Insignificantemente, você

35 Capítulo trinta e quatro


Os segundos que decorreram a fala do comensal foram rápidos e de intensa agonia. A varinha apontada com firmeza para os dois jovens. Draco afastou Hermione, jogando-a para trás de seu corpo. A garota percebeu que seus músculos se contraíram ao apontar a varinha para o inimigo. Estava pronta para lutar ao lado e Draco, e ajudá-lo com o comensal, não ficaria parada aguardando. Lutaria. Mas, a ardência em seu peito lhe negou a adrenalina de um duelo. Seu peito lhe fez arfar e dobrar-se. Agarrou o braço de Draco. O rapaz por sua vez não tirou os olhos do homem à sua frente.

—Exploda aquela pedra. —Disse ao loiro.

Draco resolveu não discutir. Mirou na rocha que o Comensal da Morte se posicionara e sacudiu a varinha. A rocha explodiu em milhares de fragmentos. Nesse momento Draco protegeu a cabeça de Hermione, como um escudo, correram para entre as arvores, o mais rápido que podiam.

—Por que não ficamos e lutamos? —Perguntou Draco, quando já estavam afastados o suficiente.

Hermione que caminhava a frente, segurando não só as lágrimas e a queimação, como o peso do corpo, parou e escorou-se em uma grande árvore. Deslizou o corpo pela casca e sentou-se na raiz.

—Não conseguiríamos! —Respondeu, tentando manter a voz firme e sem alterações.

Draco reparou na mudança de humor de Hermione, a garota nem sequer o olhava.

—Não? —Usou todo seu sarcasmo. —Éramos dois. Seria simples!

Hermione não ousou olhá-lo, mesmo percebendo a aproximação lenta de Draco.

—Agora me diga, por que não conseguiríamos!

—Vamos continuar por ali, parece uma trilha. —Apontou para uma longa e estreita falha na mata.

Levantou-se cambaleante, torcendo para que Draco não a questionasse o motivo. Seguiu na frente.

A lua já se encontrava no céu, e até o final daquele dia, não haviam encontrado nada e nem ninguém. Hermione continuava alguns passos à frente, ignorando Draco.

—Hey, sua maluca! —Draco gritou. —Vamos acampar por aqui, já está tarde. E estou exausto!

Estou mais exausta que você — pensou olhando para frente. Derrotada, voltou até o loiro e encolheu-se ao lado de um tronco caído. Usou o casaco amarrado à cintura como cobertor. Fechou os olhos, tentando evitar Draco que fitava suas costas com intensidade.

Na realidade, não dormiu um minuto sequer, receosa com os comensais da morte que poderiam aparecer a qualquer momento. Quando percebeu que a respiração de Draco se acalmara, sentou-se mais afastada e chorou baixinho.

Assim como no dia anterior, despertou antes de Draco. Limpou o rosto inchado e coçou os olhos avermelhados. Cambaleou dois passos, afastando-se do rapaz, sentiu seu estômago roncar forte, faminto. Olhou a sua volta e adentrou a floresta, ao menos alguns metros.

As árvores eram praticamente grudadas, de maneira que seus galhos se entrelaçavam, formando uma enorme rede de folhas. Muito acima de sua cabeça algumas amoras arroxeadas pendiam entre largas folhas, suculentas. Hermione não pensou duas vezes. Amarrou o cabelo no topo da cabeça, prendeu o casaco que usara de cobertor no ombro e iniciou a escalada, de galho em galho foi subindo pelas árvores que juntas, quase formavam uma perfeita escada. Após alguns minutos cuidadosos de puro equilíbrio, sentou-se em um galho firme e mais grosso. Tirou do ombro suado o casaco e transformou-o em um saco, amarrando as mangas e as pontas juntas. Pendurou o saco improvisado em um galho mais acima de sua cabeça, e lentamente, começou a capturar as frutas, ajeitando os pequenos cachos dentro do casaco. Não resistiu e comeu algumas, lambendo os dedos avermelhados pelo suco.

—O que você está fazendo aí em cima? —Draco gritou.

Todo e qualquer equilíbrio que Hermione adquiriu, se esvaiu tamanho o susto que tomou com o grito do rapaz. Ainda sentada no galho, escorregou pelo lado e caiu dolorosamente. No percurso da queda, foi amortecida por outros galhos que quebravam conforme caía. Uma rede de galhos e folhas unidas a segurou, contudo, uma pequena — e pontuda — saliência perfurou a pele de sua coxa. Soltou um gemido forte e segurou-se nos galhos acima.

—Você está bem? —Draco gritou com toda a força de seus pulmões.

Hermione conseguiu sentar-se no galho e tirar a perna da madeira que a perfurara. Respirou fundo, contando até três, respirou novamente. Apertou os olhos, ignorando a dor.

—Vou subir. —Draco já segurava um galho, posicionado para a escalada.

—Estou bem. —Respondeu. Levantou-se, segurando-se com firmeza nos galhos próximos a sua cabeça. —Vou pegar meu casaco!

Subiu o mínimo possível, capturou o saco com a ponta dos dedos e colocou-o no ombro. Desceu o mais rápido que sua perna ferida permitiu. Pulou na frente de Draco.

—Você está bem? —Pegou o rosto de Hermione entre as mãos e examinou-a atentamente, procurando qualquer sinal de arranhões ou ferimentos.

—Já disse, estou ótima. Foi apenas uma queda!

Draco assentiu.

—O que você tem na cabeça para subir naquela altura? Se você se machuca, ou quebra algum osso? —Elevou a voz alguns decibéis.

—Não grite comigo, não sou nenhuma criança! —Apontou o dedo indicador, batendo-o no peito do rapaz. —Estou faminta, e aposto que também está. Fui buscar comida. —Draco ficou em silêncio. —De nada!

Saiu andando, rebolando, para longe de Draco. Forçando-se a segurar a dor o ferimento. Evitando de todas as formas possíveis, mancar.

Hermione acomodou-se de baixo de uma raiz alta, olhou para trás, para ter a certeza de que Draco não a olhava. Despiu a camisa que usava sobre a regata e rasgou uma longa tira, a qual enrolou na perna. Um perfeito torniquete. Improvisado. Soltou por cima da camisa rasgada as frutas que colhera e usou o casaco na cintura para cobrir a perna. Draco chegou logo em seguida. Sentou-se na frente da garota.

—Obrigado — Hermione o olhou com curiosidade. —, por ter colhido as amoras. Ontem à noite fiquei pensando no que poderíamos fazer quanto a fome. Mas você foi mais rápida, sempre foi!

Hermione não respondeu. Apenas balbuciou:

—Sirva-se, não temos tempo.

Comeu mais algumas e levantou-se, enquanto Draco seguiu mastigando as adocicadas — e às vezes azedas — amoras.

—Vou ver se acho alguma trilha, já volto. —Avisou sem esperar por uma resposta. Seguiu caminhando em direção à floresta.

Hermione voltou em poucos minutos, lenta e distraía pelos galhos quebrados e tortos. Limpando as bochechas rosadas.

—Por ali! —Apontou para trás de um grande e velho carvalho, deixando bem claro que não queria contato visual. Draco assentiu, posicionando-se ao lado da garota. —Ouvi vozes vindas daquela direção, por favor, silêncio!

E então, seguiram pela estreita trilha de galhos quebrados.

Notas finais
Espero que gostem, até logo!