Insane

4 E Foi Assim Que Nos Conhecemos


"O tempo que chamamos de puberdade

Eu penso nisso de repente

Naquela época eu era jovem

E não tinha nada a temer

Às vezes ser derrotado não é muito"

Butterfly – BTS

"Dia 19 de Março de 2017, exatamente 08:57am. Caso número 404, sala número 04. Quem está no comando deste caso é o doutor Jung HoSeok, o mesmo que vos fala e redigi a ata. Não há presença de nenhum policial ou agente dentro da sala, a intenção é deixar o ambiente acolhedor e não pressionar o jovem, mas há agentes ao toque dos dedos, que até então não foram necessários pois o rapaz têm se mostrado complacente e disponível para cooperar com todas as informações sem demonstrar nenhuma resistência.

Então, estamos começando agora 09:05am"

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Era um dia ensolarado de verão, embora uma brisa gelada denotasse a troca de estações anunciando que o outono já estava bem próximo, já era até possível ver as folhas tomando coloração alaranjada nas árvores e isso significava uma coisa: volta às aulas.

Muitos alunos já passavam com suas fardas completamente limpas, bem passadas com direito até a gravatas com “nós” bem dados, sapatos bem polidos e mochilas cheias, nem sempre de livros escolares.

As avenidas estavam repletas deles, alguns davam passos despreocupados conversando com seus acompanhantes ou simplesmente desfrutando da música junto com a brisa gélida, enquanto outros corriam para não perder seus horários.

JungKook estava no time dos que caminhavam com pressa, não queria perder o horário justamente no seu primeiro dia e assim que cruzou o imenso portão da escola conseguiu respirar e diminuir seus passos. Checou suas roupas para ver se a sua pequena "corridinha" não havia amarrotado suas peças e percebendo que estava tudo no lugar ele suspirou aliviado, não teria nenhum problema com inspetor logo a frente.

Parou admirando a imensa construção que era três vezes maior do que sua antiga escola. E ao mesmo tempo quatro olhinhos curiosos se voltaram para ele, sentando em um banco de concreto o garoto que desenhava desviou sua atenção do papel para espiar o garoto que olhava admirado a construção e balançou a cabeça sorrindo de canto. “Novato”, pensou consigo voltando os olhos para o papel que continha o esboço de uma árvore, a sua árvore favorita.

Enquanto isso Kook voltava a caminhar, dessa vez sem pressa alguma, mas ao passar a mão em um dos bolsos sentiu seu corpo congelar completamente, não poderia ter esquecido logo naquele dia. Sabia que talvez não conseguisse chegar até o fim do dia sem aquilo. Verificou o relógio em seu pulso e percebeu que se tivesse bastante sorte poderia ir em casa e voltar, claro que levaria uma punição básica pelo atraso, ou poderia apenas ficar em casa e dar alguma desculpa plausível, seria bem mais fácil, o que não poderia de forma alguma era ficar sem aquilo, jamais.

Depois da sua batalha entre o que deveria ou não fazer resolveu tentar a sorte e ir para a casa. Caminhava com a cabeça no "mundo da lua" recheada de mil pensamentos e não focava no que tinha ao seu redor e no momento que iria virar à direita no portão sentiu seu corpo se chocar fortemente em algo. Não demorou para que uma mão fosse ao seu colarinho e puxasse forte sua gravata.

— Está ficando louco? – Um cara um pouco maior que ele vociferava completamente zangado, a camisa branca por baixo do terno escuro tinha agora uma coloração arroxeada vinda do suco que momentos atrás estava em sua mão.

— Des-desculpe.

— Desculpe? – Sorriu para os que estavam ao seu lado. – Ouviram isso? Ele pediu desculpa. – Logo todos seus companheiros o acompanhavam na risada. – Você terá que fazer bem mais do que isso. – Sussurrou tão próximo que JungKook imaginou ter sentindo o hálito com sabor de uva adentrar suas narinas.

— Nã-não foi minha culpa.

— Eu não lhe perguntei nada. – Empurrou o garoto e logo em seguida pegou a mochila do novato e jogou para seus companheiros. – Revistem atrás de dinheiro. Você acabou de comprar sua passagem direto para o inferno e sem retorno. – Empurrou-o novamente fazendo que o corpo do outro fosse direto ao chão e com isso mais risadas foram arrancadas da galera.

— Acho essa uma péssima forma de dar boas-vindas as pessoas, ChanYeol – Um garoto saído da pequena multidão que ia se formando passou o braço por cima do pescoço do ameaçador.

— Tire essas mãos imundas de cima de mim. – Arremessou o braço para longe.

— Isso também não é modo de falar com os amigos. – O sorriso sarcástico permanecia em seu rosto.

Um ruivo também vindo de algum lugar se aproximou do que ainda estava no chão e o ajudou a levantar.

— Ah, ele tem reforços? Vou adorar quebrar a cara de cada um de vocês.

