Insignificantemente, você

27 Capítulo vinte e seis


Sua cabeça latejava novamente, e por um momento, pegou-se pensando em como aquilo acontecia com frequência. Entretanto, dessa vez não estava em sua cama, ou no St. Mungus. O chão era fofo, mas frio o suficiente para fazer seu queixo bater freneticamente. Nada mais era do que neve. Apoiou-se nos cotovelos, olhando a sua volta e então, a memória do ocorrido passou em sua mente como num filme. Voltava da casa de Draco, distraída em pensamentos, atravessava o parque próximo a sua casa quando algo bateu contra seu corpo e lhe lançou longe.

Seu casaco preto destacava os brancos flocos de neve que o cobriam. Levantou-se rapidamente, cambaleando até que sua cabeça parasse de girar. Procurou nos bolsos a varinha intacta, voltou para casa em apressados e largos passos, seu peito ardia e coçava, tinha uma grande suspeita do que significava.

De frente para o espelho que lhe mostrava o corpo inteiro, tirou o sobretudo e a camisa. Bem onde imaginara. Abaixo de sua clavícula esquerda uma marca em formato de “X” recém-cortado ardia, o sangue quase seco não escorria, mas manchara o contorno da cicatriz. Encheu os olhos de água, mas segurou-as bravamente. Não choraria, não mais. O ataque fora debaixo de seu nariz. Tornara-se algo pessoal.

Tudo o que fez foi entrar em um relaxante banho quente, para tirar a sujeira do sangue e livrar-se da sensação desagradável que lhe mantinha em angustia. Enrolou-se no roupão felpudo e se jogou na cama, caindo no mais profundo sono.

Cinco dias se passaram desde o ocorrido. Molly já estava em casa, muito melhor, mas amedrontada diante do acontecido. Rony e Harry continuavam tentando juntar as peças que Hermione lhes adiantara. A garota não saíra de casa durante os dias decorridos, passava lendo ou fazendo anotações na maior parte do tempo. Draco parecia preocupado com sua falta de comunicação. Ainda mais receoso quando a carta que Harry lhe enviara não voltara com resposta. O jovem auror lhe alertou que Hermione provavelmente queria ficar sozinha, mas não se convenceu, e naquela manhã resolveu visitá-la, com ainda mais urgência depois que Nott falara que também não recebia noticias há alguns dias. Aparatou na frente da casa, as luzes apagas e cortinas fechadas. Esperou que a vizinha idosa passasse para tirar a varinha o bolso e murmurar “alohomora” claramente. Com um clique a fechadura se abriu, deixando o caminho livre. Verificou o primeiro andar e então, lentamente subiu as escadas, sem produzir ruído algum. Os quartos todos vazios, o de Hermione também, exceto pelo banheiro que parecia bastante iluminado comparado ao restante da casa. A primeira vista só reparara na cortina bem aberta. Na segunda olhada reconheceu Hermione, sentada com a varinha atrás da orelha, o cabelo bagunçado e preso. Lia um grosso exemplar de capa verde musgo, mas o que lhe intrigava era o local em que a garota lia, no conforto de sua banheira. Pigarreou e bateu na porta com os nós dos dedos. Sorriu-lhe quando recebeu a atenção desejada.

—O que faz aqui? —Perguntou sem desgrudar os olhos das páginas amareladas e extremamente gastas pelo tempo de uso.

Draco deu alguns passos a frente. Inseguro.

—Você não deu noticias, resolvi ver se estava bem! —Observou-a novamente, encolhida na banheira, não entendera. —Por que está aqui dentro? Não é mais confortável no seu escritório ou algo assim?

Hermione baixou o livro e fechou os olhos.

—Não sei, aqui é ótimo também. —Voltou a levantar o livro para dar continuação a leitura.

