Insa

1 Capítulo 1: Insa


Quando sai do quarto naquela noite sabia que não voltaria mais. Antes de bater a porta olhei uma ultima vez para seu rosto de anjo dormindo tão serenamente sobre os lençóis. Não era uma questão de fuga, eu não estava fugindo de nada, muito menos dele. Apenas estava regressando a uma realidade da qual eu jamais deveria ter saído. Não digo que foi fácil, no caminho seu rosto estava em, literalmente, todo lugar. Agora, no avião de volta para casa tão distante daqui, minhas lágrimas apenas são por lembranças que são somente minhas.

Escrevo neste diário, pois é o único capaz de me compreender. O Japão é uma terra que deixará em mim bem mais do que saudade, mas o meu amor por este lugar não me ajudou a aprender a língua.

Começarei do principio:

Quando meu vôo aportou no aeroporto de Tóquio há uma semana pensei estar em um sonho. Jamais acreditei em destino ou sorte, mas não tenho como explicar como cheguei até aqui. Uma mensagem pela internet (que eu não sei como foi escolhida!), um telefonema em um inglês totalmente nervoso no meio da madrugada (depois do qual desmaiei por não acreditar!) e de repente... Lá estava eu! Pronta para conhecer o DBSK e o meu amado Junsu. A banda coreana que canta em japonês e tem os cinco caras mais gatos do oriente! Junsu, Changmin, Yochun, Yunho e Jaejoong... Mas era pela voz doce e rouca de Xiah que meu coração flutuava!

Fui retida na sala VIP da embaixada brasileira ainda no aeroporto para aguardar. Dois homens vestidos de terno me buscaram dez minutos depois para levar-me até eles. Claro que não conseguia conversar nada com os dois, pois não me entendiam. Cruzamos a cidade (belíssima por sinal) e eu soube que havia chegado pelo pôster gigantesco do grupo presente na lateral direita do edifício. Meu coração tremeu... Um homem muito bem vestido me recebeu na recepção do lugar (uma gravadora) e me explicou o cronograma em inglês muito claro: eu permaneceria com a banda por uma semana. Shows, coletivas, sessões fotográficas, ensaios, programas... Aonde eles fossem eu iria. Se houvesse tempo e os rapazes desejassem poderia haver outro programa, mas possivelmente apenas um jantar, nada de passeios pela cidade. A princípio me pareceu cansativo, mas, é claro, eu não disse nada. Estava feliz. E extremamente nervosa!

Depois disso subimos uns dez andares e os tais dois que me levaram até lá apenas indicaram uma porta onde os rapazes deveriam estar e sumiram! Só disseram “eles te esperam” e sumiram! Eu entrei em pânico: será que gostariam de mim? Eu estava vestida de acordo? (Básico, vestido branco com flores rosadas soltinho até os joelhos, sobretudo bege por causa do frio, sapatos altos combinando) Engoli em seco e fui. Abri a porta devagar. Pé ante pé, lentamente para disfarçar meus joelhos trêmulos. Não estavam todos lá: Yunho e Changmin de costas para a porta sentados em um sofá preto e Micky de frente para os dois, encostado em uma mesinha, em pé na parede, foi o primeiro que me viu. Olhou para mim em espanto e disse em inglês ruim “ai está ela!”. Não sei o que eles esperavam de mim. Depois de me cumprimentarem a sua maneira começaram a conversar comigo, fazerem inúmeras perguntas, como se fosse eu a estrela ali e não o contrario. Eu sorria, respondia o que podia, até fiquei lisonjeada quando Max e Yochun começaram a dizer o quanto meus olhos eram bonitos (eu também achava, mas o castanho avermelhado destacava muito porque eles eram grandes demais!), ou até mesmo eu (isso eu não concordava!). Depois de um tempo consegui perguntar:

“Onde está Junsu?”

Ao que eles me responderam:

“Gravando”.

Neste momento, como se o próprio estivesse ouvindo, ele entra pela porta. Lindo em calças e camiseta brancas, boné preto na cabeça. Eu me levantei do sofá em que havia sentado, fui em sua direção e a única coisa que consegui dizer foi:

“Posso te dar um abraço?”

