Notas iniciais
Ps: Uma One pra compensar o atraso com a CWQF.

— Eu fiquei louco?— Eu temo que sim. Você está totalmente pirado. Mas eu vou lhe contar um segredo... As melhores pessoas são loucas.


— Alice no País das Maravilhas.

NY fazia frio na manhã de sexta-feira do dia 26 de Outubro de 2010. Muito frio. Era por isso que eu estava naquele café. Não me importei de perder um dia de trabalho apenas para ficar lendo e tomar inúmeras xícaras de café, é claro que eu também posso considerar o fato de que naquele frio, eu não queria ter que passar o dia com a minha ex-namorada que por sinal era minha chefe. Perder um dia de trabalho em um café era mais convidativo.

Outro fato sobre NY é que além de frio, estava caindo uma chuva torrencial em Manhattan. O movimento do lado de fora era grande, pessoas transitando de um lado a outro apressadas, os taxis nunca pareceram tão disputados. Era como se cada pingo de água pudessem derretê-las, era... insano.

Andava sem rumo após pagar o café. Não tinha para onde ir ou o que fazer, particularmente tinha o dia livre e era assim que eu andava pela rua. Nunca vi necessidade de me esconder da chuva e ignorava os olhares esquisitos que eu recebia. Sentia-me como a criança desobediente que pisava nas poças de água. Splish, Splash.

Eu gostava de como o barulho soava e não me importava se no final do dia meu sapato estivesse totalmente destruído, eu podia ser inconsequente outra vez. Naquela brincadeira infantil eu quase não notei o corpo pequeno que se chocou contra o meu e caiu no chão.

– Auch! – Ouvi o gemido de dor e olhei para baixo. Esqueci completamente de estender a mão à figura pequena abaixo de mim. Senti o choque me corroendo por dentro e não fiz nada além de ficar parada a olhando. – Não vai me ajudar? Ah, esquece. – Resmungou tentando se levantar com dificuldade, acordei e a ajudei com uma sacola de livros que estava em sua mão e agora jaziam molhados.

– Seus livros...

– Damn! – Dessa vez notei o tom de raiva e recuei um passo a vendo verificar os livros. Quando se endireitou pude ter uma visão melhor. Deus, aquela mulher era absolutamente linda. O sobretudo negro escondia o corpo pequeno, mas não importava. Ela era linda. – Não vai pedir desculpas? Afinal era você quem estava distraída.

– Desculpe, eu... eu não vi você.

– Eu notei. – Respondeu irônica e ajeitou os fios castanhos. – Da próxima vez, brinque na chuva longe de pessoas normais.

– Prometo pensar sobre isso. – Ergui a sobrancelha desconfiada, aquela mulher era... diferente. Esperava um olhar ou uma voz de repreensão, o que eu tive foi ironia e diversão ocultadas pelos olhos chocolate. Ouvi barulho de passos outra vez e não demorei a perceber que a estranha morena estava indo embora.

Era insano notar que meus olhos seguiam a direção em que aquela garota estava indo. Me senti como a criança que se perde da mãe e não sabe o que fazer. Mas eu tinha consciência de que senti um arrepio quando olhei nos olhos dela, que meu coração disparou um pouquinho quando a ouvi, a voz era linda.

– Hey você, espera. – A estranha já estava do outro lado da rua e se dividia entre olhar os estragos nos livros e a rua.

– Sim? – Perguntou desconfiada.

– Eu... hm, você não está com guarda-chuvas. – Observei que ela estava molhada, o sobretudo, a calça jeans colada, a bota e os cabelos.

– Não é só você que gosta de brincar na chuva. – Piscou com um sorriso divertido.

– Mas você não acabou de me mandar brincar longe de pessoas normais?

– Eu nunca disse que era normal... disse?

Ela piscou outra vez e saiu andando. Eu não tinha a mínima ideia do que era aquilo que eu sentia. Era como se milhares de sentimentos guardados começassem a se agitar e eu apenas os segui. Eu não sabia o que era, é só que naquele momento eu desejei começar algo com aquela estranha.

– Hey. – Eu gritei outra vez e me espantei ao notar o quão rápido ela havia andado, cheguei até ela ofegando. Recebi um risinho divertido.

– Espero que seja importante para ter corrido e estar ofegante assim. – Avisou recuando um passo. – E a propósito, se toda vez que eu sair você correr atrás de mim é melhor que saiba que eu me chamo Rachel.

