Inserção
2 Lily
Havia uma mesa comprida feita de madeira com um pano que a cobria enfeitada de bordados primitivos, como os homens das cavernas costumavam pintar suas paredes. A luz de Zion denunciava uma manhã de festa porque estava tão claro quanto um sol de praia. Homens, mulheres e crianças se sentaram à mesa e, depois de uma prece, avançaram para a comida. Neo, capitães e operadores não estavam no café-da-manhã especial para outra jornada de suas naves aos confins do meio da terra. Estavam se preparando como homens que vão para uma missão especial.
– Você está falando sério, mamãe? – perguntou Luna estendendo a mão para uma maçã brilhante.
Lily, ao seu lado, fazia careta para uma papa que era sua refeição matinal.
– Estou Luna. – respondeu Trinity com um sorriso. Depois se virou para Lily. — Você não quer ir também, pequena Lily? Seu pai levará as duas na missão se eu o convencer.
Lily fitou a mãe cheia de indignação.
– Nunca mais chego perto de Matrix!
Luna se virou para ela na mesa do café-da-manhã. Não estavam tomando café em suas moradias porque era dia de celebração. Cada vez que as naves partiam em missões os habitantes de Zion comemoravam do amanhecer ao anoitecer.
Os capitães das naves que se deslocavam pelo centro da Terra em suas missões partiam e só voltavam depois de finalizar quaisquer que fosse sua tarefa (não demorava mais que três meses). Neo, o pai das meninas, era o comandante de Zion, responsável por todas as operações das naves, como um líder das navegações.
E também era o capitão da Horus. A imponente Horus era a chamada Nave do Juízo. Não era a única nave que despertava as pessoas de Matrix. Mas era a que tinha as missões mais impossíveis e especiais. Como fora o caso de Lily, a pequena, anos atrás.
***
DOIS ANOS ANTES
– Boa viagem, papai! – Desejou uma sorridente Luna entregando ao pai um desenho do que seria a representação dele entrando na Horus. – Eu desenhei Niobe também!
A capitã da nave Horus estava se despedindo do marido Morpheus e do filho pequeno. Era uma mulher negra, de rosto firme e decidido, olhos negros e cabelos presos em pequeninas tranças. Ela nunca perdia a vontade de navegar por baixo da terra – mas Morpheus estava muito satisfeito em cuidar da burocracia enquanto Neo partia para um missão de resgate com a Nave do Juízo.
– Você se lembra do que eu te falei, Luna? – perguntou Neo, abaixando.
Era um homem pálido, com uma venda preta nos olhos porque ficara cego na guerra contra as máquinas, cabelos negros com pontas falhadas. Ele sentia o mundo através de sensações e vibrações. Pessoas, emoções, gestos e intenções eram mais fáceis para Neo perceber do que para qualquer pessoa que enxergava.
Luna abriu um sorriso.
– Você-vai-buscar-uma-garotinha-da-minha-idade! – Disse em um folego só.
– E o que mais? – perguntou Trinity, se juntando à multidão de despedida, apertando o ombro da filha.
– Se ela aceitar a pílula vermelha ela viverá conosco! – Disse uma triunfante Luna de nove anos com um sorriso.
– Isso mesmo. – aprovou Neo e deu um beijo na mulher antes de girar o corpo. Neo avançou pelo corredor e Niobe se juntou a ele. Os outros capitães, operadores e diversos outros profissionais assentiram para que as portas subissem e permitissem a passagem.
Eram vários corredores que levavam às diferentes naves. A porta de Horus era a central. A multidão nas moradias fez um estardalhaço lá em cima, bradando mais uma viagem de seus heróis. Flores caiam do céu de Zion. Luna tirou uma pétala do nariz depois de espirrar.
A bagunça era imensa. Após as portas em que Neo e Niobe (e os outros) saíram se fecharem, eles ouviram os diversos portões pesados lá fora, no chamado Templo, se abrirem no teto. Em seguida, o barulho de mil engrenagens trabalhando e o zunido sobrenatural de gigantes naves deixando o chão. As naves dispararam por túneis verticais, abafando o caos da multidão lá de dentro. Luna apertou as mãozinhas contra os ouvidos. De repente, mesmo por trás das portas, um vento rasante jogou seus cabelos loiros e encardidos para trás. A Horus estava navegando.