— Uma festa e não e me convidaram? – Uma voz sonolenta vinha da multidão e tomava direção ao centro onde ChanYeol e o outro estavam agora frente a frente.

— Desculpe não te mandar um convite, só achei que estaria muito ocupado tendo seus ataques epiléticos e não teria tempo. – Chan olhou fundo nos olhos do que acabará de chegar. – Acabei percebendo que você tem um gosto peculiar, você ama o fracasso.

— Cara, isso não é jeito de tratar um amigo. – O que havia chegado primeiro continuava com seu sorriso.

— Será mesmo que vou ter que quebrar sua boca para que pare de falar besteiras?

— Se eu fosse você eu nem tentaria, sabe como ele fica quando alguém o atinge. – O sonolento tocou ombro do maior, Chan, e piscou para ele com um sorriso de canto.

Enquanto isso o que ajudava Kook a levantar checava se tudo estava bem e notou apenas um filete de sangue que escorria da mão que havia se apoiado enquanto caía. Durante toda aquela discussão que ia se formando a sua frente ele apenas permanecia calado contando mentalmente os segundos, nada ali lhe importava, tinha que chegar em casa logo.

— Até parece que você, Tae – A;pontou o dedo sobre o rosto do rapaz sorridente que insistia em tentar lhe mostrar a forma certa de dar as “boas-vindas” e tratar um “amigo”. – Seria páreo contra mim.

— Primeiramente você disse momentos atrás que não é meu amigo, então devo lhe dizer que você não pode me chamar de Tae, no máximo TaeHyung, Pensando melhor, se não falar comigo melhor ainda. – O sorriso parecia tatuado no rosto do rapaz, pois hora nenhuma ele o retirava, parecia se divertir bastante com a situação.

Do outro lado, em pé em um banco de concreto, o rapaz de cabelos claros, que antes desenhava, acompanhava tudo com curiosidade, até está altura do campeonato ele tinha visto o garoto que estava no chão pela primeira vez segundos atrás, já os que estavam ao seu lado nunca os vira pelos corredores da escola. Seriam todos eles novatos? Não sabiam que era inadmissível uma coisa dessas no seu primeiro dia?

Ele pensava e repensava se deveria ir até lá e avisava, mas depois caiu em si e proibiu–se de fazer algo, aquilo não tinha nada a ver com ele, tentava focar novamente em sua pintura que era o melhor a se fazer no momento, sua mãe sempre lhe dissera que pior que arrumar confusão era comprar as brigas alheias, ainda mais em troca de nada. Mas, algo o inquietava fazendo-o olhar para os lados e imaginar onde raios estaria o inspetor que não vinha acalmar a situação.

— Vocês são muito barulhentos, não consigo ouvir minha música. Será que dar pra parar ou tá difícil? – O que havia entrado por ultimo na discussão falou.

— O time de Loser's está completo agora... – Mal terminou a sua frase e algo acertou em cheio o maxilar de ChanYeol

— Odeio quando gente como você emprega algum tipo de adjetivo em mim. – E novamente, o sorriso.

— Nossa, esse soco foi ótimo, andou treinando? – O que estava ao lado de Tae pegou seu punho avaliando-o.

— Nada Yoon, vi isso em um jogo. Legal, né?

— Isso não vai ficar assim. – O atingindo massageou levemente o local com fúria no olhar.

— Claro que não, vai inchar um pouco. Eu sugiro que coloque um gelo. – YoonGi passou as mãos sobre os cabelos de Chan assanhando os fios.

Um coro de "Uuuh" foi ouvido o que só aumentou a raiva do maior a sua frente.

— Sabe, acho que não vai querer ficar para saber o que vai acontecer. – O ruivo, que estava ao lado de Kook, que ainda não havia se manifestado, salvo o momento que foi até ele ver se estava machucado, sussurrou.– Deveríamos sair daqui agora.

JungKook não sabia o que fazer, então apenas concordou com a cabeça e pôs-se de pé. O garoto o guiou discretamente entre a multidão que estava bastante entretida com a briga ali no meio e nem sequer perceberam que o causador do grande tumulto ia saindo de fininho e ao virarem na primeira esquina trataram de apressar os passos para se distanciar o máximo possível do local da briga, antes que de alguma forma toda a bagunça se voltasse contra eles.

O que só observava em cima do banco resolveu segui-los, não sabia o que faria, mas ainda assim foi atrás deles. Depois saberia quem havia ganhado. Mas tinha seu palpite que seria o time do sorridente.

Enquanto entrava no prédio, que pensava ser o ginásio, o novato sentiu algumas lágrimas inundarem seus olhos. Não queria chorar, não sabia o que estava acontecendo, mas ver aqueles garotos o defendendo só o levou a perceber o quão frágil, estúpido e miserável ele era. Notou que tudo que sempre tentara ser era parecer com eles, ter aquela coragem e enfrentar os problemas de frente e não se esconder em seu quarto na companhia daquilo.