Ele sorriu e, meio constrangido, consentiu. Não notei que não era apenas Xiah quem faltava, nem tampouco que estava muito próxima a porta. No momento do abraço, porém, Jaejoong passou por nós e olhou para mim.Apenas isto. Não sorriu, não falou, nem se quer fez algum gesto diferente. Somente fixou seus olhos, sem lentes, profundamente nos meus e eu me senti como se entregasse uma parte de minha alma. Meus problemas estavam apenas começando...

O restante daquele dia foi bom, não posso dizer que foi igual a todos os meus outros dias tediosos. Foi excitante! Principalmente pelo privilegio de estar ao lado de Junsu o tempo todo. Entretanto, confesso que achei cansativo e entendi a razão pela qual aqueles rapazes estavam sempre tão cobertos de maquiagem. À noite a parte mais difícil. Eu mal consegui dormir, e não foi simplesmente por causa do fuso. Alguma coisa me perturbava. Algo que ocorrera mais cedo, como os olhos de Hero na minha nuca o tempo inteiro. Aquele olhar quando cruzou a porta. Não posso dizer que alguma vez ele tenha me chamado a atenção. Claro, aquele homem possuía uma beleza singular, mas nada que mudasse minha opinião de que ele era convencido demais disso. E agora eu não conseguia esquecê-lo. Talvez pela sensação de que o mesmo não teria gostado de mim, isso me incomodava.

No dia seguinte a mesma rotina corrida. Ao menos pude desfrutar de um café da manhã delicioso com os cinco e o empresário. Todos eles foram bastante agradáveis exceto Jaejoong que não pronunciou uma palavra o tempo todo. A partir deste momento comecei a achar que ele era tímido demais, mas até Yunho que sempre ocupou este posto declaradamente havia se tornado um amigo. Mais um dia passado, mais uma noite ruim. E eu já estava começando a achar aquilo monótono. Dessa vez, ao invés de permanecer na cama e tentar dormir, fui a uma pequena ante-sala presente no andar. Andar este reservado exclusivamente a nós, eu e o DBSK. Parei diante de uma janela de vidro enorme e, do décimo oitavo andar daquele hotel, tive uma das visões mais lindas da minha vida: a cidade de Tóquio, à noite, totalmente iluminada. Eu imaginava como aqueles rapazes poderiam estar em um lugar tão lindo e não desfrutar. Sentei-me no sofá branco ali presente e continuei observando. Até que a luz de movimento se apagou e eu, sem perceber, apaguei junto...

Quando acordei estava em meu quarto, já era dia. Vesti-me rapidamente e fui para o desjejum. Assim que cheguei, Hero se levantou e saiu. Agora eu tinha certeza: ele me odiava! Grande coisa! Eu nunca gostei dele mesmo! Mas alguma coisa dentro de mim dizia que não era daquela forma que deveria agir. Que eu devia mostrar a ele como sou superior. Lembro da conversa que tive com os outros garotos enquanto estávamos fazendo exercícios na bicicleta naquela manhã.

“O que há com Jaejoong?”, perguntei a qualquer um que me respondesse.

“Por que a pergunta?”, disse Micky a meu lado.

“Sinto que ele não gosta de mim...”

“Não! Não o julgue assim! Jae passa por um momento difícil que todos nós passamos com alguma freqüência, e não está lidando bem...” Respondeu Yunho de imediato.

“Ele se sente sozinho...”, conclui.

“Como sabe?”, perguntou Junsu do meu outro lado.

“Palpite”

“Isso é muito normal para nós todos, estamos cercados de pessoas, e mesmo assim nem sempre existe alguém para nos escutar ou nos abraçar. Jae só sente falta dessas coisas, não é por você”, terminou Yunho.

“Ele não tem nada contra você, pode ter certeza! Caso contrário não saberíamos que você dormiu no sofá já que ele disse que...”, Micky falava, mas foi interrompido por Changmin com um tapa no braço esquerdo.

“Como vocês sabem que eu dormi no sofá?! O que ele disse?!”

“Nada! Não ligue para o que Yochun diz, ele é muito idiota!”, Max falou.

“Não, por favor, agora eu quero saber!”, continuei, parando de pedalar.