Dentro da Horus, Neo se preparava para mais uma missão de resgate com sua capitã.
– O que você acha, Niobe? – perguntou Neo, sentado ao lado da capitã que controlava a nave.
– Sobre a garotinha? Seria uma espécie de milagre, não?
– Você acredita em milagres, Niobe? – perguntou Neo, rindo.
– Acredito em escolhas. Como todos nós aqui em Zion.
– E por que ela não poderia escolher deixar Matrix?
– Seria surpreendente. – respondeu Niobe, colocando a mão acima do painel de navegação e acendendo duas luzes. – Até mais, Zion.
Neo suspirou. A nave deu um fraco solavanco.
– Queria atrair a garota para um lugar mais isolado. Não queria chamar atenção.
Niobe virou a cabeça para Neo.
– Quando Morpheus acordava os adultos em Matrix ele sempre os atraia à lugares não habitados. – Lembrou Niobe.
– Eu sei. – Assentiu Neo se sentindo um tanto culpado. – Lily só tem nove anos. Como eu iria atraí-la para um beco sem saída ou um casarão abandonado?
Niobe deu de ombros.
– Entendo o que quer dizer.
A Nave do Juízo deixava o túnel de saída e encontrava os caminhos do centro da Terra.
***
– Eu acho que ela está doente. Precisamos leva-la ao médico. – murmurou a Sra. Evans olhando preocupada para a filha. – Você viu o que ela faz com a flor?
– Médico de loucos? – perguntou o Sr. Evans.
Lily Evans estava no sofá enquanto os pais dialogavam. Tinha nove anos. Mas ela estava longe de prestar atenção na conversa do Sr. e a Sra. Evans. Carregava na orelha uma flor na que se abria e fechava em suas pétalas.
Sua mãe ficou horrorizada no começo com o fenômeno. Seu pai tentou se livrar da flor por várias vezes. O lírio tornava a aparecer junto da filha caçula. Já fazia alguns meses.
As pessoas em Matrix gostavam da normalidade. Temiam qualquer coisa que não era normal.
O Sr. Evans acabou com todo o jardim por pavor. Irritado e confuso, ele jogou pesticida nas flores, passou com o cortador de grama nos arbustos e até na raiz da única arvore. Os vizinhos ficaram espantados. Então eles tiraram Lily da escolinha e a Sra. Evans parou de trabalhar.
A irmã mais velha de Lily, Petúnia, a chamava de aberração. Os pais não a contrariavam porque não sabiam o que estava errado. Foi mais ou menos na mesma época que o telefone começou a tocar com insistência.
Sempre que o Sr. ou a Sra. Evans atendiam, alguém desligava. Uma vez, por descuido, a Sra. Evans deixou que Lily atendesse numa tarde. Desde então a menina–aberração também esperava por um amigo imaginário chamado Neo.
A tensão era tão grande na família Evans que seus pais fizeram uma reunião. O Sr. Evans faltara ao trabalho e estavam decididos, finalmente, em levar a filha caçula ao médico. Não sabiam mais o que fazer. Até na igreja a Sra. Evans ia com mais frequência.
– Vamos, Lily. – chamou o Sr. Evans da porta da cozinha. Ele queria tirar a menina de casa pelos fundos, sem que ninguém visse.
A Sra. Evans subiu chorando para o segundo andar.
– Só mais um minuto, papai. – disse Lily, balançando os pés no sofá da sala. A flor enroscada em sua orelha ainda se abria e fechava.
– Vamos logo, menina! Já perdi meu dia no trabalho com você, se...
– Trinta segundos. – respirou Lily.
O pai ficou estático e nervoso na porta dos fundos. A mãe chorava no quarto, sem coragem para levar a filha no “médico de doidos”. Petúnia estava na escola.
TRIM.TRIM.
O telefone deu dois toques. Lily correu com a mãozinha esticada para atender.
– NEO?! – Lily perguntou no bocal.
– Vá ao hospital, pequena Lily. – respondeu uma voz masculina na linha e clique – desligou.
Fale com o autor