Insanidade
7 Trama sombria
Notas iniciais
A casa é silenciosa no momento. Já haviam voltado e Ângela preparava o jantar. Esperava que cozinhando conseguisse esquecer tudo o que estava acontecendo. Por alguns instantes, o som da chuva somado à água borbulhante lhe distraía um pouco. No entanto, não demora para que sua mente volte a se inundar de preocupações e angústias.
Após despejar as batatas em cubos na água fervente, decide ligar o rádio antigo de seu pai e colocar bem alto. Com o ritmo animado preenchendo a cozinha, ela canta começando a cortar algumas cenouras enfileiradas. A música é tão alta que nem ouve as batidas da faca na tábua.
Como está distraída, a mulher não repara Daniel chegando na cozinha e reclamando do som alto. Ele então abaixa o volume, a deixando incomodada.
— Ei, não faz isso. Eu tô ouvindo, sabia? — diz para o homem, irritada, parando de cortar os vegetais.
— Toda a casa está ouvindo. Deixa isso baixo. Eu estou com dor de cabeça — diz apoiando-se no balcão parecendo cansado. — Eu não dormi muito bem essa noite.
— Nem eu. — respira fundo tomando coragem para falar — Olha Daniel, eu tô sendo muito compreensiva com você ultimamente, mas agora quem tá precisando de um tempo sou eu. Nem que seja ouvindo música no volume mais alto enquanto preparo o jantar. Tudo bem?
Ela não esperou resposta, apenas andou em direção a bancada e aumentou o rádio, voltando em seguida a função original cantarolando.
Corta os legumes com mais agilidade quando ouve o som parar abruptamente. Movendo a cabeça em direção a Daniel no intuito de ver se ele havia desligado o aparelho, a mulher já sentia o estresse a consumir, mesmo assim, como não parou de cortar, acabou atingindo o seu dedo e tirando um pedaço da ponta de uma vez só. A dor a faz gritar no momento. Sentiu a horripilante sensação da lâmina percorrendo toda sua carne até arrancar um pedaço.
Vendo o indicador mutilado, percebe o líquido pingar nas verduras e na bancada da pia. Ela larga a faca imediatamente, pressionando o dedo contra o peito, vendo bastante sangue escorrer.
Daniel assustado se aproxima pegando um pano para tentar conter o sangramento.
— Deixa eu ver — disse puxando a mão da esposa que reluta no começo, mas acaba deixando.
— Olha o que você me fez fazer seu imbecil! Ai… ai… — diz espremendo os olhos com força.
Um movimento estranho é sentido por ela. Daniel puxa seu dedo em direção a ele. Ângela com a cabeça virada na direção oposta, só percebe que há algo errado quando sente o calor da boca dele em sua mão. Ela abre os olhos e o vê chupando o sangue de seu dedo como se fosse algum tipo de doce. Acha de início que é uma forma dele fazer o sangramento estancar mais rápido, porém, ele começa a chupar cada vez mais forte e respirar de uma forma demonstrando prazer.
— Daniel? Daniel, para com isso! Já tá bom — disse, começando a ficar assustada. Tenta puxar o braço, mas ele segura cada vez mais forte, até que sente uma mordida que a fez gritar de dor novamente. Ângela então puxa o braço violentamente, empurrando Daniel, furiosa. — O que você tá fazendo?! O que deu em você?! Por que fez isso?! — fala intercalando seu olhar entre o dedo machucado e o marido.
Ele a encara assustado também, não sabendo o que dizer. Nesse momento, a campainha da porta ecoa e o homem sai rápido para atender.
Ângela por sua vez vai em direção a pia e coloca o dedo debaixo da água. Pôde ver melhor o machucado e o sangue que volta a escorrer. Ela estica a mão até o kit de primeiros socorros na gaveta de baixo e começa a enfaixar.
Terminando de cortar o esparadrapo com os dentes e enrolar no dedo, pensa na cena que ocorreu a pouco. Não entendia, mas uma coisa estava bem clara, há algo de errado acontecendo.
— Ângela, tem um homem aqui e ele quer falar com você. — avisa Daniel na porta, a desconcentrando, antes de retornar à sala.
No cômodo, próximo a porta com um guarda chuva fechado, há um moço passando a mão pelas mangas do terno tirando resquícios de água.
— Pois não? — diz a mulher se aproximando.
— Boa tarde. Ângela, não é? — ela confirma com a cabeça — Prazer, Steve Raymond, advogado. — Fala esticando a mão que é apertada por ela.