“Jaejoong não tem dormido bem nos últimos dias. Ele sempre acorda no meio da noite e sai do quarto para ver a cidade iluminada através da janela. Desta vez ele levantou e foi até lá quando te viu dormindo no sofá. Foi ele quem te levou para o seu quarto”, novamente o líder.

Perdi meu chão. Não sabia o que dizer nem tampouco o que pensar.

“Ele é legal. Só precisa de um pouco de tempo”, finalizou Changmin.

“Claro”, foi o que saiu de minha boca, mas eu não consegui ficar ali mais tempo. Constrangida, levantei-me e sai.

No restante do dia não consegui mais encará-los. Eu imaginava o tempo inteiro o que Hero teria dito de mim, apesar de parecer que os outros quatro sempre tentavam me colocar a seu lado. No carro, enquanto caminhávamos, todas as situações possíveis, mas ele não falava comigo e nem o contrario. A não ser à noite, depois de um show. Ao entrar na van todos foram à frente e os dois únicos lugares que sobraram estavam nos fundos. Eu e Jaejoong, lado a lado. Um olhando por uma janela e o outro pela outra, indiferentes. Como a viagem era longa adormecemos. Acordei com o empresário nos chamando: Jae com o queixo encostado sobre minha cabeça, braço esquerdo ao meu redor, enquanto eu me aconcheguei em seu peito. Isso explicava porque eu não sentia frio. Separamos-nos rapidamente quando nos demos conta e ele me pediu desculpas enquanto os outros quatro riam disfarçadamente.

O outro dia teria sido semelhante se não fosse um evento. Ao meio dia estávamos no hotel para o almoço. Eu cheguei tarde e quase todos já haviam almoçado exceto um... Era estranho agora porque os garotos pareciam me empurrar para ele. Ou era alguma coisa no mundo que me levava a sua direção. Até Junsu, antes tão à vontade com minha constante insistência ao seu lado parecia me evitar. E quando não, o faziam me evitar. Hero almoçava sozinho. Eu só queria ter a chance de mostrar a ele que eu era legal. Mas, para que? Eu não tinha que provar nada a ele! Sentei-me em sua mesa e pedi meu almoço. Ficamos ambos em silencio. O tempo todo. Cansada daquilo levantei-me antes de terminar e fui embora. Entrei no elevador vazio e pressionei o numero do meu andar. Jaejoong entrou logo em seguida. Estávamos próximos do décimo segundo andar quando aconteceu. O elevador todo tremeu, a luz foi embora sendo substituída pela luz de apoio. Estávamos presos!

“Ótimo!”, eu disse em português. Claro, estava presa em um elevador, fechado e assustador, com um cara que me odiava! Eu odiava elevadores tanto quanto odiava locais fechados, mas minha claustrofobia não faria sentido algum se fosse Junsu que estivesse ali comigo. Perdendo o ar, sentei-me no chão esperando aquela coisa funcionar novamente.

“Você não está acostumada com isso, não é mesmo?”, Hero disse gentilmente do outro lado, imitando meu gesto e também se sentando no chão.

“Não. No Brasil a terra não costuma tremer!”, e nem eu! Mas era por causa do lugar fechado. É lógico que ele notou, por isso falava comigo. Busquei o celular para tentar comunicar alguém, mas nenhum dos rapazes atendia. Comecei a entrar em pânico. Minhas doses de adrenalina deviam estar em picos! Coração acelerado, mãos suando, e logo eu baixei a cabeça e comecei a chorar. Mas que ridículo! Não consegui conter aquilo. Sentia-me como uma idiota, sem poder me controlar. Por incrível que pareça o cara do outro lado (que deve ter sentido pena de mim) se aproximou, meio sem saber o que fazer, e levantou meu rosto banhado em lagrimas.

“Ei, não chore! Não chore!”, e me estendeu um lenço, mas aquilo não passava. Tentando me animar ele buscou o celular e começou a me mostrar fotos engraçadas dele e dos outros integrantes do grupo. Sem perceber, com o passar do tempo comecei a rir enquanto ele corria as imagens e explicava a historia por detrás delas.

Muitas fotos depois, quando tudo acabou eu já estava mais calma.

“Obrigada”, eu disse enxugando as ultimas lagrimas, “você é bastante legal!”

