Insane
2 Capítulo 2
Notas iniciais
—Acorda Anabel!
Mais um dia normal até Gregory, um dos, ou talvez único funcionário da ala estadual passar gritando pelo pátio que em uma hora Diretora Margareth viria nos ver, o cabelo preto escorrido voava enquanto ele corria dando gritos esganiçados. Ai começou uma santa correria, os mais sanos arrumando os mais insanos para que ninguém parecesse um louco varrido, que come moscas ou lambe os olhos alheios. A uma hora mais corrida de toda minha vida, afinal nunca fazíamos coisas novas. Automaticamente nos dividimos em tarefas distintas, Molly verificava se estavam todos, ou quase todos, fora dos quartos. Edward, como sempre nosso cozinheiro, preparava um lanche caso a Diretora demorasse na visita, nada muito sofisticado, torradas (que na verdade eram pães que tinham sobrado) e geleia de maçã, não sei o que seria da gente sem a macieira do pátio. Gregory reunia as crianças nas áreas exteriores, eu penteava cabelos e arrumava os uniformes dos outros companheirinhos enquanto Dinah mantinha-os comportados, Irmã Carmen, uma freira meio idosa que sempre esteve aqui, se apressava em varrer o pátio cheio de folhas, Irmã Dinorá, juro que ela deve ser irmã mais nova da Irmã Carmen já que são tão parecidos, os mesmos cabelos castanhos claros encaracolados e grandes olhos verdes escuros, mas ela nunca confirmou nada, encaminhava alguns doidos para a sala de banho, Mary — que finalmente, essa sim era funcionaria do hospital, jovem e bonita, com cabelos longos e bem dourados até as costas, olhos castanhos e vivos, ruim como um diabo, incomoda como uma praga, vivia xingando a todos e sendo xingada pelas freiras devido os maus tratos, não que isso a fizesse mudar- soqueteava as meninas para dentro do banho, Harry, também funcionário com alto nível em negligencia e “eu não vi”, “não sei” e “não fui eu”, estava encostado no batente da porta, fumando um cigarro e segurando a ponta do nariz adunco enquanto os meninos deviam estar tomando banho sobre a suposta supervisão dele. Outros três enfermeiros, Susie, Hector e Melina se ocupavam em deixar o lugar “bonitinho”, colocar vasinhos com flores sobre as longas mesas do refeitório, cobrir as janelas quebradas com cortinas improvisadas e arrumar os quadros das paredes, que na verdade já deveriam ter sido aposentados, porque juro, dá pra usa-los como peneiras.
Depois de exata uma hora de correria, que para nós pareceu segundos, um carro preto saiu pelo imenso portão deslizante que separa as duas alas e estacionou no meio do nosso gramado, de um jeito bem desleixado e “eu não ligo”. Dois homens de branco, ofuscantemente branco, saíram e depois uma mulher muito alta de meia idade, vestindo saia e blazer ambos pretos, sapatos vermelhos de salto combinando com o lenço vermelho que ela usava no pescoço, os cabelos negros caiam nas mais perfeitas ondas sobre seus ombros e seus olhos escondidos por trás de óculos escuros, que até um cego deduziria custarem mais caro que um rim. Elegante e assustadora:
—Olá, como vocês já devem saber eu sou Margareth Benet, diretora dessa instituição- os lábios delimitados por batom vermelho vivo se movimentavam de maneira leve e horrorizante, pareciam prestes a comunicar uma tragédia- esse é um dia muito especial, pois venho comunicar que, hoje, a parte estadual desse hospital foi vendida ao grande empresário dono da parte particular e...- mas que droga de intuição!
— Como assim? O que vão fazer com todos nós?- Edward levantou a voz para a diretora, mais um motivo para admira-lo.
—Todos vocês, sem exceções- ela retirou os óculos escuros de maneira ameaçadora revelando um par de olhos verdes cruéis – serão transferidos para outras instituições!
—Não podem fazer isso! Estamos aqui há anos. — essa foi à vez de Molly protestar.