– Quinn. – Eu tossi em resposta com medo de estender a mão a ela, tamanho meu nervosismo. – E é importante... é que... – Eu comecei a rir de nervoso, era a primeira vez que eu era tão... impulsiva. – Está chovendo e frio e eu conheço um café que é quente e confortável. Eu queria saber se você não gostaria de ir até la comigo? – Abaixei os olhos sentindo que minha pele começava a esquentar.

– Primeiro você esbarra em mim e agora me chama para tomar café? – Perguntou desconfiada. – Isso é diferente, mas um pouco clichê eu admito.

– Não gosta de clichês?

– Nem mesmo para filmes, desses eu prefiro os Cult e originais.

– Bem, porque não vai comigo até o café e você me conta um pouco mais sobre esses filmes, eu posso te mostrar como clichês podem ser interessantes. – Senti minhas bochechas ficarem rubras.

– Olha, não me leve a mal... você parece uma ótima pessoa, mas... é melhor ficar longe de mim.

– Por quê?

– Porque eu sou louca. – Senti o tom de aviso em sua voz, era quase como se ela gritasse para que eu tomasse cuidado.

– Eu não posso acreditar que uma garota que brinca na chuva sem ter medo dos pingos e que volte de uma biblioteca seja louca. – Sorri em descrença, louca ou não, aquela garota me despertava uma curiosidade muito grande e eu estava disposta a desvendar cada mistério dela. – Por favor, vamos? Eu não estou te pedindo em casamento, apenas tome um café comigo? – Ela me olhou indecisa e pareceu ponderar.

– Tudo bem, acho que um café não fará mal. – Eu agradeci com um aceno e um sorriso que ela correspondeu. Fomos andando na chuva mesmo enquanto um silêncio confortável caía sobre nós. Não via necessidade de começar uma conversa imediata agora e eu podia apostar que tanto eu quanto ela apreciávamos o barulho da chuva.

Eu não sabia como funcionaria. Quando mais nova perguntei a minha mãe sobre amor e ela apenas me respondeu que não tinha tempo para que ele chegasse. E que amor, em toda a sua forma também era a destruição. Da felicidade ou da tristeza, bem, aí dependia de cada relação. No meu caso começou debaixo de um céu nublado, uma chuva copiosa e duas pessoas encharcadas.

Rachel aceitou tomar café comigo, café que em seguida evoluiu para um almoço no dia seguinte, um passeio em uma galeria de arte e por fim num passeio a praia durante a noite, a lua solitária foi a cúmplice que necessitávamos para um primeiro beijo algum tempo depois.

Dias que seguiram semanas, que seguiram meses, que seguiram anos. Natal, Ano Novo, Dia dos Namorados, dia de qualquer coisa, não havia uma data que não passássemos juntas. Porém com o tempo vieram as brigas, as discussões, as reconciliações seguidas de uma noite intensa de amor. Vinha a paz.

Foi com o passar do tempo que eu entendi toda aquela loucura. Rachel não era normal, pelo menos era o julgamento que todos faziam, mas ela era, Rachel era o meu normal. Precisei me acostumar com o fato de que ela passava metade do dia desconectada com o mundo, ela tinha só o dela e eu pude me sentir uma filha da mãe de muita sorte por ela ter permitido que eu fizesse parte dele. Precisei me acostumar com palavras desconexas, do porque ela falava e divagava melhor escrevendo do que falando. Ah palavras, ela sempre foi cheia delas, eu não reclamava de passar o dia a ouvindo, se parecia com uma criança me contando todos os detalhes de qualquer coisa que tivesse acontecido. Precisei me acostumar com o fato de que ela detestava os clichês, mas chorava com todos eles. De que era uma bagunça de sentimentos como com a nossa casa, dizia que não sabia se virar no organizado. Era cheia de defeitos e de uma forma totalmente louca e insana, eu era apaixonada por ela desse jeito.

– Tem algo nas minhas costas. – Disse em um dia qualquer enquanto estávamos vendo filme na TV. Eu estava assistindo, ela tinha os dedos manchados de giz de cera, o desenho no papel era um barco.

– Me deixa ver. – Me abaixei até estar sentado no chão como ela e levantei a blusa, não havia nada, nem um fio de cabelo que pudesse estar incomodando. – Ray, não tem nada. – Voltei ao meu lugar vendo o filme e ela ao desenho. Já vi muitas pessoas a julgarem por muitas vezes estar com as unhas sujas, mas ela não ligava, dizia que não havia motivo para cuidar sendo que as sujaria mais tarde.