“De nada”, ele respondeu sentado perto demais. Nunca reparei como seus olhos eram bonitos antes daquela tarde. Tinham um formato diferente, mas pareciam com os olhos de um menino que se machucou. Carregavam um pouco de dor, lá no fundo.

“Pensei que você me odiasse!”, EU DISSE ISSO?! Aff...

“Não!”, Jaejoong respondeu depois de um tempo “estava com alguns problemas, desculpe-me por aquilo”, seu rosto estava ruborizado quando se voltou ao chão.

“Entendo... Vocês não têm muita oportunidade para se divertirem por aqui, isso deve ser triste. Quero dizer, é triste viver cercado de pessoas em locais bonitos como esta cidade sem poder dizer a elas que a única coisa que você realmente queria era passear um pouco. Distrair...”

Ele me olhou com uma ponta de espanto, mas eu senti que era isto que se passava em seu coração. Seu celular tocou nesta hora. Depois de atender passou-o a mim, pois Junsu queria falar comigo. Puxa! Eu estava no céu! Levantei-me rapidamente e comecei a conversar com Xiah de forma animada. Disse a ele que estava presa no elevador com a voz cheia de mel. Um minuto após voltamos a subir, parecia um milagre. Desliguei o aparelho e o entreguei a seu dono assim que a porta se abriu. Não sei por que vi uma gota de decepção em seu rosto. Agradeci. Antes de entrar em meu quarto, porém, chamei por seu nome:

“Jae!”, EU O CHAMEI DE JAE?! O QUE DEU EM MIM?! Ele me olhou “obrigada por ter me levado ao meu quarto noite anterior, e por isso agora. Notei que o julguei de forma errada!”

“Por nada”.

No fim da tarde, porém, foi diferente. Estávamos eu, Junsu, Yochun, Changmin e Yunho sentados na pequena ante-sala do andar conversando alegremente sobre o Brasil quando Jae (estava me acostumando a chamá-lo assim) chegou correndo.

“Pessoal, tenho novidades! Como não temos nada a fazer esta noite convenci o empresário a nos deixar sair para nos divertirmos com nossa visitante! Vamos a um parque de diversões!”

Todos comemoraram, mas eu não consegui me conter de felicidade. Eu ia conhecer um pouco de Tóquio! Levantei-me explodindo de alegria e, num ato bem brasileiro, corri para abraçar Jaejoong. Os quatro olharam para mim em espanto e Hero em constrangimento. Droga! Eu também estava constrangida! Soltei-o e fui ao meu quarto correndo com a desculpa de me arrumar. Ele sorriu para mim.

Aquilo foi excepcional. Os DBSKs eram realmente divertidos! Eu ria com as brincadeiras de Junsu e Yochun, com as tiradas sarcásticas de Changmin, com as besteiras ditas por Yunho e Jae. Quase me senti em casa. Quanto a este ultimo, estar sempre ao lado dele começou a parecer muito natural. Roda gigante (a maior que já andei na vida!), carrossel, sempre juntos, parecíamos crianças brincando...

O mais interessante vem agora: estávamos todos em frente à roda gigante decidindo o que fazer com os minutos que nos restavam quando um grupo de fãs doidas nos notou. Tentamos disfarçar, mas foi inútil. Começamos a correr todos juntos quando, por ordem de U-Know, separamo-nos. Ele disse que seria mais difícil de nos pegarem. Junsu e Changmin foram para um lado, Yunho e Micky para o outro, Jae e eu para outro. Parecia impossível fugirmos daquelas Cassiopea descontroladas. Elas gritavam e corriam atrás de nós com câmeras fotográficas como se estivessem nos caçando. Entramos em uma parte do parque que lembrava uma espécie de feira, com barraquinhas para brincadeiras e vendendo coisas. Paramos em frente a uma que vendia umas fantasias, chapéus engraçados, perucas, óculos coloridos... Hero colocou uma peruca com cachinhos e franja rosa vibrante e uns óculos de estrela verde ridículo. Eu coloquei um chapéu mexicano com uns óculos que tinha um nariz postiço enorme. Pensei que não fosse funcionar, mas funcionou! Elas passaram por nós correndo. Com a oportunidade deixamos as fantasias lá e partimos discretamente para o lado contrario. Até chegarmos a um local onde não dava para esconder. Era aberto e iluminado. Se elas nos achassem seria um inferno! Paramos.