— Prazer. A que devo a visita?
— Bom, você não me conhece, mas eu sou, era — corrige — advogado do seu pai. Eu soube do falecimento, sinto muito. — ela agradece — Eu vim aqui para falar com você sobre os bens dele.
— Bens? — pergunta surpresa — Tudo bem. Pode me acompanhar até a sala, lá podemos conversar melhor. Por aqui — dirige-se até o cômodo, sendo acompanhada pelos dois. Angela senta em uma cadeira e o advogado em um sofá próximo, ficando frente a frente, apenas separados por uma mesinha de centro. Daniel por sua vez fica em uma 3° cadeira, próximo para escutar tudo o que seria falado. — Posso te oferecer alguma coisa para beber?
— Não, obrigada. Serei breve. — Dá um sorriso leve e abre sua maleta, retirando alguns documentos. — Não sei se você sabe, mas seu pai deixou comigo um testamento para se caso algo acontecesse com ele, ficasse claro com quem ele deixaria suas coisas.
— Testamento? — Franze a testa. — Não entendo, ele nunca comentou nada. Ele por acaso suspeitava que algo pudesse acontecer?
— Exatamente. Pelo que ele comentou comigo, ele não estava muito bem de saúde, ele já havia se consultado antes por conta das dores no peito. Infelizmente, ele estava certo e o pior aconteceu, mas aqui ele garantiu que você não ficaria desamparada. — Fala ao erguer o documento.
— Oh meus deus — A mulher cobre a boca com as mãos. Respira fundo e ergue a cabeça tentando não pensar em como foi uma filha ruim por estar longe, de modo que nem mesmo sabia que ele estava mal. Os olhos ameaçavam formar lágrimas, mas ela engole o choro em uma expressão de desânimo.
— Dos bens que ele deixou para a senhora, está listado absolutamente tudo o que ele tinha, sendo a casa, o carro e também a parte dele no ramo funerário. — passa os olhos sobre o documento — Sobre isso, eu me apressei e conversei com Richard, o dono, e ele está disposto a comprar sua parte, a livrando de qualquer vínculo com o negócio, se não, você pode decidir manter.
Ela o ouve consentindo com a cabeça.
— Agradeço por resolver esse detalhe por mim, eu fico muito grata. Eu vou preferir vender a parte no negócio mesmo, em breve eu vou embora.
— Ok, eu pedirei a ele para lhe fazer um cheque, tudo bem? Assim você poderá depositar na sua conta.
— Ah, eu não tenho conta no banco, normalmente quando se trata desses assuntos quem resolve é o meu marido. — Aponta Daniel com olhos.
— Tudo bem então, eu peço para ele colocar como recebedor o nome do seu marido. Fora que também as economias que ele tinha no banco, agora são suas.
— Economias? — o encara confusa. Cruza olhares com Daniel e curiosa, pergunta a Steve — Desculpe, mas você pode me informar que economias eram essas? Quanto meu pai havia guardado? Se souber, é claro. — disse esperando que fosse uma boa quantia que os ajudasse.
— Não sabia que ele tinha dinheiro guardado? Não sei quais eram os planos do Sr.Smith, mas é um bom dinheiro. Só um minuto. — pega um bloco de papel na maleta, uma caneta e anota a quantia, empurrando na direção dela.
Ao ler os dados no papel ela arregala os olhos.
— Isso é sério? Meu Deus, é muita coisa — diz ainda sentada. Tentou não expressar muito ânimo, visto que sentia-se culpada por ficar feliz com isso, já que o dinheiro veio da pior forma possível. — Eu não sabia que meu pai tinha tudo isso.
— Eu posso ver? — Daniel puxa o papel da mão dela, surpreendendo-se também — Nossa. — Os olhos dele brilharam, aquele dinheiro poderia lhe dar algum conforto, alguma saída. Num instante, várias coisas passaram por sua cabeça.
— Ok, eu acho que já falei tudo. — levanta-se da cadeira revisando seus afazeres em voz alta — Daniel, eu só vou precisar que você anote suas informações pra mim, tudo bem? Pode ser nesse bloco mesmo — Steve estica o braço para Daniel, entregando o bloco de papel, que assentiu com a cabeça e tratou de escrever.
Ângela acompanha o advogado até a porta, lá, preocupa-se em perguntar sobre o trabalho do homem e se ele estava recebendo por isso, já que ela não tinha dinheiro no momento, mas ele esclareceu que quando ela estivesse em posse dos bens, eles resolveriam isso, por enquanto, era só ela esperar. Ela agradeceu e ele saiu.
