Insane
2 Primeiras Impressões
A sala era completamente branca, as paredes não continham nenhum objeto decorativo, apenas um relógio analógico com algarismos romanos bem atrás da mesa que se encontrava no centro do ambiente.
De um lado estava o médico e do outro seu paciente, um belo jovem na flor de seus 19 anos, um recém-adulto. Suas roupas combinavam com a cor da sala, eram completamente brancas e constituíam-se de apenas uma camisa e uma calça. Não portava nenhum acessório ou joias, pois eram estritamente proibidos, isso era para garantir a segurança tanto dele como das pessoas que trabalhavam ali.
Seu cabelo, que precisava urgentemente de um corte, estava assanhado. A franja lhe cobria os olhos, o que aparentemente não lhe incomodava pois em momento algum ele tentou tirar os fios dos olhos.
— Então, como estamos hoje? – O médico movia uma caneta em material plástico e ponta grossa na destra enquanto uma prancheta também em plástico lhe aguardava na mesa.
Nada presente dentro da sala era perigoso, não poderia haver nenhum material em aço, ou que contivessem pontas capazes de furar, mas nem sempre foi assim, somente após muitas experiências desastrosas no currículo do doutor ele aprendeu a tomar tais medidas de segurança, assim como o botão vermelho no canto da mesa que estava sempre ao alcance de seus dedos, dedos esses que no momento dançavam por cima daquela protuberância, apenas uma pressão sobre o local e os seguranças que estavam a postos do lado de fora seriam acionados, o que no momento parecia uma total loucura pensar em tal possibilidade, já que o rapaz se mostrava completamente estável, visualmente falando, e ao que tudo indicava não oferecia nenhum perigo.
— Eu estou bem. – Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios do rapaz.
— Fico feliz em saber disto. – O médico começava suas anotações.
— Isso é mentira. – Nem se deu ao trabalho de erguer o olhar para encarar o homem a sua frente.
— Por que acha isso? – Olhou por cima das lentes grossas dos óculos para o outro.
— Porquê eu sou um monstro, e ninguém se importa com os monstros.
— Você não é um monstro. – Tornava a anotar algo.
— Você não me conhece, então não pode dizer o que sou ou não. – Pela primeira vez jogou os fios claros da franja para o lado.
— Teremos um bom tempo para descobrir quem você é. Espero que me ajude a te ajudar.
— Eu tenho outra escolha?
— Até tem, mas está é a mais sensata.
— Certo. – Cruzou as pernas e logo após colocou as mãos cruzadas sobre os joelhos. – Se é história que você quer é história que terá.
— Desculpe, o que disse?
— Disse que contarei o que quer saber... É a história que quer ouvir? Pois bem, é o que contarei, só adianto que não lembro dos mínimos detalhes, mas, prometo que tentarei ao máximo lembra–los e contar tudo. Então se deliciei com tudo que irei lhe oferecer, ah se for esperto poderá até lançar um livro com o que contarei e ficará rico. – Seu tom era sarcástico e ao mesmo tempo despreocupado.
HoSeok ergueu o olhar para o garoto um tanto confuso, era impressionante como sua personalidade era líquida e como ele podia mudar tão rapidamente, em um momento ele era tão calmo e introvertido, em outro era perspicaz e ácido, isto o levou a pensar que o garoto poderia ter um transtorno de múltiplas personalidades, anotou rapidamente em seu papel para que não esquecesse e que investigasse isso futuramente. No momento tentou se concentrar no que o que estava a sua frente acabara de falar.
— Não estou interessado no dinheiro. – O encarou por cima da armação do óculos.
O rapaz apenas levantou os ombros.
— E sobre lembrar, não se preocupe, não temos pressa, leve o tempo que precisar.
— Certo, afinal, tenho o resto da vida preso aqui para lhe contar, não é mesmo?
— Não seja assim, você não está preso seus pais virão em breve lhe buscar. Mas é verdade que terá que retornar uma vez por semana para conversarmos um pouco.
O sorriso ia de uma orelha a outra, a forma como sua cabeça estava abaixada somada ao som da risada deixava o clima inteiramente assustador, e foi isso que fez os pelos do doutor eriçarem. Primeiro ele agradeceu mentalmente o jaleco não permitir que o garoto tivesse visão sobre sua pele e percebesse o medo que ele sentira, segundo começou a repensar sobre a conclusão de estabilidade que julgará anteriormente.
— O senhor parece ser um homem de muita fé. – Pronunciava ainda de cabeça baixa. – Por acreditar que alguém virá me buscar.
— E por que não viriam? – Ergueu uma sobrancelha intrigado.
— Eu não gosto de dar spoiler, o senhor descobrirá logo. Para isso tenho que contar a minha história.
— Se é assim, pois comece.
— Vejamos... – Levou o indicador ao queixo em uma pose pensativa. – Por onde devo começar?
— Pelo começo. Quando tudo isso começou?
— Quando eu os conheci.
— Quem são eles? – O homem parou as anotações que tinha voltado a fazer a pouco para observar o jovem que mantinha sorriso de satisfação no canto dos lábios.
— A pergunta certa é: "Quem eram eles?" – Ergueu o olhar e fixou no do médico que tratou de desviar assim que sentiu o arrepio percorrer o corpo.
Sua mão circulou o botão de emergência novamente enquanto ele ponderava se devia ou não aperta–lo. “Bobagem!” pensou consigo mesmo, não havia nenhum perigo, pelo menos era no que queria acreditar.
— Não se preocupe, isso não será necessário, não precisar ter medo, pelo menos não agora. Ainda estou na parte leve.
— Então, quem eram eles? – Pigarreou cruzando as mãos sobre a mesa.
— Eles eram as pessoas mais incríveis que conheci, éramos melhores amigos. Éramos como irmãos... Eu os amava tanto. – Sua voz teve um leve embargo com as lembranças. Algumas lágrimas se instalaram levemente no canto de seus olhos, mostrando novamente tons de sua instabilidade emocional. – Éramos cinco no total.
— E o que aconteceu com eles? Onde estão agora que não se encontram com você?
O sorriso voltou a rondar os lábios do garoto, ele pensou um pouco na resposta enquanto seu sorriso oscilava.
— Eu matei todos eles.
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