“E agora?”, perguntei cansada. Ainda bem que não estava usando saltos e sim tênis e meias.

“Por aqui!”, ele disse depois de pensar um pouco, puxando-me pelo braço para um beco apertado e escuro, pois já era possível ouvir os gritos se aproximando.

Olhamos para o local onde estávamos esperando o grupo de fãs passarem. Não demorou muito para acontecer e, por sorte não nos notaram. Eu usava uma blusa regata branca apertada, bermuda jeans escura mais folgada até os joelhos. Jae usava blusa de frio preta, calça jeans e tênis, jovialmente elegante. O beco era apertado, mas não o suficiente para nos tocarmos. De repente começou a chover. Ambos olhamos para cima e rimos descontraidamente. Só eu molharia, pois ele estava embaixo de uma marquise. Jaejoong puxou meu corpo para perto do seu para evitar que isto acontecesse. Não adiantou muita coisa, mas impediu que eu sentisse frio. Encolhi-me em seu peito, ouvi seu coração e sua respiração acelerada. Olhei para seu rosto por um instante, nos encaramos e ele sorriu um sorriso lindo. Eu estava hipnotizada. Nesta hora Yunho apareceu e nos chamou. Iríamos para a van antes que tudo se repetisse. Fomos correndo, mas eu já estava totalmente encharcada.

Já no carro joguei meu cabelo para frente (que é longo, quase na cintura) a fim de encobrir minha transparência iminente embora os rapazes tentassem não olhar. Jae, mais uma vez, tirou sua blusa e entregou a mim. Dormi com ela, sentindo seu perfume. Sonhei com ele naquela noite. Foi a primeira em que consegui dormir tranquilamente.

Acordei cedo e me arrumei. Estava animada e nem sabia por quê. Não havia saído do quarto ainda quando Xiah e Yochun o invadiram, cheios de brincadeiras, e se jogaram sobre a cama.

“Ei! O que é isso?!”

“Arrume-se!”, disse Junsu com seu sorriso fofo.

“Por quê?”

“Vamos passear pela cidade! Aonde você quer ir?”, completou Micky.

“Serio?”, eu estava animada, “Hum... Torre de Tóquio!”

Eles saíram correndo da mesma forma que entraram. Não demorou muito e estávamos na van, em direção ao centro da cidade.

O lugar era lindo e eu estava feliz. Tirei tantas fotografias que nem conseguia contar. Mas o principal era que eu estava ali, perto daqueles garotos adoráveis que já sentia como grandes amigos. Com Jae não foi diferente. Uma sensação boa passava por mim quando estava próxima a ele e eu imaginava que era por que tinha conseguido desfazer aquela imagem ruim inicial. Fomos a um templo depois dali. Os rapazes disseram que eu poderia escrever um pedido e colocar em um lugar ali presente, que o meu desejo se realizaria. Eu o fiz. Entretanto, um pouco antes de sair, estávamos todos junto à multidão de turistas, quando alguém tropeçou e nos empurrou. Muitos caíram, inclusive eu, mas não me machuquei. Jaejoong, por sua vez, bateu as mãos com força nas pedras do chão e se feriu nas palmas. Nós dois nos sentamos no meio fio, Changmin do lado direito de Hero, enquanto U-Know, Xiah e Micky olhavam por cima.

“Nossa! Sangra muito!”, Junsu afirmou e todos concordaram.

“Está doendo!”, disse Jae fazendo caretas.

“Deixe-me ver”, eu peguei suas mãos, a esquerda estava mais escoriada, “Não é nada! É só superficial!”

“E como você sabe?”, perguntou o líder.

“Estudo enfermagem!”

“Oh!”, foi o coro.

“Meninos, será que vocês poderiam comprar alguma gaze, algodão, e soro para eu limpar isto?”

Yunho, Yochun e Junsu foram correndo enquanto Max nos analisava e eu retirava os grãos de areia das mãos de Hero. Eles não demoraram muito. Eu fazia os curativos quando falei baixinho.

