Insignificantemente, você
55 Capítulo cinquenta e quatro
Hermione despertou naquela manhã com o gato sobre sua barriga, mexendo a pata para tentar acordá-la. Sorriu para o animal e acariciou-lhe a cabeça, os raios do sol embrenharam-se pela janela e pela cortina, iluminando o quarto, inclusive a cama da garota, acostumando-a aos poucos com a luz forte. Havia sol e neve, mas o calor não era suficiente para aquecê-la. O banho quente lhe renovou e tirou também a preguiça e a dor de cabeça do corpo esguio. Havia breves olheiras abaixo de seus olhos castanhos, sorriu para a imagem que via no espelho. Hermione estava mais velha, o rosto com expressões mais sérias, mas ainda sim doces, o cabelo continuava o mesmo, mas agora mais liso do que antes, a coluna sempre ereta, junto dos ombros bem encaixados. Virou-se nos calcanhares e jogou o roupão sobre a pia do banheiro, vasculhou o guarda roupa atrás de seu uniforme. Desistiu.
—Accio uniforme! —A roupa voou para sua mão depois de sair de uma bola de roupas amontoadas no fundo. Uma completa bagunça. Vestiu-se, ajeitando por fim os cabelos em um coque no topo da cabeça.
Antes de sair, encheu as tigelas do gato que ainda teria de pensar em um nome, o livro de Draco, jogado no sofá foi guardado dentro de sua bolsa, seria lido a qualquer momento. No caminho para o trabalho, comprou três cafés de sua cafeteria favorita, pediu também alguns bolinhos. O sol parecia surtir efeito em seu humor, muito alegre naquele dia. Não havia provas externas de que dormira tarde e bebera na noite anterior, estava bem demais. O Ministério estava cheio, bruxos chegando e saindo pelas lareiras em chamas verdes, ou, pelas cabines telefônicas. Hermione cumprimentou um ou outro bruxo que passava, normalmente, abarrotados de papéis e pastas. Pegou um exemplar do Profeta Diário e equilibrou-o sobre a caixinha com os três cafés, o elevador foi tarefa difícil, movimentando-se para todas as direções, teve de segurar firme tudo que carregava.
—Harry... —Entregou ao amigo um dos copos de café assim que entrou na sala, seguiu até o amigo ruivo. —... E Rony!
—Obrigado! —Harry e Rony ergueram os copos de plástico.
—Ah, trouxe bolinhos! —Estendeu o saco de papel para os amigos antes de se sentar na frente de sua escrivaninha. —Chocolate.
—Hermione, você é perfeita! —Rony anunciou, procurando por um bolinho no saco.
Hermione sorriu e pegou a primeira pasta fina que via há tempos. Abriu-a e começou a olhar as fotos, seus alunos todos, os formulários pediam a localidade para onde seriam enviados para trabalhar. Pegou a pena e molhou a ponta no tinteiro, iniciando o trabalho do dia, alternando os formulários entre um gole e outro no café. Rony espiou por cima da escrivaninha de Hermione e riu baixinho.
—Vai mandar Theodore Nott para a França? Na primeira missão dele? —Riu cético.
—Acredite, ele é um dos meus melhores alunos e o caso da França precisa de discrição. Todos os trouxas acham que o ocorrido são atentados, é óbvio que tem algo errado, e Nott vai saber o que fazer! —Respondeu, acrescentando algumas palavras no pergaminho.
Hermione fechou a pasta e esticou-se na cadeira, reprimindo o bocejo.
—Já terminou Hermione? —Harry perguntou, enquanto bocejava em cima de alguns pergaminhos enrolados e envelopes selados. A garota assentiu.
—Como pode ser tão rápida, você tinha mais alunos que eu! —Rony se pronunciou, mostrando que estava ainda no começo dos formulários. Harry balançou a cabeça e sorriu.
Hermione respondeu sonoramente:
—Eu conhecia meus alunos, sei onde cada um se encaixa!
Tirou da bolsa o livro de Draco e começou a folheá-lo distraidamente, nem sequer lia. Até que um pedaço de pergaminho flutuou para fora das páginas surradas, na tentativa de pegá-lo ainda no ar, Hermione bateu com o braço no corpo de café, derrubando-o sobre a mesa, uma poça de líquido negro encheu a mesa, o papelzinho flutuante pousou exatamente sobre a poça, molhando-o. Hermione tirou-o delicadamente dali e tentou lê-lo. Abriu um grande sorriso.
—Eu... E-eu preciso ir! —Disse aos amigos e pegou o livro, não ouviu os gritos de Rony ou de Harry, correu para fora do Ministério, diretamente para as cabines telefônicas. A passagem para o St. Mungus ficava a poucas quadras dali, e correu, correu sobre os saltos, pulou sobre possas e ignorou as buzinas histéricas que gritavam para que saísse do meio da rua. Tinha que encontrá-lo.
A vitrine da loja abandonada parecia velha e gasta, os manequins nus dentro da loja em posições impossíveis e assustadoras. Atravessou o vidro, certificando-se antes que ninguém a observava, fora uma sensação gélida, mas rápida. Quando abriu os olhos e viu-se no hospital sorriu de leve, estava mais perto. Correu até o balcão de informações.
—Malfoy? —Perguntou numa voz aguda e passageira. A moça de branco lhe informou, mostrando o mapa acima de sua cabeça e Hermione agradeceu-a com um aceno da cabeça.
Correu até o elevador e conseguiu passar pela brecha das portas antes que se fechassem, suspirou. A viagem breve até o andar de Draco pareceu-lhe durar uma eternidade, e quando as portas metálicas finalmente se abriram, Hermione saltou para fora, correndo. Virou um corredor e no final do mesmo, Draco conversava com outro curandeiro, Hermione agora caminhava, passos curtos a vagarosos, doloridos e ansiosos, como a batida de um coração. O rapaz ainda não havia percebido sua presença ali. Seu coração acelerava, não havia pensado em um roteiro e imaginou-se escondida no corredor ao lado, fugindo de Draco, ali tão perto. Mas seu peito leonino de Grifinória lhe indicou o caminho certo, seguiu com a cabeça erguida pelo corredor e quando se encontrava a poucos metros de Draco, o olhar do rapaz pousou em seu rosto e no livro em sua mão. Falou algo para o homem ao seu lado e caminhou até Hermione.
—O que está fazendo...
Hermione esticou a mão, pedindo que se calasse e foi o que o rapaz fez. Hermione falou:
—Draco, eu aceito me casar com você! —O ar parecia não lhe fazer falta, mesmo falando tão apressadamente que não percebeu a voz alterada com que falava. —É o que eu mais quero, eu... Eu te amo!
Draco soltou a prancheta que caiu com força no chão e beijou-a, agarrando-lhe a cintura com possessão. Hermione seria sua e apenas sua, para todo o sempre.
***
Do outro lado de Londres, no Ministério da Magia, Harry observava o papel molhado de café sobre a escrivaninha de Hermione e sem que Rony percebesse, sorriu satisfeito.
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