapika. Mesmo que não o entendesse ás vezes.


— Eu tinha — ele murmurou. A voz cantada dele estava certamente mais grave e polida.


— Eu na verdade... — Leorio rascunhou, procurando por onde começar — ... estava um pouco preocupado. Eu sei que seu trabalho é difícil, mas fala alguma coisa, de vez em quando.


Evitou o olhar do outro por alguns segundos, só para ouvir a risada mais leve vinda dele, pintada de surpresa.


— Eu não sabia que você pensava tanto nisso, Leorio — ele desdenhou, daquele jeito disfarçado de formalidade. Isso, não tinha mudado em nada.


Idiota— rebateu. — Eu andei com você por quase um ano. Eu fiquei esperando você acordar depois de três dias dormindo. Você devia olhar melhor — e se revirou no assento, nervoso.


Nervoso com a própria sinceridade. Queria que Kurapika fosse sincero assim também e finalmente falasse o que acontecia naquela fortaleza que era a sua mente.


— Eu estou olhando com atenção — ele argumentou. — Você não gosta de chá, não é, Leorio?


A pergunta fora de hora veio com um olhar incisivo. Aquela foi a primeira vez em que se olharam por mais que segundos naquele reencontro. Leorio se sentiu um pouco mais feliz. Mas não sabia onde Kurapika queria chegar com aquela pergunta. Era verdade que, apesar de ter servido, ele não tinha tocado na sua xícara.


— N-não tanto. Quer dizer, eu comprei isso faz pouco tempo. Eu não gostei tanto assim, mas sei que você gosta, então eu fiz.


Um sorriso torto pintou o rosto de Kurapika, graciosamente sutil. Quase imperceptível, mas gritante aos olhos do médico.


Depois de tomar o último gole da xícara, o loiro se preparou para falar novamente. Leorio notificou como as bochechas dele se pintaram de rosado quando o vapor as tocou.


— Eu gosto dessa mistura — e ele se demorou sentindo o gosto da bebida — Earl Grey. Eu disse uma vez que gostava muito. Ou você lembrou, ou você adivinhou. Considerando que você é alguém atencioso, eu acho que você se lembrou.


Havia uma coisa muito bonita na voz dele dizendo aquilo, e, pela primeira vez naquelas horas Kurapika parecia menos ansioso. Seu rosto pálido ficou mais radiante enquanto ele olhava para Leorio, questionador, esperando uma confissão dele. E Leorio, por sua vez, sentiu-se mais leve também. Era a mais pura verdade, descoberta nele facilmente. Ele tinha aquele chá em casa desde que considerou ficar naquele apartamento por alguns anos — imaginava que um dia receberia Kurapika ali. E lembrava perfeitamente que tipo de chá ele gostava. Lembrava também que instrumento musical ele gostava mais de ouvir e que livros ele mais lia. Essas coisas ficavam fielmente arquivadas em sua mente. E felizmente, agora, o rosto dele lhe era claro e familiar de novo.


O moreno não evitou um sorriso. Um tipo de sorriso privado que ele não estava acostumado a dar.


— É... Eu lembrei. De que chá você gostava. É normal, eu acho — ele desconversou, observando o quanto os ombros de Kurapika estavam mais largos naquela postura. — Tem tido notícias de como estão os outros? — disse, desviando um pouco o assunto da relação entre eles. Leorio queria desesperadamente abordar aquilo, mas tinha certo receio.


— Não muito, mas Gon e Killua devem estar fazendo o que sempre fizeram — ele mostrou um sorriso saudoso, olhando pela porta de vidro atrás de si. — Faz muito tempo que não ouço deles. Desde o incidente com Gon.


— Ele está bem agora — o rosto crescido do menino, que já não devia ser mais tão menino, passou pela cabeça de Leorio. — Killua também. Recebi uma carta dele e da irmã faz pouco tempo. Eles estão enormes. Passa rápido, essas coisas. Killua fez dezoito anos, em julho, você acredita? E eles ainda se vêem de vez em quando. Não se separam por nada.