“Você tem mãos bonitas!”

“Obrigado!”, ele respondeu. Droga! Não era para ter escutado!

Jae olhava para mim de uma forma diferente. Eu olhei para ele e sorri de volta. Quando terminei sugeri que voltássemos ao hotel e assim foi. Já era tarde e conversávamos alegremente. Eu estava realmente feliz, mas não feliz como no dia em que cheguei. Era diferente... O mundo estava diferente embora eu não soubesse por quê. Todos foram aos seus quartos, porém algo apertava meu peito. Talvez fosse a proximidade de minha partida, em dois dias. Deus sabia que eu ficaria ali o tempo todo, mesmo com a rotina estressante, mesmo com tudo, pois a presença daqueles garotos era apaixonante. Desci até a recepção do hotel e Junsu e Micky estavam lá. Sentei-me junto a eles.

“Você parece triste. O que foi?”, Yochun perguntou.

“Nada, estou bem! É que está próximo o dia de voltar para casa, só estou um pouco apreensiva”

“Não fique assim”, Xiah concluiu, “Vamos manter contato e nos veremos um dia desses!”

“Ah! Eu quase me esqueci...”, abracei Micky e depois Junsu “Obrigada pelo dia de hoje. Eu nunca me diverti tanto!”. Junsu me deu um beijo no rosto. Não sei como me senti naquele momento, mas não era como eu esperava ter me sentido. Meu coração não disparou, eu não fui às nuvens. Eu que imaginei tanto aquela ocasião me senti exatamente igual à antes. O que estava acontecendo comigo?

“Não nos agradeça. Agradeça a Jaejoong, foi ele quem providenciou tudo!”, Yochun completou.

Jaejoong Kim... Por que aquele nome me soava diferente? Permaneci ali mais um tempo, mas pensativa. Depois voltei a meu quarto.

Comecei a arrumar minha mala devagar, guardando cada coisa com uma lembrança diferente. Estava quase acabando quando vi a blusa de frio que Jae me emprestara dia anterior. Aproximei-a de meu rosto e senti novamente seu perfume. Não era cheiro de colônia comum. Carregava alguma coisa da pele dele, em um aroma único. Recordei-me de tudo o que tinha vivido ali, quando dormi na van, o dia do elevador, do parque de diversões, na torre de Tóquio e notei que, nos momentos mais felizes, ele estava justamente a meu lado, rindo comigo. Olhei para a câmera que estava ligada sobre a cama e a ultima foto era uma imagem sua, no templo, com os olhos fechados e rosto voltado ao sol da tarde, num sorriso de contentamento. Imagem semelhante a um anjo. Neste momento meu coração disparou, minha boca ficou seca e a única coisa que conseguia lembrar era sua voz. Estava tudo muito claro...

Saí do quarto com a camisa nas mãos e encontrei Yunho, Max e Junsu sentados no sofá da ante-sala. Juntei-me a eles pensativa.

“Ainda preocupada com sua partida?”, disse Junsu.

“Não...”

“Então por que a expressão fechada?”, falou o líder.

“Desculpe-me desabafar para vocês... Quando cheguei aqui eu tinha certeza de uma coisa. Eu sabia o que queria, o que não queria, mas agora... Estou confusa!”

Eles se entreolharam. Changmin disparou.

“Está falando de Jaejoong!”

Eu o fitei. Ele sabia do que se tratava. Yunho interrompeu meu pensamento.

“Eu não aconselharia isto a você em uma situação normal. Você chegou aqui como uma fã, mas se tornou uma amiga, é quase da família! E eu acho que foi diferente com Jaejoong. Você vai embora depois de amanhã e, acredite, ele está diferente por este motivo. Se você também está, significa que gosta dele de verdade, apesar de ter pensado que gostava de Junsu no inicio. Todos notamos isto! Acho que ainda há tempo de fazer a coisa certa”.

Eu o abracei como quem abraça a um irmão. Uma música doce começou a ser ouvida naquele instante. Era tocada no piano e vinha do andar superior. Insa...

“Você sabe quem toca, não é?”, Max tocou meu ombro.