-Se não quer ser transferida querida, ligue para sua família e peça para que comprem um pacote para você no novo hospital particular. – vejo os olhos castanhos de Molly escurecerem e voltarem-se para o chão- Não há nada a ser discutido, daqui a nada mais nada menos que três semanas vocês serão encaminhados para outros hospitais públicos de acordo com suas...deficiências.– dando uma volta de cento e oitenta graus ela caminha em direção ao carro, sem olhar para trás.
—A maioria dessas pessoas não tem família, mas fez laços aqui. Não podem simplesmente nos transferir Diretora Margareth, não podemos ir!- ouço minha voz quase suplicante sair da minha boca.
—Sinto muito, senhorita Collins. – recebo um ultimo olhar sem uma gota de piedade e a porta do carro bate e o motorista acelera portões a fora, arrancando nossa grama macia.
—Como ela sabe seu nome?- Edward, Molly, Dinah e Gregory perguntam em um coro desajeitado.
—Eu também quero muito saber...
O portão automático fecha e o carro desaparece por completo.
Sento-me no chão completamente desesperançosa e assustada. A maioria de nos não tem família, não somos acostumados a um “hospital de verdade”, nossas condições são detestáveis mas somos livres, cuidamos um dos outros, somos o que da pra chamar de amigos e família. Em qualquer outro lugar bem monitorado a maioria de nós passaria o dia dopado preso em um quarto, mas aqui não. Ed nos contou uma vez que começou a ter crises violentas de esquizofrenia aos dez anos, a família dele o mandou para vários hospitais todos eram horríveis, injetavam calmantes de cavalo nele e o prendiam no quarto, quando ele se revoltava batiam nele e mandavam-no para uma salinha minúscula e fria, quase uma solitária, o quarto hospital que o encaminharam foi esse, Waverly Hills, e ele está aqui desde então, com vinte e três anos, poucas crises apesar dos remédios baratos, “cozinheiro” e livre. O que não fariam com Jesse? Um menino com problemas mentais doidos que raramente está sano, seu estado natural era animalesco. O que não fariam com Molly que foi acusada de afogar a irmãzinha? O que não fariam com o Preso que nunca saiu do quarto?...O que não fariam comigo?
O maior mal que temos que conviver é Mary, seus tapas, beliscões, puxões de cabelo e alguns ataques psicológicos, mas nada comparado aos hospitais de verdade.
Pelo que nos tinham contado e pelo que eu vi, Margareth era má, iria nos mandar propositalmente para os piores hospitais.
Senti alguém segurar meu braço de leve. Peny, seus grandes olhos castanhos me olhavam confusos:
—Vão separar a gente Bel? Eu não quero ficar longe de você, nem da Dinah, nem...Eu não quero ir pra outro lugar- ela começou a lacrimejar e todo meu instinto materno se aflorou de maneira assustadora, apertei-a contra meu peito e acariciei seus fios negros e longos que davam uma definição perfeita para “cabelo bom”.
—Não vamos nos separar passarinha, vai ficar tudo bem.
Ed abraçou a mim e Peny e trouxe junto com ele Molly, em seguida Dinah veio mancando, nos encher de seu abraço de avó. Com o canto mais extremo da minha visão periférica vi Renfield correr na direção de nosso quartos como se tudo dependesse dessa corrida. Estranho. Mas não pra ele.
O resto do dia se arrastou como um morto vivo quase mais morto que vivo, alguns surtaram, umas velhinhas choramingaram, Mary comemorava e Dinah ignorou o piano invisível, mas passou o dia bebendo água na cozinha como quem bebe destilado, Peny se refugiou embaixo da macieira do pátio e quase a tive que levar arrastada para a cama. Encontrei Renfield tranquilamente conversando sobre química com seu besouro de estimação como se nada estivesse acontecendo, de todas as reações, a dele, com certeza estava sendo a mais estranha. Peny se recusava ficar deitada, então deitei com ela por alguns minutos até ela dormir como eu fazia quando ela tinha pesadelos e assim que notei que ela havia dormido corri para a minha toca. Ah, aquele cubículo nunca pareceu tão confortável, joguei meu corpo magrelo na cama e me esforcei ao máximo para dormir, cada minuto a mais acordada era um minuto a mais para pensar em mais coisas e mais ”e se...” e me desesperar mais. A maior sorte que tenho agora é que uma das minhas maiores habilidades é dormir.
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