Os dois riram sinceramente dessa vez, a saleta parecendo cada vez menos escura e mais quente. Kurapika já tinha relaxado um pouco na poltrona, ele percebeu, enquanto notificava o quanto era belo quando ele sorria e ajeitava os cabelos. Os olhos de Leorio eram sempre pegos por essas pequenas coisas.


O assunto "aniversário" logo piscou na mente de Leorio.


— Eu telefonei quando você fez aniversário esse ano. Vinte e dois, não é? — e o rosto plácido dele fazia parecer bem mais jovem, no entanto — flor da idade.


— E você vinte e quatro — ele retorquiu, fazendo um bico de desdém para o elogio — não somos mais tão novos assim.


— Nada disso — Leorio brincou — temos muito o que fazer ainda. Principalmente você.


— O que quer dizer com isso, Leorio? — ele questionou, não bravo, mas analítico.
O tom de voz dele quase lembrava quando discutiam por besteiras, antigamente. Aquilo aqueceu um pouco o coração enevoado do médico.


— Nada mais do que eu disse — explicou-se. — Você tem muito a viver ainda, coisas que você nunca fez. Todo tipo de coisa. Você precisa passar alguns anos em paz. Paz de verdade, Kurapika. Um dia você precisa — e fechou um pouco os olhos.


Ele sabia como Kurapika reagiria àquele assunto.


— Desculpe — ouviu um movimento do mais novo, e por um segundo seu coração pulou, com medo de que houvesse estragado as coisas.


— Eu vou fazer isso algum dia definitivamente. Mas enquanto eu não consigo encontrar essa paz, Leorio, eu acho que posso ter um pouco dela. Ás vezes. Tem coisas e pessoas nesse mundo capazes de me fazer ficar em paz. Você sabe disso. Você me conhece — ele respondeu, a menor nota de satisfação em sua voz. A expressão encarando Leorio pelo canto do olho — então não precisa ficar tão... preocupado.


O médico se levantou, pegando as xícaras — a dele, ainda cheia daquele chá vermelho escuro, que agora lembraria o loiro para sempre — e levou-as até a cozinha.


Tanto havia sido dito, e Kurapika ainda não sabia, maldição. Não sabia que Leorio se odiaria por meses se não o abraçasse pelo menos uma vez antes do fim daquele reencontro. Ele foi tomado por uma urgência, sozinho na minúscula cozinha, enquanto separava as louças.


Porém, Leorio estava feliz. Ficou feliz na hora em que ouviu Kurapika falar ao telefone, porque ele estava vivo, e ainda era capaz de suportar suas brincadeiras, ainda conseguia sorrir. Aquilo deixava Leorio feliz e aliviado. Mas no fundo de sua alma, ele sentiu-se incapaz, porque Kurapika parecia distante.


E o médico não sabia como contar ao amigo, antes de sua partida, como ele se sentia sobre ele. Como sonhava com ele algumas noites sem nem querer, como ele queria saber a sensação de tocá-lo, como percebia beleza em tudo que ele fazia. Leorio já sentira atração por muitas pessoas, mulheres e homens. Já tinha estado com algumas pessoas, sendo ele um homem já crescido.


Mas elas pareciam não ter nem rosto nem nome quando pensava que Kurapika Kuruta estava ali, tão perto dele.


Leorio— a voz serena dele chamou, e Leorio foi arrancado de seu transe. Ele não havia lavado uma xícara sequer; tinha estado encarando a geladeira desde que entrou na cozinha.


— Kurapika. Eu demorei.


— Eu percebi — o loiro se pôs ao seu lado frente a pia e começou a lavar ele mesmo as louças, olhando com uma curiosidade disfarçada no fundo dos olhos do médico.