Eu afirmei com a cabeça e levantei, indo em direção ao som. Corri escada acima, pois o elevador demorava. Ao chegar, abri a porta de uma sala enorme e branca, com um piano lindo ao centro, onde Jae se encontrava. Sentei-me a seu lado no banco e ele me deu espaço para arriscar algumas notas em um dueto com meu conhecimento limitado sobre o instrumento.

“Está próximo o dia de sua partida”, disse ao terminar, sem olhar para mim, fixo nas teclas do piano.

“Sim... Guardarei recordações importantes daqui”

“Como o beijo de Junsu?”, falou baixo.

Como?! Ele viu o beijo?! Quando?!

“Por que diz isso?”, voltei meus olhos a ele

“Por que a surpresa na pergunta? Você gosta de Junsu. Todos sabemos desde o principio. Não há motivos para esconder, você nem consegue!”, era estranho, mas pela primeira vez sua voz carregava uma dose de sarcasmo, ainda que oculto.

“É isso que você pensa?”, franzi o cenho enquanto o encarava. Como ele insistiu em não olhar para mim, o forcei a fazê-lo puxando seu rosto com uma das mãos “Olhe em meus olhos! É isso que você pensa?”

Ficamos em silêncio e eu aproximei meu rosto para beijá-lo, mas ele me evitou.

“Eu gosto de você, embora seja o único que não veja isto! Não escolhi sentir o que sinto, mas não posso evitar...”, levantei-me, “quer saber?! Talvez as conclusões que eu tinha a seu respeito não estivessem totalmente erradas...”, atirei-lhe a camisa em minhas mãos, “obrigada pela camisa”.

Dei as costas e saí. Antes de voltar ao quarto, porém, encostei-me do outro lado da porta, contendo as primeiras lágrimas.

Jurei que não choraria. Eu não queria e nem podia, já que se tratava apenas de ilusão. Ilusão imaginar que aquele ser humano tão doce pudesse ter visto algo diferente no fundo dos meus olhos. Algo que talvez nem eu conseguisse enxergar... Era ilusão pensar que uma simples mortal como eu pudesse ter a graça de chegar ao solo dos deuses. Ele era ídolo, famoso e carismático e eu era ninguém...

Com minha mala pré-pronta e passagem com o dia marcado nas mãos, fui ao banho. Estava decidida a adiantar meu vôo para o dia seguinte, já não fazia mais sentido continuar ali, não com aquela situação toda. Ao terminar, roupão encobrindo todo o corpo, toalha na cabeça, saí do banheiro na intenção de vestir-me para dormir. Bateram em minha porta neste instante.

“Entre”, eu disse. Não estava descomposta mesmo...

Eram Yochun, Yunho e Changmin. O líder fechou a porta atrás de si e encostou-se nela. Max apoiou-se em uma mesa de enfeite no canto da parede e Micky sentou-se em minha cama.

“E então?”, Yochun parecia o mais curioso para saber o desfecho de minha conversa com Hero.

Sentei-me a seu lado na cama.

“Remarquei minha passagem. Parto amanhã no início da tarde”

“Então, de nada adiantou o que dissemos a você?”, Changmin quis saber

“Não. Creio que se enganaram. Jaejoong me vê assim como vocês. Ou nem isso...”

“Difícil acreditar!”, completou Yunho, “mas você não precisa ir logo por causa disso!”

“Desculpe-me, mas não conseguiria ficar tendo que olhar para Jae e conviver com o erro que cometi. Não fiquem tristes está bem?!”, eu tentava sorrir apesar da minha vergonha e frustração, “Eu só vou voltar para casa, vocês vão se livrar de mim!”

Todos rimos por causa do meu comentário.

“É sério! Eu fiquei muito feliz enquanto estive aqui, não podia ficar para sempre mesmo! Vou voltar para locais mais quentes e quando quiserem me visitar... O Brasil estará sempre de braços abertos!”

“Se você pensa ser a melhor decisão não podemos te impedir”, disse Changmin

“Obrigada”, abracei e dei um beijo no rosto de cada um como uma irmã carinhosa enquanto os três saiam do meu quarto.