Draco interferiu, pegando o livro, deixando-o sobre a pia. Tirou os sapatos, revelando o par de meias coloridas, e entrou na banheiro com Hermione, entrelaçando suas pernas dobradas em um V de ponta cabeça. Encarava-a, assim como Hermione fazia. Seu olhar nada mais era do que curiosidade pura, encarava-a com força, como se fosse atravessar seu crânio e então descobrir os segredos de Hermione num piscar de olhos. Movimentou os lábios, comprimindo-os.

—Por que fugiu naquele dia? —Perguntou depois de algum tempo em pleno silêncio.

Talvez fosse a proximidade em que estavam, mas Hermione não conseguiu responder de imediato. Naquele momento não se sentia intima o bastante para confessar os sentimentos confusos, mesmo que no exato segundo, dividissem a banheira seca.

—Eu não sei, só precisava pensar! —Jogou a cabeça para trás, inalando o perfume amadeirado que o rapaz usava, sentiu-se vulnerável diante de tamanha aproximação. Eram apenas os dois. Desde o beijo não conseguia pensar com clareza, e tudo de que se aproximava, parecia levar sua mente até o par de olhos cinza azulados.

—E foi para onde? —A pergunta lhe pegou desprevenida, não entendera.

—Como assim? Voltei direto para casa, aparatei um pouco longe para caminhar. —Respondeu ainda sem entender.

Draco franziu o cenho.

—Potter te mandou uma carta, e a coruja voltou! —Falou explicando a desconfiança. —Você não estava em casa!

Involuntariamente Hermione tocou a cicatriz por cima da blusa e cabisbaixa resmungou. Draco reparou e analisou-a.

—Você foi atacada, não foi? —Hermione lhe dirigiu o olhar, assustado de certa forma. Não respondeu. —Hermione?

A garota remexeu-se e assentiu, com a típica coragem Grifinória, permaneceu encarando-o com tanta firmeza quanto poderia.

Draco se esticou por cima das pernas de Hermione e sem consentimento, puxou o decote de sua blusa de lã para baixo. A marca em “X” estava ali, bem delineada na pele clara e macia. A vermelhidão era bastante visível, assim como o relevo que sua pele tornara-se. O rapaz tocou toda a extensão do ferimento, passando delicadamente o dedo pela marca.

—Dói? —Foi tudo o que conseguiu dizer no momento.

Hermione negou.

—Não tanto quanto o orgulho ferido. —Resmungou. —Sou uma aurora treinada, subchefe. E não consigo me defender de um ataque!

Praguejou alto de repente, interrompendo os pensamentos de Draco.

—Isso deveria arder? —Perguntou massageando o peito dolorido. Abafou um grito novamente. Draco aparvalhado com o ocorrido, não conseguiu pensar. —Está queimando.

Draco percebeu que a cicatriz de repente começara a sangrar e ficar cada vez mais vermelha, Hermione já tinha um nó na garganta tamanha dor que sentia. O rapaz não demorou a abrir a ducha sobre a banheira. Virou Hermione, de modo que a garota ficasse de costas para si, encostou-a em seu peito e deixou que a água morna caísse sobre o peito da garota. A pele de Hermione estava quente o suficiente para fazer com que as primeiras gotas de água ressonassem como sibilos de diversas cobras. Molhado acariciou o cabelo da garota, abraçando-a.

—Como está? —Perguntou atenciosamente, preocupado com a cor intensa que irradiava da pele.

—M-Muito... Muito melhor! —Respirava de forma pesada, como se não aguentasse o próprio corpo.

A água quase fria ainda escorria, molhando a ambos. Nos corpos colados não havia segundas intenções, Hermione ardia em queimação enquanto Draco, tentava acalma-la e reconfortá-la diante do acontecido.

—Obrigada, Draco! —O rapaz não viu sua expressão, mas tinha a certeza de que sorria timidamente, e assim, deixou um sorriso brincar em seus lábios.

Notas finais
Olá, espero que gostem. Ah, quero agradecer a Pursue its dreams, pela recomendação!