Olhos grandes e de cortinas que não deixavam Leorio ver o que tinha na alma. Estando perto assim, ele notificou, que o Kuruta usava uma colônia com um cheiro floral e fresco. Leorio roubou olhares da nuca dele, um palmo abaixo da sua própria, pela diferença de altura. Haviam cicatrizes visíveis ali e nas costas, e aquilo foi como uma mão gelada apertando seu interior. Imaginar que ele não estivera por perto para curá-lo quando se feriu.


— Como eu ia dizendo — murmurou o menor — eu preciso ir, Leorio. Na verdade meu trabalho é na cidade vizinha, e amanhã á noite tomamos o vôo para o próximo local. Mas eu fico feliz que consegui te visitar, e... — ele esclareceu, secando delicadamente a última xícara. Leorio não ouviu o resto.


A visão de Kurapika entrando em um avião e desaparecendo por mais um ano revirou seu estômago, conjurou um nevoeiro em sua razão, fez suas mãos tomarem vida própria. De repente, a cozinha ficou menor que já era. Resumiu-se a uma pessoa e a um assunto.


Leorio, cuidadosamente, seguindo um ritual imaginário que insegurança nenhuma o faria quebrar, tirou das mãos de um Kurapika silencioso a xícara, e a colocou sobre a pia. Virou-se para ele, ficando frente a frente com a figura imóvel do mais novo. Os olhos dele perguntando, qual era o sentido de tudo aquilo. Leorio ficou tenso, mas definitivamente resoluto de que aquilo não esperaria mais.


Contra a parede que separava a cozinha da sala, ele envolveu Kurapika em braços longos e trêmulos, cansados de tanto escrever e discar, entrelaçou os fios macios dele em dedos doloridos. Abrigou aquele corpo tenso, jovem e maltratado no seu próprio. Apoiou o queixo — que, droga, já tremia num choro bobo, tão bobo— no topo da cabeça do mais novo, e lutou para manter a expressão neutra, mas parecia impossível. Acabou envolvendo-o demais, quase enterrando os dedos no ombro e nos cabelos de Kurapika. Assim tinha sido o primeiro abraço em seis anos que daria nele.


Seu idiota— ele murmurou, a fala quebrada — você acha que pode sumir por anos, e aparecer por aqui desse jeito. Com essa conversa. Tão cansado, Kurapika. Cheio de machucados. Droga, o que você anda fazendo?— questionou sem esperar resposta. Teve de parar para deixar umas lágrimas estúpidas correrem e molharem as franjas do mais novo.


Kurapika tocou seus antebraços em resposta, mas permaneceu calado.


— Diga alguma coisa— ele suplicou — porque eu não vou deixar você desaparecer assim de novo. Droga. Como você acha que eu, eu, Gon, Killua, vamos ficar se um dia você nunca mais aparecer? Pelo menos... pelo menos fique mais e me deixe... deixe... ah, droga— ficou sem palavras então se limitou a acariciar os cabelos que ele tanto gostava, o pescoço pintado de cicatrizes com o polegar.


Embora Kurapika estivesse em silêncio — exceto por um choro hesitante que ele escondia muito bem — seus olhos explicavam tudo. Estavam ternos; de janelas abertas; mesmo com as olheiras e o peso, diziam coisas que Leorio sabia que queria escutar.


Tomou a face do mais novo nas duas mãos e beijou-lhe a testa, um pouco mais demoradamente que devia; e em um movimento só retirou os óculos de leitura, para beijar-lhe os lábios contrastantes e avermelhados, que estremeceram ao toque.


"Leorio," o loiro soprou quase dentro de sua boca. Mas não protestou, apenas o deixou se decidir, ele não queria ter pressa alguma com Kurapika. Sentiu o gosto daquele chá forte em seu hálito, notificou a suavidade da boca do mais novo. O puxava tão para perto que sentia cada centímetro do corpo pequeno dele, esforçando-se para se encaixar no seu.