Cinco minutos depois, depois de cumprida minha rotina com hidratantes corporais, notei que Yochun esquecera a chave de seu quarto sobre minha cama. Ele não demoraria muito para regressar e buscá-la então a coloquei sobre a mesa. Antes mesmo de terminar o gesto bateram em minha porta novamente. Imaginando ser Micky, parti para abri-la dizendo

“Esquecido! Eu sabia que não demoraria a voltar Chunnie...”

Mas não era Yochun do outro lado da porta. Estática e surpresa, deparei-me com Jaejoong com a cabeça baixa, apoiando o braço direito no batente. Seus olhos buscaram os meus como fera faminta. Seu olhar se manteve em mim por um segundo quase infinito. Não precisamos falar nada. Não tivemos tempo para dizer nada. Jae puxou meu corpo para junto do seu e me empurrou para dentro, contra a parede, em um beijo ardente...

Eu vivi ali o momento mais mágico de minha curta existência. Entreguei-me a seus braços como suicida que se entrega a morte fácil. Minhas mãos descobriram cada músculo em seu peito enquanto os dedos dele desenhavam cada curva presente em mim. Toalhas e roupas espalhadas pelo chão. Nossos cabelos se confundiam em meus travesseiros, nosso suor se misturava em perfume indistinguível em meus lençóis. Éramos amantes nos perdendo em sussurros pela madrugada. Jae sorveu de minha boca cada fração de sentimento. Eu sorvi de seu corpo cada gota de prazer. Uma noite de amor. Dois corpos em uma alma única. Nada tiraria de mim aquele momento de ser inteiramente sua mulher...

Quando acabamos deitei-me sobre seu corpo exausto. Parada ali, ouvindo seu coração, ele não parecia mais a figura inatingível de horas atrás. Parecia simplesmente humano. Descera de seu trono de deus do leste para tornar-se mortal, assim como eu. Olhei para suas feições delicadas e iluminadas enquanto seu indicador percorria o trajeto de minha coluna. Senti o aroma de pele de seu pescoço, um aroma doce e delicioso. Beijei-o na linha do queixo enquanto um sorriso se estampava em seus lábios fartos. Ele prendeu minha cabeça próxima de seu rosto e sussurrou em meu ouvido:

“Meorikkeutbuteo, balkkeutkkaji neomu wanbyeokhaeseo and I LOVE YOU nae maemeul modu gajyeogatjyo...”

Depois fixou novamente aqueles olhos profundos nos meus. Eu sabia que entregaria minha vida a ele naquele momento. Entretanto, nada consegui dizer. Não consegui agir. Apenas permaneci deitada sobre seu peito, pois aqueles batimentos o traziam para perto de mim.

Assim que Jaejoong adormeceu, levantei-me, e, como conto de fadas que chega ao final, vesti-me e peguei minhas malas, saindo sorrateiramente para não incomodá-lo. Antes de sair ainda o olhei uma ultima vez para que aquela imagem jamais saísse de meu pensamento. O amor que já sentia em mim era grande o suficiente para me colocar em meu lugar e, embora parecesse insano, eu tinha consciência de que aquele anjo precisava de uma figura melhor do que esta simples pecadora. O melhor para ele não era estar a meu lado e meu egoísmo era menor que meu sentimento. Em algum lugar, no Japão ou na Coréia, existiria alguma mulher que o faria feliz como ele merecia. Deixei o hotel e entrei no taxi já com os olhos inundados de lágrimas tentando me convencer que era o correto a fazer. Não parecia tão simples porque pôsteres, letreiros, imagens dele me perseguiram por todo o trajeto. Ao parar em um sinal de transito uma foto enorme, já antiga, pedia em um prédio comercial:

Stay with me tonight?

Meu coração estava lacerado e dividido, pois parte de mim queria voltar e esquecer tudo, mas a metade mais forte me fez prosseguir até o fim. Consegui uma passagem no primeiro vôo para o Brasil ainda de madrugada. Agora, aqui estou eu, há quilômetros de distância sobre o oceano, compartilhando com estas simples linhas uma parte do meu sofrimento. Acordei de meu sonho. Sei bem que talvez jamais volte a vê-lo. Com ele, as únicas coisas que restaram de mim foram lembranças e um lenço, onde, em uma mensagem escrita com batom, escrevi a única palavra que aprendi em coreano...

Saranghae.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!