Voltando à sala, Daniel tem uma expressão alegre, ela o indagou.
— O que foi?
— Meu amor, você viu aquela quantia? Ângela, você não tem ideia do que isso significa. A gente vai poder trocar de carro, talvez até viajar, estamos precisando.
— O quê? — Franze a testa se apressando para cortar as asas dele — Nada disso. Daniel, temos que comprar as coisas do bebê, nossa filha mais velha já está com 14 anos, daqui a pouco ela vai querer ir à faculdade e nós vamos custear. Sem falar na mais nova que também vai estudar porque todas as minhas filhas vão ser formadas, eu pelo menos vou fazer de tudo para isso acontecer. Nós temos dívidas a cessar com o banco também. Desculpa Daniel, mas temos prioridades. Sem contar que você está desempregado e eu não sei até quando, por isso eu vou guardar esse dinheiro e não vai sobrar muita coisa.
O olhar alegre de Daniel foi se esvaindo aos poucos.
— Oi? — parece incrédulo — Quer dizer que eu sustentei vocês com meu salário até hoje e agora que você tem dinheiro, eu não vou ver nem a cor? Isso tá errado. — anda de um lado para o outro parecendo bastante inquieto, como se a raiva e o estresse estivessem o dominando.
— Como? — Cerra os olhos. A frase de Daniel a acertou como um soco — Eu ouvi direito? Você está jogando o sustento da nossa família na minha cara? — sua voz trava, mas ela força as palavras a saírem — Você quer o quê? Que eu deixe você gastar o dinheiro que o meu pai deixou pra no fim as minhas filhas precisarem e eu não ter? Eu sinceramente não estou te reconhecendo.
— Você não pode fazer isso comigo. — foi sua última palavra antes de ir até à sala, pegar a chave do carro e bater a porta de casa, deixando a esposa sem palavras diante de sua atitude tão brutal.
***
Encolhida no canto do quarto escuro, Ashley abraça as pernas. Os cabelos úmidos e a roupa molhada a fazem tremer de frio, mas não tem nenhuma vontade de se levantar para trocar, pois continua abalada com o que aconteceu. Hoje, carrega uma culpa que nunca achou que teria, a de tirar a vida de alguém. Não sabe se chora, se grita ou se simplesmente fica ali parada. Já que todas as forças de seu corpo aparentavam ter sido sugadas, não lhe restou outra senão a última opção.
— Ashley — chama a voz do lado de fora
— Vá embora, eu quero ficar sozinha — diz para que a irmã entendesse e não voltasse a chamar — Eu já disse.
— Eu sei, mas tem um homem te chamando na porta — A loira se atenta. — Aquele cara que trabalha com você.
Daniel. Deduz.
— Diz que eu não tô, por favor. — No momento, ver ele é a última coisa que precisa.
— Olha, eu falei que você estava indisposta, mas ele insistiu muito. Disse que é urgente, por isso eu resolvi te chamar.
Ashley pensou bem, precisava mesmo falar com ele. Dar um fim.
Respirou fundo e fez um esforço para levantar. Em poucos segundos já estava na porta da frente.
— O que você quer? — diz fria ao vê-lo.
— Oi… eu preciso falar com você.
— Fala.
— Aqui não. A gente pode conversar no carro? Não quero que ninguém escute a nossa conversa.
— Daniel, esquece. Se for sobre a gente, eu sinceramente não quero mais nada com você. Não depois daquilo.
— É mesmo? — parece não acreditar — Garanto que você muda de ideia assim que ouvir a minha proposta. — Sai, indo em direção ao carro e abrindo a porta do passageiro para ela que observa de longe.
‘’Proposta?’’ Pensou. A curiosidade foi muito maior que a vontade de dizer não. Após os dois entrarem no carro, Daniel começou.
— Olha Ashley, eu sei que depois do que aconteceu é normal você não querer me ver. Você ficou assustada, eu fiquei assustado.
— Assustada? Eu fiquei apavorada, a gente matou ele! É por nossa culpa que ele está morto.
— Não exatamente. — Ashley aparenta confusão em sua face — Eu acabei de descobrir que ela já era ruim do coração. Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer, não foi nossa culpa, mas pelo menos uma coisa boa saiu disso. Uma coisa boa para nós dois.
— Como assim? Eu não estou entendendo nada.
— Agora que ele morreu, a Ângela vai ficar com as coisas dele. Tem muita grana pra ela receber.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Simples. Eu quero que você fuja comigo.
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