ChanYeol estava certo em uma coisa, aqueles garotos que o desafiaram não eram loser's, mas ele, JungKook, era um verdadeiro perdedor.

Se abaixou e abraçou os joelhos, não poderia ter uma crise ali, de forma alguma. Não na frente daquele que o ajudou.

— Vai ficar tudo bem, o Chan ama uma confusão, amanhã ele encontra outra pessoa e nem lembrará mais de você. – O ruivo tentava soar positivo. – Ah, me desculpe. Meu nome é Jimin – Se aproximou lhe estendendo a mão.

O garoto a pegou, e além do cumprimento, ele a usou como apoio para se levantar, já que aquela posição era muito humilhante.

As lágrimas já iam secando e não havia nenhum sinal de embargo em sua voz.

— JungKook — Sorriu de canto.

— Está tudo bem aqui? – Uma pessoa entrou na sala de repente com um caderno de desenho em uma mão e um lápis na outra.

Os que estavam na sala o olharam sem entender bem o que ele estava fazendo ali, mas ninguém reclamou e apenas confirmaram com a cabeça.

— Sou Kim SeokJin, representante dos alunos e estava acompanhado toda a confusão, espero que não tenha se machucado.

Os garotos apenas o olharam concordando com a cabeça. Jimin coçou a cabeça e apontou para a porta, um gesto sutil, mas, perceptível para JungKook, sabiam que se encrencariam.

— Aquilo foi demais, não sabia que você sabia fazer isso tipo de coisa. Achei que essas mãos sensíveis serviam apenas para tocar pian… Ai! – Cortou a frase assim que recebeu uma cotovelada no estômago.

Todos os olhares, inclusive o do que estava próximo a porta, se voltaram para a sombra das duas figuras que estavam entrando. O estado deles não parecia nada bom, bocas inchadas, alguns olhos arroxeados, roupas amarrotadas, mas, apesar de tudo nenhum deles pareciam derrotado.

— Não se preocupem, posso garantir que a situação deles ficou bem pior. – Parecia que realmente nada poderia derrubar o sorriso daquele garoto. – Aliás, Sou TaeHyung, ou podem chamar apenas de Tae. Vocês podem.

— Antes de tudo, por nada. Ajudamos apenas por ajudar, nem precisava agradecer. – O de cabelos pretos que tinha o canto do lábio um pouco inchado revirou os olhos.

— Desculpem por tudo e realmente muito obrigado. Eu não queria… Vocês não deviam… – JungKook tentava formular, em vão, uma frase.

— Esquece isso, só precisa nos pagar uma pizza de frango e uma Pepsi bem gelada. – Tae passou o braço pelos ombros de Kook e se virou sorrindo para os outros. – E aquele ali de cabelos negros, com a cara fechada e meio ranzinza é o YoonGi, não se deixe assustar por aquela cara fechada dele agora, ele só está assim porquê machucou as mãos batendo naqueles caras e não poderá tocar piano por um tempo.

Yoongi desfez a carranca e soltou um sorriso de canto.

— Espero que metade dessa pizza seja de Calabresa. – O pianista se virou caminhando até a porta.

— Vocês não podem faltar a aula, terei que levar o nome de vocês ao inspetor e levarão advertência. – SeokJin gesticulava tentando convencer a todos a não fazerem mais uma loucura.

— Você não poderá dar nossos nomes se estiver conosco também, não é verdade? – Tae passou o braço livre pelo ombro de Jin o arrastando, junto a Kook, em direção a porta.

O ruivo deu de ombros e fez sinal para que embarcassem nessa. Kook olhou o relógio e lembrou que deveria ir para casa, não podia se dar ao luxo de ficar sem aquilo por mais tempo. Mas, ao olhar os rapazes ali que estava apenas a sua espera, rapazes esses que sem nem sequer lhe conhecer partiram com tudo em seu auxílio como se fossem seus melhores amigos e o conhecesse desde sempre amoleceu o seu coração, então ele concluiu que poderia aguentar mais algumas horas, afinal seu médico sempre lhe dissera que se afastar daquilo era apenas questão de querer e força de vontade. E era o que ele queria no momento.

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— Então, foi assim que os conheceu?

— Sim… – Suspirou com todas as memórias.

— E o que sentiu ao conhecer eles? Qual a primeira impressão que teve deles.

— Todos eram tão incríveis e legais. Cada um tinha algo que faltava em mim e por isso eu os admirava profundamente. – Sorriu de canto abaixando a cabeça.

— Pode dizer o que é isso?

— Não hoje, estou exausto. – Levantou afastando sua cadeira para trás.

— Mas, ainda não acabamos…

— Isso fica para outro dia. Eu declaro essa sessão encerrada. – Seu tom era nebuloso, parecia cansado, frustrado e ao mesmo tempo triste. E no meio de tudo isso tinha algo capaz de gerar um certo receio em quem ouvia.

E assim foi, sem mais nenhuma contestação, que ele caminhou em direção a porta em passos lentos e deixou o médico sem reação para trás.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.