– Tem certeza de que não tem nada? – Levou as mãos as costas de novo procurando o que quer que fosse. Não era a primeira vez que acontecia e eu já tinha uma saída fácil para aquilo. Quando Rachel invocava com alguma coisa era difícil fazê-la esquecer.

– Espera, acho que estou vendo alguma coisa. Não se mexa. – Eu sorri da ideia que me passou pela mente. Suspendi a blusa novamente. – Ray, acho que estão crescendo asas.

– Asas? – Ela me olhou de um jeito engraçado, os olhos com um brilho repentino.

– Sim, acha que em outra vida você foi um anjo? Você poderia ter sido enviada em uma missão, por isso talvez não se lembre.

– Você acha que eu fui um anjo? – Virou-se de frente pra mim, as mãos envoltas ao meu pescoço.

– Bem... você se parece com um. – Sorri tocando-lhe a ponta do nariz. – Meu anjo.

– Talvez você também seja um. – Piscou me dando um beijo rápido na boca e voltando ao que estava fazendo. De todo jeito resolveu, ela não mais se incomodou com nada que tivesse nas costas, desse dia em diante virou frequente eu a chamar de ‘meu anjo’.

Momentos como esse, acredito que tenha sido aos que ela se referiu como sendo louca. Não foram raras as vezes em que ela estivesse feliz e de uma hora pra outra se fechava. Nada restava fazer se não a deixar no canto dela. Sim, levei muito tempo pra entender várias coisas sobre Rachel, mas o que eu sentia por ela me consumia, apesar de toda a loucura eu não conseguia deixa-la. Tive certeza disso quando cheguei em casa e vi tudo escuro, chamei seu nome algumas vezes sem resposta, só fui a achar quando escutei um choro fraquinho vindo do canto do banheiro.

– O que houve? – Havia me sentado ao lado dela a puxando para o meu colo onde esperei um bom tempo ela cessar os soluços para poder perguntar realmente o que havia acontecido.

– Se você pudesse voltar ao dia que nos conhecemos e nunca ter feito aquele convite para ir até aquele café, você faria? Você teria feito às coisas diferentes?

– Você é uma das poucas coisas certas que eu tenho na vida amor.

– Você não devia ficar comigo. Deveria estar com alguém que realmente te merece, alguém que seja normal para variar.

– Você É o meu normal. Ray, eu nunca teria mudado nada naquele dia. Eu amo você assim, reconheço que nem sempre é fácil, mas eu não ligo, eu sou essa pessoa hoje porque eu tenho você e é tudo o que eu quero.

– Obrigada. – Ela sorriu pincelando meu nariz e apenas lhe beijei por entre os cabelos.

– Eu também.

Esse ‘obrigada’ saiu como forma de ‘eu te amo’, eu conhecia isso. Não, nunca ouvi essas três palavras da boca de Rachel, mas eu sentia em todos os momentos. Como eu disse, Rachel era cheia de palavras, mas essas três lhe faltavam, ou várias outras que ela gostava de se referir como totalmente dispensáveis e usadas basicamente para fazer pré-adolescentes e senhoras de idade se emocionarem com filmes clichês. Depois de um tempo eu parei de esperar que ela me respondesse, depois de um tempo... eu passei a não me importar mais. Não precisava ouvir se ela fazia com que eu sentisse.

– Fica comigo?

– Pra sempre.

– Pra sempre não existe. – Ela murmurou com a voz fraca, sentia que aos poucos o sono a ganhava.

– Se você souber o que significa pra sempre. – Ela me sorriu e eu completei murmurando em seu ouvido. – Fico com você pra sempre. O nosso pra sempre. – Dei-lhe um beijo no pescoço.

– Q?

– Hm? – Ronronei passando o nariz pela sua orelha bem de leve, a senti gemer de leve quase inconsciente.

– Eu posso não dizer... mas eu amo você.

– Eu sei, eu também amo você meu amor. – Ela me olhou uma ultima vez pedindo muda por um beijo e foi o que eu fiz, foi só um encostar de lábios, mas foi o mais sincero que eu e ela já trocamos.

Era em momentos como aquele, principalmente naquele onde ela acabava de dizer que me amava que não importava o quanto ela me colocasse a prova. No quanto ela era diferente... louca ou não eu amava aquela garota. E em meio a todo mundo, Rachel era a pessoa mais normal que eu conhecia.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!