Leorio aprofundou o beijo na primeira chance que teve, desceu uma das mãos até a cintura do loiro, e sentir a harmonia de formas do corpo dele só o fez querer mais. Kurapika respondeu enlaçando sua nuca com um dos braços e descendo a outra mão por suas costas. Parecia que tudo que calaram um sobre o outro nesses anos todos, estava gritando tão alto que tinha os deixado surdos.


Um rosnado de pedir escapou de sua boca quando Kurapika se afastou centímetros, só para que pudessem andar até a sala novamente. Ainda tão perto como tinham deixado de estar por um tempo incontável. Na mesma poltrona que tomaram aquele chá cheio de palavras não ditas, Kurapika se colocou, um botão de sua camisa descosturado com o bruto e sincero abraço que Leorio lhe dera e os cabelos bagunçados.


O moreno se colocou no pequeno espaço que cabia, sobre o mais novo — afinal, aquela era uma poltrona para um— e o beijou novamente, dessa vez com menos urgir e mais desejo. Não era segredo que ele desejara Kurapika desde que se tornaram tão próximos. Não negava isso. Ele queria o loiro, sua boca fina e de curvas acentuadas, queria suas lágrimas e sua risada, queria o vermelho vivo de seus olhos e seu corpo inteiro, o que era doce e o que era amargo nele, Leorio quis.


A saleta se encheu de suspiros marejados quando Leorio beijou o pescoço do mais novo, que se mostrava surpreendentemente acostumado com aquilo. Cada suspiro — "ah, Leorio..." — que ele esboçava, podia sentir o som em seu pescoço, enquanto se perdia na colônia fresca e no gosto indescritivelmente humano que sentia ao beijar aquela pele.


Era também impossível ignorar o quanto o roçar de seus membros um no outro fazia seus pensamentos perderem o senso.


Afastaram-se um pouco e respiraram como afogados em terra, os olhos de Kurapika logo voltando à consciência do que estava fazendo com Leorio.


— L-Leorio — ele pôs instintivamente a mão sobre os olhos, que estavam avermelhados — me desculpe se eu...


— Não. Eu beijei você. Eu não deveria... — Leorio esboçou, temeroso de ter deixado seu corpo falar mais alto que sua consciência.


— Eu não pensei que você se sentisse dessa maneira. Eu... — o loiro deixou que Leorio visse seus olhos, dilatados e rubros, ameaçadores. A visão o assustava um pouco, mas ele era capaz de encarar, afinal, aqueles ainda eram os olhos de Kurapika.


Já havia visto aquele vermelho, mas ele não perdia a beleza e a profundidade.


— Você é tão inteligente, mas ás vezes, parece que não é para tudo, Kura— ele brincou, fazendo que não com a cabeça — Como você não percebeu? Ninguém nunca... se interessou por você? Não é possível.


Apesar de estarem um sobre o outro em uma poltrona para um, Leorio percebeu Kurapika corar.


— É claro que já — ele pareceu levemente ofendido. — Só que eu nunca imaginei que você fosse... querer isso.


É claro que eu quis— e se curvou para sussurrar no pé do ouvido do loiro, os lábios roçando na pele tenra perto dali — eu sonhei com você, Kurapika. Mais de uma vez. Eu quis você aqui. Esse tempo todo. Eu te beijei porque não queria que você escapasse.


Um gemido satisfeito vindo dele fez Leorio estremecer em deleite.


— Não vou escapar — Kurapika soprou de volta, surpreendentemente calmo e concentrado — eu não seria tão estúpido. Eu tirei o dia de hoje para estar em paz, Leorio.


Leorio deu um último olhar sobre ele antes de beijar sua testa novamente como no começo daquilo. E se sentiu especial, porque depois de anos de insistência, nada tinha sido em vão.

Notas finais
Espero que tenham curtido. Terá ainda mais 1 capítulo! quero fechar esse reencontro... eu acho particularmente difícil escrever o Leorio. Ele aparece tão pouco, acho que prestei pouca atenção nele como personagem. Esqueci de lembrar que essa fic só considera o anime, e não o mangá. Obrigado a quem tem comentado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.